Gisbranco: Flor de Abril

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Bianca Gismonti e Claudia Castelo Branco. Bianca é filha de Egberto Gismonti e isso por si só deveria ser uma apresentação. Para ela não é. mesmo com todo o amor e influência paterna ela juntou-se a Claudia e seguiu caminho. Dois pianos. Muitas ideias. Música. O Duo assume sem medo um repertório infinito: Heitor Villa-Lobos, Baden Powell/Vinícius de Moraes, Edu Lobo/Capinam, Hermeto Pascoal e Chico César. Flor de Abril não se resume a leitura especial desses compositores, possui obras próprias, e personalidade mais que própria. Talvez muito mais conhecidas no exterior que no Brasil, Bianca e Claudia têm muitos amigos que participam de suas obras: Carlos Malta, Robertinho Silva, Chico César, já tocaram com Ná Ozzetti, Marcos Suzano e músicos cubanos. Os teclados da dupla são incansáveis na busca – e no encontro – de texturas originais que marcam cada nota. As vocais que acompanham cada faixa do disco segue o mesmo caminho. A linguagem e estética ficam sempre em primeiro plano e classificar qual o gênero é algo indefinido para quem apenas coloca a criatividade à frente de qualquer rótulo (jazz à brasileira?). Ambas fazem música do mundo, e a sua música. O grande valor do trabalho é esse: identidade e autenticidade.

Hoje, 24 de junho está fechando 80 anos da passagem de Carlos Gardel entre nós. Desaparecido em acidente aéreo na cidade de Medellín, na Colômbia, Gardel permanece mais intenso e mais vivo com sua arte e seu jeito único de cantar tango. Neste espaço, sempre há Gardel. E sempre haverá tango. É e-terno.

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Joan Baez & Chico César

Finais de ano são repletos de listas: presentes, os melhores da música, do cinema, do teatro, e sei lá mais do quê, os piores também, mais as listas de desejos, as resoluções para a entrada no novo período de 365 dias e por aí vai. Não me alio a nenhuma dessas vertentes ou pautas. Cada um sabe o que realmente gostou ou não, o que deseja ou pode fazer, o que deixou de fazer, enfim, cada um em tese deve saber um pouco de cada uma dessas coisas. 2014 foi um ano complicado em demasia para mim no plano pessoal, quem acompanha o Chronos sabe o motivo, e assim fui me diluindo ao longos dos dias. No entanto, ainda que difícil, li, escutei, dei uma escapada antes de o pai partir a Montevidéo, assisti a alguns filmes, fotografei algumas cenas e também me mantive recluso em mim mesmo muitas vezes.

Prefiro, então, destacar dois shows de música. Um que não assisti e outro que assisti. Primeiro, pela ordem, Joan Baez. Oportunidade quem sabe única, as datas conspiraram para que “nosso encontro” não acontecesse. Ou estava ela no Uruguai e eu aqui, ou eu em Montevidéo e ala em Porto Alegre. Desencontros. Talvez o que mais aconteça em nossas vidas. Faz parte. Perdi, pelo que li e ouvi de amigos e jornalistas, um show e tanto. Cantora e compositora folk que representou (ainda representa) aqueles anos incríveis que foram os anos sessenta da contracultura, da alternativa, da transformação das consciências, da Guerra Fria, da Guerra do Vietnã, de Martin Luther King na luta pela igualdade, da busca de novos valores se opondo ao conservadorismo de então, do comportamento, de novos canais de expressão. Joan é mais que um símbolo. Voz atuante na defesa dos valores humanos, se faz presente até os dias de hoje com extrema coerência de vida. Esse período teve como ápice, pelo menos na música e no comportamento,Joan_Baez_Bob_Dylan Joan e Bob Dylan.

por exemplo, no Festival de Woodstock em 1969. E é de lá dos anos sessenta que nasce a estrela de Bob Dylan, dando sentido à folk music e inovando e revolucionando a palavra. Momentos mágicos daquela década, que passaram por aqui e me escaparam.

E então, o Projeto Unimúsica da UFRGS trouxe a capital gaúcha intérpretes do Brasil a cantarem compositores do Sul. Coube a Chico César, paraibano, “revirar” a obra de Vitor Ramil. Se Vitor já possui um hermetismo fantástico em sua forma e estética, capaz de transgredir com talento e visão ritmos como a milonga, Chico não se fez de rogado e partiu para os ritmos do Norte e Nordeste brasileiros. As composições do pelotense ganham tanta cor e dinâmica que o show de Chico se tornou inesquecível, e estonteante por tamanha beleza e força. Esse, assisti. Vê-lo é mais que um presente.

Cesar

Para não deixar passar, um cd maravilhoso: Muna, da tcheca Markéta Inglová. E não esqueçam Leonard Cohen, Hamilton de Holanda, André Mehmari, e  outros mais que iremos indicando a vocês. As duas primeiras canções, com Joan, as últimas, com Chico.

www.youtube.com/watch?v=vOipm4DL04Q

 www.youtube.com/watch?v=F6g-7L2kPN0

www.youtube.com/watch?v=UlcdPBgOxm4

www.youtube.com/watch?v=Nab_nWkYe9I

Fotos: Joan Baez, Internet, e Chico César do site http://www.trasdiversão.blogspot.com

Chico César: o sol na noite de Porto Alegre

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Os 80 anos de UFRGS são rejuvenescedores. Alentam os mais diversos públicos para além da geografia dos campus universitários. E ganha corpo denso no extraordinário UNIMÚSICA – Série Compositores: A cidade e a música. Quinta-feira foi um dia completo. Começa com o compositor escolhido: Vitor Ramil. E continua com o convidado: Chico César. À primeira vista pode parecer que as pontas do Sul e a do Nordeste não vão se encontrar, afinal o primeiro é a essência da estética do frio e o segundo o da ética do fogo. O encontro da lareira com a praia, da névoa com o sol, da serra e do pampa com o mar mostrou muito mais que pontos comuns. Na diversidade cultural a grande certeza: o Sul é tão brasileiro quanto o Nordeste e o Nordeste tão brasileiro quanto o Sul.

O paraibano de Catolé do Rocha transformou ou melhor revolucionou a obra do gaúcho de Satolep. Para quem imaginava que havia muito hermetismo nas canções de Vitor, Chico César foi logo apresentando o quanto de sol existe nelas, o quanto de vida de dentro para fora estão contidas em suas letras e harmonias. Cada música do repertório apresentado incendiou o Salão de Atos lotado. O calor do dia se estendeu para o palco e do palco à plateia. Comunhão perfeita. “Ramilonga”, “Estrela, Estrela”, “Grama Verde”, “Foi no mês que vem” e a sem dúvida marcante e definitivamente universal “Joquim” assumiram proporções que habitarão a cada um dos presentes, sem exagero algum, pelo infinito adentro.

Acompanhado de um trio, também de instrumentistas paraibanos, formado por Xisto Medeiros, baixo, Helinho Medeiros, piano e sanfona e Gledson Meira, bateria, o violão de César eletrificou o ambiente. O que poderia parecer um tradicional grupo de jazz se revelou o melhor das tessituras harmônicas do Nordeste e seus ritmos contagiantes.

Chico César fez ensolarar a noite de ontem em Porto Alegre.

www.youtube.com/watch?v=l4-milqHymg

www.youtube.com/watch?v=Ot8UuUC5ExQ

Foto: Washington Possato/Divulgação

Os vídeos disponibilizados no Youtube levam a assinatura de Silvia A.