Mãe Carinhosa: Cesária Évora

cesaria evora

As pequenas ilhas de Cabo Verde nunca mais foram as mesmas. Nem quando Cesária ao correr o mundo levava-as junto, nem quando se despediu da vida entre nós em 2011. A imagem e o jeito simples e humano mais que um estereótipo da grande mídia, eram realmente o jeito de ser, um jeito Cesária de viver a vida. De expressar a vida com seu canto vigoroso, trazendo à luz dos dias e das noites a costa da África Ocidental, costeando o Senegal. Essa geografia formou Cesária. Entre mornas, coladeiras, ritmos ibéricos foi criando o seu canto. Por vezes o frenético ritmo ou a melancolia das ilhas em sua voz. Descoberta nos anos 80 cantando em hotel de Lisboa por José da Silva, a deusa dos pés descalços ganhou o mundo. Seu primeiro disco já revelava sua densa e intensa força interior: La Diva aux pieds nus. Foi na França que o seu produtor a fez ser avalanche no seu melhor sentido. E foram chegando outros trabalhos com o mesmo sentimento. E com a mesma gênese: o novo, o jeito simples, o descobrir talentos desconhecidos, abrir espaços, reforçar o existente. Agora, quando chega às lojas, aqui no Brasil, mais esse álbum – Mae Carinhosa – logo se percebe que é um repertório Cesária Évora. Canções gravadas com o mesmo coração, com a mesma alma em anos anteriores para os seus discos e que foram ficando de fora, agora marcaram encontro como se fosse um novo disco. Um disco que parece ter saído do estúdio junto com a cantora. Quase todas então inéditas, nos deixam com a tristeza latejando nossos olhos e ao mesmo tempo felizes em ouvi-la mais uma vez como se aqui estivesse, como sempre está. Hoje, dia tão especial, dia sensível o player está com Mãe Carinhosa desde cedo celebrando a vida e o amor.

Mayra Andrade: Lovely Difficult

Mayra

Encontrei pela primeira vez Mayra Andrade na Livraria Saraiva, setor de discos. Perdida em meio a tantos cds misturados estava o Lovely Difficult com uma pequena tarja indicando que a cantora dos disco é do cabo Verde, terra de Cesária Évora. Logo minha atenção ficou nele, e comprei o cd. Não o escutei nos primeiros dias em sua nova morada, já em harmonia com outros ou da Cesária, de alguns que já passaram por aqui. Isso foi no ano passado, ano pesado e triste para mim. Talvez por isso, fui deixando o tempo passar, escorrer entre os calendários de casa e um dia qualquer acho que de outubro ou pouco antes, quem sabe setembro, o player acolheu Mayra. A jovem cubana cuja história de vida vai ganhando experiência e bagagem ao viver em lugares como o Senegal, Angola, Alemanha, França, onde mora (Paris), e, claro, Cabo Verde. Uma gama imensa de vida e culturas se mesclando, formando uma identidade nova e ao mesmo tempo tão raiz tamanha a profundidade do seu canto. O início nos bares que recebem cantores de world music na eterna noite parisiense, o Satellite Café, impulsionou uma carreira que foi abraçando prêmios desde cedo. E com canções brasileiras, embora a medalha de ouro conquistada no Canadá nos jogos de Francofonia tenha sido típica cabo-verdiana. E começa a brilhar nos palcos. Os discos foram chegando ao natural: Navega (2006), Stória, Stória (2007) e Studio 105 (2010) solidificam seu jeito Mayra de cantar. Um quê na raiz, outros quês no moderno. Dessa fusão, a aproximação com brasileiros como Chico Buarque, Lenine, Hamilton de Holanda, Dominguinhos, Yamandu Costa (o segundo youtube lá embaixo), a própria Cesária, Mariza e João Pedro Ruela. esteve com o guitarrista cabo-verdiano, grande nome da música das ilhas, Hernani Almeida em shows em 2006. Lovely é a maturidade. É o passo à frente. É uma presença definitiva que a música pode ser renovada e preservar a identidade. Que a sensibilidade ainda comanda os acordes e as harmonias e a voz outro instrumento sacro nessas tessituras. Mayra Andrade. Para ficar sempre presente.



Foto capturada no site http://www.kalamu.com