Um dia de cada vez

Um ano atrás, 26 de abril de 2014, Mário Rossano, meu pai, cruzou em definitivo a linha de chegada de sua vida entre nós. Desde então, como há onze anos, quando a minha mãe partiu, os dias têm sido contados um a um. Vividos um a um, um de cada vez. Com a mesma intensidade com que ensinaram os dois aos meus irmãos e a mim que deveríamos viver. Tenho buscado na Literatura, na palavra os esconderijos que possam aliviar a saudade, a dor, a ausência, as vozes que já não ouço mais. Tenho buscado nas ruas das cidades, nos movimentos das pessoas, nos cafés e nas músicas o encanto de cada um desses dias que me cabem ainda viver. E assim, a cada dia, um de cada vez, a vida vai se transformando, se tornando muitas vezes áspera, muitas outras doce, como eles dois gostariam que fossem esses dias todos. Gostavam de tango. De Carlos Gardel. Das coisas simples. Do correr das horas de cada um dos dias que viviam entre nós. A mãe se despediu mais cedo. O pai ficou mais tempo por aqui. Abraçou os dias, esses dias todos, como estivesse abraçando a nós. E assim seguiu sua corrida. Era imbatível quando tomada a ponta. Mas também sabia como ninguém correr como fundista. Venceu porque tentou. Ensinou que o verdadeiro vencedor nem sempre é o que cruza a linha de chegada em primeiro. É aquele que tenta. Que luta com toda a sua força para chegar. O pai chegou. Soube conduzir seu cavalo até o disco de sentença com a gana que trouxe da sua Rio Grande desde menino em meio aos grandes de um época em que os Moinhos de Vento acolhia os maiores daqueles anos quarenta. A palavra, que agora corre pela tela impulsionada pelas teclas, é tão pequena e pouca, tão escassa que tudo que posso dizer e que me habita, é que a lembrança é o meu presente nesses dias. Um dia de cada vez, pai, e sempre juntos.

Rio Volga 1

A partir de todos os dias 26 de cada mês estará esta foto acima com o Das cocheiras do Stud Mário Rossano. Uma história, uma passagem de sua vida, suas vitórias, suas derrotas, seus ensinamentos, seus ídolos, o seu protagonismo nos hipódromos, a nossa história. Meus irmãos e eu queremos que a memória do pai seja semeada a cada dia, um dia de cada vez. Sempre, como exemplo e como estímulo para os dias que ainda estão por chegar.

O pai veio para cá em 1947, aos quinze anos de idade, como aprendiz e cavalariço na cocheiras do antigo e saudoso hipódromo dos Moinhos de Vento. Veio de uma praça tradicional do turfe, Rio Grande e sua Vila São Miguel, hoje apenas lembrança. Apenas um pavilhão tombado resiste ao tempo e à memória. É daquele ano de 47 que estão reproduzidas a capa do catálogo daquele calendário de corridas do Jockey Club do Rio Grande do Sul, com a página de sua primeira vitória conquistada em Porto Alegre. Com quinze anos derrotou por diferença de meia cabeça os maiores jóqueis de então. hoje, primeiro ano de sua partida, fica aqui o registro deste momento que para nós é a nossa história de vida. E saudade.

Pai Prado O                     Joanita 1   Pai Prado 3

Reprodução: Acervo Mário Rozano.

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Um tango para Mario Rossano

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O dia amanheceu mais cinza que ontem, quando a chuva fez visita inesperada e não deixou recado. Hoje, é a tristeza que vem sem pedir licença, tristeza que instalou desde abril passado e ainda é cotidiana. Nessas idas e vindas dela, sempre insone, vamos construindo nossa história com as ausências doendo. Os olhos avermelham, se tornam pequenos e nublam o próximo passo. E esse cinza insiste em não deixar que pelo menos um raio de sol penetre nossas janelas.

Hoje o pai estaria completando 83 anos. Hoje. E os ventos que chegam com cada folha da lembrança vão formando um livro, em que as páginas não precisam ser revisadas, para ser impresso. O cheiro do sal grosso, da carne, do vinho tinto, do fogo nascendo entre as pedras de carvão e o tango, cada um se junta às histórias que chegam como um potro pronto para a doma. E todos nós em sua volta atentos, repletos de perguntas que jamais cansou de responder. Sempre foi o mesmo, nunca trocou as histórias. Confessava o quanto adorava o tango e Carlos Gardel. Algumas vezes levei tangos “modernos”, dizia, e ouvia uma única vez para me agradar. “Tango é Gardel”, repetia. “Gardel, e um tinto, a carne, a família, os cavalos, o Internacional, os amigos, para quê Mais?”, não cansava de afirmar. E eu não cansava de levar o tinto e os tangos (está certo, às vezes me vinha com um: “Pô, de novo esses modernos!”)

Gravei com ele um longo depoimento nos 80 anos de vida. Assou uma costela como nunca havia visto antes. Conversamos para além da entrevista. Eu, jornalista, ele, ex-jóquei, ex-treinador. Como foi complicado separar o filho do profissional e olhar o pai também como profissional. A matéria ficou demasiada longa e não foi aproveitada no seu livro, que meu irmão Mário editou. Não consegui fazer os cortes necessários. Cortar sua palavra seria cortar sua história. Não fiz. Publiquei com os erros  de transcrição e outros mais sem edição aqui no Chronosfer quando da partida do “Viejo”.

Estou assim, escrevendo sem rumo, as palavras, as lembranças, a ausência,  a saudade dele e da mãe conspiram para que eu possa apenas escrever com linhas tortas tudo o que sinto. E também sentem os meus irmãos. E tudo o que me vem são lágrimas que impedem meus olhos e mãos alcançarem a tela e o teclado do computador. Sei que a falta que faz é tanta que não cabe mais dentro de mim. Olho uma velha foto em que estamos todos juntos, pai, mãe, meus irmãos e eu. Nós, os cinco. Esse passado é o meu presente. Teus 83 anos, pai, é o ar que respiro nessa manhã cinza e triste e também feliz, porque tenho em mim a alegria de teres sido o meu pai. Ainda vamos nos encontrar, todos nós, os cinco, para a fotografia da capa do livro das nossas vidas.

Família Rossano

Nós, os cinco.

 

DSC01422 Torcendo pelo Inter.

DSC00984 As histórias. Abaixo, o tango e a música.

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www.youtube.com/watch?v=mMA8-fjAVeI

www.youtube.com/watch?v=4qVKYcn3OXc

Fotos: Chronosfer. A foto Nós, os cinco originalmente pertence ao acervo da Revista do Globo.