Carlos Badia: Zeros

carlos badia

Se alguém passar e perguntar se Carlos Badia é o mesmo do grupo de jazz Delicatessen a resposta é sim. O compositor, produtor e instrumentista faz algum tempo que trabalha suas canções. Ao deixar o Delicatessen, iniciou um mergulho no tempo e foi lapidando suas canções que forma descobertas na década de 90 e chegaram até estes anos 2000. Zeros, álbum duplo, pode ser visto como uma síntese destes anos ou um disco que percorre seus vários caminhos além do jazz. Um dos discos contempla sua criação instrumental, o outro transporta o ouvinte para o universo vocal. E a som de ambos condensa suas influências ao longo desse tempo todo: jazz, naturalmente, bossa nova, samba, zamba e ritmos caribenhos. Há nele, em Zeros, uma síntese da universalidade de Badia. As mesclas de gêneros, os países que nos circundam, os que estão lá adiante de repente se encontram em complexas harmonias criadas pelo compositor. Seus arranjos, elaborados em esmero e talento, carimba o trabalho solo, o primeiro, com extremo virtuosismo. Se quem gosta do Delicatessen, por certo haverá de gostar de Carlos Badia, mas não tente juntar os dois ao mesmo tempo. O disco de Badia tem vida própria, e abraça o ouvinte com toda a sua sensibilidade.

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Luciana Souza: The Book of Chet

Luciana Souza

Discos homenagens são sempre uma surpresa. Tanto pode ser agradável quanto pode ser o oposto. E nem se trata de superar o original. Não, absolutamente não. Até porque superar Milton Nascimento, por exemplo, é muito mais que um exercício, é muito mais que um esforço que beira ao sobrenatural. Milton é Milton assim como qualquer artista é o que é pelo que soube construir em sua vida. Isso significa que trabalhos voltados à homenagens são destituídos de originalidade ou são inválidos? Mais uma vez o “não, absolutamente não” entra em cena. A brasileira Luciana Souza, cantora de matriz jazzística com menos sabor picante e mais introspecção nas teias do trompetista e cantor Chet Baker, em The book of Chet, cuja história de vida é uma história e tanto. Rende muito mais que discos. Todavia, o talento de Baker é inegável assim como Luciana penetra nessas harmonias com intimidade. E é nela, nessa intimidade, que sua voz vai construindo um outro tipo de intimidade: a nossa. Ao não escolher tão somente os clássicos de Chet, a brasileira conquista um espaço mais amplo entre os apreciadores da música de Yale. Afinal, para quem esteve ao lado de Charlie Parker, Gerry Mulligan e o lendário Stan Getz, a história reserva lugar cativo. Seu jeito econômico e ao mesmo tempo repleto de improvisações criaram um amplo espectro de possiblidades melódicas, que soube explorar como ninguém. E se o nosso olhar for mais atento vamos encontrar pontos muito comuns a Bossa Nova. Seriam os nossos compositores recebido influência de Baker? Ou será que foi o contrário? Questão em aberto, isso por certo pouco importou para Luciana, que vive mais fora do Brasil que em terras brasileiras. E o jazz é sua companhia fiel. Gravou com nomes expressivos do gênero como Hermeto Pascoal, Romero Lubambo,Kenny Werner, John Patitucci e Herbie Hancock, além de flertes explícitos com o folk de Paul Simon e James Taylor. A paulista não se intimidou e ancorada pelo marido, o produtor Larry Klein, e com um trio formado pela guitarra de Larry Koonse, o baixo de David Piltch e a bateria de Jay Bellerose, mergulhou nas músicas escondidas do norte-americano. E o disco mostra uma intérprete segura, sensível e capaz de revelar toda a magnitude da obra de Chet Baker seja em canções mais reflexivas ou em canções descontraídas. Luciana Souza pode fazer do domingo um dia de música que tranquiliza as aflições do cotidiano. Aqui, logo abaixo, uma “pequena” coletânea com Luciana.

Andy Summers & Victor Biglione: Strings of Desire

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Ambos possuem trajetórias marcantes na música. Andy Summers, no Police. Victor Biglione, em vários trabalhos assinados com outros tantos instrumentistas. A reunião dos dois em Strings of Desire elimina a velha e já superada tese de que o oceano separa as margens. Bem ao contrário, Summers e Biglione juntaram o que de melhor fazem e fizeram para criarem um disco que transita pelo jazz e bossa nova, fugindo do elétrico e se fixando mais no acústico. E o diálogo entre os violões vai descortinando a universalidade com que tocam e materializam seus arranjos de forma a traduzirem seus acordes e harmonias em um idioma capaz de alcançarem um nível de harmonia de muita sensibilidade e sonoridade cristalina. Cada um com suas histórias de estrada que vão do pop ao próprio jazz, passa pelo latinismo de Victor, por trilhas de cinema, e por aí descobrem o seu caminho comum. O repertório de clássicos de Larry Coryell, Oliver Nelson, Dave Brubeck, João Gilberto, Dizzy Gillespie, Antônio Carlos Jobim e Egberto Gismonti ganham texturas que suas influências e identidades são capazes de transformarem em novas influências e identidades. A dupla ainda mais adiante fez outro disco – Splendid Brazil – com o mesmo DNA que concebeu o seu primeiro trabalho conjunto. E percebe-se o quanto há em comum o que aparentemente não haveria de ter entre um ex-Police e um latino-americano, argentino radicado no Brasil. E o que chamamos universalidade é uma recompensa para quem para e os escuta com alegria e prazer.

Pilar de Hoz: o Peru com um quê de brasilidade

Pilar

Pilar de Hoz é peruana que tem mesmo um quê de brasilidade e possui uma amplitude sonora para além de qualquer fronteira harmônica. Começa com seu primeiro álbum solo Canta Brasil. O repertório muito de Antônio Carlos Jobim, passando por Ivan Lins, Tim Maia, Jorge Bem, Edu Lobo, todos expoentes da música popular brasileira. Repertório esse que frequentava ao cantar com o Bossa 9 antes de gravar o disco. Gêneros distintos que se encontram com a bossa nova, e por isso, alcançando o jazz que encantou os norte-americanos entre o final dos anos cinquenta e início dos sessenta. A diversidade de Pilar é sentida a cada gravação. De locos y cuerdas é um projeto ousado e criativo. Alia sua voz com os violões de Roberto Menescal, de Luis Salinas, Lucho González, Óscar Cavero e a dupla Diego Salvador y Sergio Valdeos onde, mais uma vez, os estilos se encontram, os gêneros se confundem e a musicalidade flui ao natural. Não por acaso é convidada sempre em shows do argentino Salinas, da brasileira Joyce e da mexicana Carmina Cannavino, sem falar de Menescal e Wanda Sá, extraordinária cantora em todos os sentidos. Assim como penetra em tantas texturas musicais, marca encontro com a musicalidade africana. O resultado? Afroamerica um vigoroso trabalho rítmico e temático com a sonoridade eterna da África. Pilar de Hoz traduz todo essa gama de influências através de instrumentos básicos: o violão (guitarra acústica e o cajón peruano. Outro disco emblemático é o da capa lá em cima: Jazz com sabor peruano. Límpido, traz dez canções que se entrelaçam entre si, tornando-o um disco essencial e referência para o jazz peruano. Ouvi-la é entrar em um universo amplo e multifacetado de nuances de vários países sem deixar, em nenhum momento, de ser saborosamente peruano. Pilar de Hoz, um nome para ficar sempre presente.



Yamandu Costa: maturidade e talento desde sempre

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O desde sempre lá do título parece ser exagero. Não é. Yamandu Costa é único desde sempre. O violinista gaúcho, que hoje sopra trinta e cinco velas, tem em sua corrente sanguínea a música. Filho da cantora Clari Marcon e do multi-instrumentista Algacir Costa, o convívio com as harmonias e sequências musicais foi desenvolvido com a mesma naturalidade que hoje tem ao se apresentar em qualquer palco do mundo. Se aos sete anos seus primeiros acordes nasciam, com o argentino Lúcio Yanel, com quem mais tarde gravou um disco antológico, tornou sua técnica mais exuberante. E aí, nessa, vamos chamar de primeira fase, suas influências estavam enraizadas, e ainda permanecem, no folclore do sul brasileiro e nos países do Prata. Depois, foram chegando Radamés Gnatalli, Baden Powell, Tom Jobim e Raphael Rabello, como anunciadores de uma nova forma e estética de tocar e compor. Da soma ou multiplicação de tantas e felizes influências, dedilhar o violão para o tango, o chamamé, o jazz, a MPB, a bossa nova, o samba, o chorinho e o que mais possa chegar é parte da vida de Yamandu. Sua discografia é fiel a sua história. Basta seguir a lista abaixo, de 2014 a 2000 para descobrir o quanto do seu talento se mescla a diferentes músicos e instrumentistas do Brasil, sem nenhuma espécie de concessão que não seja o talento e a criatividade. E a diversidade de seus trabalhos revelam toda as suas faces de violinista.
2014 – Bailongo
2013 – Continente
2010 – Lado B (com Dominguinhos)
2010 – Luz da Aurora (com Hamilton de Holanda)
2010 – Yamandú & Valter Silva
2008 – Mafuá
2007 – Lida
2007 – Yamandu + Dominguinhos
2007 – Ida e Volta
2006 – Tokyo Session
2005 – Música do Brasil Vol.I (DVD)
2005 – Yamandu Costa ao Vivo (DVD)
2005 – Brasileirinho
2004 – El Negro Del Blanco (com Paulo Moura)
2003 – Yamandu ao Vivo
2001 – Yamandu
2000 – Dois Tempos (com Lúcio Yanel)

Assim como a lista de premiações já é longa, suas apresentações pelo mundo adentro atestam o que desde sempre se soube: Yamandu Costa é único. Escutá-lo é uma experiência de vida.

http://www.youtube.com/watch?v=fddswrZWHR8
http://www.youtube.com/watch?v=T-mAzD1j0L0
http://www.youtube.com/watch?v=sV_T2gyvOsM
http://www.youtube.com/watch?v=XVYzEWjveF4
http://www.youtube.com/watch?v=vT1sMuGc4uE

Foto: http://www.jornalnopalco.com.br

Tom Jobim: vinte anos depois….

15/12/1992.TOM JOBIM.  FOTO: CLOVIS FERREIRA/AE PASTA :8772

Hoje, na contagem do tempo, vinte anos se completam da partida de Tom Jobim.  Como todas as perdas, irreparável. Sem ele, as águas de dezembro esfriaram no lado de cá do hemisfério sul. Jobim foi brasileiro até no nome: Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim na certidão de nascimento. Falar exatamente o quê de um compositor que sempre esteve (e está) presente em todos os momentos de nossa vida. Quem não se envolveu com “Garota de Ipanema”? ou “Chega de saudade”? Quem sabe a eternizada “Águas de março”, em gravação antológica com Elis Regina? As parcerias com Chico Buarque, Toquinho, Vinícius de Moraes, Edu Lobo atualíssimas. As canções que compõem o disco com Frank Sinatra, de 1967, ou então a presença do violão e voz de João Gilberto a encantar ainda mais suas composições. Poderia ficar aqui enumerando, contando, descrevendo tudo que seja possível sobre o carioca do mundo.  Se não fosse suficiente cada uma de suas músicas, a aproximação definitiva do popular e o erudito e o erudito com o popular já o colocaria em todos os halls existentes da fama e da sensibilidade. Mais que compor o considerado marco zero da bossa nova, Jobim foi (e é) a essência da brasilidade universal.

Vinte anos sem Tom. O brasil fica assim, com letras minúsculas. Dentro de nós, é maiúsculo. Abaixo alguns de seus trabalhos na íntegra.

www.youtube.com/watch?v=vjDNsqWkIcY

www.youtube.com/watch?v=F016NbHwszE

www.youtube.com/watch?v=VdwHtAXSyXA

www.youtube.com/watch?v=pQdUhTp_MT8

Foto: http://www.jornalggn.com.br/blog/laura-macedo