Eric “Forever Man” Clapton

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Mais uma dessas compilações ou coletâneas que abraçam períodos da carreira de um superstar, talvez de toda a trajetória, pinçando aqui e ali canções de sucesso com outras de significado e muitas sem nenhuma repercussão maior. Apenas tem a assinatura do astro. Forever Man não traduz de forma alguma Eric Clapton. O nome do álbum – que pode ser duplo ou triplo em sua edição de luxo – faz justiça a Eric, que um dia viu seu nome grifado nos muros e paredes de Londres como Deus, da guitarra. Época do Cream, com Jack Bruce e Ginger Baker. Ou será do Blind Faith? O disco triplo pode ser dividido em Blues, Ao Vivo e Estúdio. Confesso que ao escutar cada um deles, claro que há passagens maravilhosas, não consegui me conectar com o todo que é apresentado. A clássica “Tears in heaven”, por exemplo, e não lembro de que disco é a gravação que está nesse, é inferior ao que ele apresenta no Guitar Festival Crossroads. Há uma incômoda guitarra na canção, quando, isso para mim, apenas ao violão a sonoridade é mais sincera, mais honesta, mais sensível. Outros clássicos desfilam, as parcerias com BB King e J.J. Cale também, e estão nelas quem sabe o melhor dos três cds e nas passagens ao vivo mais consagrados hits como “Badge”, “White Room”, “Sunshine of your love”, “Wonderful tonight”, “Layla” e “Cocaine”. Para ficar apenas com essas. Parece-me que a ideia de apresentar aos admiradores de Clapton um painel mais vivo e intenso de sua obra se transformou em um todo sem unidade tanto quanto as performances que se diluem a cada faixa tocada. Um disco duvidoso,  apenas para ser de coleção e caçar níquel à gravadora. Mr. Clapton não merecia isso.

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Sister Rosetta Tharpe, gospel & rock nos anos 30

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Estar à frente do seu tempo não é simples como algumas publicações se debruçam sobre determinados artistas que, mesmo talentosos, viveram (vivem) em contextos distintos. Imaginar que nos anos 30 e 40 uma filha dos Arksnsas, EUA, poderia ser este diferencial parece ser pura ficção. Não é , não foi. Sister Rosetta Tharpe cumpriu o seu destino inovador e revolucionário para a época. Talvez nos dias de hoje pudesse estar diluída a tantos rótulos porém jamais distante do que a consagrou com uma cantora, compositora e guitarrista que que quebrou a rodem de então. Ou se poderia imaginar naqueles tempos sombrios que misturar gospel com o pré-rock and roll não era para qualquer um muito menos para uma mulher. Ela conseguiu. Mesclou letras religiosas com ritmos mais ousados, atravessou as barreiras do preconceito e da intolerância. Criou sem medos estilo que não se satisfazia apenas nessa única mistura. Entrou com o jazz e o blues, influências essenciais em sua vida. Solou sua guitarra em clubes escuros e salões de baile acompanhada de big bands, mostrous que não havia (não há) fronteira entre o sagrado secular e  o que fazia. Acredita com ardor e fé na rítmica das suas harmonias. Não por nenhum acaso foi influência de artistas como Elvis Presley, Issac Hayes, Aretha Franklin. Alison Kraus e Robert Plant fizeram dueto em “Sister Rosetta Goes before us” composta por Sam Phillips em 2007 para o belo Raising sand. Ainda que sua popularidade tenha caído a partir da década de 50, continuou sendo procurada pelos grandes do soul, do blues. Sister Rosetta mais que à frente do seu tempo, sensível aos tempos que estavam chegando. E que continuam desafiando a criatividade de todos.

Foto: capturada no http://negrosgeniais.blogspot.com

Ali Farka Toure, bluesman da África

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A morte de Ali Farka Toure em março de 2006 deixou um vácuo na vida e na cultura de Mali. O continente africano sofreu o golpe. E nós acompanhamos sua dor. Farka construiu sua história com virtuosismo. O mesmo com que tocava as cordas da guitarra ou do violão ao expressar sua alma em acordes e harmonias que se confundiam com o seus país, o seu continente e os que ia conhecendo e vivendo. A música tradicional malinesa e o blues. Fusão que Farka Toure incorporou e transformou. Os ritmos, a percussão, as tradições, as histórias, as influências mouras, o blues de John Lee Hooker, Lightnin´ Hopkins, o pacifismo, toda a sua personalidade transformadora em uma sonoridade repleta de identidade africana. A amizade e os trabalhos com Ry Cooder (Talking Timbuktu e In the heart of the moon) são emblemáticos. São mais portas abertas. Agora, em meu player The source vai ganhando cada centímetro do estúdio onde escrevo. Cada canção um sentido, um significado, uma razão para existir. O tempo é refém do seu toque. Universal, o malinês habita cada canto do nosso pequeno mundo e o transforma em um mundo melhor e mais sensível. Ali Farka Toure o compositor e cantor social, o pacifista, do amor, do trabalho. Incansável, mostrou ao Ocidente que ele poderia ser fiel às suas origens. Foi. Seu trabalho é singular, embora o pluralismo dos seus sonhos.




Madeleine Peyroux: The best

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Fui apresentado a Madeleine Peyroux pelo Luciano Alabarce. Por uma coluna de jornal. Nela, ele comentava o disco Careless Love sem poupar elogios. Isso foi em 2006 ou 2007, não lembro bem, sei apenas que fui atrás do cd. E ao escutá-lo incontáveis vezes, o Luciano errou e feio. Os elogios eram muito discretos para o que Madeleine já era naquele ano. Brincadeiras à parte, o Luciano conhece e muito de música e suas indicações são uma referência importante para quem gosta de música de extrema qualidade. Desde então, todo e qualquer trabalho de Madeleine passou a frequentar meu player ao natural. Até que, não consigo lembrar o ano – essa memória que os anos engolem de mim! – assisti um show em Porto Alegre e o fascínio cresceu de tal forma que a moça nascida norte-americana, que morou anos em Paris, que cantou pelas ruas da cidade-luz, que deu nova face ao jazz, ao blues, à música popular e inovou com voz suave e definitiva covers de Bob Dylan, Lennon&McCartney e Leonard Cohen, por exemplo, ingressou no meu hall da fama pessoal para ficar no primeiro lugar. As críticas a colocam como uma Billie Holliday ou Ella Fitzgeralg, influências desde sempre, renovada. Prefiro pensar que a linha evolutiva e o amadurecimento, inclusive pelo fato de ter dado shows pelas ruas, deram a ela o feeling necessário a forma e estética com que se apresenta. Escuta-se, com tranquilidade cada acorde dos instrumentos, e sua voz está sempre acima do som, o que valoriza a interpretação de cada canção. Não há excessos instrumentais e os músicos que a acompanham brilham porque sustentam com talento e sensibilidade uma cantora também talentosa e sensível.

Madeleine Peyroux abre turnê com show na capital paulista

The Best of Madeleine Peyroux – Keep me in your heart for a while o primeiro the best of de sua carreira é um extraordinário apanhado de seus discos. Desde Dreamland (1996), passando por Careless Love (2004), Half the perfect world (2006), Bare Bones (2009), Standing on the roof top (2011) e The blue room (2013), sendo Bare Bones é seu único com todas as canções com a sua assinatura. Em geral tenho muitas reticências a coletâneas. São frágeis, trazem uma ou duas músicas que valem a pena e as demais são as que ficam escondidas nos outros discos, Não é o caso. Ao contrário, trata-se de um apanhado que contempla se não toda a obra magnífica de Peyroux, pelo menos não se perde nenhuma das 27 faixas do cd duplo. Acompanhada de músicos de primeira linha, seu talento vocal está à disposição para quem não tem ou não acha seus discos anteriores. E para quem não conhece, uma apresentação arrebatadora. O Luciano tinha (e tem razão). Madeleine Peyroux é maravilhosa. Não perca tempo e tampouco deixe a sua cedeteca incompleta. (Visite: http://www.madeleinepeyroux.com)

www.youtube.com/watch?v=Ch6h278GEpA

www.youtube.com/watch?v=Pyd7b2V7uOs

www.youtube.com/watch?v=3cQF0uo9uUM

www.youtube.com/watch?v=98mqiLl4chQ

Fotos: Marina Chavez.

Perdemos Jack Bruce

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A morte de Jack Bruce nos deixa mais embrutecidos. Mais tristes e vazios. Aos 71 anos, por problemas hepáticos – ele havia há anos feito transplante de fígado – o escocês de Glascow nos deixou. A história do rock, da música tem o seu nome gravado em letras maiúsculas. Nos anos 60 formou com o guitarrista Eric Clapton e o baterista Ginger Baker talvez o maior trio que já existiu. Lembro que justamente lá pelos anos sessenta, uma revista norte-americana escolhera os melhores instrumentistas do ano. Os três, que se chamavam Cream, fora, escolhidas em seus instrumentos. o baixo de Jack era extraordinário, dava um ritmo e uma densidade a cada música sempre com a sua criatividade reinventando arranjos e solos únicos. E pensar que certa feita, esse Cream fantástico, empresariado por Robert Stigwood, o mesmo dos Bee Gees, fazia com que abrissem os shows dos irmãos Gibb.

Se 1968 foi emblemático em todos os sentidos, o anos que nunca terminou e não terminará, por essas coisas da vida, foi o ano do fim do Cream. Composições clássicas como “I feel free” e a híper “Sunshine of your love” são inesquecíveis. Assim como o disco Weels of fire ou os seus shows de despedidas.

A carreira solo de Bruce não foi bem sucedida como no tempo do Cream. porém, fez a música que gostava de fazer. Com um quê de jazz e blues, sempre inovando e criando, deixa marcas profundas. Esteve em Porto Alegre com a sua Big Blues Band em 2012 – não assisti!.jackbruce_2

Abaixo, um pouco do trabalho único e fantástico de Jack Bruce.

www.youtube.com/watch?v=OUo3Nv7k4R0

www.youtube.com/watch?v=U0cTwy_p8fU

www.youtube.com/watch?v=3OcOTzVARDA

Fotos: Reuter/Brendan McDermid.

 

 

O bardo Van Morrison

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O bardo não envelhece. O tempo não para ninguém, menos ainda para George Ivan Morrison na certidão de nascimento desde 31 de agosto de1945. Belfast viu nascer o Them, enquanto o Brasil começava a conhecer os rigores do regime militar em 64. A mescla de rock com o celtic soul desde o início é a sua marca. É de lá que vem “Gloria”, canção assumida pelos The Doors, por outro Morrison, o Jim. O irlandês jamais se deixou levar pelo silêncio. A inquietude criativa o fez seguir caminho sozinho. E ao entrar nos acalorados e até hoje febris dias de 1968, sua obra-prima estava concebida. Os estúdios receberam os músicos em rápidas sessões. Cada um gravou seu instrumento em separado. Como não se conhecessem não “tocaram” juntos durante as gravações. Entre setembro e outubro Astral Weeks ganhou sua forma definitiva. Mágica. Assombrosa e bela. Van, Jay Berliner, Richard Davis, Connie Kay, John Payne e Warren Smith, Jr. criaram o indefinível disco. Rock, Rhythm and Blues, Celta, Folk….até hoje se procura definir o que as oito canções de Astral são. No show ao vivo, com outros instrumentistas a magia prossegue intacta. Em duas magníficas partes, “In The Beginning” e “Afterwards” a sonoridade é harmônica. Envolvente. Separe, leitor, a voz do bardo, da textura musical. Sinta os instrumentos. Um de cada vez. Depois, todos juntos. Celebre mais tarde, colocando a voz de Morrison. O conjunto todo sacraliza o que há de melhor na música em todos os tempos. Passados pouco mais de 40 anos, o Hollywood Bowl acolheu em novembro de 2008 Van Morrison e o seu Astral Weeks. Ao vivo, a magia e sua força atual não perderam nada. Antes, se sente o quanto está à frente. Com ele, do estúdio de 68, apenas a guitarra de Jay Berliner. Ouça com toda a atenção. Esqueça o que está lá fora. Entre em nota do disco, não se disperse. E ainda ouça mais duas canções como bônus. Astral Weeks e Van Morrison se confundem, são o mesmo. Mas, nos liberta.

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http://www.youtube.com/watch?v=stcNL-vSwkI

Reprodução das capas dos discos. O primeiro, acima, lançado em 1968, e o segundo, em 2008. Capturadas na Internet.

Bee Gees em Woodstock

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Não, não se assustem. Os Bee Gees não estiveram em Woodstock. Pelo menos, não consta o nome na lista oficial. E nem nas curiosidades sobre o festival. Porém, assim como Joe Cocker incensou as mais de 500 mil pessoas com “With a little help from my friends” cuja assinatura é de Lennon&McCartney, os irmãos Gibb – Barry, Robin e Maurice – também tiveram o seu momento. Janis Joplin interpretou “To love somebody” com sua voz envolta de blues e soul. Porém, assim como os Beatles são lembrados pela deslumbrante performance no documentário, Joplin não está presente com nenhuma canção. Somente a partir da comemoração dos 40 anos do maior festival de todos os tempos é que muitas novidades chegaram. Uma delas é o lançamento de alguns cds solo de quem participou do encontro: Janis Joplin, Johnny Winter acompanhado de Edgar Winter e Jefferson Airplane, entre outros sob o selo Sony BMG e Legacy Recordings. (A Universal fez o mesmo com Jimi Hendrix em 1999)

Janis havia lançado, à época, um disco chamado I got dem ol´Kosmic Blues again Mama! Oito canções viscerais, bem ao seu estilo. Alma pura. Na quinta faixa do então vinil, uma surpresa: “To love somebody”. Autores: Barry e Robin Gibb. Assim como na lista de canções que interpretou em Woodstock ela está presente também aparece em meio a tantos blues e soul.

Agora, passado tanto tempo, ao assistir um dvd do grupo inglês, que se tornou conhecido como australiano, Barry conta que haviam composto a canção para Otis Redding gravar. Antes, porém, o cantor foi vítima de acidente aéreo. Gravaram e foi sucesso imediato. Esteve em trilha sonora do filme Melody, dirigido por Waris Hussein, onde também figura em uma das faixas “Teach your children” com Crosby, Stills, Nash & Young. Esses sim, lá estiveram.

Na verdade, segundo o mais velho dos irmãos Gibb, a música é puro soul e R&B. Entrou no repertório como uma luva para uma cantora como Janis. Woodstock foi um momento mágico. Em todos os sentidos. Outras gravações tornaram a composição ainda mais popular: Nina Simone, Michael Bolton, The Animals, Roberta Flack, Eagle Eye Cherry e Rod Stewart figuram na longa lista de intérpretes.

Interessante ouvir as canções dos Bee Gees para além do pop romântico dos anos sessenta ou a dancing music dos setenta. Muito do talento e harmonia ficaram escondidas por esses rótulos. Confira as interpretações de Janis Joplin e dos Bee Gees para “To love somebody” no You Tube.

Reproduções capturadas na internet. 1 – Bee Gees em sua formação original dos anos 60 2 – Capa do disco de Janis Joplin em Woodstock.