Buddy Guy: Born to play guitar

buddy guy

Se você começar uma lista de bluesmen ela deverá ter como primeiro nome BB King. Depois, vem uma gama de guitarristas de primeira: Howlin´ Wolf, John Lee Hooker, Muddy Waters, Robert Johnson, Stevie Ray Vaughan, para ficar apenas com esses. Claro, os mais novos: Jimmy Page, Eric Clapton, John Mayall – talvez o mais velho de todos -, Keith Richards – os melhores discos dos Rolling Stones são os primeiros, com pegada blues -, Johnny Winter e outros mais. E, não, não ficou esquecido: Buddy Guy, que pertence a primeira lista lá de cima. O genial Buddy Guy. para não deixar o tempo muito mais distante, afinal ele passa com rapidez absurda, ele chega com Born to play Guitar. Não é um disco renovador, não traz novos ares, não contém excessos, não há viagens sonoras tampouco avança qualquer sinal nas tessituras do blues. É um trabalho onde as cordas de sua guitarra alternam o suave com o um pouco mais veloz nas melodias. Mantém o ritmo aceso como todo bluesman faz e reverencia sua guitarra. A doçura com que as faixas vão passando reserva a alguns convidados momentos sublimes. Ficam dois desses registros como referência: Joss Stone e o bardo irlandês Van Morrison, outro que possui uma alma blues. É com Morrison que a emoção atinge seu ponto mais alto, em canção que homenageia o mestre BB King. E com a musa Joss, um dueto singelo e repleto de nuances entre o tocar as cordas e voz da cantora. É um Buddy Guy em forma, bom para se ouvir e mostra bem porque nasceu para a guitarra.

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Eric Clapton Guitar Festival: Crossroads

Crossroads

O nome Eric Clapton dispensa toda e qualquer apresentação. Tem vida própria, fala por si ao natural.  está presente na História da música assim como está presente em festivais e shows de grande relevância social. Crossroads está inserido em sua vida. Desde 1999 reúne os maiores e melhores guitarristas do mundo em torno do Centro de Tratamento de Drogas. Um trabalho admirável acolhido pelos instrumentistas e músicos de todos os estilos, técnicas e gêneros. No palco, que pode ser Madison Square Garden ou o Toyota Park, por exemplo, eles se revezam em atuações assombrosas e desfilam uma integração não apenas musical. Há um elo que os une, além do show beneficente, que uma textura de harmonias e melodias irresistíveis para que ouve cada uma delas. Nomes como JJ Cale, BB King, Zakir Hussain, Steve Vai, John Mayer, Joe Walsh, Jonnhny Winter, Robert Cray, Keith Richards, ZZ Top, John McLaughlin, Carlos Santana, Albert Lee, Bo Dyddley, Vince Gil, Buddy Guy, Jeff Beck, Willie Nelson, Los Lobos, Andy Fairweather Low, Taj Mahal e uma infinidade de outros tantos abraçam o show, o público, a causa e cada canção é algo extraordinário de ouvir com devoção. São artistas que assumem-se como pessoas. E o talento e a sensibilidade ultrapassam todos os limites e fronteiras e todos nós somos presenteados com performances inesquecíveis.

Eric Clapton & Steve Winwood: Live From Madison Square Garden

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Ambos são amigos de longa data. Sempre estiveram um no caminho do outro e o percorreram juntos algumas vezes. Buscar o passado deles é como jogar água na chuva. Não é necessário, basta lembrar que estiveram no Blind Faith e tudo fica mais claro. Sem chuva, claro. E muito sol. Final da primeira dédada dos anos 2000 se reuniram no Madison Square Garden e realizaram show que se transformou em registro ao vivo. 21 canções que vasculham suas carreiras, suas influências, as bandas em que tocaram – Cream, Traffic, por exemplo -, trabalhos solos, blues, JJ Cale, Buddy Miles, Otis Rush, Jimi Hendrix. É pouco? Nem pensar. Os clássicos como “Cocaine”, “Glad”, “Little Wing”, “Voodoo Chile” e “Presence of the Lord” parecem ter saído do forno criativo de ambos hoje. O que pode, em um primeiro momento, soar pesado aos ouvidos na verdade chega com suavidade e intensa entrega de Clapton e Winwood. O clássico dos clássicos “Georgia on my mind” desliza no player com emoção. Justa homenagem a Ray Charles. A alquimia entre os velhos amigos se mantém intacta. A banda de apoio é magnética e sustenta com talento o virtuosismo da guitarra e do piano de Eric e Steve. está certo, não um disco que você vai ouvir a todos instante. Não é necessário. Basta tê-lo e de repente lá está ele no seu player. E você se deixando levar por dois dos maiores músicos de todos os tempos com a tranquila sonoridade que já é história. Pode ser também a sua história.

John Mayer: Born and Raised

JohnMayer

John Mayer não é apenas mais um semeador de campos. Suas raízes, bem definidas e profundas, passaram pelo crivo do tempo. O blues sempre foi seu alimento mais orgânico. Sua água pura da fonte. Entranhou-se com o que há de melhor: Eric Clapton, BB King, Buddy Guy, Steve Ray Vaughan. E foi deixando suas terras mais produtivas. Soube plantar, soube colher. Em Continuum fez um disco em que suas influências e lembranças se encontrassem. Há a luminosidade dos dias mais fecundos de Sting, Steve Winwood, por certo. O que não significa ser a mesma semente. Mas, a espécie, que antes já flertava como trio em sets acústicos, apontava que a terra deveria passar por um descanso antes de tornar a ser hospedada por novas sementes. Problemas pessoais, rupturas, situações de constrangimentos à parte,  Mayer em Born and Raised colheu sua melhor safra. Um pulo ao folk/country renovou suas raízes, sem perdê-las, e estabeleceu um novo vínculo com suas posses. Um trabalho coeso e convidativo. Daqueles em que se pode sentar em qualquer lugar, xícara de café á mão e deixar a vida ser e correr. É estrada. É casa. Não bastasse a consistência de suas tramas melódicas, passando muitas vezes pela melancolia e o romantismo, traz para junto nomes de calibre. Para citar apenas dois: David Crosby e Graham Nash. Os lendários músicos dão sustentação aos vocais, enquanto John firma compromisso com seu campo como semeador. Seu álbum que segue, Paradise Valley, atesta o seu acerto. São pontuadas as “presenças” de Clapton, James Taylor, JJ Cale como mentores da sua criatividade. Música para todos os momentos. Faça parte desse momento e viva-o com intensidade. A música de Mayer merece.

(esta última canção é do disco Battle Studies)

Buddy Guy & Junior Wells Play The Blues

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Hoje, o calendário marca o Dia Mundial do Meio Ambiente. Não apenas dia para uma reflexão maior e mais profunda e mais intensa sobre o meio ambiente em que vivemos, mas, e sobretudo, sobre o ambiente que vivemos ou que fazemos em nossas vidas. Hoje, repletas de intolerância, de radicalismos, de ódios, de massacres, de violências de todas as espécies, de falta de um olhar mais sensível à vida e ao presente que será o amanhã daqui a pouco. E não há calendário que possa determinar um único dia se não que sejam todos os dias motivo de aprofundamento em nossas relações com meio ambiente e com todas as gentes do mundo inteiro em busca incessante pela paz, pela harmonia, pela tolerância, pelo respeito às diferenças, pela própria humanidade. E o blues reflete um estado de espírito. Reflete a alma. Reflete tal como o espelho o nosso lado inverso. Para dentro. Poderia ser o jazz, o rock, o folk, qualquer outro gênero. Todos refletem a alma. Todos são almas. A escolha de Buddy Guy e Junior Wells nasceu ao natural. Como o espelho a refletir a sonoridade para dentro, e ao contrário de ser o lado inverso, tece o lado mais denso das peles dos artistas e de quem os escuta. Play The Blues reza a lenda começou em 1970 bastante complicado, com confusões, participação de Eric Clapton, teria brigado com os produtores, abriram shows do Rolling Stones, não completaram o álbum, atravessaram dois anos para concluí-lo e então já com a presença de J. Geils Band. Na verdade, em meio a tanta confusão, Clapton concluiu tão somente oito faixas, que em 72 J. Geils finalizou o que faltava. E o resultado? Um disco poderoso, uma lição de como se toca blues e as razões dos porquês influenciaram instrumentistas como Jimmy Page e Jack White, por exemplo. Apenas  um pequeno revival: foi assistindo e escutando Buddy Guy que Eric formou o power trio Cream, com Jack Bruce e Ginger Baker. O disco é uma celebração entre a guitarra de Guy e a harmônica de Wells. Incendeia a quem penetra fundo nesse universo sonoro. É um trabalho orgânico, para dentro, que explode, no seu melhor sentido, para fora. De alguma forma, são almas expostas ao público. Revelam suas fragilidades mas as superam com garra e coração. Com talento e sentimento. Com vontade. Criam um ambiente em que a sensibilidade aflora e transcende. Um disco para todo o sempre. E para nossa reflexão e ação por uma vida mais humana.

The Notting Hillbillies & Mark Knopfler

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O escocês Mark Knopfler é muito mais que a guitarra do Dire Straits. Seus flertes com outros gêneros e trilhas sonoras o colocam como um músico que não descansa em apenas um gênero. Seus projetos apontam para a diversidade de sua criação como compositor e uma espécie de dom muito especial da forma de tocar seu instrumento. A banda The Notting Hillbillies tem acento country, perceptível em alguns trabalhos do Dire Straits, e ainda que uma formação passageira com objetivo beneficente, deixou marcas. Marcas com as digitais de Knopfler. O álbum Missing…Presumed Having a Good Time reuniu, além de Mark, Guy Fletcher nos teclados, Steve Phillips na guitarra, Brendan Croker também na guitarra e o baterista Ed Bicknell em 1990. Um trabalho coeso e único no sentido de ter sido apenas um único disco gravado, embora tenham se encontrado para a realização de shows anos mais tarde com outros membros, entre eles os teclados de Alan Clark. Knopfler já havia incursionado pelo country quando gravou Neck and Neck com Chet Atkins, e também em seus álbuns solos há uma tendência ao gênero, sem deixar de citar Emmylou Harris também e o bardo Bob Dylan. Há gravações dele com Dylan antológicas em alguns discos com Infidels  e Slow Train Coming. Em suas trilhas, as composições criam mais atmosferas inseridas ao enredo, sem perder de vista o virtuosismo do compositor. Local Hero e Cal mostram Mark em plena forma criativa. Na carreira solo, Sailing to Philadelphia, com as presenças de James Taylor e Van Morrison dão um quê muito especial. Contudo, é com os Hillbillies que sua performance é mais solta e sua guitarra parece flutuar. Há uma passagem, não desse disco, mas de uma coletânea feita com vários artistas – Music for Montserrat – em que apresenta Money for Nothing com Sting e Eric Clapton acompanhados por Orquestra em que todo o seu talento como instrumentista explode de tal forma que certa vez ao passar diante de uma loja de departamentos um aparelho de televisão reproduzia essa passagem e em seu redor havia uma multidão assistindo a suavidade da guitarra. Um momento esse sim único. Essas influências do rock, blues, folk e country fazem de Mark Knopfler um músico que pode sim alternar bons, maus e extraordinários momentos. Todo grande instrumentista e compositor passa por isso, e o escocês não é diferente. Escutá-lo é um sentimento. E por isso vale cada segundo de suas harmonias. Um pouco de Mark Knopfler abaixo.

BB KING: * 1925 + 2015

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Manhã azulada, sol tímido, poucas nuvens. O outono avança lento, a natureza na contramão acelera o colorido da estação, as ruas começam a viver o seu dia. E ele surge diante de mim sem a mesma precisão de todos os outros dias. BB King partiu. Perdas são fulminantes. Ausências em que a voz jamais retornará a ser escutada, ouvida. Não haverão mais respostas. A vida quando vivida traz junto um golpe fatal, conhecido e terrível. BB King partiu. O homem do Mississippi, que nasceu em fazenda de algodão, e que fez do violão seu instrumento quando ainda adolescente para logo estar já tocando em rádios locais, em programas como o de Sonny Boy Willianson, outra lenda, foi quem eletrificou o blues. Foi quem deu uma nova sonoridade ao blues. Foi quem fez do blues coração, alma, pele e ossos. O lendário Robert Johnson estava (está) sempre presente assim com BB King. Cada em seu tempo. Cada um com seu sangue “blues”. Acústicos ou elétricos, pouco importa, importa que eletrizaram públicos, consciências, um jeito de ser e tocar, de falar, de dizer, de escutar, de ouvir. Com sua guitarra criou e deu essência e vitalidade a tantos outros que vinham junto e chegaram depois. Ainda que o sucesso tenha vindo nos anos 50, foi ao abrir shows dos Rolling Stones, cujos primeiros discos são realmente pedras rolantes preciosas de blues, que passou a ser conhecido e reconhecido por outros públicos. Ele e sua eterna “Lucille”, como chamava sua companheira de harmonias com pouca notas musicais. Qualquer lista que se faça, BB King está (estará) nela. A revista Rolling Stone em 2003 escolheu os maiores guitarristas de todos os tempos. O terceiro, ele, ficando atrás de Jimi Hendrix e Duane Allman. Tão vasta e densa sua discografia como quem influenciou, entre eles Eric Clapton, com quem gravou belo disco. Não listo, não menciono nenhum de seus trabalhos. Você pode escolher qualquer um deles e deixar o tempo correr em sua direção escutando-o. BB King é isso e muito mais. O sol penetra mais forte pela janela do meu estúdio. Ilumina a tela do pc, formando reflexos disformes. As palavras seguem o cursor quase que de forma mecânica. Olho para rua. O céu está completamente “blue”.

NEW YORK - APRIL 18:  Blues Legend B.B. King performs his 10,000th concert at B.B. KIng Blues Club & Grill in Times Square on April 18, 2006 in New York City. King is a nine time solo Grammy Award winning musician who started his career in 1947.  (Photo by Astrid Stawiarz/Getty Images)

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