Andy Summers & Victor Biglione: Strings of Desire

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Ambos possuem trajetórias marcantes na música. Andy Summers, no Police. Victor Biglione, em vários trabalhos assinados com outros tantos instrumentistas. A reunião dos dois em Strings of Desire elimina a velha e já superada tese de que o oceano separa as margens. Bem ao contrário, Summers e Biglione juntaram o que de melhor fazem e fizeram para criarem um disco que transita pelo jazz e bossa nova, fugindo do elétrico e se fixando mais no acústico. E o diálogo entre os violões vai descortinando a universalidade com que tocam e materializam seus arranjos de forma a traduzirem seus acordes e harmonias em um idioma capaz de alcançarem um nível de harmonia de muita sensibilidade e sonoridade cristalina. Cada um com suas histórias de estrada que vão do pop ao próprio jazz, passa pelo latinismo de Victor, por trilhas de cinema, e por aí descobrem o seu caminho comum. O repertório de clássicos de Larry Coryell, Oliver Nelson, Dave Brubeck, João Gilberto, Dizzy Gillespie, Antônio Carlos Jobim e Egberto Gismonti ganham texturas que suas influências e identidades são capazes de transformarem em novas influências e identidades. A dupla ainda mais adiante fez outro disco – Splendid Brazil – com o mesmo DNA que concebeu o seu primeiro trabalho conjunto. E percebe-se o quanto há em comum o que aparentemente não haveria de ter entre um ex-Police e um latino-americano, argentino radicado no Brasil. E o que chamamos universalidade é uma recompensa para quem para e os escuta com alegria e prazer.

A day in New York: Morelenbaum2/Sakamoto

capa (1)

Alguns discos quando vão se desenvolvendo a partir de um longo período de excursão, por exemplo, se transforma em outro disco. Novas leituras, novas texturas, novos instrumentistas, novos timbres, novas músicas, enfim, aquele compasso inicial recebe outros mais e o corpo é tecido com tamanha desenvoltura que se torna outro disco mesmo. A day in New York gravado em 2000 por Ryuichi Sakamoto e a dupla Paula e Jaques Morelenbaum é uma síntese bem definida de como um lançamento vai se transformando em outro trabalho. Para melhor, diga-se. O álbum original é Casa, realização de um sonho do trio com canções de Antônio Carlos Jobim. O Rio de janeiro foi a casa de gravação, na verdade ainda não era um trio, pois Jaques e Sakamoto andavam às voltas com o BTTB do pianista, quando em uma jam session em Londres juntou-se a eles Paula e o que tinha que acontecer aconteceu. Saíram pelo mundo com Casa e em meio ao caminho a música começou a mexer com os sentidos e não bastasse isso, outros dois instrumentistas chegaram para mexer ainda mais: o violão de Luiz Brasil e a percussão de Marcelo Costa. É exatamente nesse ponto em que as transformações começam, a compreensão e leitura vai se modificando,  a profundidade aumenta e de repente estão diante de um mesmo repertório como se fosse um novo. Resumo: entraram em estúdio e gravaram ao vivo tal como vinham fazendo e o resultado é esse magnífico disco de onze canções, sendo sete da lavra de Jobim, uma de Caetano Veloso, outra de João Gilberto e “Tango” tem a assinatura de Sakamoto, T. Onuki e Paula.  Disco tranquilo, e sereno, com a música deslizando em nossos sentidos, despertando-os.