Canções de Angola na voz de Jussara Silveira

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Angola e Bahia andam lado a lado. São inseparáveis. A cultura de uma está na outra. Podem se ver à beira do mar, alongando o olhar quando a noite se aproxima. Há muito do solo africano em terras brasileiras. Sua cultura é também muito da nossa, do nosso jeito de ser. Jussara Silveira é filha da Bahia. De uma geração que tem o axé no coração e no corpo. Fez seu caminho. Abriu vários outros. Flor Bailarina é um pedaço de Angola que nos alcança com sua voz. É mais que um abraço. É mais que um encontro. É um estar no outro com alma. Belo disco. Canções que são tecidas em compassos iguais. Os acordes do outro lado do oceano acolhem os do lado de cá. E assim vão criando ritos e sensações próprias de quem canta, de quem toca os instrumentos. As onze faixas expressam toda esse viver próximo. Marcelo Costa e Sacha Amback e Jussara cometeram um trabalho que se respira os caminhares baianos e angolanos. Composições de Paulo Flores, Teta Lando, José Manoel Canhaga, o poema de Ana Paula Tavares (“O cercado”), Manuel Ruy Monteiro, Ruy Mingas, Maria Guiomar Garcia, Antônio Leitão, Capiba, e Bonga são pele com pele. harmonias com harmonias. Angola e Bahia, África e Brasil. Flor bailarina. Cada canção é o nosso país.

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Kafala Brothers, ritmo e suavidade de Angola

Kafala

Às vezes, passa despercebido. Está, como sempre, escondido entre outros tantos discos perdidos em gêneros que nada a ver têm com o que apresentam. Com o Kafala Brothers não foi diferente. Confesso que não lembro onde comprei o cd, e se estava entre o heavy e o rock ou algo parecido. Não importa. O que importa é que Moisés e Jose são músicos admiráveis. Transformam a linguagem musical através das vozes, da flauta e do ritmo do violão em história contada. História de Angola. Para quem gosta de marcar o gênero, está mais para folk. Suas canções vão margeando a alma, a tristeza, os ritmos, as palavras, o amor e a esperança. Harmonizam cada um desses elementos. Harmonizam os sentimentos. Expressam os seus. Falam de Angola. Falam da África. Falam da Humanidade. Não por acaso. O propósito de humanizar a vida é sina. É compromisso. O álbum é de 1988. Parece distante de 2015. Não é. O que confere a sua atualidade está contido nas letras, na acústica sonoridade de uma cultura de base, uma África, uma Angola aberta ao mundo, sensível e humana. Disco para que os nossos dias sejam de mais reflexão e caminhos para a paz.

Quintal do Semba, Angola extraordinária

Gravação surpreendente, quase despercebida da grande mídia, Quintal do Semba é muito mais que um documento. É História. É a presença angola revitalizada e mostrando ao mundo sua excelência musical. Nos estúdios da Rádio Nacional de Angola se reuniram os principais nomes da música daquele país e desfilaram verdadeiras peças preciosas do que mais tradicional em ritmo na África. Ao mesclarem o novo com o mais antigo, traduzem a força de um continente. Semba ou massemba ou ainda umbigada em quimbundo, língua angolana, tem muito do que conhecemos no Brasil: batuque, dança de roda, lundu, chula, maxixe e até Partido Alto. Também significa dança do interior caracterizada por movimentos que implicam o encontro dos corpos masculino e feminino, quando então o homem segura a mulher pela cintura e puxa-a ao seu encontro, provocando o choque. Como gênero musical, é um complexo processo de fusão e transposição da guitarra com vários elementos de percussão, que é a base da cultura africana. Catalogado em vários sites de venda com “world music” o cd e o dvd são magníficos testemunhos. Estão os mais representativos e genuínos músicos de hoje como Carlitos Vieira Dias, Paulo Flores, Moreira Filho e Ângela Mingas. Não deixam, também, de celebrar os mestres do passado como Liceu Vieira Dias, Fontinhas, Belita Palma, Elias Dia Kimezo e Artur Nunes entre outros. Ao lançar um olhar mais apurado pelo encarte – belíssimo – você ire encontrar Caetano Veloso, Nei Lopes, Wilson Moreira e Djavan na bela “Rapsódia Brasileira Maria das Mercedes”. Nada é por acaso no disco. Os instrumentos e as vozes estão em perfeita comunhão e o sabor do que mais tradicional e belo do continente africano, com muitas falas em português misturadas com sua língua, e se unem ao moderno também em harmonia e espiritualidade. Um belo disco.

 

Quintal do Semba

Ao vivo na Rádio Nacional de Angola

Diversos

Maianga Discos

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Foto: Capturada na Internet.

Água Lusa e Jussara Silveira, fados para a vida inteira

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Já conhecia desde anos atrás o trabalho de Jussara Silveira. Baiana de sotaque diferente, talvez possa afirmar. Talvez, como dizem alguns críticos, a menos baiana das cantoras baianas. A verdade é que Jussara vem atravessando os anos solidificando sua carreira com discos diferenciados desde 1989, início de tudo. Cresceu em meio a tanta musicalidade desde a família passando pelos estudos, Jussara é, ao natural, uma apaixonada pela música. Acumula no currículo prêmios, participa de antologias até lançar o primeiro solo em 1997. O segundo, logo após, trazia canções de Dorival Caymmi. Em 2000, a portugalidade estava em duas faixas no álbum do guitarrista português António Chainho. Apresentou-se com ele e Maria Bethânia no Rio de Janeiro e em São Paulo. A relação com Portugal e Angola fica mais estreita em 2002 ao interpretar canções que cruzam o Atlântico e encontram sonoridades desses países. Mais tarde, duo de violão e voz com Luiz Brasil e tem projeto premiado no programa Petrobras Cultural com participações de Arthur Nestrovski, Leandro Braga e Jorge Braga. A diversidade musical brasileira aparece em Três Meninas junto com Rita Ribeiro e Teresa Cristina e nesse mesmo ano de 2008 faz o espetáculo ao lado do violonista Arthur Nestrovski e o pianista André Mehmari.

O sexto disco é lançado em outubro de 2011, Ame ou se Mande. E no ano seguinte com a mesma dupla, Marcelo Costa e Sacha Amback, nasce Flor Bailarina – canções de Angola.

Como diz Arnaldo Antunes, “uma voz carregada de sentidos, que vão se desnudando aos poucos”.

Agora, chega Água Lusa, fados do português Tiago Torres da Silva. Onze canções do letrista com vários parceiros que encontram na voz de Jussara a casa perfeita. Águas que transbordam dos rios, dos mares, das tradições, das saudades dos amores, da tristeza. Um disco suave, tranquilo, criativo e envolvente. Letras belíssimas, instrumentistas fantásticos como Pedro Jóia, violão, Filipe Raposo, piano, acordeão e Edu Miranda no bandolim. Água Lusa atravessa os tempos sem pressa, com o perdão da rima. Pena ter pouco tempo no player, será necessário apertar o repeat várias vezes.

Água Lusa, Jussara Silveira canta Tiago Torres da Silva, Dubas/Universal, 11 faixas. 39min39s.

www.youtube.com/watch?v=t7ADvG3Lp_Y

Canção do disco Ame ou se Mande, por alguma razão não entrou o youtube do Água Lusa.‎

Foto: capturada no site www.jussarasilveira.com.br