Música Armorial

Armorial Música

Hoje, um ano e onze meses da partida do pai. Deixo música, com a paz que ela invade nossos poros e alma, como uma ponta da saudade que a cada dia se lança mais profunda dentro de mim.

Anúncios

Tango e cavalos de corrida

Rio Volga 1

Hoje, dia 26, mais um mês em que esse fruto (saudade) que a cada dia fica mais maduro e ainda mais forte fica mais intenso amanhece ensolarado como tem sido o verão no sul do Brasil. O pai adorava tango. E a milonga. E uma taça de vinho tinto seco. E Carlos Gardel. E cavalos de corrida. E a família. Ingredientes para uma vida feliz. Ele ensinou a nós, meus irmãos e eu, a ouvir a música do Prata como se fosse a nossa música. E não havia jeito de aparecer com o rock, o música popular brasileira, a gaúcha, ou qualquer outro gênero. Tango. Bom, abria pequenas exceções: Frank Sinatra, Nat King Cole e outros mais do jazz lá bem de trás.  Aos poucos, começou a gostar de tango mais moderno, Piazzolla, e outros mais. Até mesmo os tangos mesclados com o rock, com o erudito, com o eletrônico. Mais perto de sua partida, só ouvia Gardel. E com os olhos fechados cruzava o disco final de uma corrida. (há tudo a ver entre o tango e as corridas. “Por una cabeza” é um desses tangos que entrelaçam ambos.) Deixo aqui, um disco especial, Tinta Roja, do Andrés Calamaro que ele gostava muito. E toda a vez que ele preenche todos os espaços, sinto que a saudade está alimentada e a presença do pai cada vez mais viva.

As corridas como eram até os anos 50

Rio Volga 1Hoje, mais um mês na contagem da saudade, que cresce e amadurece como um fruto sem jamais, no entanto, cair no chão. Na cesta da vida, permanece intacta e forte e mostra o quanto vivê-la também nos faz viver. É muito mais que uma lembrança. É um conviver que apenas marcou encontro para outro lugar, em outro tempo ainda a ser determinado. Hoje, esse café desce com a magia de um passado que cada vez mais é presente nas distâncias que devemos percorrer.

seabiscuit

O livro Seabiscuit – Uma lenda americana, da editora e articulista Laura Hillenbrand é uma peça valiosa para os turfistas e para quem goste de corrida de cavalos. Ao narrar e entrar em detalhes fascinantes da trajetória não apenas de Seabiscuit e também dos personagens que protagonizaram todo um espetáculo em um Estados Unidos dilacerado pela Depressão, Laura trouxe à vida o que muitos não sabem sobre o como ser jóquei – no livro, em como era ser – e suas imensas dificuldades. Mais que isso, em como o ser humano desafia a si mesmo e as todas as perspectivas em busca não somente da vitória se não pela sobrevivência. Na década de trinta do século passado a importância dos hipódromos, do jogo, das corridas era muito mais que uma válvula de escape. A decadência da sociedade necessitava de heróis e Seabiscuit foi um deles. Em uma das passagens, a segurança dos jóqueis: ” … Exigindo que os competidores humanos montassem animais erráticos em meio a agrupamentos densos em grande velocidade, as corridas da década de 1930 eram repletas de perigos extremos, assim como as de hoje. Os cavaleiros nem precisavam cair para se machucar seriamente. Mãos e canelas eram esmagadas e os ligamentos dos joelhos se rompiam quando os cavalos giravam de repente ou colidiam com cercas ou muros. …. Quando foram criados os primeiros e primitivos boxes de saída no início da década de 1930, estes não eram almofadados e alguns jóqueis morriam literalmente sobre a sela, atravessados pelo aço exposto das barras superiores quando seus cavalos empinavam sobre as patas traseiras. … Ferimentos graves são uma certeza para todos os jóqueis, a exemplo de fraturas e esmagamentos, frequentes em acidentes automobilísticos sofridos em autódromos. … Em cinco ferimentos, pelo um se localiza na cabeça ou no pescoço. Uma pesquisa de 1993 descobriu que 13% dos jóqueis sofrem concussões em um período de apenas quatro meses. O número de acidentes era muito maior nas décadas de 1920 e 1930; apenas no período compreendido entre 1935 e 1939, dezenove cavaleiros morreram em acidentes enquanto exerciam sua profissão. Naquela época, eram empregadas táticas muito perigosas, e a ausência de equipamentos de proteção aumentava a vulnerabilidade dos jóqueis, causando inúmeros acidentes fatais. Nos dias de hoje, as corridas são filmadas sob múltiplos ângulos para garantir que os jóqueis conduzam suas montarias de modo seguro. São obrigados  a usar jaquetas reforçadas, semelhantes a coletes à prova de bala, óculos de proteção e capacetes de alta tecnologia, além de competir em raias equipadas com grades de segurança e haver ambulâncias posicionadas em torno da pista. Estes luxos não estavam à disposição dos jóqueis de antigamente. Na melhor das hipóteses, apenas um ou dois comissários supervisionavam as táticas de corrida. A única proteção usada pelos jóqueis era um boné de papelão, recoberto de seda. O ex-jóquei Morris Griffin, que ficou paralítico, devido a uma queda sofrida em uma corrida disputada em 1938, comparou seu boné a um quipá. Como não tinham uma correia passando sob o queixo, os bonés voavam da cabeça do cavaleiro antes de este chegar ao chão. Para piorar as coisas, quase todos os jóqueis inutilizavam o boné ao cortar o topo e retirar o forro para diminuir o peso. …”

Rossano e o capacete

No antigo e sempre saudoso Hipódromo dos Moinhos de Vento, em Porto Alegre, apenas nos anos 1950 o capacete de fibra foi usado pelos jóqueis. Em matéria publicada na imprensa, Mário Rossano posa com um deles, ainda em fase de experiência. Antes, era exatamente como Hillenbrand narra em seu livro.

Final justo

Acima, em que Rossano vence na “fotografia” páreo disputadíssimo, percebe-se os bonés dos jóqueis sem nenhuma espécie de proteção. Os tempos do pradinho foram mais tranquilos, as reuniões eram número mais reduzidos, as cercas de madeira, em especial a interna, e somente na ida para o Hipódromo do Cristal em 1959, as mudanças começaram a valer. Os boxes foram introduzidos nos anos sessenta, os capacetes evoluíram e se tornaram mais resistentes, e a segurança muito maior. Ainda assim, um acidente de pista, no extinto Hipódromo de Mathias Velho, em Canoas, próxima a capital, em uma rodada “feia”, uma labirintite minou de maneira precoce aos 37 anos a carreira vitoriosa de Mário Rossano. A memória entre os turfistas permanece viva e hoje é uma lenda entre eles e os jovens profissionais.

 

Música: La Mufa

Livro: Seabiscuit – Uma lenda americana, de laura Hillnbrand, págs. 98/103

Fotos: jornal Folha da Tarde, 1958.

Turfe: As primeiras vitórias clássicas

Rio Volga 1

Para os que estão chegando aqui, para os que passam e seguem o seu caminho: todos os dias 26 de cada mês este espaço é dedicado à preservação da história do meu pai, que partiu em 26 de abril de 2014. Uma trajetória de vitórias e derrotas, sobretudo de muitas vidas em cada uma delas, e que hoje, mais um dia 26 repleto de saudade, ocupa o branco da tela com suas primeiras provas clássicas disputadas.

1948

Nos anos quarenta do século passado, os programas realizados no saudoso e carismático pradinho dos Moinhos de Vento se resumia a duas reuniões: sábados e domingos. Às vezes, apenas aos domingos. E a equipe de jóqueis da época era dos melhores do Brasil. Pouco tempo depois de deixar para trás a categoria de aprendiz, Mário Rossano passou a frequentar o programa oficial, incluindo as provas clássicas. Em 1948, poucos dias antes de completar 17 anos, sob a monta do uruguaio Ibagé, no Prêmio Consolação, tradicional clássicos disputados entre os perdedores dos GPs Protetora do Turfe e Bento Gonçalves, conduziu o alazão ao vencedor, chegando à frente de nomes consagrados como o “Gigante” Ganganelli Cunha, Eldi Rocha, Leonel Pereira e Francisco Xavier. O filho de Socorro em Mala Racha, de propriedade do Stud Cruz de Lorena, do Dr. Augusto Maria Sisson, percorreu a distância de 2.500 metros em 166s e 3/5.

1949

No ano seguinte, 1949, o calendário turfístico marcava para maio o Prêmio Assembleia Legislativa. Assumiu o compromisso com o tordilho Albornoz, também do Stud Cruz de Lorena. os 1.500 metros foram vencidos em final apertado, justo e revelava o talento de um jovem promissor com seus 17 anos completados. A vitória sobre os mestres Armando Rosa, Dario Moreira – que foram sucesso no Rio de janeiro, no Hipódromo da Gávea – Ganganelli Cunha, o jovem Armando Reyna e Eldi Rocha marcou definitivamente o seu nome entre os grandes de Porto Alegre. O resultado foi que mais adiante, no início dos anos 50, foi para a Gávea, disputou grandes prêmios, retornou, venceu estatística em Porto Alegre e seguiu sua trajetória. Uma história feita com vitórias e derrotas e, sobretudo, com ensinamentos.

Turfe: vitórias e derrotas, a história continua nas pistas de corrida

Rio Volga 1

O tempo é como uma corrida de cavalos. Está sempre presente. Correndo. A saudade percorre outros caminhos. Não fica apenas na marca do calendário da memória. Instala-se em nossa alma e nela faz morada para todo o sempre. Anda de mãos com tudo o que sentimos e vivemos e a cada dia cresce e acompanha as estações com a delicadeza desse viver. Hoje, 26, mais um mês da partida do pai. Mais um mês que avança e mais um mês em que a saudade cresce. Sem fim.

Rio Grande 1

O calendário do turfe do interior do Rio Grande do Sul foi marcado por grandes disputas. Em especial, dois hipódromos acolhiam no primeiro semestre do ano dois grandes prêmios que rivalizavam em importância aos disputados na capital. Rio Grande, hoje apenas na lembrança, recebia na Vila São Miguel no verão para o GP Cidade de Rio Grande (foto acima). Algum tempo depois, Pelotas, na Tablada – até os dias de hoje – o GP Princesa do Sul. O público tomava conta dos hipódromos, as cidades paravam, e não se falava de outra coisa. Grêmio e Internacional nesses dias eram apenas dois clubes de futebol caseiros, o que somente mudaria a partir da segunda metade da década de setenta.

Rio Grande 3

No verão de 1960, Lord Chanel e Mário Rossano não tomaram conhecimento do potro promissor Saitan, do favorito, Guindo e do veterano e raçudo Arizu. Vitória maiúscula. Vitória que não deixou nenhuma dúvida aos presentes a Vila São Miguel tomada de turfistas e apreciadores de corridas. E credenciado por essa vitória, partiu para o GP Princesa do Sul. Na condição de favorito, o tordilho passeou pela pista da Tablada. Os 3.000 metros estavam sendo rigorosamente cumpridos com a valentia e a força que o filho de Lord Antibes sempre exibiu em suas apresentações. Ao jóquei, o trabalho de leva-lo a linha de chegada. Corridas de cavalos, no entanto, não são uma ciência exata. Em uma prova, não importa a distância a ser percorrida, tudo pode acontecer. E naquele dia, ao virar a curva final, a 400 metros de chegar em primeiro, Lord Chanel e Rossano foram surpreendidos por um uruguaio cuja campanha até então não era nada animadora. Componente, sob a condução do também uruguaio, Luis Perez, trouxe o filho de Enterprise em Scala, em fulminante atropelada e alcançou o tordilho nos metros finais e cruzou o disco como vitorioso.

Princesa 1

Princesa 0

Nas fotos acima, o final da prova, Componente ultrapassando Lord Chanel (mais acima), e a acolhida ao vencedor pelos proprietários e público (acima). A partir desse dia, nasceu o folclore do Grande Prêmio. O que se ouvia falar era simples: Rossano havia já tirado o boné, sentindo-se vencedor tamanha era distância que possuía em relação aos demais. Rossano relaxou e deixou Lord Chanel galopar sem fazê-lo correr até o final. Enfim, as histórias foram sendo criadas em torno da derrota muito mais que a vitória espetacular do conduzido por Luis Perez, o que foi e ainda continua sendo uma injustiça com quem venceu. O pai sempre contou que jamais, em momento algum, tirou o boné ou relaxou. Componente venceu porque estava melhor naquele dia e na distância dos três quilômetros. “Se disputássemos dez corridas, venceria nove. A única que poderia perder, perdi”, me disse em nossa conversa em 2011. A história, entretanto, às vezes escolhe o folclore como verdade absoluta. Assim, o Princesa de 1960 tem essa marca eterna.

O testemunho de quem esteve lá:

Rio Grande 2

Acompanhávamos o pai em suas idas ao interior disputar os grandes prêmios. Passávamos o verão no Cassino, em Rio Grande, e depois íamos para Pelotas. Período de férias escolares, na verdade éramos do jardim de infância, e minha irmã ainda sequer frequentava-o. 1960. Meus pais, meus irmãos e meus avós maternos, a família do pai é de Rio Grande, aproveitavam esses meses para encontros. E nós, pequenos, nos metíamos entre o público e assistíamos as corridas. Vibrávamos mesmo sem entender bem o que significava uma corrida de cavalos. ver o pai, o tordilho, a ferradura de flores, nos deixava felizes. Na foto acima, estou vendo o retorno do vencedor em Vila São Miguel. Único lugar onde poderia ficar em meio a adultos. Meu irmão também estava junto. E pouco acima de nós, o cunhado do pai, Dirceu Antunes, batendo palmas. Tenho presente esse momento, e olhando a foto agora, desato o nó da saudade. Mais tarde, lembro de Pelotas. tenho vivo o final da disputa, e posso assegurar com toda a inocência dos meus seis anos incompletos da época, o pai perdeu porque o vencedor foi melhor. Não vi o “Viejo” tirar o boné, ou “relaxar”. Perdeu, simplesmente. Claro, a Tablada não é assim como a foto de Rio Grande. E não estávamos junto a cerca. Com a minha mãe e meus avós, estávamos nas tribunas. No dia seguinte, no retorno para Porto Alegre, encontramos Luis Perez. Ouvi quando ele disse que estava surpreso com a própria vitória, e o pai, triste e tranquilo, disse que era da vida vencer e perder, e que de alguma maneira fizeram história. É verdade. Jamais esqueci esses momentos. E os guardo em mim com emoção.

Agradecimento especial ao meu irmão Mário pelas fotos do seu acervo, que gentilmente me enviou. E a minha irmã Ana, por também ter vivido essa história.

Turfe: a História também se conta com as derrotas

Rio Volga 1

Hoje, dia 26, mais um mês. Um ano e seis meses que o pai partiu. A saudade então passou a ser como uma contagem progressiva, aumenta a cada dia que passa. Mesmo quando por vezes se acomoda no leito dos pensamentos, está presente. Ergue-se sempre com a intensidade do látego quando necessário o seu uso para cruzar a linha de chegada. A vida se revela em toda a sua plenitude. Assim aprendemos a acreditar no possível e mesmo quando a mesma linha de chegada parece estar distante e não cruzar à frente. A trajetória de Mário Rossano é repleta de histórias. De muitas histórias vencedoras. E também de derrotas. Das mais inesperadas às mais prováveis. E é de uma delas, que para todo o sempre no mundo do turfe do Rio Grande do Sul, jamais será esquecida que está aqui hoje. E que o pai contava como “coisas de carreira”.

Breno Caldas era proprietário de um império da comunicação do sul: a Caldas Júnior, que editava entre outras publicações, o Correio do Povo. Também possuía um haras, o Haras do Arado. Apaixonado por cavalos de corrida, importava garanhões e fêmeas para criação e craques da tradicional blusa Rosa, ferraduras pretas, brilhavam nas pistas do velho, querido e saudoso pradinho dos Moinhos de Vento. Entre eles, um potro criado para ser exceção: Estensoro.

Estensoro Foto A

ESTENSORO – m/alazão, do RS, nascido em 22 de julho de 1955 – por ESTOC (FR) em PERFIDIA (FR), por NIÑO. 

Criação e propriedade: HARAS DO ARADO 

Estreia: 13 de abril de 1958, prova comum sobre 1200 metros – 2º para SENHORAÇO (castanho, Senhorial e Notória).

Turfe Record:

Apresentações: 14 (13 Moinhos de Vento e 1 na Gávea)

Vitórias: 12 (11 clássicas, incluindo a 2º Triplice Coroa Rio-Grandense)

Colocações: 1 (2º Moinhos de Vento)

Descolocado: 1 (14º Gávea em 2/8/59 Grande Prêmio Brasil para NARVICK).

Acima, o resumo da campanha do alazão do Arado, e na foto está seu jóquei oficial, Antônio Ricardo. Abaixo a História como aconteceu sua estreia, única derrota nas pistas gaúchas contada pelo seu proprietário e criador e a palavra do jóquei que o conduziu em sua única derrota.

No livro Breno Caldas – Meio século de Correio do Povo, depoimento a José Antônio Pinheiro Machado, L&PM Editores, 1987, reproduzimos a parte em que se refere a Estensoro:
PAqui nestas terras o senhor fez surgir um dos mais importantes campos de criação de cavalos de corrida do país, o Haras do Arado….
Breno Caldas – Eu comecei a criar cavalos em 1937…Sempre gostei de cavalos, montava quando jovem. Era cavaleiro, participava de competições hípicas. Quando vim para o Arado, construí cocheiras e resolvi começar a criar. O Haras do Arado teve alguns reprodutores de muita qualidade: Dark Warrior, ganhador do Derby Irlandês, pai do Ouroduplo e de outros ganhadores clássicos; Estoc, cavalo francês, invicto na Inglaterra, pai de craques como Estensoro, Estupenda e outros – o Estoc só deu bons cavalos: Elpenor, ganhador da taça de Ascot, pai de muitos cavalos clássicos, como a Corejada, o El Trovador (ganhador do Derby Carioca), o El Centauro (2º lugar do GP Brasil e no GP São Paulo) …
PO Estensoro foi o melhor de todos os cavalos que o senhor criou
Breno Caldas – Sem dúvida. O Estensoro, aqui, no tempo do prado do Moinhos de Vento e depois, no Cristal, onde ele chegou a correr, ganhou todas as provas possíveis, incluindo o GP Bento Gonçalves, o GP Protetora do Turfe, e foi Tríplice Coroado gaúcho. O Estensoro era filho de Estoc, um cavalo criado pelo Marcel Boussac – um dos mais importantes criadores do mundo – que eu importei da França na década de 50. Foi o melhor reprodutor que eu tive, uma verdadeira loteria que eu aceitei ao escolhê-lo entre vários outros. O Estoc tinha um problema de bambeira e produziu muito pouco, teve apenas treze filhos, mas todos ótimos cavalos, ganhadores clássicos. nenhum matungo. Além do Estensoro, o Estoc produziu outros muito bons: Estandarte, Ângela, Estrôncio…
P – O Estensoro só perdeu na estreia, ainda no prado dos Moinhos de Vento, para um cavalo chamado Senhoraço
Breno Caldas – …exato. Naquele dia, o jóquei oficial da nossa cocheira, o Antônio Ricardo, estava suspenso, e um outro jóquei, Mario Rossano, montou o Estensoro. Eu sempre proibi os jóqueis de baterem nos meus cavalos, especialmente nos potrinhos mais novos. Na largada, o Rossano deu um laçaço no Estensoro e ele, que não estava acostumado a apanhar, estranhou e ficou parado na partida. O páreo era em 1.100 metros e quando o Estensoro largou, os outros já iam uns 50 metros na frente. Saiu atrás e foi indo, foi indo, recuperando terreno e quase ganhou: acabou perdendo por focinho. Depois dessa estreia azarada, o Estensoro não perdeu mais aqui no Rio Grande do Sul. Quando ele foi para o Rio disputar o GP Brasil em 1959, um outro cavalo daqui, Lord Chanel, começou a ganhar todos os clássicos e houve quem dissesse que ele era melhor que Estensoro. Aí mandei o Estensoro de volta do Rio para cá, para disputar o GP Bento Gonçalves. Não deu outra: o Estensoro venceu em tempo recorde, deixando longe o coitado do Lord Chanel, que fez tanto esforço para acompanhá-lo que teve hemorragia…
Mário Rossano –  “Montei Estensoro, que perdeu comigo na estreia, mas foi estreia, mais tarde o doutor Breno Caldas escreveu que perdi porque bati no cavalo. Não bati, se tivesse batido ele teria vencido. Ficou essa marca de ter vencido todas as provas menos a que foi dirigido por mim. ” (Em depoimento realizado quando dos seus oitenta anos de vida, para o livro Dá-lhe Rossano, 2011, editado por Mário Rozano, e que por ter ficado longo não foi publicado. Está na íntegra, tal como foi degravado, sem as devidas correções para preservar o original, neste site.)
Estensoro nunca correu contra Lord Chanel, que foi monta oficial do Rossano em vários GPs, inclusive vencendo duas vezes o GP Protetora do Turfe, já no Hipódromo do Cristal, e o GP Bento Gonçalves de 1961, o  qual foi desclassificado em decisão polêmica e injusta da então Comissão de Corridas em favor de Argonaço.
Estensoro nunca disputou uma prova no Hipódromo do Cristal, tendo feito apenas um “passeio” de despedida das pistas, levantando os pavilhões do prado, sob a monta de Clóvis Dutra.
Mário Rossano montou e venceu provas clássicas com vários cavalos do Haras do Arado, entre eles Estupenda e Ângela.
Breno Caldas se equivocou em vários detalhes do seu depoimento, como a distância da prova de estreia de Estensoro que foi em 1.200 metros e não em 1.100 como afirmou, entre outras observações feitas a Lord Chanel.
Conversamos várias vezes sobre esta corrida. Antes o pai ficava chateado, triste, mas bem mais próximo de ele cruzar a sua linha de chegada já sorria. Um dia me disse que perder fazia parte e que não significava que tudo estava acabado. “Afinal – disse – todos os dias amanhece e tudo recomeça outra vez, inclusive as vitórias.”
Bento 1958 1º Estensoro 2º Dark Sauce
Na foto acima, o único GP Bento Gonçalves vencido por Estensoro, em 1958, o último disputado no Moinhos de Vento, secundado por outro dos craques do Haras do Arado, Dark Sauce, sob a monta de Mário Rossano, com a blusa preta, ferraduras rosa.
Agradecimento especial ao meu irmão Mário Rozano, que preserva como ninguém a memória do nosso pai.

Turfe: GP Protetora do Turfe 1957 – 1960: Moinhos de Vento e Cristal

Rio Volga 1

Hoje, um ano e quatro meses da partida do meu pai. Olho a foto acima, ele vencendo uma corrida com Simbólica no saudoso pradinho dos Moinhos de Vento e os redemoinhos da saudade chegam com força, abatendo o ânimo e desarmando a vontade do dia que começa no infinito do azul. A proximidade com setembro e o dia sete, logo chega com o segundo maior Grande Prêmio disputado no Rio Grande do Sul em pista de areia, o Protetora do Turfe. A história registra que tudo começou como Prado independência em 1894 para em 1907 ser denominado Associação Protetora do Turfe e mais tarde, dezembro de 1944 ser em definitivo Jockey Club do RS. Na realidade, o GP com o mesmo nome somente nasceu em 1922 e ainda assim com o nome de GP Centenário da Independência e era disputado na distância de 2.400 metros, depois se fixando em 2.200 metros até os dias de hoje.

50 anos GPPT

A vida de Mário Rossano e os cavalos de corrida são uma vida onde as linhas do tempo, quando se encontram, constroem outras linhas e vidas. Desde a vinda da sua portuária Rio Grande para Porto Alegre, do Hipódromo de Vila São Miguel para o carismático Moinhos de Vento, essas linhas se cruzaram com outra vida: o Hipódromo do Cristal. A História traz o romantismo dos anos 40, 50 e 60 em uma capital gaúcha ainda provinciana com ares de cosmopolita. Traz o quanto o jóquei Mário Rossano faz parte dessa história e o quanto sua ligação, não apenas com a cidade, com o Jockey Club do Rio Grande do Sul é também infinita. Não se resume a vencer a prova inaugural do novíssimo então prado do Cristal no já distante novembro de 1959, com um cavalo castanho que aos seis anos ainda não havia sido apresentado à vitória.

Dois anos antes, em 7 de setembro de 1957, a chuva impiedosa que caia não impediu que o então jovem freio levasse Dálmata a vencer o G.P. protetora do Turfe no ano em que a entidade completava seu cinquentenário. Um feito que as reproduções abaixo, incluindo a transcrição da prova, a tornam inesquecível e mostrava, mais uma vez, o talento de um piloto que quebrava a fama de ser apenas um jóquei que sabia correr como ponteiro.

Dalmata 1     Dalmata 2

Dalmata 3Dalmata 4

A História não poupou o rio-grandinho. A ida para o Cristal teve o carimbo da estreia do hipódromo e Duelo cruzar o disco em primeiro sob a sua monta. E ao passar o ano, encontrar mais uma vez o 7 de setembro, agora em 1960. Lord Chanel, um tordilho clássico e valente, rápido, teve em Mário Rossano seu jóquei no 1º GP Protetora do Turfe a ser disputado nas areias do Cristal. resultado: vitória. Feito que se repetiu em 1961.

Lord Chanel

A relação que existe entre Mário Rossano, Moinhos de Vento e Cristal é única. Indissociável. Hoje, ao olhar o material desses anos todos, o coração acelera, os olhos desaguam e as mão tremem. Nesta História, o lugar do Rossano, como era chamado pelos turfistas, está escrito e eternizado.

Reproduções: Jockey Club, Histórias de Porto Alegre – 2005 – Org. Mario Rozano e Ricardo Franco da Fonseca. Dá-lhe Rossano! – 2011 – Org. Mario Rozano.