Atahualpa Yupanqui * 23.05.1992

Don Ata

Héctor Roberto Chavero – #Juan A. de la Peña, 31.01.1908 – * Nimes (França), 23.05.1992 – desde sempre Atahualpa Yupanqui. Hoje, o vigésimo quinto ano de sua partida. Deixo aqui um texto escrito por ele e um presente que recebi deste homem que dignificou a América, o mundo, com sua voz, com sua palavra, com sua guitarra em busca da quebra da desigualdade entre os homens. Don Atahualpa Yupanqui.

Tempo do Homem

“A partícula cósmica que navega meu sangue é um mundo infinito de forças siderais. Veio a mim sob um largo caminho de milênios, quando talvez fui areia para os pés do ar. Logo fui a madeira, raiz desesperada submersa num silêncio de um deserto sem água. Depois fui caracol, quem sabe onde, e os mares me deram a primeira palavra. Depois a forma humana derramou sobre o mundo a universal bandeira do músculo e da lágrima. E cresceu a blasfêmia sobre a velha Terra, o açafrão, o “tilo”, a copla e a “piegaria”. Então vim a América para nascer um homem e em mim juntei a selva, os pampas e a montanha. Se um avô da planície galopou até meu berço, outro me disse histórias em sua flauta de “cana”. Eu não estudo as coisas, nem pretendo entende-las. As reconheço, é certo, pois antes vivi nelas. Converso com as folhas em meio dos montes e me dão suas mensagens as raízes secretas. E assim vou pelo mundo sem idade nem destino, ao amparo de um cosmos que caminha comigo. Amo a luz, o rio, o caminho e as estrelas, e floresço em violões porque fui a madeira.”

 

D.ATA

Fotografia: Desafio de corrida de cavalos – Hipódromo do Cristal

Nunca havia fotografado corridas de cavalo. Ou melhor, apenas uma tentativa fracassada, quando ainda estudante de Jornalismo fiz um trabalho para a disciplina de Fotografia no Hipódromo do Cristal. Foram fotos comuns. Em 2014, houve aqui em Porto Alegre um desafio entre os jóqueis Russell Baze, Estados Unidos, e Jorge Ricardo, Brasil, os dois maiores vencedores do mundo. Meu irmão Mário, me levou para fazer algumas  fotos. Era setembro, abril o pai havia partido, e lá era o ambiente da vida dele como profissional. Foi difícil. Tudo o que fiz foram, mais uma vez, como no tempo de estudante, fotos convencionais. Mas, em homenagem a eles, meu pai e meu irmão, agora juntos nos hipódromos do infinito, deixo neste Chronos o pouco que fiz naquele dia em que reencontrei a história de tantas vidas.

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Fotos: Chronosfer. (A propósito, o brasileiro venceu o desafio e “Por una cabeza” é um tango imortalizado por Carlos Gardel que tem o tema turfe.

Judy Collins sings Lennon & McCartney

Judy Collins

Judy Collins é presença sempre bem-vinda neste Chronos. A capa acima já esteve em um post com suas canções da dupla beatle, de Bob Dylan e Leonard Cohen. Trazer de volta não tem o sentido de repetir. A cantora folk é doce em suas interpretações, há um sentimento de paz em cada uma das músicas. E hoje, dia especial, Judy é quem faz a homenagem a todas as mães, as que partiram e as que estão entre nós.

 

 

Conto: A estação / The station

Hoje, 26 de abril o circulo de três anos da partida do meu pai e o dos sete meses do meu irmão se completam. A ausência de ambos estão em meus olhos que, como a terra, semeiam em seu brilho a saudade, que floresce a cada dia dos dias que ainda me cabem viver. A eles, um texto que havia já publicado neste Chronos, e ao reler cada uma de suas linhas, elas me trazem a presença dos dois na estação de nossas vidas. Faço junto uma versão em inglês, pelo Google Tradutor, para os tantos seguidores e visitantes que passam por aqui e que vivem em outras terras amigas.

estação

A ESTAÇÃO

A estação não atrai mais os pássaros. As luzes apagadas apenas recebem o sol da manhã. As telhas descansam seus vincos tingidos pelo sereno. Deixam vazar um ou outro pequeno vão por onde é lapidada a lembrança. Há muito a pele da madeira e os seus feixes estavam secos. Todo o dia ali era noite. Não a vemos como os velhos a vêem em suas memórias, hoje procurando refúgio. Elas nunca mais estarão abertas como antes, estão misturadas como retalhos tecidos à mão. Mas, sempre há um nervo que se abre e deixa fugir um pedaço da alma. Depois, retorna às pressas com medo do horizonte tenso e em brasa do lado de fora. O que era turvo aos olhos torna−se mais turvo sobre as linhas refletidas na água dos córregos, margeando o verde desse silêncio. A estação não atrai mais do que relâmpagos e temporais. Depois, passam, deixam rastros, ferrugens e cicatrizes azuladas como as veias que recortavam os braços do último maquinista. Ali, o trem parou, e o tempo seguiu seu destino. A mudez das sombras, coberta de cinzas, fundiu−se com os trilhos e os dormentes. Não há mais como voltar. O esquecimento é apenas um território cujo mistério nasceu quando caiu o último letreiro de viagem com as histórias de muitas vidas.

 

The station

The station does not attract more birds. The lights out only receive the morning sun. The tiles rest their creases dyed by the serene. Let leak one or another little go by where is faceted to memory. There’s a lot of wood and skin their beams were dry. All day there was night. We don’t see how the old see it in his memoirs, today looking for refuge. They will never again be opened as before, are mixed as hand-woven flaps. But, there is always a nerve that opens and go away a piece of the soul. Then returns in haste with fear of tense and horizon on fire outside. What was cloudy in the eyes makes it more blurred on the − lines reflected in the water of streams, bordering the green of this silence. The station attracts more than lightning and thunderstorms. Then, pass, leave traces, rusts and bluish scars like the veins that cut out the last train driver. There, the train stopped, and followed your target time. The muteness of the shadows, covered in ashes, merged with the rails and − the sleepers. There’s no more turning back. Oblivion is just a territory whose mystery was born when the last sign of journey with the stories of many lives.

Foto: Chronosfer. Estação ferroviária de Rio Branco, Uruguai.

Quinteto El Después: Tango Instrumental

El despues

Hoje, 26, seis meses da partida do meu irmão Mário e dois anos e 11 meses do pai. Não tenho nem sei como dimensionar a ausência e a falta que fazem. Nos últimos tempos da vida do Mário, falávamos e escutávamos muito tango, herança do nosso pai, e em especial o instrumental. O novo abrindo espaço. Um dia cheguei para ele com o Quinteto El Despues, e logo foi me dizendo, como sempre dizia, que lá vinha eu com grupos e seus nomes diferentes. Com o café à mesa deixamos o tempo passar. Cúmplice do que estávamos desejando não acontecer. Aconteceu. El Despues, o silêncio de uma vida, que me habita a cada dia dos dias que vivo. Para os Mário, pai e irmão.

Fotografia: Glaciar Perito Moreno – Patagônia Argentina

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Dedicado a meu pai Mário Rossano, hoje 2 anos e 10 meses de sua partida, e a meu irmão Mário, também hoje 5 meses que nos deixou. Ao contemplar Perito Moreno a paz se instala e não sai mais. É como a saudade.

Fotos: Chronosfer