Paul McCartney, Sir

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The Beatles. Nos anos sessenta do início da minha adolescência, eles estavam presentes. E o passar do tempo em mim em nada modificou isso. Naqueles anos, havia uma ordem que eu imaginava ser a minha ordem: John, George e depois Paul e Ringo. Os vocais talvez indicassem que essa ou aquela canção não necessariamente seguia o Lennon&McCartney das assinaturas. E então, as minhas contradições apareciam: gostava das canções de Paul sem saber que eram de Paul. Claro, isso passados anos após o desfecho do quarteto. Levei quem sabe décadas para perceber que o beatle de verdade sempre foi Paul. Não consigo imaginar um show do tamanho dos que McCartney produz, com canções dos Beatles, feitos por Lennon ou Harrison. Não consigo imaginar John no piano e “Let it be” ou Harrison e “Eleonor Rigby”. Apenas não consigo imaginar. os quatro funcionavam juntos. E cada um com seu jeito de ser, de compor, de tocar, de cantar, de estarem juntos. Separados, John era ex-beatle, George também e Ringo muito próximo disso. Paul é o beatle. Ele toca e canta “Something” ao natural ou qualquer canção de John. parece que nada se quebra, é um beatle sendo beatle. E isso me comove. Levei tempo para entender. Hoje, Paul McCartney está em Porto Alegre. E posso dizer a ele, dentro do sonho, Sir Paul Mc Cartney, The Beatles.

The Beatles. In the sixties of early adolescence, they were present. And the passage of time in me did nothing to change that. In those years, there was an order that I imagined was my order: John, George, and then Paul and Ringo. The vocals might indicate that this or that song did not necessarily follow Lennon & McCartney’s signatures. And then, my contradictions appeared: I liked Paul’s songs without knowing they were Paul’s. Of course, this happens years after the quartet’s end. It took me decades to realize that the real Beatle was always Paul. I can not imagine a show the size of what McCartney produces, with Beatles songs, made by Lennon or Harrison. I can not imagine John at the piano and “Let it be” or Harrison and “Eleonor Rigby”. I just can not imagine. all four worked together. And each with his way of being, of composing, of playing, of singing, of being together. Separated, John was ex-beatle, George too, and Ringo very close to that. Paul is the beatle. He plays and sings “Something” to the natural or any song by John. it seems that nothing is broken, it is a beatle being beatle. And that moves me. I took time to understand. Today, Paul McCartney is in Porto Alegre. And I can tell him, in the dream, Sir Paul Mc Cartney, The Beatles.

Foto: http://newsmuz.com/news/2015/dom-gde-vyros-paul-mccartney-prodadut-na-aukcione-33601

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Tom Petty: * 02.10.2017

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O rock cria lendas. Herois. Alimentam nossos sonhos. Muitas vezes, revelam nossas realidades. Como seres humanos, muitos desses herois, dessas lendas também fizeram o mesmo caminho. Alimentaram-se dos grandes do rock. E seguiram seus caminhos. Tom Petty é um desses músicos que engajado a uma turma de exceção na música, tornou-se membro efetivo. Pelo seu talento. Por sua sensibilidade. Seja solo, seja com os The Heartbreakers, seja com Bob Dylan, seja com os Traveling Wilburys. Soube ser discreto, soube ser astro, soube escrever crônicas urbanas irretocáveis. Soube ser um guitarrista poderoso. Soube, sobretudo, ser humano. Fará falta.

Rock creates legends. Heroes Feed our dreams. They often reveal our realities. As human beings, many of these heroes, of these legends also did the same way. They fed the rock greats. And they went their ways. Tom Petty is one of those musicians who engaged an exception band in music, became an effective member. For your talent. For your sensitivity. Be solo, be with The Heartbreakers, be with Bob Dylan, or with the Traveling Wilburys. He knew how to be discreet, he knew how to be a star, he was able to write irreconcilable urban chronicles. I knew how to be a powerful guitar player. I learned, above all, to be human. It will be missed.
Foto: Sam Jones

 

Fotografia: Aos nossos filhos (To our children)

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Aos nossos filhos

Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim
Perdoem por tantos perigos
Perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos
Os dias eram assim
Perdoem a falta de folhas
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha
Os dias eram assim
E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim
Quando lavarem a mágoa
Quando lavarem a alma
Quando lavarem a água
Lavem os olhos por mim
Quando brotarem as flores
Quando crescerem as matas
Quando colherem os frutos
Digam o gosto pra mim

To our children

Forgive us our grim face
Forgive us for the lack of embrace
Forgive us for the lack of space
The days where like this
Forgive us for the many dangers
Forgive us for the lack of shelter
Forgive us for the lack of friends
The days where like this
Forgive us for the lack of leaves
Forgive us for the lack of air
Forgive us for the lack of choice
The days where like this
And when they write it out
And when they cut the cords
And when they unbuckle the safety belts
Throw a party for me
When they wash away the sorrow
When they wash the soul
When they wash the water
Wash your eyes for me
When the flowers blossom
When the forests grow back
When they pick the fruits
Tell their taste to me
Música: Ivan Lins & Vitor Martins.
Foto: Chronosfer.#Pray for Las Vegas. #no more violence. #no more terrorism. #no more impunity.
Also dedicated to Tom Petty.

26.09.2016/26.09.2017

MARFER

Não tenho lembrança desse dia. É como se minha memória estivesse apagada. Porém, ao olhar a foto, fico infinitamente feliz por ter vivido esse dia.

Hoje, o primeiro ano da partida do meu irmão. Ali em cima, a esquerda de quem olha. Comigo. Há uma outra foto. O pai, que hoje completa três anos e cinco meses de ausência, está entre nós. Não encontro a foto. Esta sim, está na memória. Estão sempre juntos comigo. Até o infinito.

Na nossa adolescência, gostávamos de rock. Escutávamos em um pequeno quarto na casa da nossa avó materna – o quartinho, como chamávamos – o que tínhamos de disco. Um dia, cheguei com o Live at Leeds do The WhoFoi paixão imediata. Virou nome do “quartinho”. O destino é muitas vezes generoso. Hoje, Porto Alegre recebe pela primeira vez o The Who. Não estaremos juntos ao vivo para assisti-los. Fica, com a licença do pai, um apaixonado por tangos e milongas, um rock do Who para o meu irmão Mário, o Mariozinho como delicadamente o chamávamos.

I have no memory of that day. It’s as if my memory is out. But when I look at the photo, I am infinitely happy to have lived that day.

Today, the first year of my brother’s departure. Up there, the left of whoever looks. With me. There is another photo. The father, who is now three years and five months absent, is among us. I can not find the photo. This one is in memory. They are always with me. Until the Infinity.

In our teen years, we liked rock. We would listen in a small room in our maternal grandmother’s house – the little room, as we called it – the one we had on the record. One day, I arrived with The Who’s Live at Leeds. It was immediate passion. It became the name of the “little room”. Destiny is often generous. Today, Porto Alegre hosts The Who for the first time. We will not be together live to watch them. He gets, with his father’s permission, a lover of tangos and milongas, a Who’s rock for my brother Mario, Mariozinho as we gently called him.

Fotografia: Apenas olhar…(Just look…)

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Fotos: Chronosfer. É assim, apenas olhar. Sentir. Viver. Pouco importa se é em cores ou em p&b. Quem sabe, a poesia do olhar. É a vida se revelando aos sentidos.

It’s like, just look. To feel. To live. It does not matter whether it’s in color or in b&w. Who knows, the poetry of the look. It is life revealing itself to the senses.

Conto: “Um amor inesquecível”, por Gustavo ´Lopecito´ Lopez

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UM AMOR INESQUECÍVEL
Lopecito (*)

O dia em que completei dezoito anos lembro que meu pai olhou para mim e disse:
– Filho, começa outra etapa. Você já é um adulto.
Honestamente eu sentia-me o mesmo babaca do dia anterior, mas tentei interpretar o mandato.
Ainda imerso em uma ditadura militar atroz que durou toda a minha adolescência mas começava a lançar as hurras, eu me perguntava o que poderia fazer de diferente na minha vida a partir desse momento.
As respostas não demoraram em chegar a minha cabeça. Tendo dezoito podia ir ao cinema para ver filmes com mulheres nuas sem esgueirar-me na entrada (os poucos seios que permitia olhar o censor Tato); entrar no cassino com o documento de identidade fixado na testa como se fosse o ás de espadas e, por que não, conhecer um hipódromo.
Assim foi como em finais de 1981 fiz minha primeira experiência no turfe e, como você pode imaginar, não parei nunca mais.
Entrar no velho Palermo era como ir para escola. Sentava-me nos degraus do Paddock, a poucos metros da coluna desde onde as pombas descarregavam bombas impiedosas sobre os adventícios, e meus parceiros de arquibancada eram sempre os mesmos: Horacio, Daniel, Coco, Pistola, Mura, Paul y Walter. Horacio era por vários corpos o maior do grupo e nunca tivemos a coragem de tratá-lo com muita confiança. Evidentemente não era velho, mas estava feito um papiro. Jamais o vimos com outro elemento de estudo que não fosse o Programa Oficial, e quando falava de corridas impunha um respeito mortal. Na realidade, só pela casualidade sabíamos o seu nome. Pra nós era simplesmente “O Catedrático”.
Se falávamos de jóqueis, o cara os tinha visto correr a todos: Legui, Jara, Nardi… Bem, não vou citar a todos. Porém, tinha uma debilidade: Batruni.
Para O Catedrático, José Luis Batruni era o jóquei mais completo que tinha visto y cuidado daquele que tivesse a audácia de discuti-lo. Uma vez tivemos que levá-lo para a enfermaria da raiva que tomou com um fulano que lhe fazia piadas.
Eu não tinha visto na minha puta vida o Grande Prêmio Jockey Club que “O Polvozinho” Batruni tinha vencido esse mesmo ano com o cavalo Tello, mas ele me contou a corrida tantas vezes que… Bom, não o contava, o atuava. Num segundo montava-se sobre o Programa que colocava entre suas pernas e com seu boné batia uns chicotes impressionantes. Comovia, eu juro.
Ele nos acompanhou dez anos no mesmo lugar e me ensinou tudo o que os livros não ensinam, até que uma tarde simplesmente desapareceu. Naqueles tempos sem telefonia celular de pronto descobrimos que incrivelmente ninguém sabia onde morava nem como contatá-lo. Tentamos, mas nunca mais voltamos a vê-lo. Durante anos, cada vez que olhava para Avenida Dorrego esperava ver o boné cinzento entre a multidão. Acreditamos no pior final.
Uma manhã de 2011 eu esperava em um desses consultórios médicos onde há trezentas portas e atendem mil especialidades, viu? Quando de repente meu coração se acelerou.
Sentado ao lado de uma mulher um pouco maior do que eu, um velho muito velho e em uma cadeira de rodas não levantava os olhos do chão.
Tinham passado mais de vinte anos e o boné agora era verde, mas esse era O Catedrático.
Saí catapultado, cumprimentei rapidamente a mulher, me abaixei e lhe disse:
– Oi Horacio, sou Gustavo. Se lembra? Do Hipódromo de Palermo!
Nada…
Tentei com um par de nomes das pessoas daquele grupo, mas ele nem sequer me olhou.
A mulher apresentou-se como Laura e me contou que depois de dois AVCs Horacio nunca tinha logrado se recuperar. Hoje tinha 88 e já desde dois anos atrás quase não vivia momentos de lucidez. Nem sequer lembrava-se dos nomes de seus filhos. Horacio, sempre sem olhar para mim, disse baixinho algumas frases sem sentido nenhum.
Cumprimentei-os com uma tristeza que me encolhia o coração e voltei ao meu lugar.
Horacio e Laura entraram para ver o neurologista. Minha cabeça era um turbilhão.   Chegou o meu turno com o oftalmologista, mas o deixei passar. Você me entende, não? Precisava ver ao Horacio pela última vez.
Esperei.
Quando eles saíram me acerquei para cumprimentar novamente. Voltei a me curvar para ficar na altura daquele rosto e joguei o movimento de xadrez que aqueles minutos tinham-me permitido elaborar:
– Horacio, que montaria Batruni! Não é?
Levantou a cabeça lentamente, olhou nos meus olhos por alguns segundos e respondeu apenas balançando a cabeça:
– O Polvozinho.
Lagrimando expliquei a Laura o que tinha acontecido, e choramos juntos.
Continuei tentando, porfiado, com Tello, L’Express, mas sem sucesso. O Catedrático já tinha voltado a se despedir.
Hoje ainda fico emocionado pensando naquele “volta e volta o churrasquinho” do Paddock, naquele suco escuro que o Oviedo puxava do seu tambor metálico e nos vendia como café, na sexta edição do periódico Crónica na saída com “A tragédia de hoje!”, nos motoristas de ônibus que na porta gritavam “Vamos para Liniers! Vamos para Liniers!” E, claro, vejo ao Horacio montado no programa e batendo chicotes com seu boné cinzento.
Pronto para fechar estas linhas, vem a minha mente aquela música de Los Charros e cantarolo: “Um amor como o nosso, não deve morrer jamais”.

Notas
– Miguel Paulino Tato foi um jornalista e crítico de arte nascido em Buenos Aires. Dirigiu entre 1974 e 1980 o Ente de Classificação Cinematográfica e foi considerado o máximo censor da história do cinema argentino.
– Legui, Jara, Nardi… Históricos jóqueis do turfe argentino. Irineo “O Polvo” Leguisamo, Eduardo Jara, Oscar “Pocho” Nardi.
– Tello e L’Express foram grandes cavalos de corrida guiados pelo “Polvozinho” José Luis Batruni.
– Durante muitas décadas, na porta do Hipódromo de Palermo se estacionavam longas fileiras de ônibus que transportavam passageiros para distintos bairros de Buenos Aires como Liniers, Boedo, Flores, etc.
– Los Charros é um grupo musical argentino, da província de Chaco.

(*) Lopecito, o autor do conto, é o criador do blog “Los Pingos de Todos” que funcionou durante dez anos. Atualmente colabora no Hipódromo de Azul, na província de Buenos Aires.

  • Hoje 26, sempre ao meu lado, a saudade pede um café, escuta Piazzolla, e começa a olhar com os seus olhos tranquilos os meus, que acolhem um mar de tristeza, água e sal. No infinito, meu pai e meu irmão, por certo conversam sobre a vida, o turfe, a ausência aqui e, quem sabe, da saudade de todos nós. E dos amigos de tantas idas e vindas neste universo das corridas de cavalos. E vem da Argentina, de Buenos Aires, este conto que abraça os dois. Escrito pelo Gustavo “Lopecito” Lopez, Um amor inesquecível é desses momentos que chegam para ficar. Amigo, que a geografia impediu até agora de abraçar, não apenas esteve com o Mário irmão, como me recebeu no seu Los Pingos de Todos, sobre turfe, naturalmente. O meu abraço de muito obrigado a ele, ao Marcelo, ao Pablo, e ao Marcos Rizzon do http://www.jornaldoturfe.com.br/ , onde pela primeira vez este conto encontrou casa. (a música é escolha deste Chronos)