Fotografia: (M)arcas do tempo

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Fotos: Chronosfer. Villa Dr. J. M. Muñoz, Montevidéu. – O tempo somos, com suas marcas e arcas. Somos o olhar para trás, para o agora e questionamos o amanhã. O tempo. Apenas passa e nós o acompanhamos.

Miniconto: Fragmentos do destino (Fragments of destiny)

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Das cinzas, o sol; da madeira, as veias; dos ossos, a pele; da vida, o exílio; do Tempo, o tempo; do talho, o destino coagulado. Dentro, a noite adentro.

From the ashes, the sun; the wood, the veins; of bones, skin; of life, exile; of Time, time; in the cut, the coagulated destiny. Inside, the night inside.

Texto e foto: Chronosfer. Colonia de Sacramento, Uruguai.

Crônica: Meu Velho

 

 

Pai e Mar

Meu Velho

Quando tua pele escureceu por trás desse vitral, e teu corpo criava coreografias que te sustentavam entre os teus havias chegado à maturidade sem festa,

Quando o meu assovio te irritava e ganhavas mais velocidade para fugir do reflexo que fazia sobre teus olhos, eras adolescente diante de mim e o medo não tinha significado algum,

Quando todos os outros corriam em eterna disputa pelo pequeno pedaço de comida, flutuavas como folha de outono ao vento da manhã,

Quando amanhecias ainda na noite da tua casa podia te ver solitário no canto que escolhestes para ser teu como tua era a casa,

Quando eu insistia em atravessar o olhar pelas íris já brancas do teu tempo, em silêncio admirava teus movimentos e sentia queimar esse vidro esverdeado que nos separava,

Quando tua partida já estava sendo anunciada não pedistes para acelerar a ida, lutavas em teu cotidiano por mais um dia,

Quando enfim não havia mais dia algum, não renunciaste à vida, olhaste de frente o que te esperava do outro lado desse vitral, na aridez da laje fria que meus pés pisam, e que hoje perdeu suas cores e fez, Meu Velho, com que tudo ficasse mais vazio e sem sentido.

Quando agora olho a todos os outros, é a ti, Meu Velho, que minha voz chama e é por ti que meus olhos salgam as horas ausentes da tua história.

Foto: Jockey Club do RS. Hoje, 26, mais um mês da partida de meu pai e meu irmão. O pai, em abril de 2014. Meu irmão, setembro 2016. O texto tem uma história de alguns anos atrás que é a de um peixe, criado em aquário pela Inês. Ela conhece cada um e cada um tem seu nome. O Velho era um lutador. Incansável, resistiu a um voo para fora do aquário, voltou a nadar e aos poucos seu brilho se desfez. Não deixou nunca de lutar. De continuar. É em homenagem aos dois Mário que o post repousa neste Chronos.

Kronos Quartet: Folk Songs

Folk

Dias atrás, uma canção deste disco esteve por aqui (“Lullaby” com Rhiannon Giddens). O Kronos não fica e nem se permite ficar no clássico convencional. Abre horizontes para além de suas linhas imaginárias. Em Folk Songs faz a travessia em arranjos sombrios e quase tristes do mais tradicional da música norte-americana, francesa e da Inglaterra. Com as vozes e participações vitais de Sam Amidon, Olivia Chaney, Rhiannon Giddens e Natalie Merchant o disco ganha proporções magníficas e cada canção provoca novas experiências. Um álbum memorável.

 

Miniconto: João Baptista

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Atrás das lentes dos óculos, João Baptista recebe pequenos fachos da luz do sol. Pelas frestas de vidro, seu mundo é como um fio de naylon, em cujas fibras se entranha o presente. Naqueles espaços medidos em milímetros, a vida não presta atenção nos movimentos das retinas, que o tempo acinzentou. Espera a chuva, ao pé da árvore, sem gestos. Apenas com as mãos entrelaçadas.

Levanta os olhos ao sentir os primeiros pingos baterem em seus cabelos. Encolhe seu corpo magro e pequeno em volta do cobertor, para proteger o que ainda resta da roupa. O latido incessante do cachorro ao seu lado é o único sinal de vida que pula a muralha do silêncio junto com o trovão perdendo a eterna corrida contra a luz do relâmpago.

O dia cede, aos poucos, sua luminosidade às nuvens. Os trapos de João Baptista, iluminados pela última luz, formam uma sombra até o meio-fio. A ausência do fogo é o segredo guardado pelos atalhos em que vive. Há muito sua voz está incinerada pela dispersão das palavras.

Estica os braços, vê o balançar dos pequenos lumes e então colhe a eletricidade do temporal. A vela úmida penetra na eternidade, deixando para trás a porta aberta.

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Fotos: Chronosfer. Este miniconto foi postado em janeiro de 2015. Como as outras republicações, acesso quase zero. A personagem é real, e caminha pelas ruas do cotidiano.

Atahualpa Yupanqui * 23.05.1992

Don Ata

Héctor Roberto Chavero – #Juan A. de la Peña, 31.01.1908 – * Nimes (França), 23.05.1992 – desde sempre Atahualpa Yupanqui. Hoje, o vigésimo quinto ano de sua partida. Deixo aqui um texto escrito por ele e um presente que recebi deste homem que dignificou a América, o mundo, com sua voz, com sua palavra, com sua guitarra em busca da quebra da desigualdade entre os homens. Don Atahualpa Yupanqui.

Tempo do Homem

“A partícula cósmica que navega meu sangue é um mundo infinito de forças siderais. Veio a mim sob um largo caminho de milênios, quando talvez fui areia para os pés do ar. Logo fui a madeira, raiz desesperada submersa num silêncio de um deserto sem água. Depois fui caracol, quem sabe onde, e os mares me deram a primeira palavra. Depois a forma humana derramou sobre o mundo a universal bandeira do músculo e da lágrima. E cresceu a blasfêmia sobre a velha Terra, o açafrão, o “tilo”, a copla e a “piegaria”. Então vim a América para nascer um homem e em mim juntei a selva, os pampas e a montanha. Se um avô da planície galopou até meu berço, outro me disse histórias em sua flauta de “cana”. Eu não estudo as coisas, nem pretendo entende-las. As reconheço, é certo, pois antes vivi nelas. Converso com as folhas em meio dos montes e me dão suas mensagens as raízes secretas. E assim vou pelo mundo sem idade nem destino, ao amparo de um cosmos que caminha comigo. Amo a luz, o rio, o caminho e as estrelas, e floresço em violões porque fui a madeira.”

 

D.ATA

Conto: João Baptista

ferandorozano

Atrás das lentes dos óculos, João Baptista recebe pequenos fachos da luz do sol. Pelas frestas de vidro, seu mundo é como um fio de naylon, em cujas fibras se entranha o presente. Naqueles espaços medidos em milímetros, a vida não presta atenção nos movimentos das retinas, que o tempo acinzentou. Espera a chuva, ao pé da árvore, sem gestos. Apenas com as mãos entrelaçadas.
Levanta os olhos ao sentir os primeiros pingos baterem em seus cabelos. Encolhe seu corpo magro e pequeno em volta do cobertor, para proteger o que ainda resta da roupa. O latido incessante do cachorro ao seu lado é o único sinal de vida que pula a muralha do silêncio junto com o trovão perdendo a eterna corrida contra a luz do relâmpago.
O dia cede, aos poucos, sua luminosidade às nuvens. Os trapos de João Baptista, iluminados pela última luz, formam uma sombra até o meio-fio. A ausência do fogo é o segredo guardado pelos atalhos em que vive. Há muito sua voz está incinerada pela dispersão das palavras.
Estica os braços, vê o balançar dos pequenos lumes e então colhe a eletricidade do temporal. A vela úmida penetra na eternidade, deixando para trás a porta aberta.

Foto: Chronosfer

Conto: A estação / The station

Hoje, 26 de abril o circulo de três anos da partida do meu pai e o dos sete meses do meu irmão se completam. A ausência de ambos estão em meus olhos que, como a terra, semeiam em seu brilho a saudade, que floresce a cada dia dos dias que ainda me cabem viver. A eles, um texto que havia já publicado neste Chronos, e ao reler cada uma de suas linhas, elas me trazem a presença dos dois na estação de nossas vidas. Faço junto uma versão em inglês, pelo Google Tradutor, para os tantos seguidores e visitantes que passam por aqui e que vivem em outras terras amigas.

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A ESTAÇÃO

A estação não atrai mais os pássaros. As luzes apagadas apenas recebem o sol da manhã. As telhas descansam seus vincos tingidos pelo sereno. Deixam vazar um ou outro pequeno vão por onde é lapidada a lembrança. Há muito a pele da madeira e os seus feixes estavam secos. Todo o dia ali era noite. Não a vemos como os velhos a vêem em suas memórias, hoje procurando refúgio. Elas nunca mais estarão abertas como antes, estão misturadas como retalhos tecidos à mão. Mas, sempre há um nervo que se abre e deixa fugir um pedaço da alma. Depois, retorna às pressas com medo do horizonte tenso e em brasa do lado de fora. O que era turvo aos olhos torna−se mais turvo sobre as linhas refletidas na água dos córregos, margeando o verde desse silêncio. A estação não atrai mais do que relâmpagos e temporais. Depois, passam, deixam rastros, ferrugens e cicatrizes azuladas como as veias que recortavam os braços do último maquinista. Ali, o trem parou, e o tempo seguiu seu destino. A mudez das sombras, coberta de cinzas, fundiu−se com os trilhos e os dormentes. Não há mais como voltar. O esquecimento é apenas um território cujo mistério nasceu quando caiu o último letreiro de viagem com as histórias de muitas vidas.

 

The station

The station does not attract more birds. The lights out only receive the morning sun. The tiles rest their creases dyed by the serene. Let leak one or another little go by where is faceted to memory. There’s a lot of wood and skin their beams were dry. All day there was night. We don’t see how the old see it in his memoirs, today looking for refuge. They will never again be opened as before, are mixed as hand-woven flaps. But, there is always a nerve that opens and go away a piece of the soul. Then returns in haste with fear of tense and horizon on fire outside. What was cloudy in the eyes makes it more blurred on the − lines reflected in the water of streams, bordering the green of this silence. The station attracts more than lightning and thunderstorms. Then, pass, leave traces, rusts and bluish scars like the veins that cut out the last train driver. There, the train stopped, and followed your target time. The muteness of the shadows, covered in ashes, merged with the rails and − the sleepers. There’s no more turning back. Oblivion is just a territory whose mystery was born when the last sign of journey with the stories of many lives.

Foto: Chronosfer. Estação ferroviária de Rio Branco, Uruguai.

Fotografia: Um tempo para viver a vida

O meu abraço a todos, pela vida, pela paz, pela compreensão, por um horizonte sem fronteiras e todos convivendo em harmonia, cada um com suas convicções.

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Leia um livro. Receba novos olhares e leituras.

Montevideu 28

Escreva no espaço vazio. Poema, texto, conto. Não importa o que, apenas escreva o sente e deseja.

Montevideu 27

Depois, sente com a gente, tome um café. Estamos todos juntos. Em paz.

 

Fotos: Chronosfer. Pelas paredes de Montevidéu.