Miniconto: Coroas de Cristo

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Os vincos nas costas doíam. As mãos não alcançavam o dorso. Sentia crescer, entre a pele e a carne, finas camadas de coágulos. O corpo curvou-se, os ossos estalaram. Ao encontrar o chão, descobriu Coroas de Cristo. Os espinhos avermelhados recolheram-se, deixando tesa e acinzentada a retina envelhecida.

No outro lado da rua, as janelas fecharam-se, os vizinhos retornaram às suas tramas caseiras.
O inverno é apenas um dos quatro cantos do Tempo.

Foto: Chronosfer. Este texto foi publicado em 2015, quando os acessos eram próximos de zero.

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Miniconto: Martin I, II & III

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MARTIN

Nem a chuva intermitente afasta Martin do banco da praça. O jornal, dobrado, borra a roupa. Quase nenhuma, seja o frio intenso. Olha as pessoas à espera do ônibus. Formam uma única massa, pensa. Desvia o olhar, leva-o ao fim da avenida. Pouco antes de a primeira quadra alcançar a metade, a noite avança. Ganha espaço da luz acesa, tem nos olhos ainda o resto do dia. Os traços das mãos são segredos, seu baú de carne e ossos e veias. Os bolsos escondem as fatias do tempo. Repartidas dia após dia, escondem o mofo mastigado pelas horas. Mede a travessia… um, dois, três, quatro passos… para o outro lado da rua sem o ânimo dos músculos. Falar para dentro a conversa diária entre uma palavra e outra sobrevivente do dilúvio que arrastara o vocabulário, seu sinal de visita aqui, porta aberta para quem chega.A noite seca o sono. Ajeita alma, coração e corpo entre as fissuras da madeira. Acomoda as fundas rugas, de onde nascem densos brancos, que se dobram sem rebeldia. Ao lado, rente ao chão, os sonhos dormentes feitos de relâmpagos e estrelas.

Manhã, retrato sem cor, por trás das janelas despertam sombras e sol.

II

Por trás das janelas, manhã, sol em febre. Sobre os cortes úmidos do musgo, desprende o corpo da noite. Martin, trêmulo, ergue o que falta para ficar em pé. O apagar das luzes artificiais comprime a praça vazia aos estreitos castanhos dos olhos recém despertos. O traço da boca mergulha na garrafa quase vazia de água. Desce mais lento ainda o alimento único. Nos primeiros passos, olhares por trás das janelas, alvoroça o silêncio das folhas sem estação. Atravessa as asas incertas dos pássaros e segue o caminhar do vento. A parede próxima indica datas. As mesmas de ontem, de muito antes. Cartaz colado em cima de cartaz, calendário. Nomes diferentes, fotografias e palavras distorcidas pela natureza do dia-a-dia. Segue. O rio não está longe. Do mar não sabe, nunca viu. Ouve as vozes, dentro ou de fora, pouco importa, ouve com a vertigem da hora incerta, correria para a hora certa. Nada é com ele. É passado, diz, foi presente, lembra.

Os lábios adoçam o futuro: – Um dia, quem sabe.

Anda como quem escreve uma carta sem destinatário. Passa as ruas como quem pula parágrafos. Amassa o chão como se fosse a folha escrita e não gosta do que escreveu. O olhar já distante sente o mormaço do meio-dia sem a sombra, veio com o amanhecer, pensa.
Sente o cheiro do rio. Sério, gosto de felicidade em preto e branco, risca o céu da boca com a língua. Para, antes de o sinal abrir verde, o feixe de sonhos avermelha sem soluços sem olhos marejados sem a morte sanguínea da palavra.

O outro lado o espera.
Antes de a noite chegar, a maré já terá partido no mar que nunca soube.

 

III

Do mar nunca soube, sabe o mar. Sob as enrugadas árvores tece, nos gestos lentos, a curva do que não sonhou. Um bando de folhas secas, voando como ave migratória, cobre as pálpebras, o esquecimento. Molha os pés. Beira do rio, margem branca, margem de vertigens. Margem.  Os cabelos, poucos, conhecem o sol, acolhem seu calor. As mãos solitárias inventam movimentos, traçam no espaço desenhos, disputam com as nuvens formas e formas. Manhã, sem janelas por perto, as cores cruzam os braços, avermelham a pele, ilumina como lampião os olhos tintos. Estilhaços acesos. A água chega, mansa, translúcida, com a face do dia. Sabor do silêncio nessa areia de ninguém. Martin, dono do vazio, mastiga o horizonte como o entardecer engole o último sol. Intenso e laranja antes do azul ser negro. Mordaça dos anos passados, as pedras insones da memória provam o gosto do instinto. Gira o corpo. Na faixa estreita entre rio e cidade, a história segue o rumo. Para trás, para frente, não sabe. Sabe, sempre soube a história. Torna a olhar o traço nada uniforme das ilhas à frente. Duas, três. Não sabe, nunca soube. Passa barco, passa rede vazia, passa automóvel, passa. Fica o passado. Presente.

Martin ajeita o corpo, joga às costas a mochila, caminha. Para no tempo outra vida.

Conto: Um Frankenstein gaucho, por Marcelo Fébula

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De volta á vila, uma das visitas obrigadas era a casa dos Garrido, essa que minhas memórias de menino associavam somente ao tédio. A relação entre nossas famílias cobria mais de um século, se iniciou quando dois antepassados delimitaram seus campos num lugar que nem sequer tinha nome claramente definido. Eram terras roubadas aos índios, depois dadas a alguns militares da chamada Campanha ao Deserto que não estava deserto e finalmente compradas muito barato por oportunistas locais, aves de rapina aos que se adicionaram aqueles dois europeus esfarrapados em circunstâncias desconhecidas. Nunca quis investigar o assunto, que alguns pintavam como uma historia épica.

E ai estava eu outra vez, olhando a os Garrido e os Gómez pequenos jogar futebol no quintal do fundo enquanto as gerações maiores falavam como papagaios de coisas que trinta anos depois continuavam sem me interessar. Na propriedade vizinha, separada apenas por uma cerca, também olhava o jogo um homem muito encurvado que bebia chimarrão sentado em uma cadeirinha de palha, com um grande cão a seu lado. Depois de alguns risos e olhares cúmplices pelas ocorrências dos guris, o homem invitou–me para atravessar a cerca oferecendo um chimarrão. Acho que nós os turfistas nos reconhecemos imediatamente, depois de dois minutos já estávamos falando sobre cavalos, e assim continuamos até que ouvi a chamada para comer os tradicionais macarrões dos domingos.

 

Durante a conversa haviam captado minha atenção umas enferrujadas armações de bicicleta e várias engrenagens, polias e placas de ferro empilhadas contra um galpão, entre a grama alta. O homem aquele advertiu minha curiosidade.

–Agora tudo está abandonado, mas embora você não acredite, essa bicicleta em seus tempos ultrapassou os 200 kph –disse ele quando estávamos nos separando.

Na mesa do almoço tentei perguntar aos Garrido pelo vizinho que tinham, mas eles respondiam só sorrindo ou se tocavam a têmpora girando o dedo indicador. Na hora do café o dono de casa disse–me algo mais concreto.

–É um velho mentiroso. Durante muito tempo foi parceiro desse louco que morava na entrada da vila, aquele que sempre estava fazendo experiências estranhas e pedia ser chamado O Professor. De tanto compartilhar o tempo com tal personagem, ficou meio louco ele também.

Eu nunca tinha visto ao vizinho, e tampouco sabia de que louco me estava falando. Mas não perguntei mais nada. Em definitiva eu tinha deixado à vila há muitos anos e só voltava uma ou duas vezes no ano, quase como turista.

 

Planejava uma estadia de poucos dias lá, mas queria falar novamente com aquele turfista que me havia impressionado como um grande conversador, não tão velho como sugeria sua figura corcunda. Acomodando alguns compromissos, consegui visitá–lo novamente. Sentado na mesma cadeirinha, o homem me falou como se tivéssemos interrompido a conversa dois minutos antes.

–Essa bicicleta foi uma das maiores invenções do Professor. Faltou-lhe desenvolvimento. O mecanismo era muito complexo, as peças quebravam-se com muita freqüência. Mas de qualquer maneira chegamos a testá-la na rota, foi uma coisa impressionante.

Decidi avançar com cautela.

–Acho que alguns conhecidos me falaram sobre esse senhor. Ele morava no caminho da entrada, certo?

–Com segurança disseram que era louco. Muitos preconceitos, muita inveja, muita ignorância. As pessoas não consideravam seriamente ao Professor. Mas ele era um gênio.

Dom Correa –chamava-se assim– serviu outro chimarrão e continuou.

–Eu tive a grande honra de ser seu assistente. O dia em que citamos pessoas para mostrar a bicicleta alcancei os 60 kph, mais ou menos. Quando estava tomando uma velocidade importante pularam engrenagens para todos os lados e cai de cabeça em uma sarjeta. Todos riam em nossa cara, mas duas semanas depois estávamos novamente na rota com a máquina feita nova. Foi um sucesso, mais nessa oportunidade não havia ninguém para testemunhá–lo. Logo de outras quebraduras o Professor não quis insistir com a remontagem. Nesses tempos já estava muito focado na genética.

–Era engenheiro, ou algo assim?

–Tinha conhecimentos que abarcavam muitas ciências. Um dois muitos que zombavam dele era o diretor da escola. Pergunte a seus conhecidos, várias pessoas devem lembrar a competência que tiveram no clube.

–Que aconteceu? –perguntei percebendo que sorria maliciosamente.

–O Professor desafiou ao diretor a fazer cálculos de três ou quatro dígitos, ele pensando e o outro com uma calculadora. A partir desse dia o diretor não zombou mais. As pessoas da vila sempre lhe olharam sarcasticamente fazendo comentários absurdos, mas o Professor era um homem que estava além de todas as estupidezes da gente.

Dom Correa tornou-se sério novamente. Parecia assumir quase solenemente o papel de um cruzado em defesa de uma pessoa por quem tinha grande admiração. Uma pessoa sobre quem, aparentemente, a gente da vila falava em tom de brincadeira.

–E em termos de genética, que estudava ele?

Pensou um pouco, removendo a erva da cuia. Depois me olhou atentamente. Só então percebi que tinha bastante estrabismo.

–Você não parece uma pessoa mal intencionada, então vou lhe contar. Ele tinha uma teoria para aplicar ao pedigree de cavalos de corrida.

–Item interessante, se houver.

–Sim. Mas cuidado, não era uma teoria mais para o cruzamento de sangues, isto era outra coisa. O Professor argumentava que outra forma de chegar ao super-cavalo ficava no armado direito. É dizer, não confiar à natureza a transmissão de determinadas características, intrometer mãos diretamente.

–Desculpe, não entendo.

–A resistência de um animal, a velocidade de outro, o temperamento de outro, e assim. O mesmo que se busca com os cruzamentos de sangues, mas neste caso experimentando com tecidos.

Por um momento pensei que estava a fazendo-me uma dessas longas piadas que os camponeses constroem com paciência até que o tolo cai. Mas este homem não tinha a aparência ou a forma de falar dos camponeses. Também lembrei a conversa com o Garrido maior e avaliei a possibilidade de estar falando com um louco.

–Tecido vivo? Que fazia ele, desmembrava animais e depois fixava com cola?

Dom Correa sorriu. Perdoava o que tinha ouvido.

–Não fique ansioso, meu amigo. O Professor referia-se aos tecidos de animais mortos, com algum nível de conservação. Se fora possível, com pouco tempo decorrido desde o rigor mortis.

–Uma espécie de Frankenstein eqüestre.

–Se você quer definir assim… Mas não tem que imaginar um cavalo com costuras em todas as partes movendo-se como um robô quando recebe um choque elétrico. Isso é dos filmes. A teoria sugeria a injeção de células num animal vivo.

Devolvi-lhe o chimarrão e fiquei imóvel olhando para o chão. Não sabia que perguntar.

–Parece loucura, certo. Eu também tinha essa impressão. Mas o Professor já havia adiantado umas primeiras experiências elementares com camundongos, muito boas, e não tinha duvidas. Ficava ansioso por começar o desenvolvimento de sua teoria nos cavalos.

–Que faziam os camundongos?

–Segundo me contou, porque eu nessa época não lhe conhecia, eles foram progredindo até possuir um nível de inteligência maior a media normal. O fato é que o Professor não teve que insistir muito para me convencer de ajudá-lo. Olhe, vou ser honesto com você. Eu sempre fui apostador. Quando ele me falou do assunto o primeiro que eu imaginei foi o desastre que poderia fazer nas corridas do campo. Até sonhei com um desembarque nos hipódromos de Buenos Aires. Mas foi um trabalho muito duro, para desencorajar aos mais entusiastas.

Neste ponto da conversa sentia uma grande curiosidade pela história.

–Qual era o trabalho?

–Tentando detectar bons cavalos de corridas falecidos recentemente, viajamos milhares de quilômetros. Conseguimos tomar a primeira mostra só depois de um mês, em um povoado perto da província de La Pampa. Uns homens nos deram referências de um cavalo muito veloz que tinha ganhado um monte de dinheiro para seu dono. Ele havia-o enterrado em um canto do campo onde tinha sua casa.

–E aquele cara deu permissão para que vocês cavassem ai?

–Custou muito convencê-lo, mais finalmente saímos dai com a mostra. Foi uma exceção, a maioria das pessoas que contatávamos nos chutava fora ou soltava seus cães ferozes. Uns extremistas atiraram-nos um par de tiros de espingarda. Mas de longe, para assustar.

–Mas vocês continuaram.

–Claro. Áreas perto de pistas de corrida, estabelecimentos de criação, nós viajávamos lá onde houvesse possibilidades de obter mostras. Passou um longo tempo e um dia, segundo o Professor, já tínhamos o básico para começar.

–E a que pobre bicho vocês agarraram para o experimento?

–Se deu algo fortuito. Como nós destinávamos todo para as viagens, não tínhamos um centavo para comprar nada. Você conhece aos Irureta?

–Soa-me o sobrenome… São os produtores de leite, acho.

–Eles mesmos. Também se dedicam a criança de cavalos rápidos, gostam das corridas. Bom, uma tarde de muita chuva vou até seu campo para tentar comprar-lhes um cavalo em parcelas, ou fazer algum arranjo semelhante. Fui diretamente para o galpão grande, me protegendo da chuva. Quando entro no galpão olho ao filho maior do basco, o único solteiro, numa situação, digamos… Uma situação comprometida. Sempre foi um menino um pouco tímido.

–Bom, a masturbação é algo normal.

–Sim, mas ele estava com uma das éguas do lugar, fazendo equilibro numa cadeira. Em fim…

–Ah, isso é outra coisa.

–Quase no mesmo momento apareceu ai o pai dele. Resumo-lhe a questão: eu não queria extorquir ao basco, mas não tive problemas em sair dai com um cavalinho, barato e a pagar em parcelas.

–Entendo.

–Nesse momento o Professor começou o tratamento. Ao tempo disse que tínhamos bem cobertas as partes de fortaleza óssea e resistência. Faltava um pouco de velocidade. Então ele ficou com o cavalo e eu saí a pesquisar esse material necessário. Encontre algo no matadouro clandestino de uns caras muito perigosos, que recebiam animais com lesões insuperáveis.

Dom Correa foi à procura de água para o chimarrão. Eu continuava duvidando entre as duas possibilidades: ou estava zombando de mim o faltavam-lhe alguns parafusos. Mas quando apareceu outra vez renovei a conversa, como se estivéssemos falando de algo comum.

–Bom, já tinham tudo o necessário.

–O Professor dizia que o experimento estava indo muito bem, que só precisávamos um último toquezinho de inteligência, apontando para o nível que tinha alcançado com os camundongos.

–E o cavalo? Ele tinha mudado em alguma coisa?

–Aparentemente era o mesmo burro que comprei ao basco. Digo mais, aquela tarde, quando sai com ele do campo, um dos empregados do estabelecimento me disse baixinho:  “se você consegue fazê-lo correr, eu me torno freira”. Até esse momento eu não advertia nenhuma mudança nele. Mas como confiava cegamente no Professor, outra vez saí ao caminho para conseguir o que ele pedia.

–Agora tinha que fazer averiguações sobre cavalos inteligentes.

Dom Correa voltou a sorrir, mas com pouca vontade.

–Não. A inteligência que ele queria lhe injetar era humana. Vou guardar detalhes escabrosos e de mau gosto. Foi à pior parte do trabalho. Mas ao pouco tempo tínhamos finalizada a primeira parte do projeto. Só cabia esperar os primeiros resultados, que segundo o Professor começariam a fazerem-se evidentes em duas ou três semanas. E assim foi.

–Que aconteceu?

–Olhe, a primeira mudança que adverti não deixava dúvidas. Foi emocionante. Um dia levei ao cavalo até o beco que fica perto do braço do rio Salado, e pedi a um jóquei conhecido que lhe fizera um exercício de curta distancia. Quando cronometrei o teste, não podia acreditar. Quis enganar ao jóquei, mas aquele pequeninho era muito astuto. Pediu-me dinheiro para evitar rumores e poder tosquiar a meio mundo o dia que apresentáramos ao cavalo em uma corrida. Finalmente cheguei a um acordo dizendo-lhe que ele mesmo seria o jóquei quando chegasse a hora.

–O Professor também gostava das apostas?

–Não. Para ele o mais importante era provar sua teoria. Mas se para isso era necessário mergulhar-se no ambiente das corridas, não tinha problemas.

–Mas, além desse exercício no beco, o animal foi tendo outras mudanças?

–Sim, em coisas cotidianas. Como se parava quando lhe colocávamos os implementos para exercitar, como esperava a comida, como sabia os horários de tudo. E o olhar. Isso eu não posso explicar com palavras. Tinha um olhar muito estranho, às vezes me provocava medo. Mas além de tudo, o que mais me impressionava era como corria. Uma bala. Quando fizemos outro ensaio formal com o jóquei e cronometragem, já não existiu espaço para dúvidas. Tínhamos que fazer sua inscrição o mais rapidamente possível. Assinamos seu nome na primeira grande reunião hípica que encontramos. E a partir desse momento começaram as complicações.

Dom Correa ficou um tempo olhando as árvores, enquanto contorcia seu rosto ao tentar roer as pontas de seu bigode. Depois de uma pausa voltou a falar.

–Um dia nós invitamos ao jóquei para comer um churrasco. Ficávamos os três tomando um vermute a um lado da casa, debaixo dos choupos. No momento em que fui para a grelha para adicionar um pouco de carvão, olhei o cavalo. Estava ai, comendo salsichas.

–Eh?

–Sim. Assaltou a grelha. Eu mantive silencio, como se nada, mas apenas o jóquei voltou a sua casa contei o acontecido ao Professor. Ele me disse que ficara tranqüilo, que não havia motivos sérios para nos alarmar. Bom, eu calculo que passaram um par de dias, e uma manhã muito cedo me acorda uma forte buzina. Era o basco Irureta com seu caminhão. Rapidamente me contou: a noite anterior seu pessoal tinha descoberto ao cavalo dentro do galpão grande fazendo-se um festival com as éguas. Tinha servido pelo menos duas delas. Os peões quiseram detê-lo, mas não conseguiram e ele fugiu.

–Ficou ciumento o filho.

–O que aconteceu foi que o basco estava adicionado ao negocio. A idéia foi minha, porque estávamos atrasados no pago das parcelas, e não tive outra solução. Assim, ele não considerava muito importante o que fizera o cavalo com suas éguas, o que o preocupava muito era o estado físico do animal quando faltava uma semana para a corrida. Não me lembro do pretexto que utilizei para que nosso sócio voltasse a seu campo sem vê-lo, porque eu algo suspeitava. Quando cheguei correndo ao estábulo que lhe havíamos armado o encontrei deitado, dormindo, com a boca aberta e roncando. Espalhadas ao seu redor, várias caixas de vinho vazias. Fui voando para a cozinha, onde armazenávamos os suprimentos. Não havia nenhuma caixa. Ele as havia roubado.

–Terrível festeiro. Não fumava?

–Quisemos acordá-lo, mas era impossível. Bati nele duas vezes com o chicote, e então se levantou. Felizmente meus reflexos funcionaram bem, além da desconfiança por aquele olhar estranho que ele tinha. Puxou-me um golpe assassino com sua pata, esquivei de milagre. Quebrou duas tábuas. Quando nos viu distantes, novamente deitou-se para dormir.

–E naquele ponto dos acontecimentos, o Professor que dizia?

–Já estava muito preocupado. Não descansava, fazia mil revisões de seus papeis e cálculos permanentemente. Além disso, se estava esgotando seu dinheiro. Eu nunca perguntei, acho que recebia ordens de pagamento do exterior e de repente cortou-se aquele sistema, porque deixou de ir ao banco da vila e começamos a ter dificuldades, mesmo para comer. Eu quando olhei o cavalo com seu estado normal, o levei outra vez para o beco do Salado e confirmei que continuava sendo um tiro. Orei ao céu para que ele não fizesse coisas estranhas até a reunião hípica do seguinte domingo.

–Finalmente competiu?

–Sim. Foi um desastre.

Dom Correa suspirou.

–Perdeu muito mal? Sem atenuantes?

–Não. Desde a ressaca até a corrida havia se comportado muito bem, e quando ingressou a pista tudo normal, sem nenhum problema. Quando chegou seu turno de correr ficamos na pequena arquibancada com o Professor e o basco enquanto o jóquei o levava para o fundo, até o sinal demarcatório dos 500 metros, que era à distância da corrida. Era um compromisso muito difícil, ele enfrentava a dois dos melhores cavalos velocistas de uma grande área. Bom, vou abreviar. Abrem-se os partidores e ele sai à frente de todos. E assim continua, liderando eu diria com facilidade. Não exagero, quando faltavam uns 50 metros para a línea de chegada, o lugar onde nós estávamos parados, ele traria como cinco o seis corpos de vantagem sobre o segundo.

–E?

–Foi algo muito estranho, nunca vi uma coisa assim. O jóquei vinha com a postura clássica, quase pousando para foto, celebrando com antecedência. Quase na linha o cavalo abriu-se um pouco, deu um forte corcovo e de repente olhamos ao jóquei viajando pelo ar. Caiu no meio do povo. O cavalo cruzou primeiro, mas claro, sem jóquei.

–Estou imaginando a bagunça.

–Isso não é tudo. Depois, com esse olhar estranho que comentei, voltou sozinho pelo meio da pista, caminhou até ficar muito perto do nosso lugar na arquibancada e puxou três o quatro peidos impressionantes. Os gauchos faziam fila para rir.

–Incrível.

–O jóquei tinha quebrado até o cabelo, ainda deve estar engessado. Com o Professor fizemos contas e concluímos que tínhamos que ficar vários meses levantando latas de leite no campo de Irureta para poder pagar as parcelas que devíamos.

–E o cavalo?

–Depois daquele dia ficou com nós no estabelecimento do basco. Normal, como si nada tivesse acontecido. Uma manhã o montou um peão e saiu com ele para a velha estrada de terra. Quando voltou disse que aquele animal corria como um demônio, que não podia perder uma corrida embora sobre suas costas tivesse uma bolsa de batatas em lugar de jóquei. Aproveitando a circunstância, fiz uma proposta para Irureta: nós voltávamos o cavalo a seu campo definitivamente, desistíamos de participar nos lucros futuros que ele originara, e dessa forma cancelávamos nossa dívida.

–Mas o Professor concordava com essa proposta? Era seu projeto científico.

–Olhe. Segundo ele a experiência tinha sido positiva, e não gostava nada acordar às cinco da manhã para trabalhar levantando latas de leite. Aceitou de imediato e felicitou-me pela excelente idéia.

–E depois disso cortaram todo o vínculo?

–Não totalmente. Através de meus contatos chegaram várias noticias contando do excelente nível que tinha o cavalo. Além de destas fugas de informação, a gente do basco conservava bastante bem o segredo e tinham planos para fazer uma manobra em uma grande reunião pelo povo de Tandil. Eu sonhava com o olhar desse animal, e suspeitava algo ruim. Ao tempo conheci a noticia: o cavalo os enterrou a todos, o dia da corrida nem moveu as patas. E três dias depois, quando ficava novamente no campo do basco, desapareceu. Ninguém o viu mais.

Dom Correa foi para a cozinha. Eu fui ao galpão para olhar os ferros de bicicleta enferrujados. O velho reapareceu com o pacote de erva, mas eu já era muito tarde para mim. Só tinha uma pergunta mais.

–E que foi da vida do Professor?

–Trabalhou em outros projetos, sempre comigo de assistente.  A casa onde morava não era sua propriedade, uma gente havia-lhe emprestado. Um dia lhe avisaram que tinha que sair daí porque o imóvel estava á venda. Nesse momento nós nos separamos. Eu consegui trabalho com um cunhado e ele foi para a província de Córdoba, onde tinha pessoas amigas. Por algum tempo chegaram cartas a casa de mia irmã. Agora ha muito tempo que ele não escreve.

 

Enquanto o ônibus deixa a vila rumo a Buenos Aires, penso no velho Correa e suas histórias. Talvez elas sejam verdadeiras, talvez o Garrido grande não errasse longe quando falou de um falsário. Não posso esquecer a imagem do cão que quase no movia-se de seu lado enquanto tomávamos chimarrão e conversávamos. Aspecto de selvagem, olhos oblíquos. Com movimentos lentos, lambia sua mão a cada momento e depois esfregava-la em sua face.

 

 

Marcelo Fébula