Ficção: Don Antonio (Fiction: Don Antonio)

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Havia esquecido as horas. O lugar exato está em algum lugar da memória. Ela já começara a anunciar sua despedida desde o dia em que o reflexo no espelho começou a ser diferente todas as manhãs. Muito tempo por aqui, dizia. A voz rouca, quase sem poder ser ouvida, ainda articula poucas palavras. O cansaço acompanha o olhar velho, ressequido, sem cor. O cheiro da terra molhada nos dias de chuva e os olhos no horizonte ao anoitecer, quando as raras lâmpadas da casa são acesas, encobrem a tristeza, o medo e as sombras dos noventa anos sobreviventes do sol. As retinas azuladas confessam os fragmentos reconstruídos, os mesmos que deixaram os fantasmas de Maria para trás. Os mesmos que trazem Ponta Delgada e a Ilha de São Miguel sem pressa, quase sem querer para este outro que ele é hoje. Este estranho que ainda vive somente com os músculos da dor e do vazio. Este outro que se perde dentro de um corpo cujo peso dos ossos mostra sua cota de vida.

Muito tempo por aqui – repete – muito tempo. Sorri o riso entristecido de quem não vivera todo o fogo do instinto. Mastiga o fumo e com o hálito quente volta ao silêncio. Seus passos se afastam da janela, quando, lenta, a noite começa seu turno diário e em um único tempo, vindas da galáxia, as estrelas surgem acima de sua cabeça. A madeira queima no fogão e ele, com seus pulsos fracos, toca a cama. A solidão é um sonho marcado em alguma página do livro que fica no chão.

As horas param pouco antes de o sol nascer.

 

He had forgotten the time. The exact place is somewhere in the memory. She had already begun to announce her farewell since the day when the reflection in the mirror began to be different every morning. Long time here, he said. The hoarse voice, barely audible, still articulates few words. The weariness accompanies the old, dry, colorless look. The scent of wet earth on rainy days and eyes on the horizon at dusk, when the house’s rare lamps are lit, mask the sadness, fear, and shadows of the ninety years of the sun. The blue retinas confess the reconstructed fragments, the same ones that left the ghosts of Mary behind. The same ones that bring Ponta Delgada and the Island of São Miguel without hurry, almost unintentionally for this other that it is today. This stranger still lives only with the muscles of pain and emptiness. This other that is lost within a body whose weight of the bones shows its quota of life.

Long time around here, he repeats, a long time. I smiled the sad laugh of someone who had not lived all the fire of instinct. He chews on the smoke and with his warm breath returns to silence. His steps move away from the window, when, slowly, the night begins its daily shift and in a single time, coming from the galaxy, the stars rise above his head. The wood burns on the stove and he, with his weak wrists, touches the bed. Loneliness is a dream marked on some page of the book lying on the floor.

The hours stop just before the sun rises.

Publicado pela Revista Magma, nº 7, 2008 – Lajes de Pico, Açores, Portugal.
Foto: Chronosfer. Buenos Aires, Argentina.

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Ficção: Olhos da manhã (Fiction: Morning Eyes)

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A névoa assombra as retinas da manhã. Os músculos do sol arrefecem antes de os primeiros golpes da chuva despertem a areia das horas. O cinza se veste por cima do azul do dia e tece a cidade com suaves tramas. A luz, quieta, aos poucos silencia as nuvens. O milagre do amanhecer é um tempo sagrado, que se hospeda entre as margens das minhas mãos e a boca da terra, em cujos olhos descansa o incêndio da vida.

A saudade é a memória do que ainda não chegou.

 

The haze haunts the retinas in the morning. The muscles of the sun cool before the first blows of the rain awaken the sand of the hours. The gray dresses over the blue of the day and weaves the city with soft plots. The light, quiet, slowly silences the clouds. The miracle of dawn is a sacred time, which lodges between the banks of my hands and the mouth of the earth, in whose eyes rests the fire of life.

Longing is the memory of what has not yet come.

Foto: Chronosfer.

Ficção: Pampa

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O olhar dobra o horizonte. No silêncio verde da pampa, os cascos dos potros latejam. A lida noite adentro descansa na roda de fogo das horas. Os homens há muito olham o destino como lâmina. O brilho do sol amanhece antes de a galáxia desaparecer do sonho.

The look doubles the horizon. In the green silence of the pampa, the foal’s hooves throb. The night read inside rests on the evening fire wheel. Men have long looked upon fate as a blade. The sun’s brightness dawns before the galaxy disappears from the dream.

Conto: “Um amor inesquecível”, por Gustavo ´Lopecito´ Lopez

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UM AMOR INESQUECÍVEL
Lopecito (*)

O dia em que completei dezoito anos lembro que meu pai olhou para mim e disse:
– Filho, começa outra etapa. Você já é um adulto.
Honestamente eu sentia-me o mesmo babaca do dia anterior, mas tentei interpretar o mandato.
Ainda imerso em uma ditadura militar atroz que durou toda a minha adolescência mas começava a lançar as hurras, eu me perguntava o que poderia fazer de diferente na minha vida a partir desse momento.
As respostas não demoraram em chegar a minha cabeça. Tendo dezoito podia ir ao cinema para ver filmes com mulheres nuas sem esgueirar-me na entrada (os poucos seios que permitia olhar o censor Tato); entrar no cassino com o documento de identidade fixado na testa como se fosse o ás de espadas e, por que não, conhecer um hipódromo.
Assim foi como em finais de 1981 fiz minha primeira experiência no turfe e, como você pode imaginar, não parei nunca mais.
Entrar no velho Palermo era como ir para escola. Sentava-me nos degraus do Paddock, a poucos metros da coluna desde onde as pombas descarregavam bombas impiedosas sobre os adventícios, e meus parceiros de arquibancada eram sempre os mesmos: Horacio, Daniel, Coco, Pistola, Mura, Paul y Walter. Horacio era por vários corpos o maior do grupo e nunca tivemos a coragem de tratá-lo com muita confiança. Evidentemente não era velho, mas estava feito um papiro. Jamais o vimos com outro elemento de estudo que não fosse o Programa Oficial, e quando falava de corridas impunha um respeito mortal. Na realidade, só pela casualidade sabíamos o seu nome. Pra nós era simplesmente “O Catedrático”.
Se falávamos de jóqueis, o cara os tinha visto correr a todos: Legui, Jara, Nardi… Bem, não vou citar a todos. Porém, tinha uma debilidade: Batruni.
Para O Catedrático, José Luis Batruni era o jóquei mais completo que tinha visto y cuidado daquele que tivesse a audácia de discuti-lo. Uma vez tivemos que levá-lo para a enfermaria da raiva que tomou com um fulano que lhe fazia piadas.
Eu não tinha visto na minha puta vida o Grande Prêmio Jockey Club que “O Polvozinho” Batruni tinha vencido esse mesmo ano com o cavalo Tello, mas ele me contou a corrida tantas vezes que… Bom, não o contava, o atuava. Num segundo montava-se sobre o Programa que colocava entre suas pernas e com seu boné batia uns chicotes impressionantes. Comovia, eu juro.
Ele nos acompanhou dez anos no mesmo lugar e me ensinou tudo o que os livros não ensinam, até que uma tarde simplesmente desapareceu. Naqueles tempos sem telefonia celular de pronto descobrimos que incrivelmente ninguém sabia onde morava nem como contatá-lo. Tentamos, mas nunca mais voltamos a vê-lo. Durante anos, cada vez que olhava para Avenida Dorrego esperava ver o boné cinzento entre a multidão. Acreditamos no pior final.
Uma manhã de 2011 eu esperava em um desses consultórios médicos onde há trezentas portas e atendem mil especialidades, viu? Quando de repente meu coração se acelerou.
Sentado ao lado de uma mulher um pouco maior do que eu, um velho muito velho e em uma cadeira de rodas não levantava os olhos do chão.
Tinham passado mais de vinte anos e o boné agora era verde, mas esse era O Catedrático.
Saí catapultado, cumprimentei rapidamente a mulher, me abaixei e lhe disse:
– Oi Horacio, sou Gustavo. Se lembra? Do Hipódromo de Palermo!
Nada…
Tentei com um par de nomes das pessoas daquele grupo, mas ele nem sequer me olhou.
A mulher apresentou-se como Laura e me contou que depois de dois AVCs Horacio nunca tinha logrado se recuperar. Hoje tinha 88 e já desde dois anos atrás quase não vivia momentos de lucidez. Nem sequer lembrava-se dos nomes de seus filhos. Horacio, sempre sem olhar para mim, disse baixinho algumas frases sem sentido nenhum.
Cumprimentei-os com uma tristeza que me encolhia o coração e voltei ao meu lugar.
Horacio e Laura entraram para ver o neurologista. Minha cabeça era um turbilhão.   Chegou o meu turno com o oftalmologista, mas o deixei passar. Você me entende, não? Precisava ver ao Horacio pela última vez.
Esperei.
Quando eles saíram me acerquei para cumprimentar novamente. Voltei a me curvar para ficar na altura daquele rosto e joguei o movimento de xadrez que aqueles minutos tinham-me permitido elaborar:
– Horacio, que montaria Batruni! Não é?
Levantou a cabeça lentamente, olhou nos meus olhos por alguns segundos e respondeu apenas balançando a cabeça:
– O Polvozinho.
Lagrimando expliquei a Laura o que tinha acontecido, e choramos juntos.
Continuei tentando, porfiado, com Tello, L’Express, mas sem sucesso. O Catedrático já tinha voltado a se despedir.
Hoje ainda fico emocionado pensando naquele “volta e volta o churrasquinho” do Paddock, naquele suco escuro que o Oviedo puxava do seu tambor metálico e nos vendia como café, na sexta edição do periódico Crónica na saída com “A tragédia de hoje!”, nos motoristas de ônibus que na porta gritavam “Vamos para Liniers! Vamos para Liniers!” E, claro, vejo ao Horacio montado no programa e batendo chicotes com seu boné cinzento.
Pronto para fechar estas linhas, vem a minha mente aquela música de Los Charros e cantarolo: “Um amor como o nosso, não deve morrer jamais”.

Notas
– Miguel Paulino Tato foi um jornalista e crítico de arte nascido em Buenos Aires. Dirigiu entre 1974 e 1980 o Ente de Classificação Cinematográfica e foi considerado o máximo censor da história do cinema argentino.
– Legui, Jara, Nardi… Históricos jóqueis do turfe argentino. Irineo “O Polvo” Leguisamo, Eduardo Jara, Oscar “Pocho” Nardi.
– Tello e L’Express foram grandes cavalos de corrida guiados pelo “Polvozinho” José Luis Batruni.
– Durante muitas décadas, na porta do Hipódromo de Palermo se estacionavam longas fileiras de ônibus que transportavam passageiros para distintos bairros de Buenos Aires como Liniers, Boedo, Flores, etc.
– Los Charros é um grupo musical argentino, da província de Chaco.

(*) Lopecito, o autor do conto, é o criador do blog “Los Pingos de Todos” que funcionou durante dez anos. Atualmente colabora no Hipódromo de Azul, na província de Buenos Aires.

  • Hoje 26, sempre ao meu lado, a saudade pede um café, escuta Piazzolla, e começa a olhar com os seus olhos tranquilos os meus, que acolhem um mar de tristeza, água e sal. No infinito, meu pai e meu irmão, por certo conversam sobre a vida, o turfe, a ausência aqui e, quem sabe, da saudade de todos nós. E dos amigos de tantas idas e vindas neste universo das corridas de cavalos. E vem da Argentina, de Buenos Aires, este conto que abraça os dois. Escrito pelo Gustavo “Lopecito” Lopez, Um amor inesquecível é desses momentos que chegam para ficar. Amigo, que a geografia impediu até agora de abraçar, não apenas esteve com o Mário irmão, como me recebeu no seu Los Pingos de Todos, sobre turfe, naturalmente. O meu abraço de muito obrigado a ele, ao Marcelo, ao Pablo, e ao Marcos Rizzon do http://www.jornaldoturfe.com.br/ , onde pela primeira vez este conto encontrou casa. (a música é escolha deste Chronos)

 

Miniconto: Fragmentos do destino (Fragments of destiny)

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Das cinzas, o sol; da madeira, as veias; dos ossos, a pele; da vida, o exílio; do Tempo, o tempo; do talho, o destino coagulado. Dentro, a noite adentro.

From the ashes, the sun; the wood, the veins; of bones, skin; of life, exile; of Time, time; in the cut, the coagulated destiny. Inside, the night inside.

Texto e foto: Chronosfer. Colonia de Sacramento, Uruguai.

Miniconto: João Baptista

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Atrás das lentes dos óculos, João Baptista recebe pequenos fachos da luz do sol. Pelas frestas de vidro, seu mundo é como um fio de naylon, em cujas fibras se entranha o presente. Naqueles espaços medidos em milímetros, a vida não presta atenção nos movimentos das retinas, que o tempo acinzentou. Espera a chuva, ao pé da árvore, sem gestos. Apenas com as mãos entrelaçadas.

Levanta os olhos ao sentir os primeiros pingos baterem em seus cabelos. Encolhe seu corpo magro e pequeno em volta do cobertor, para proteger o que ainda resta da roupa. O latido incessante do cachorro ao seu lado é o único sinal de vida que pula a muralha do silêncio junto com o trovão perdendo a eterna corrida contra a luz do relâmpago.

O dia cede, aos poucos, sua luminosidade às nuvens. Os trapos de João Baptista, iluminados pela última luz, formam uma sombra até o meio-fio. A ausência do fogo é o segredo guardado pelos atalhos em que vive. Há muito sua voz está incinerada pela dispersão das palavras.

Estica os braços, vê o balançar dos pequenos lumes e então colhe a eletricidade do temporal. A vela úmida penetra na eternidade, deixando para trás a porta aberta.

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Fotos: Chronosfer. Este miniconto foi postado em janeiro de 2015. Como as outras republicações, acesso quase zero. A personagem é real, e caminha pelas ruas do cotidiano.

Conto: A estação / The station

Hoje, 26 de abril o circulo de três anos da partida do meu pai e o dos sete meses do meu irmão se completam. A ausência de ambos estão em meus olhos que, como a terra, semeiam em seu brilho a saudade, que floresce a cada dia dos dias que ainda me cabem viver. A eles, um texto que havia já publicado neste Chronos, e ao reler cada uma de suas linhas, elas me trazem a presença dos dois na estação de nossas vidas. Faço junto uma versão em inglês, pelo Google Tradutor, para os tantos seguidores e visitantes que passam por aqui e que vivem em outras terras amigas.

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A ESTAÇÃO

A estação não atrai mais os pássaros. As luzes apagadas apenas recebem o sol da manhã. As telhas descansam seus vincos tingidos pelo sereno. Deixam vazar um ou outro pequeno vão por onde é lapidada a lembrança. Há muito a pele da madeira e os seus feixes estavam secos. Todo o dia ali era noite. Não a vemos como os velhos a vêem em suas memórias, hoje procurando refúgio. Elas nunca mais estarão abertas como antes, estão misturadas como retalhos tecidos à mão. Mas, sempre há um nervo que se abre e deixa fugir um pedaço da alma. Depois, retorna às pressas com medo do horizonte tenso e em brasa do lado de fora. O que era turvo aos olhos torna−se mais turvo sobre as linhas refletidas na água dos córregos, margeando o verde desse silêncio. A estação não atrai mais do que relâmpagos e temporais. Depois, passam, deixam rastros, ferrugens e cicatrizes azuladas como as veias que recortavam os braços do último maquinista. Ali, o trem parou, e o tempo seguiu seu destino. A mudez das sombras, coberta de cinzas, fundiu−se com os trilhos e os dormentes. Não há mais como voltar. O esquecimento é apenas um território cujo mistério nasceu quando caiu o último letreiro de viagem com as histórias de muitas vidas.

 

The station

The station does not attract more birds. The lights out only receive the morning sun. The tiles rest their creases dyed by the serene. Let leak one or another little go by where is faceted to memory. There’s a lot of wood and skin their beams were dry. All day there was night. We don’t see how the old see it in his memoirs, today looking for refuge. They will never again be opened as before, are mixed as hand-woven flaps. But, there is always a nerve that opens and go away a piece of the soul. Then returns in haste with fear of tense and horizon on fire outside. What was cloudy in the eyes makes it more blurred on the − lines reflected in the water of streams, bordering the green of this silence. The station attracts more than lightning and thunderstorms. Then, pass, leave traces, rusts and bluish scars like the veins that cut out the last train driver. There, the train stopped, and followed your target time. The muteness of the shadows, covered in ashes, merged with the rails and − the sleepers. There’s no more turning back. Oblivion is just a territory whose mystery was born when the last sign of journey with the stories of many lives.

Foto: Chronosfer. Estação ferroviária de Rio Branco, Uruguai.