Testament of Youth: a film by James Kent

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Aos dezessete anos os sonhos transbordam. Tal qual um tsunami, não têm medo dos obstáculos que os impeçam de avançar. Sonhos não destroem vidas, flutuam até um dia se tornarem realidade. Ou não. Como seria sonhar e viver em 1914? Ter exatos dezessete anos, nos meses que estavam quase ao alcance da 1ª Grande Guerra Mundial, para Vera Brittain (Alicia Vikander) era um universo de amizade e amor por Roland Leighton (Kit Harington). Testament of Youth, com a mão segura de James Kent, entra nesse mundo de Vera. A biografia da jovem que viveu os amargos anos em que durou o conflito bélico (1914/18) é reflexivo e atual. Pular dos sonhos para a realidade, penetrar em um universo onde a dor, a contagem do tempo pode ser de apenas segundos entre a vida e a morte, e a perda são os companheiros mais fiéis de um tempo sombrio é um envelhecimento da humanidade para o lado ainda mais sombrio que é capaz. O processo de amadurecimento da jovem Brittain, de seus irmãos e amigos são fotografias de hoje. Os anos e as formas de combate mudam. Os atos são os mesmos ou piores. Se em 1914 a tecnologia era absolutamente quase nada em relação aos dias de hoje, se os recursos médicos ainda eram limitados, se as armas mesmo mortais eram menos sofisticadas, a essência do ser humano continuou (e continua) sendo dominadora independente de época. A capacidade que possuímos para a paz parece se desfazer com a ambição pela conquista. E essa espécie de conquista não é catalogada como sonho. A narrativa é dolorosa e densa. Vai povoando a vida interior e exterior de Vera e dos personagens. Forja ainda mais seu caráter, sua personalidade, sua coragem. Seu humanismo. Traçar um paralelo com 2015 parece ser cruel. Não é. Basta um único olhar para dentro do que acontece em nossos dias para que nossas peles sintam a verdade queimar impiedosa sobre nossas consciências. Um filme pesado, concreto e sem muitas palavras. Para que possamos olhar a vida com discernimento e jamais deixarmos de sonhar.

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I Am Sam: music from and inspired by the motion picture

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Inserir os Beatles em nossas vidas e cotidianos é muito simples. Eles estão sempre presentes, e sempre estarão. A sensação é de que passa ano entra ano eles são cada vez melhores. E qualquer trilha se não tiver um disco completo deles pelo menos uma ou duas canções estão na playlist. É inevitável. E muitos filmes e séries se valem do talento do quarteto inglês para criarem situações muitas vezes únicas em cenas ou de alegria ou de complexidade dramática. O filme I am Sam estrelado por Sean Penn e Michelle Pfeiffer (2001) tem em sua trilha sonora uma verdadeira coletânea dos Beatles. Dezenove músicas que muito mais que emoldurar o enredo se completam e ganham vida para além da tela. No roteiro, o diretor Jessie Nelson trabalha com o talento de Penn e Pfeiffer ao contar a história de Sam Dawson, um homem com atraso cognitivo que cria sua filha Lucy (Dakota Fanning) com a ajuda de seus amigos. O que até então era uma vida normal, chega ao fim quando Lucy completa sete anos e ultrapassa a capacidade intelectual do pai o que desperta a atenção da Assistência Social. O destino da menina, o orfanato, passa a ser decidido na Justiça, por força da advogada Rita Harrison que o defende até a decisão final. Aqui fica em aberto para quem desejar assistir ao filme. Além de uma trama sensível e sobretudo reflexiva, a trilha é magnífica. Um encontro de linguagens transformou o disco em um interessante painel sobre a obra dos Beatles através de arranjos e interpretações de diversos artistas de gêneros tão diferentes entre de si e dos próprios autores. A lista é significativa: Eddie Vedder (“You´ve got to hide your love away”), Nick Cave (“Let it be”, “Here comes the sun”), Bem Harper (“Strawberry fields forever”), Sheryl Crow (“Mother nature´s son”), Bem Folds (“Golden slumbers”), entre outros nomes de peso. Sem dúvida, um álbum entrelaçado ao roteiro, às interpretações dos atores e músicos engajados na proposta. Para se ter sempre por perto. Abaixo, o disco na íntegra.


Vida perde Manoel de Oliveira

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O coração do cineasta português Manoel de Oliveira parou de bater na manhã desta quinta-feira. Aos 106 anos de idade, e em plena atividade, a perda não é apenas para o cinema. É para o mundo da Cultura. De longa carreira, iniciada na década de trinta com Douro, Fauna Fluvial até os dias atuais sua produção ultrapassou aos 50 longas-metragens de ficção e documentários. Em dezembro passado, apresentou seu curta O velho do Restelo, quem sabe o último realizado sob a sua direção. Sua vida é um exemplo de inquietude, no seu melhor sentido, até chegar ao cinema e nele fixar suas raízes e estrear em 1942 com Aniki Bóbó e então passar a frequentar a gangorra do sucesso e do fracasso comercial. O reconhecimento tardou, e o mais importante, no entanto, chegou. Em 1985 ganha o Leão de Ouro de Veneza com O Sapato de Cetim e em Cannes, anos mais tarde, em 99, o prêmio do Júri por A Carta. Os anos noventa foram um marco em sua produção, que passaria a ser anual e a trabalhar com grandes nomes do cinema, entre eles John Malkovich e a eterna musa Catherine Deneuve. Abaixo, trailer de Um filme falado, de 2003, estrelado por ambos. Perdemos uma grande referência, ficamos um pouco mais órfãos.

Foto: http://www.dt.pt

Ricardo Darín & Soledad Villamil: El mismo amor, la misma lluvia

El mismo amor

A vitalidade do cinema argentino há muito deixou de ser coadjuvante para ser protagonista. Razões não faltam: Juan José Campanella, Ricardo Darín, Soledad Villamil são apenas três aqui elencadas. Soma-se a eles outros mais que o tornam visível e respeitado para além do continente sul-americano. Em El mismo amor, la misma lluvia a reunião do trio tem como consequência um filme denso que vai alternando romantismo com doses entrelaçadas ao fundo da situação política argentina desde 1980. O jovem escritor, Jorge Pellegrini, de carreira promissora se encontra enjaulado em uma revista de “atualidades” onde publica seus contos. Do outro lado, não necessariamente da rua, está Laura ramalho, uma garçonete, com um quê de atriz, garçonete, que espera a retorno do noivo artista que foi ao Uruguai e a deixa sem notícias. Um dos contos de Jorge, transformado em filme, é apresentado e debatido. Eis aí um confronto entre linguagens: literatura e cinema. Desgostoso com a “leitura” do diretor ao transpor a palavra à imagem, Pellegrini encontra Laura. Mote feito, romance na dose medida para dar certo. Campanella introduz aos poucos a relação de ambos com a vida em uma redação de revista. Ao mesmo tempo, o que seria uma espécie de pano de fundo, na verdade está à frente, a Argentina se revelando. Primeiro, as Malvinas e o General Leopoldo Galtieri discursando na televisão. Em um dos diálogos com seus colegas chega a notícia de que os ingleses haviam chegado às ilhas. O tempo escorre, o relacionamento torna-se estável, Raúl Ricardo Alfonsin assume a presidência do país platino (1983/89), e as mudanças em nível profissional aparecem mais ásperas. Deste período o destaque fica por conta de Márquez (Ulises Dumont) como crítico político. Laura empenha-se em fazer de Jorge um escritor de verdade, um escritor sério. Há um certo quê de conformismo no personagem de Darín, seja no plano pessoal seja no plano político. A revista é como um barco à deriva, estando ao lado do poder econômico. Não por acaso Mastronardi (Alfonso De Grazia) veterano jornalista, desempregado, chega a implorar que consigam uma colocação para ele no periódico. E a vida segue. Os encontros, desencontros pessoais vão acontecendo tal qual o cotidiano, romances e casamentos, consciências que cedem à pressão, e chega a década de noventa. O casal separado, a revista em transformação editorial, Carlos Menem na presidência, e talvez um dos grandes símbolos do filme que traduz a introdução dos meios econômicos de forma mais aguda e pública n vida da população: o celular. A tecnologia, o poder econômico dando as linhas de trabalho, o magazine se transforma a ponto de o crítico político pedir demissão por não ceder ao que considera fútil ou trivialidade do meio político. Mais que uma alegoria, a trajetória dos personagens, da revista, e política revela, com lucidez, o quanto a sociedade pode ser manipulada e a mídia é maleável a esse poder econômico, perdendo sua essência e raiz. Campanella é um mestre na direção e as interpretações de Daín, Soledad, Ulises, Eduardo Blanco, o editor que cresce com as mudanças que vão ocorrendo, são perfeitas e traduzem sentimentos reais. Um belo e reflexivo filme.


Seabiscuit, uma lenda americana

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Minha vida toda é ligada ao turfe. Ainda que o DNA esteja muito mais em meu irmão – http://wwww.mariorozanodeturfeumpouco.blogspot.com – vivi muito entre corridas de cavalos, treinamentos, jóqueis, treinadores, proprietários, criadores. Conheci muito, aprendi pouco, verdade que o pai acho que nunca assimilou bem. Acho. Então, é natural que filmes e livros e mesmos discos, há muitos tangos cujo tema é corrida de cavalos – “Por uma cabeza” é um clássico de Gardel – acabem entrando em meu roteiro. Seabiscuit é um desses filmes. Da safra de 2003, traz a história do pequeno cavalo que se tronou o maior ídolo da América do Norte em tempos de Depressão. Com roteiro baseado no livro de Laura Hillenbrand, por certo o longa dirigido por Gary Ross passa muito longe das páginas escritas pela autora. Na linguagem turfística, ficou a vários corpos de distância do livro. Mas, são linguagens diferentes, leituras diferentes, abordagens diferentes e a adaptação é livre. O filme foca mais o aspecto emocional do espectador convidando-o a ser mais um dos ávidos torcedores de Seabiscuit e suas façanhas e dos dramas vividos pelo jóquei Red Pollard, na pele de Tobey Maguire. Está aí um ponto interessante da narrativa, pois ainda que emotivo lança alicerces para valores como a persistência, o desprendimento e a determinação. Há personagens românticos, como o treinador Tom Smith, com desempenho maiúsculo de Chris Cooper, pessoa completamente deslocada do meio e com suas convicções atinge vitórias memoráveis com o pequeno craque. Há o inigualável William H. Macy como o radialista de turfe Tick Tock McGlaughlin, cuja graça e sarcasmo envolvem a todos. O proprietário de Seabiscuit é Charles Howard (Jeff Bridges) que também aparece quase de forma romântica, sofrida pela perda de um filho, real, e recomeço de sua vida. Em síntese o filme gira em torno do valente cavalo que desafiou o maior dos cavalos da época War Admiral e venceu. Em pleno anos da década de trinta, o desafio foi em 38, a película pouco tem como tema as condições em que viviam os jóqueis, ou mesmo como estava a situação econômica do país nos anos de Depressão.

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O alentado livro de Laura Hillenbrand ao longo de suas mais de 460 páginas é um verdadeiro painel daqueles tempos e penetra de forma profunda na alma das pessoas. Nem tudo ou nada era romântico como no filme. Para se ter uma pequena ideia, em determinada ano os jóqueis se reuniram e pediram mudanças para poderem montar os cavalos com mais segurança pois a cada dia de reunião turfística havia dois ou três mortos por quedas dos cavalos. Depois de algum tempo conquistam uma “grande vitória”: o uso de capacete para proteger a cabeça. Detalhe: o capacete era feito de papelão. Essa passagem e outras mais estão bem descritas no volume e vale a leitura. Um não invalida o outro. São linguagens distintas e por isso o valor de ambos para a Cultura. Abaixo o trailer e a corrida original. Vale por tudo, pelas multidões mobilizada em tempos de crise, pela gana em vencer, pela raça de um pequeno corredor em insistir sempre sem desistir e pela beleza é ver cavalos de corrida, os jóqueis com suas blusas coloridas despertarem paixões e admiradores. Um bom filme, um extraordinário livro.



Whiplash: até onde vão os limites

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Ser contraditório é uma tentação. Às vezes, gosto muito e sou contraditório. Às vezes? Muitas vezes. Agora mesmo, entrega do Oscar no domingo, e não dei audiência à cerimônia. Não posso escrever ou comentar sobre. Assisti a todos os filmes que estavam em alguma disputa. Bom, nem todos, quase todos. E todos têm algo que desperta nossa atenção. Seja pelos atores, seja pelos diretores, seja pelos conteúdos, seja pelas interpretações. Julianne e Reese, magníficas; dos atores nenhum me chamou tanto a atenção embora reconheça a transformação de Bradley Cooper como Sniper; os coadjuvantes são sempre um caso à parte. Não em raras oportunidades eles “roubam” o filme. E mais uma vez isso aconteceu. O ator da vez é J.K. Simmons. Ator de interpretações corretas, lembro dele em Juno, e em alguns papéis em séries como Lei & Ordem: UVC como o dr. Emil Skoda. E também em Mar de Fogo de 2004, Hidalgo no original.
Na pele de Terence Fletcher, professor ou mais que isso na Escola de Música Shaffer, ele mais parece um sargento que esfola até sangrar os soldados rasos recém ingressos no exército. Literalmente. Mas, é a forma como J.K. desenvolve Fletcher que o torna fascinante. A convicção que transmite toda a sua sabedoria e experiência como músico a duelar com o jovem Andrew (Miles Teller), um baterista que ascende posição na banda da escola. E entra-se em um terreno demasiado perigoso.

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Importante a passagem em que conta ao jovem baterista como Charlie Parker se tornou Bird. E as exigências para se tornar um músico a altura das expectativas de Fletcher – ou seria da própria música? – crescem na mesma medida em que Andrew entra em colapso emocional e físico, promovendo uma série de rupturas no campo pessoal. Ao travar intensa luta interna para enfrentar o mestre, o jovem promissor questiona os limites para se atingir a perfeição. “Não há limites”, responde. No entanto, as respostas a essa e outras questões que se intensificam à medida em que a trama avança, podem estar nas próprias canções e seus arranjos. E talvez esteja uma simbologia no filme: o gênero musical é o jazz, onde uma de suas grandes marcas são as improvisações feitas pelos instrumentistas que o tocam. Do aparente nada ou convencional nasce o novo, o revolucionário. O jazz mexeu com Astor Piazzolla, por exemplo, a ponto de introduzi-lo no tango. Miles Davis promoveu profunda ruptura e a partir dele o jazz nunca mais foi o mesmo. Talvez esteja exatamente nesse ponto a resposta exata para a questão dos limites. Na verdade, quem improvisa não tem limites. E a cena final, quando da apresentação de abertura de um festival no Carnegie Hall, representa a ruptura do que seria convencional – seguir o mestre – ou improvisar. É o que Andrew faz. Uma curiosidade: Paul Reiser, o marido de Helen Hunt, em Mad About You é o pai do jovem aspirante a músico. Whiplash é magnífico e profundo. E J.K. Simmons mereceu o Oscar que lhe foi entregue domingo passado.

Fotos capturadas na Internet.

Oscar, o dia dos melhores do cinema. Melhores?

Oscar

Hoje é o dia mais esperado por muitos. Pouco esperado por muito menos, pessoas como eu, por exemplo. Não gosto de premiações para os melhores. Sempre haverá um quê de injustiça, um quê de conveniência, um quê de marketing eu outro quê de esquecimentos. Está certo, também premiações são justas. Muita gente de talento e de trabalhos maiúsculos levam os prêmios de melhores. No entanto, dimensionar trabalhos distintos em situações igualmente distintas é correr riscos. Desnecessários, na maior parte das vezes. Reconheço, entretanto, que Julianne Moore está magnífica na pele da linguista Alice diagnosticada com Alzheimer. Da mesma forma, Reese Witherspoon dá dignidade em sua entrega total em Livre, cujo papel exige da atriz todos os seus recursos para a densidade da personagem e do tema. Qual é a melhor? São temas e trabalhos distintos. É uma escolha de Sofia. Pelo que indicam todos os prognósticos, Julianne levará a estatueta já referendada por várias outras estatuetas como o Globo de Ouro e o Critics´ Choise. Não questiono. Procuro entender. Outro exemplo está entre Benedict Cumberbatch, Eddie Redmayne e Michael Keaton. Cada um com talento suficiente para vencer. Porém, Redmayne é o favorito. Seu desempenho é realmente notável, mas há outro porém: a sutileza com que Cumberbatch interpreta Alan Turing é brilhante. E agora? Bom, as escolhas estão nas mãos dos associados da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. São as regras do jogo. E posso exercer o direito de não concordar ainda que não faça a menor diferença. Para ser honesto, eles nem sabem que existo. Talvez esteja aí a graça de tudo. Os anônimos podem quebrar com as rotinas das premiações fazendo as suas escolhas. Acontece. É justo. Faz também parte do jogo. Escolho não escolher ninguém. Apenas mergulho no que gosto, exerço a minha crítica para eles e excluo o que não gosto. É o meu jogo. E gosto de jogá-lo comigo mesmo. Todavia, hoje é o grande dia para muitos. Respeito. E torço para que a justiça esteja na maioria das premiações entre os que estarão disputando o tão cobiçado troféu. Abaixo, um pouco do que está em jogo mais tarde.