Ficção: Don Antonio (Fiction: Don Antonio)

DSC03182 (2)

Havia esquecido as horas. O lugar exato está em algum lugar da memória. Ela já começara a anunciar sua despedida desde o dia em que o reflexo no espelho começou a ser diferente todas as manhãs. Muito tempo por aqui, dizia. A voz rouca, quase sem poder ser ouvida, ainda articula poucas palavras. O cansaço acompanha o olhar velho, ressequido, sem cor. O cheiro da terra molhada nos dias de chuva e os olhos no horizonte ao anoitecer, quando as raras lâmpadas da casa são acesas, encobrem a tristeza, o medo e as sombras dos noventa anos sobreviventes do sol. As retinas azuladas confessam os fragmentos reconstruídos, os mesmos que deixaram os fantasmas de Maria para trás. Os mesmos que trazem Ponta Delgada e a Ilha de São Miguel sem pressa, quase sem querer para este outro que ele é hoje. Este estranho que ainda vive somente com os músculos da dor e do vazio. Este outro que se perde dentro de um corpo cujo peso dos ossos mostra sua cota de vida.

Muito tempo por aqui – repete – muito tempo. Sorri o riso entristecido de quem não vivera todo o fogo do instinto. Mastiga o fumo e com o hálito quente volta ao silêncio. Seus passos se afastam da janela, quando, lenta, a noite começa seu turno diário e em um único tempo, vindas da galáxia, as estrelas surgem acima de sua cabeça. A madeira queima no fogão e ele, com seus pulsos fracos, toca a cama. A solidão é um sonho marcado em alguma página do livro que fica no chão.

As horas param pouco antes de o sol nascer.

 

He had forgotten the time. The exact place is somewhere in the memory. She had already begun to announce her farewell since the day when the reflection in the mirror began to be different every morning. Long time here, he said. The hoarse voice, barely audible, still articulates few words. The weariness accompanies the old, dry, colorless look. The scent of wet earth on rainy days and eyes on the horizon at dusk, when the house’s rare lamps are lit, mask the sadness, fear, and shadows of the ninety years of the sun. The blue retinas confess the reconstructed fragments, the same ones that left the ghosts of Mary behind. The same ones that bring Ponta Delgada and the Island of São Miguel without hurry, almost unintentionally for this other that it is today. This stranger still lives only with the muscles of pain and emptiness. This other that is lost within a body whose weight of the bones shows its quota of life.

Long time around here, he repeats, a long time. I smiled the sad laugh of someone who had not lived all the fire of instinct. He chews on the smoke and with his warm breath returns to silence. His steps move away from the window, when, slowly, the night begins its daily shift and in a single time, coming from the galaxy, the stars rise above his head. The wood burns on the stove and he, with his weak wrists, touches the bed. Loneliness is a dream marked on some page of the book lying on the floor.

The hours stop just before the sun rises.

Publicado pela Revista Magma, nº 7, 2008 – Lajes de Pico, Açores, Portugal.
Foto: Chronosfer. Buenos Aires, Argentina.

Anúncios

29 Respostas para “Ficção: Don Antonio (Fiction: Don Antonio)

  1. Adorei a foto e mais ainda o texto meu caro amigo. Uma narrativa curta, porém objetiva que leva o leitor a incorporar na pele, noventa anos tão bem descritos numa única frase: “… Muito tempo por aqui – repete – muito tempo”. Maravilhoso texto regado a nostalgia com algumas pitadas de melancolia. Como sempre Fernando, perfeito! Um grande abraço

  2. Boa noite pra você.Tudo bem contigo?
    Essa imagem é uma daquelas que não precisa de legenda.
    Que perfeita!
    Olho e vejo a experiência sentada na cadeira com toda sua beleza e glória.
    Precisa deixar registrado aqui que você é as palavras se dão muito bem?!
    Uma união perfeita!
    Parabéns!

  3. Confesso, tenho dificuldade em aceitar essa mudança de reflexo no espelho… E o tempo não para…O relógio do tempo em seu compasso, marca o passo do tempo, enquanto eu passo, à deriva do vento em minha face… Enquanto isto ocorre, tudo corre, um nasce, acolá, um outro morre, mas nada impedirá que o tempo passe… Pelo portal, ALÉM DO TEMPO, eu entro!
    Fizeste de mim neste texto, pura reflexão! Tão verdadeiro e tão sensório…
    Beijo de chocolate quentinho! ๏[-ิิ_•ิ]๏

    • O tempo e o reflexo no espelho aprendi a conviver bem e quando olho para trás penso: tenho vivido e sigo a vida. Até o fim do meu tempo. Gostei muito de te ler nesta madrugada insone e quente. Beijo-te com café e música.

Deixe uma resposta para Lara/Trace Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s