Miniconto: João Baptista

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Atrás das lentes dos óculos, João Baptista recebe pequenos fachos da luz do sol. Pelas frestas de vidro, seu mundo é como um fio de naylon, em cujas fibras se entranha o presente. Naqueles espaços medidos em milímetros, a vida não presta atenção nos movimentos das retinas, que o tempo acinzentou. Espera a chuva, ao pé da árvore, sem gestos. Apenas com as mãos entrelaçadas.

Levanta os olhos ao sentir os primeiros pingos baterem em seus cabelos. Encolhe seu corpo magro e pequeno em volta do cobertor, para proteger o que ainda resta da roupa. O latido incessante do cachorro ao seu lado é o único sinal de vida que pula a muralha do silêncio junto com o trovão perdendo a eterna corrida contra a luz do relâmpago.

O dia cede, aos poucos, sua luminosidade às nuvens. Os trapos de João Baptista, iluminados pela última luz, formam uma sombra até o meio-fio. A ausência do fogo é o segredo guardado pelos atalhos em que vive. Há muito sua voz está incinerada pela dispersão das palavras.

Estica os braços, vê o balançar dos pequenos lumes e então colhe a eletricidade do temporal. A vela úmida penetra na eternidade, deixando para trás a porta aberta.

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Fotos: Chronosfer. Este miniconto foi postado em janeiro de 2015. Como as outras republicações, acesso quase zero. A personagem é real, e caminha pelas ruas do cotidiano.

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19 Respostas para “Miniconto: João Baptista

  1. Toucou-me e por saber que se trata de algo verídico, me embrulha ainda mais o âmago!
    Se pudêssemos escrever os finais das pessoas que por aí vagam… talvez haveria alguma chance? Um abraço meu amigo!

    • Penso nisso todos os dias e em relação ao João(o nome é fictício) tentamos várias vezes mas retorna ao vazio. Creio que sim, Benicio, podemos continuar tentando e sei que muitos terão um final mais feliz. Muito obrigado. O meu abraço.

    • Obrigado, Paulo. Você tem razão, para tentar transformar para melhor o ser humano temos que ter consciência do que acontece. Como diz Belchior, “eu que é difícil mas eu quero tentar”. Mais uma vez, muito obrigado. O meu abraço.

  2. Ando sem palavras, garganta fechada. O que sai, vem transverso. Um pouco essa borra. Esse estar ausente. Efeitos do desamor? Ou do transbordo dele? Belo post, como de costume Fernando. Você fala de poucos acessos, mas sempre encontro aqui seus amigos e leitores que admiram tuas peças… Qualidade é sempre melhor. E há os silentes, como eu muitas vezes. Boa Noite.

    • oi, Anna, a vida por aqui faz com que as palavras, ainda que devam ser ditas ema alto e bom som, fiquem trancadas pela dor que quem sabe o passado recente estar se tornando presente. haveremos de passar também por isso. os poucos acessos foram até bem pouco tempo, hoje, os amigos estão presentes a cada dia e assim posso visitá-los e aprender mais. obrigado por sempre estar por aqui. é uma alegria. meu abraço.

  3. Belíssima a forma como retratou algo tão doloroso,
    que a pesar de não deixar de doer,saber ser essa uma triste realidade,a forma como conseguiu descrever tudo isso,emociona e faz refletir.

    Parabéns pelo talento de tocar almas! Um beijo

    • muito obrigado. a escrita, e você sabe bem, permite que possamos penetrar na realidade e quem sabe fazer com que, além de nós mesmos, mais pessoas despertem para além do olhar. mais uma vez, agradeço o generoso comentário. um beijo.

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