Poesia: Breve e Inacabado I

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febril
perdeu a hora
mas não esqueceu a corda

febril
perdeu a corda
dentro da hora, os ossos

febril
perdeu a voz
dentro do silêncio, os estilhaços

febril
perdeu os ossos
dentro dos estilhaços, a memória

 

Publicado em fevereiro de 2015. Para os novos leitores deste Chronos.

Foto: Chronosfer

Gene Clark: White Light Demos

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Uma pequena continuação do disco White Light e uma canção dos Beatles gravada quando fez dupla com Doug Dillard, banjo. Dois álbuns juntos, alicerçando o rock country com muita criatividade e com amigos como Chris Hillman e o pedal steel guitar Sneaky Pete. Um belo trabalho. Todavia, as demos de White Light são canções suaves e interiozadas. Um Clark por vezes melancólico e sensível. Um byrd cuja alma passou a voar pelos caminhos da vida por dentro das suas canções acústicas e com sua harmônica apontando os caminhos.

 

Al Jarreau: * 12.02.2017

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As perdas se avolumam a cada dia. Domingo, Al Jarreau partiu. Um mestre do jazz, do r&b, do pop, do blues. Da música. Da vida. Aos 76 anos, quando hoje 76 é o início de muitas vidas. Suas canções são daquelas que as horas se perderem dentro dos minutos e dos segundos tamanha sua densidade e o talento com que interpretava. Continua entre nós, a passagem é apenas física. Al Jarreau. Mestre da música e da vida.

Gene Clark: White Light

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Roger McGuinn, David Crosby e Gene Clark criaram o The Byrds. Depois, chegaram Chris Hillman e Michael Clarke e eletrificaram, por exemplo, “Mr. Tambourine man” de Mr. Dylan. Isso quando pularam do folk rock para outras possibilidades sonoras entre elas a psicodelia e o country. Embora para muitos McGuinn sempre foi a alma dos Byrds, outros tantos credita a Clark a essência do seu som, era quem conduzia os byrds pelos caminhos da música. Na segunda metade da década de 60, assumiu a carreira solo e fez álbuns antológicos como No Other, White Light e Echoes. Em No Other foi um visionário, apenas a passagem do tempo foi reconhecer a genialidade de suas composições e arranjos. As mesclas de gêneros. Os vocais maravilhosos. E White Light é o mais puro rock clássico que poderia existir naquele 1971. Um disco denso, nuances fortes de country, camadas sonoras originais e uma poética simples e contundente. Gene Clark é um dos grandes que merece estar sempre por perto.

Miniconto: Martin I, II & III

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MARTIN

Nem a chuva intermitente afasta Martin do banco da praça. O jornal, dobrado, borra a roupa. Quase nenhuma, seja o frio intenso. Olha as pessoas à espera do ônibus. Formam uma única massa, pensa. Desvia o olhar, leva-o ao fim da avenida. Pouco antes de a primeira quadra alcançar a metade, a noite avança. Ganha espaço da luz acesa, tem nos olhos ainda o resto do dia. Os traços das mãos são segredos, seu baú de carne e ossos e veias. Os bolsos escondem as fatias do tempo. Repartidas dia após dia, escondem o mofo mastigado pelas horas. Mede a travessia… um, dois, três, quatro passos… para o outro lado da rua sem o ânimo dos músculos. Falar para dentro a conversa diária entre uma palavra e outra sobrevivente do dilúvio que arrastara o vocabulário, seu sinal de visita aqui, porta aberta para quem chega.A noite seca o sono. Ajeita alma, coração e corpo entre as fissuras da madeira. Acomoda as fundas rugas, de onde nascem densos brancos, que se dobram sem rebeldia. Ao lado, rente ao chão, os sonhos dormentes feitos de relâmpagos e estrelas.

Manhã, retrato sem cor, por trás das janelas despertam sombras e sol.

II

Por trás das janelas, manhã, sol em febre. Sobre os cortes úmidos do musgo, desprende o corpo da noite. Martin, trêmulo, ergue o que falta para ficar em pé. O apagar das luzes artificiais comprime a praça vazia aos estreitos castanhos dos olhos recém despertos. O traço da boca mergulha na garrafa quase vazia de água. Desce mais lento ainda o alimento único. Nos primeiros passos, olhares por trás das janelas, alvoroça o silêncio das folhas sem estação. Atravessa as asas incertas dos pássaros e segue o caminhar do vento. A parede próxima indica datas. As mesmas de ontem, de muito antes. Cartaz colado em cima de cartaz, calendário. Nomes diferentes, fotografias e palavras distorcidas pela natureza do dia-a-dia. Segue. O rio não está longe. Do mar não sabe, nunca viu. Ouve as vozes, dentro ou de fora, pouco importa, ouve com a vertigem da hora incerta, correria para a hora certa. Nada é com ele. É passado, diz, foi presente, lembra.

Os lábios adoçam o futuro: – Um dia, quem sabe.

Anda como quem escreve uma carta sem destinatário. Passa as ruas como quem pula parágrafos. Amassa o chão como se fosse a folha escrita e não gosta do que escreveu. O olhar já distante sente o mormaço do meio-dia sem a sombra, veio com o amanhecer, pensa.
Sente o cheiro do rio. Sério, gosto de felicidade em preto e branco, risca o céu da boca com a língua. Para, antes de o sinal abrir verde, o feixe de sonhos avermelha sem soluços sem olhos marejados sem a morte sanguínea da palavra.

O outro lado o espera.
Antes de a noite chegar, a maré já terá partido no mar que nunca soube.

 

III

Do mar nunca soube, sabe o mar. Sob as enrugadas árvores tece, nos gestos lentos, a curva do que não sonhou. Um bando de folhas secas, voando como ave migratória, cobre as pálpebras, o esquecimento. Molha os pés. Beira do rio, margem branca, margem de vertigens. Margem.  Os cabelos, poucos, conhecem o sol, acolhem seu calor. As mãos solitárias inventam movimentos, traçam no espaço desenhos, disputam com as nuvens formas e formas. Manhã, sem janelas por perto, as cores cruzam os braços, avermelham a pele, ilumina como lampião os olhos tintos. Estilhaços acesos. A água chega, mansa, translúcida, com a face do dia. Sabor do silêncio nessa areia de ninguém. Martin, dono do vazio, mastiga o horizonte como o entardecer engole o último sol. Intenso e laranja antes do azul ser negro. Mordaça dos anos passados, as pedras insones da memória provam o gosto do instinto. Gira o corpo. Na faixa estreita entre rio e cidade, a história segue o rumo. Para trás, para frente, não sabe. Sabe, sempre soube a história. Torna a olhar o traço nada uniforme das ilhas à frente. Duas, três. Não sabe, nunca soube. Passa barco, passa rede vazia, passa automóvel, passa. Fica o passado. Presente.

Martin ajeita o corpo, joga às costas a mochila, caminha. Para no tempo outra vida.

Philip Glass: 31.01.1937

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Os 80 anos de Philip Glass são uma dádiva para quem tem a música como pele. Penso que a imprensa, colunistas, críticos, enfim, todos os meios possíveis prestaram as homenagens ao compositor, que este simples Chronos, com atraso, chega apenas para se associar a elas. As marcas do seu trabalho, pouco importa a classificação minimalista, clássico ou popular integram uma gama de parcerias com nomes variados que solidificam seu talento: David Bowie, Brian Eno, Uakti, Ravi Shankar, David Byrne, Patti Smith, Laurie Anderson, trilhas de filmes, peças únicas de um mosaico sonoro com a assinatura Philip Glass. Pura essência, pura criatividade, pura diversidade que os virtuoses possuem. Vida longa.

Foto: Jack Mitchell/Getty Images