Conto: O Gasto, por Marcelo Fébula

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O Gasto [1]

 

 

Os cavalos cruzaram a linha. O castanho escolhido para a última corrida da aposta 5 e 6 chegava em sexto lugar, e assim desaparecia a possibilidade de salvar o custo da aposta com cinco acertos em uma tarde de favoritos. Até esse momento, por uma espécie de cabala tinha assistido as corridas ao ar livre embora o vento e a garoa fossem mais intensos a cada momento. Desde o último andar da tribuna Paddock, antes de se refugiar na confeitaria, voltou a olhar para baixo. Mais de vinte anos atrás, naquele lugar tinha conhecido um homem cuja memória nunca esqueceu. Mas agora ai não havia ninguém, somente o reflexo das luzes sobre as telhas molhadas.

Foi no ingresso, pouco depois de passar pela catraca da entrada quando a suas costas creu ouvir uma voz reconhecida imediatamente apesar do tempo decorrido. Virou-se e olhou. Nada. Deixou livre o passo das pessoas que entravam para observar com mais detalhe. Nada. Retomou sua marcha para o interior do hipódromo enquanto sentia chegar velhas lembranças, e viveu toda à tarde com uma sensação incómoda e difícil de definir.

 

Era uma ensolarada tarde no hipódromo de Palermo. Com Roge tinham passado a tarde inteira olhando cada corrida desde um lugar diferente. Abandonaram seus lugares nas pequenas arquibancadas do final da reta a pouco de terminada uma, momento preciso em que chovem os penitentes ao Muro dos Lamentos e aparecem todos aqueles que estiveram perto de apostar pelo ganhador, mas não apostaram. Olhando no totalizador os dividendos da nova corrida, de pronto se encontraram quase no meio de uma conversa. Roge estava prestando atenção ao que diziam e com um breve olhar lhe sugeriu ficar ai. Dois caras falavam com resignada indignação de alguém ligado à prova finalizada e um terceiro, quase um gigante ao lado deles, ouvia com um sorriso condescendente. Tinha suas mãos nos bolsos das calças e olhava para o chão fazendo acenos negativos. De repente houve um pequeno silêncio e o grandão, mudando um pouco a posição do seu corpo, talvez para que mais pessoas pudessem lhe escutar, começou a falar.

–Ah… Que coisa… Neste ponto de minha vida percebi que… Olhe, a vez passada uma senhora amiga me invita a uma cocheira. Me diz –Venha, você é pessoa confiável, venha e comprove com seus próprios olhos.

O homem fez uma pequena pausa e olhou além do círculo de pessoas que o rodeavam, como observando algo na distância. Estava se assegurando da atenção que lhe prestavam. Era muito alto, sólido. Vestia um terno brilhante que uma vez tinha sido marrom, uma camisa de cor azul desbotado com o colar tão esmagado e sujo como a velha gravata, e uns obsoletos sapatos com velhas marcas de poeira. Parecia usar essas roupas desde a década anterior, como se um dia se houvesse vestido para não mudar nunca mais seu vestuário. Os cabelos grisalhos, duros e penteados para trás. Falava lenta e claramente, com uma voz profunda e de estranha reverberação.

–Chego, esta amiga me recebe, conversamos um pouco, me conduze ao lado de uma cocheira e me diz que olhe. Aparece um homem de avental branco com uma seringa assim –O grandão tirou as mãos dos bolsos e fez um gesto que visto à distância poderia prestar-se a interpretações erradas.

–Assim, não lhe minto! Cheia de um líquido amarelo. Vai, ingressa na cocheira e a injeta ao animal. A senhora amiga me diz –E? Você ainda tem alguma dúvida?

O homem soltou uma risada escura e cavernosa, como prologando o final de seu relato. Algumas pessoas dizem que às vezes os animais domésticos, depois de um longo tempo de convivência acabam se parecendo a os seus proprietários. Com este homem a teoria parecia funcionar ao revés. Seguramente os anos de hipódromo haviam-lhe mimetizado o rosto com o dos cavalos de corrida, começando pelos grandes e amarelos dentes que mostrava ao sorrir. Olhando para ele um sentia vontade de convidar-lhe uma cenoura o jogar-lhe cubos de açúcar desde certa distância.

–E que faço eu? Não aposto! Entende? Não aposto! É dizer, não é que me chegou uma versão de um terceiro, de alguém que tinha escutado um rumor. Não! Eu estava ai, eu olhei o que faziam. Esta senhora amiga ainda ria…

Com as duas mãos outra vez nos bolsos de sua calça o grandão voltou a sorrir fazendo acenos negativos e olhando para o chão.

–Enfim, por isso lhe digo. Neste ponto de minha vida…

 

Depois de alguns sorrisos e acenos de admiração no percurso da história, com Roge continuaram seu caminho até as arquibancadas maiores. Lá trás, o grandão havia retornado a sua atitude de escutar a conversa dos outros.

–Personagem, eh! –Comentou Roge se sentando em um degrau e enfiando a mão na sua inseparável carteira. –Esse se levanta de manhã e em vez de se esticar e bocejar lança um par de chutes no ar e bate um relincho. Como foi que disse? Neste ponto de minha vida…

Sim, esse cara era singular dentro da inesgotável galaria de personagens que tinham conhecido ao longo dos anos no hipódromo. Tentando descrever seu aspecto com adjetivos tais como sujo, desalinhado ou descuidado só se estava fazendo uma descrição parcial, incompleta. Roge, com sua natural habilidade para os apelidos deu com o termo justo: a partir daquela tarde, ao recordar esse personagem falariam de O Gasto.

 

Nunca conseguiu esquecer aquele gigante. Havia algo nesse homem que não podia definir, e talvez por isso o foi vinculando com pessoas fictícias da literatura. Durante um tempo o associou com aquele personagem dos romances de Geno Díaz [2], Dom Ignacio Calderón de Zocuéllamo y Zamorano del Monte, um espanhol que morava no Rio de la Plata, fazia corretagem de artigos para bazar e assegurava ter mais de trezentos anos. Com voz de trovão e verbo florido definia-se como uma espécie de cruzado solitário na incansável luta contra os italianos, uma raça que segundo sua opinião todo o vulgarizava e pervertia. Eterno caminhador das ruas, se decidia lhe dar uma trégua a suas fadigas de vendedor descansando um pouco num bar, com gesto educado puxava seu chapéu e tomando assento contava com naturalidade anedotas do Centenário ou da época colonial. Dom Ignacio desaparecia tão surpreendente e enigmaticamente como tinha chegado pelas estradas do bairro de Mataderos [3], maleta em mão, vestindo sempre uma capa longa e gordurosa, bastião inexpugnável da cultura hispânica ameaçada pelos devoradores de macarrões.

Também soube associa-lo com El Mago Mishiadura [4], presença misteriosa e fantasmagórica de um dos livros de Enrique Medina [5]. El Mago era um frequente assistente dos teatros de strip-tease, mondo em sombras onde às vezes se descobria algum espetador degolado em sua cadeira. Longo e magro, sempre com o mesmo terno enrugado, sempre com as mãos nos bolsos das calças, sempre com um cigarro fumeante nos lábios embora ninguém jamais o houvesse olhado acende-lo.

E fazendo associações, até o havia vinculado com aquele personagem de lenda que descobriu em revistas de quadrinhos: Gilgamesh, O Imortal. Um rei que vivendo com a obsessão da imortalidade foi se distanciando cada dia mais das pessoas até terminar morando num canto de seu castelo, atolado em longas reflexões e esquecido de seu povo. A queda de uma nave alienígena em campos vizinhos lhe permitiu negociar sua obsessão com um morador das galáxias chamado Utnapistim, quem antes de aceitar a sua exigência o alertou seriamente sobre a tremenda solidão que o esperava.

Sentia que isso que nunca tinha sido capaz de definir em O Gasto talvez tivesse alguma relação com a puída fidalguia de Dom Ignacio Calderón, com o mistério do Mago ou com a fantástica vida de Gilgamesh. Desde aquela tarde nunca mais o tinha visto novamente, mas apesar do tempo decorrido às vezes imaginava encontrá-lo outra vez em algum lugar do hipódromo. O escutaria então falar do pelo de Pippermint [6] depois de sua longa viagem em princípios do século? Descobriria o brilho de uma faca baixo seu casaco, pronto para executar algum treinador trapaceiro? Ou simplesmente o seguiria com cautela sem se atrever a falar-lhe, até perder sua figura entre as névoas da noite andando pelas ruas do Bajo Belgrano [7]?

 

Hoje, mais de vinte anos depois daquela tarde, as fantasias imaginadas em relação com aquele personagem que tanto o havia impressionado voltaram para sumi-lo dentro dessa sensação incómoda que não podia definir. Tinha certeza de haver escutado com clareza no momento de ingressar aquela voz profunda de estranha reverberação. A houvesse identificado entre uma multidão. Ao longo das corridas, os cafés e as conversas ocasionais, em nenhum momento deixou de olhar para todos os lados tentando descobrir a silhueta do grandão. Mesmo ficou no hipódromo muito mais do acostumado, atrasando a hora de sair, tomando o enésimo café e fazendo uma pequena aposta doble só para poder seguir pesquisando em todas as direções. Nada.

Tão focado na busca infrutífera estava que, já caminhando até o portão de saída, quase se esquece de recolher os poucos pesos que ganhou na única corrida acertada da tarde. Passou pelas janelas de apostas e seguiu seu caminho. Andou tentando se proteger da garoa, que caia muito forte e bagunçada pelo vento. Quase chegando ao portão, perto das cocheiras de exibição, um grupo de quatro ou cinco pessoas conversava animadamente. Algo nesse grupo chamou sua atenção. Seu coração começou a bater mais forte.

Soube que sua memória e seu ouvido não haviam falhado horas atrás, ao entrar. Ai, algo oculto pelas sombras, O Gasto escutava com atenção a conversa daqueles que pareciam anãos a seu lado. O mesmo terno brilhante, a mesma camisa tão esmagada e suja como a gravata, a mesma expressão no rosto com semelhanças de cavalo. De repente deixou o cone de sombras em que estava e, olhando-o diretamente, como se houvesse esperado sua presença paciente e inexoravelmente durante todos aqueles anos, com um brilho estranho nos olhos disse com sua voz profunda:

–Como estava dizendo, assim é. Neste ponto de minha vida, percebi que sou um otário.

 

 

Marcelo Fébula

Texto publicado originalmente na revista TAG – Todo a Ganador de Argentina, ano 2006.

 

 

 

[1] O título original do texto é El Gastao. Não El Gastado, como seria o correto em idioma espanhol. Na forma popular de falar, especialmente em zonas do interior da Argentina, e muito frequente essa alteração na terminação de algumas palavras. Por exemplo, abandonao’ por abandonado, etc.

 

[2] Eugenio “Geno” Díaz (Buenos Aires, 1926-1986) foi um escritor, pintor e desenhista argentino que também trabalhou como periodista em televisão e mídia impressa. As histórias de seus romances se desenvolvem frequentemente no bairro de Mataderos, onde nasceu.

 

[3] Mataderos é um bairro da zona oeste de cidade de Buenos Aires. Deve seu nome ao grande matadouro de gado inaugurado em 1889. Na atualidade uma de suas atrações é a Feria de Mataderos, feira que funciona em instalações do velho matadouro e, onde além das vendas de comidas típicas e artesanatos gauchescos, se organizam espetáculos equestres e festivais de dança e música tradicionais. Entre os cidadãos ilustres do bairro destacam-se, entre outros, o já mencionado Geno Díaz e um dos maiores ídolos da história do boxe argentino: Justo Suárez “O Tourinho de Mataderos” (1909-1938).

 

[4] Mishiadura e uma palavra do Lunfardo, gíria característica do habitante de Buenos Aires. Significa pobreza, miséria, indigência. O referido personagem El Mago Mishiadura em português poderia se chamar O Mágico Miséria.

 

[5] Enrique Medina (Buenos Aires, 1937) é um escritor argentino. Também jornalista, ator e diretor teatral. Comoveu o cenário da literatura argentina com a publicação de seu romance Las Tumbas, em 1972. Entre 1973 e 1986, ano do retorno da democracia em Argentina, sofreu persecuções e a censura de suas obras.

 

[6] Pippermint foi o primeiro cavalo que conseguiu ganhar a Quadruple Coroa do turfe argentino (Grande Prémio Polla de Potrillos, Grande Prémio Jockey Club, Grande Prémio Nacional e Grande Prémio Carlos Pellegrini), no ano 1902. Durante seus anos de competidor era um cavalo de pelo tordilho cinza escuro. A volta de uma longa viagem ao exterior, chegou à Argentina com seu pelo quase totalmente branco.

 

[7] Bajo Belgrano é uma parte do bairro de Belgrano, em Buenos Aires, vizinha ao Hipódromo de Palermo. Durante muitos anos foi quase uma prolongação do hipódromo, com inumeráveis cocheiras e locais relacionados ao turfe. O tango Bajo Belgrano que interpretou Carlos Gardel é uma notável pintura da vida do bairro nos tempos em que o turfe era sua atividade principal. Hoje todo aquele ambiente é só uma lembrança.

 

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