António Zambujo: Até pensei que fosse minha

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Alguns discos com canções de Chico Buarque seguem uma linha muito próxima das criações do genial compositor carioca. Não que seja falta de criatividade, absolutamente não, apenas que criar novos arranjos para os já extraordinários elaborados nos discos e shows de Chico parece ser tarefa quase impossível. Embora haja uma certa dose de exagero, digamos que seja isso. No entanto, toda a regra foi feita para ser quebrada. O português António Zambujo recriou a obra do mestre brasileiro a partir de arranjos construídos/criados pelo Trio Madeira Brasil. Uma sonoridade quase minimalista que foi sendo substituída aqui e ali toda a vez que uma canção pedia um instrumento se sopro, uma percussão a mais, a sanfona pontilhando novos acordes, a guitarra portuguesa desafiando o novo. Até pensei que fosse minha é notável em todos os sentidos. Zambujo gravou um disco em que é impossível quem o escuta ficar impassível. Se Chico por certo agradece, nós festejamos.

 

R.E.M: Out of time 25th anniversary edition

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Mais um aniversário de lançamento comemorado com raridades. A vez é do R.E.M. e seu magnífico Out of Time, acrescentando 25th anniversary edition. Escrever sobre a banda de Mike Mills e Michael Stipe é ser redundante. Todavia, a edição dos 25 anos é sempre uma revelação. De como a R.E.M. cresceu, aperfeiçoou, excluiu, criou, fez e refez, enfim, uma história contada em canções ora apenas e tão somente instrumentais, de uma pureza cristalina, ora vocais introduzidos em escala superior que a banda possuía se sobra. Um presente, assim como há poucos dias passou por aqui uma caixa do Pink Floyd, que quebra a monotonia de coletâneas clichês e nos mostram a verdadeira face talentosa desses músicos.

 

William Fitzsimmons: Gold in the shadow

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mais um nome que transita com naturalidade pelo folk/índie folk. Por vezes, ao acústico se somam teclados, sons eletrônicos par dar as suas letras um revestimento mais universal ainda que os temas sejam pessoais. Em Gold in the shadow, Fitzsimmons se equilibra bem, se mostra denso e se permite um dueto com Julia Stone (Angus &Julia Stone) em “Let you break”. E afasta qualquer semelhança que o fazem ficar muito próximo do Iron & Wine. Um disco para ser degustado sem pressa alguma.

Conto: O porto

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Dentro desse fogo, alma e terra cedem suas almas e terras. No branco dos seus olhos, as manchas do dia desaparecem. Áspera é a noite à espreita. Atraída pelos relâmpagos cresce entre as luzes e o medo. Dentro e fora, há muito as mãos perderam a firmeza, revelando carne e veias transparentes. O limo nascia aos poucos entre as pedras e as raízes. O sol iluminava os trilhos,  que se perdiam para o fundo da terra. Estranhavas aqueles veios, aquelas vertentes secas, o voo cego das aves e as casas abandonadas. Estranhavas os nervos à pele, as listras da tarde e seus rascunhos sobre as janelas. O pêndulo cansado não marcava mais o tempo. As cruzes, sopradas pelo vento, envelheceram, acinzentaram os signos e as sombras ardiam dentro da alma desse fogo. Estranhavas o fosco da lâmina a um palmo dos pulsos, os sentidos anônimos e o silêncio dos vidros recortados pelas frestas daquelas janelas sem cores. Dentro desse fogo, os feixes se abriam protegidos pelos tecidos mais finos do frio do inverno. Aquele vazio desfeito te paralisava. Estranhavas a ausência da tripulação e quando vias a água engolindo a âncora, depositavas a certeza da partida no vulto daquele homem esticando a rede. Então, apagavas a vela e caminhavas até ele. As nuvens se avolumavam acima dos teus ombros, tinhas pressa. As chaves na gaveta ficaram para sempre imóveis e retorcidas pelo calor do fogo. Teu corpo úmido também cedeu. Estavas no fogo. Estranhavas o foco luminoso dentro da tua alma e depois aquele escuro se soprepondo ao fundo do fundo da terra. Esquecestes de se despedir da vida. O porto era apenas o começo do fim. Sem mais teus sonhos, a memória do teu olhar reteve por pouco tempo a luz do dia e o dourado do plátano.

Foto: Chronosfer. Glaciar Perito Moreno, Patagônia, Argentina.

 

Conto: Agora sim, por Marcelo Fébula

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Este texto foi publicado originalmente na revista TAG – Todo a Ganador e reeditado no blog Los Pingos de Todos, da Argentina. Hoje chega traduzido para este Chronos.

Agora sim

               Em memoria daquele turfista anônimo que há muitos anos, uma tarde de inverno nas arquibancadas do Hipódromo de Palermo, me contou partes de sua vida.

 

 

Lá pela sexta corrida (sexta aposta perdida, as moedas que cobrou pela exata acertada na segunda nem sequer as considerava), aproveitando que enquanto se mantivera com vida no Triplo não faria nenhuma viagem até as janelas de apostas, García encurralou-se num canto da tribuna Paddock se levantando as abas do abrigo. Esperando o segundo capítulo da aposta, talvez assaltado por alguma memória antiga, de pronto encontrou-se pensando quanto tempo havia decorrido desde a última vez que pisou o hipódromo para desfrutar inteiramente das corridas.

 

Tudo havia trocado quando começou a pensar nas apostas unicamente em função dos problemas que poderia solucionar com um acerto. Que compras adiadas fazer, que buracos financeiros tapar, que dividas afrontar. Assim foi perdendo esse puro gosto do turfe, essa sensação incomparável de plenitude e felicidade que lhe havia namorado na juventude. Tempos do trio com Pancho Alsina e Balmaceda (em realidade eram seus velhos parceiros do ensino meio Enrique e Jorge, apelidados assim por uma associação com o tango Três Amigos), que costumava chegar ao hipódromo de Palermo para assistir as quatro últimas corridas nos dias de semana. Tempos de sábados inteiros em San Isidro, com manhas visitando cocheiras, tardes de reunião hípica e noites jantando naquele restaurante na beira do rio, última parada compartilhada com os inesquecíveis turfistas encontrados no seu primeiro trabalho. De domingos ensolarados em Palermo com esse par de tios boêmios que lhe dera a loteria da vida, transformados em confrades incondicionais ante o mínimo cheiro de bosta de cavalo. De firme saldo para apostar graças a outro bom trabalho e de um perfil de solteiro que acreditava a prova de balas.

 

Mas um dia o barco do trabalho começou a navegar com inevitável destino de naufrágio, e aquele perfil que acreditava invulnerável terminou sendo como a Linha Maginot com a qual os franceses pensavam parar os tanques nazistas. Do barco nunca chegou a saltar, esperando melhores ventos que finalmente nunca chegaram. E uma morena muito segura de seus movimentos levou-o até os domínios de um padre que com gesto entre angelical e mefistofélico perguntou-lhe se queria a aquela mulher como sua esposa. Tripulante de um navio sem futuro e com um anel de metal lhe perfurando a cartilagem do nariz, José García (o da guia, a eterna piada), mudou de vida. Sem palavras deu-lhe um triste adeus ao alegre apostar, as ressacas de vinho tinto e as piratarias variadas, e olhou desconfiado o horizonte que se abria, incluindo o novo emprego na empresa de seu sogro com forma de nuvem negra.

 

Desde a íngreme escada de créditos e dívidas na que rapidamente encontrou-se subido, Garcia o da guia já não viu nem vestígios de seus antigos camaradas. Pancho Alsina também ganhou seu anel de metal, Balmaceda não queria saber nada com burgueses condicionados, os amigos de San Isidro tinham um ritmo impossível de seguir e o brinde do casamento foi o último gole que compartilhou com os dois tios vadios, que imediatamente cruzaram olhares e foram cientes de uma baixa entre suas fileiras. Só lhe quedaram pequenas margens de tempo e dinheiro para o turfe, embora por elas tivesse que lutar com essa morena incrível e rapidamente virada em bruxa, com a família dela e ainda com sua própria gente, sempre chateada com a ovelha perdida que um dia saiu do curral para ficar nas cocheiras. Machucado pela luta, apenas se conseguiu uma espécie de entendimento tácito com sabor a pouco, porque as pequenas margens salvadas não eram suficientes para dançar as velhas e alegres danças ao ritmo de içadas bandeiras vermelhas, verdes e amarelas. As excursões para os templos de areia e grama, carimbadas, tinham como único objetivo tentar escapar de alguns dos muitos caminhos enlodados por onde tropeçava, que, aliás, eram muitos e de todos os tamanhos: hipotecas, parcelas de vestiário, de eletrodomésticos, de medicina pré-paga, cartões de crédito, vencimentos de pequenos empréstimos contraídos para pagar empréstimos maiores, e mil buracos mais. A cada um deles correspondia um sonho febril de aposta ganhada, fosse Cadeia, Pick 4, Triplo, doble ou simples vencedor. Sim, não podia desfrutar das corridas como nos velhos tempos, todo passava pela ingrata peneira das dívidas e os compromissos.

 

García o da guia, subitamente angustiado, perguntou-se se valia à pena continuar bastardeando aquela velha paixão turfística. Não seria melhor reconhecer que havia perdido o jogo, derrubar o rei do tabuleiro com a pouca dignidade que ainda tinha e esquecê-lo tudo? Não. Por ínfimo que fosse o tempo disponível, por miserável que fosse a forma de pensar nas apostas, preferia isso antes que deixar de sentir o coração acelerado pelo trovão dos cascos dos cavalos no percurso de uma corrida, uma emoção que permanecia intata. Acelerado como agora, neste incomparável momento em que o tordilho apostado só como uma possibilidade remota cruza primeiro a linha de chegada de uma corrida de mil metros e no totalizador de apostas brilha um impactante dividendo de 38.70 a vencedor.

 

No canto da tribuna Paddock que ocupava, García começou a se dar palmadinhas no peito. Ai, no bolso grande do abrigo, tinha o bilhete da aposta Triplo com as duas primeiras corridas acertadas, uma comum e outra de valor inestimável. Lutou para não sonhar, mas antes do novo passeio preliminar já estava quase fora de controle imaginando situações prováveis se o destino decidia fazer-lhe uma piscadela na corrida que faltava. Sabia que não era bom perder o controle, então decidiu sair dessa atmosfera indo com decisão até o setor de exibição. Ai encontrou ao cavalo de suas esperanças caminhando muito tranquilo, levado das rédeas por um peãozinho com rosto de índio. Cruzaram miradas com o castanho quando passou perto, e García lhe falou sem mover os lábios.

 

Momentos depois estava gritando com coração e alma nas arquibancadas. Na reta final todo ele se tornou em uma mão fechada no ar, em um par de olhos excitados e chorosos. Gritou o nome do cavalo e não o de o jóquei, como se estilava no Uruguai. O nomeou uma e outra vez com a força de suas memórias antigas e de suas ânsias de revanche. Finalizada a corrida foi até a beira da pista para saudá-lo e falar-lhe outra vez. Mas agora suas palavras escutaram-se o suficiente como para que algumas pessoas o olharam com estranheza. Confirmado o resultado da prova e a importante recompensa para os que acertaram o Triplo, passou pelas janelas a cobrar e deu liberdade a seu cérebro embaralhando os muitos planos tantas vezes imaginados para um momento assim. Agora sim, caralho, vão me ter que suportar. O motorista do taxi disse saber bem o caminho, não tinha necessidade de receber indicações.

 

Chegando ao bairro pediu parar no cruzamento das avenidas. Decidiu descer ai e caminhar um pouco saboreando sua iminente pequena vingança com o pensamento como se fosse um doce. Cruzando a segunda rua notou que na metade do quarteirão faltava um pouco de luz. Seguramente uma lâmpada quebrada. A figura que vagamente pensou ter visto movendo-se entre duas árvores na área escura tornou-se real.

–Como vai? –perguntou-lhe sorrindo, como se o conhecesse de toda a vida.

García demorou uns instantes em compreender a situação. O cara era grande, tinha uma mão em seu ombro e com a outra apoiava o cano de um revólver em seu estômago.

–Tranquilo –disse olhando para os lados antes de revistar os bolsos de seu abrigo, sem deixar de apoiar-lhe o cano do revólver. Rapidamente encontrou o maço de dinheiros.

–Hoje você não tem sorte. Perdoe-me, as coisas são assim.

O cara subiu em uma bicicleta que tinha encostada em um portão e olhou duas vezes para trás revólver em mão antes de se perder na escuridão da noite. Tudo havia acontecido em menos de um minuto.

 

García caminhou até sua casa como um autômato. Ainda podia sentir a pressão da ponta da arma no seu estômago. Abriu a porta.

–Boa noite –cumprimentou desde o corredor.

–Você perdeu? –perguntou-lhe sua mulher a maneira de saudação.

–Sim –contestou García pendurando o abrigo.

 

 

Marcelo Fébula

 

Pink Floyd: The early years 1967/72 cre/ation

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Caixas com o passado de bandas/artistas não são mais raridades no mercado da música. Pink Floyd-The early years 1965-1972 Cre/Ation quebra a rotina do quase mais do mesmo, apresentando realmente o raro na produção do grupo. Desde as indefinições, os erros, as grande composições de Syd Barrett, como tudo foi se encaixando até se tornar Pink Floyd tal como conhecemos. Uma caixa para além de surpresas, revelações que nos remetem a uma das maiores bandas desta Terra. Uma verdadeira aventura que viveram neste período de 67 a 72. Um presente valioso e inesgotável. Pink Floyd é passado, presente e futuro.

Leon Russell * 2016

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Os anos sessenta/setenta com tudo o que já se sabe e o que ainda está por saber, para além dos grandes instrumentistas do rock, blues, jazz, pop, folk e outros gêneros, revelou pianistas de exceção. Nomes (não necessariamente pela ordem dos anos e apenas alguns): Elton John, Nicky Hospkins, Billy Preston, Steve Winwood, Leon Russell. Lendário nas teclas, tocou com Eric Clapton, Joe Cocker (com a sua banda Mad Dog and Englishmen o acompanhava), George Harrison (esteve no concerto para Bangladesh), Bob Dylan e participou de gravações emblemáticas com Frank Sinatra, Willie Nelson, Ray Charles, The Byrds, Rolling Stones e Beach Boys. Não havia gênero que o desafiasse, tocava todos. Um instrumentista de extraordinária grandeza, um ser humano fabuloso, e uma história para ser escutada sempre.

 

 

Foto: Even Semon/The Denver Post

Luke Temple: A hand through the cellar door

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Luke Temple depois de andar pelo eletrônico retorno ao índie folk. Simples, tranquilo, um contador de histórias em suas letras, levadas com instrumentos acústicos em arranjos bem elaborados. Se por vezes a guitarra aparece aqui e ali, não há quebra do ritmo denso que imprime às melodias. Sua narrativa atravessa a realidade com tranquilidade, conta a vida e através dela vive. A hand through the cellar door soa tão contemporâneo quanto possa parecer antigo. É a vida atravessando os acordes do cotidiano.

Emeli Sandé: Long live the angels

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Escocesa de nascimento, Emili Sandé tem sua música enraizada no R&B e no soul, quem sabe por influência do pai africano (Zâmbia). Alguns flertes com o eletrônico e com o jazz são sempre bem-vindos em suas composições. Sem perder a essência, Sandé faz de cada harmonia em sua voz um canto de expressão universal à paz. Não foge dos temas atuais e por isso está á frente com um trabalho consistente e denso em sua proposta para além dos ritmos mas também da palavra escrita. Long live the angels é mais um passo nessa direção. Sejam os nossos também.