Conto: O porto

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Dentro desse fogo, alma e terra cedem suas almas e terras. No branco dos seus olhos, as manchas do dia desaparecem. Áspera é a noite à espreita. Atraída pelos relâmpagos cresce entre as luzes e o medo. Dentro e fora, há muito as mãos perderam a firmeza, revelando carne e veias transparentes. O limo nascia aos poucos entre as pedras e as raízes. O sol iluminava os trilhos,  que se perdiam para o fundo da terra. Estranhavas aqueles veios, aquelas vertentes secas, o voo cego das aves e as casas abandonadas. Estranhavas os nervos à pele, as listras da tarde e seus rascunhos sobre as janelas. O pêndulo cansado não marcava mais o tempo. As cruzes, sopradas pelo vento, envelheceram, acinzentaram os signos e as sombras ardiam dentro da alma desse fogo. Estranhavas o fosco da lâmina a um palmo dos pulsos, os sentidos anônimos e o silêncio dos vidros recortados pelas frestas daquelas janelas sem cores. Dentro desse fogo, os feixes se abriam protegidos pelos tecidos mais finos do frio do inverno. Aquele vazio desfeito te paralisava. Estranhavas a ausência da tripulação e quando vias a água engolindo a âncora, depositavas a certeza da partida no vulto daquele homem esticando a rede. Então, apagavas a vela e caminhavas até ele. As nuvens se avolumavam acima dos teus ombros, tinhas pressa. As chaves na gaveta ficaram para sempre imóveis e retorcidas pelo calor do fogo. Teu corpo úmido também cedeu. Estavas no fogo. Estranhavas o foco luminoso dentro da tua alma e depois aquele escuro se soprepondo ao fundo do fundo da terra. Esquecestes de se despedir da vida. O porto era apenas o começo do fim. Sem mais teus sonhos, a memória do teu olhar reteve por pouco tempo a luz do dia e o dourado do plátano.

Foto: Chronosfer. Glaciar Perito Moreno, Patagônia, Argentina.

 

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4 Respostas para “Conto: O porto

  1. There are places I remember … All my life … changed … forever not for better, gone, remain…

    E é quando as manchas do dia desaparecem que as lágrimas registram todos os momentos, todos os lugares, todos os olhares.

    Fernando, esta canção… Despedidas são dilacerantes. Porque não podemos, simplesmente, nos alegrar com a maravilhosa dádiva do abraço e, ao invés, nos rasgamos pela mão que se afasta?

    Seu conto é tão bonito. E foi lindamente osculado por esta canção singela, tocante, amorosa.

    São quentes as lágrimas. E as lembranças. Um abraço.

    • é um texto esse de 2004/2005, e as palavras vinham muitas vezes assim, e então escrevia. foi um período muito difícil, minha mãe havia partido, e o porto na verdade é um personagem que brinca com o tempo verbal, misturando passado, presente e o futuro está por dentro. a música, é quem sabe esse por dentro em forma de harmonias. obrigado, Anna, pela leitura, pela palavra, pela presença. meu abraço.

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