Aníbal Troilo & Roberto Grela: Tangos

Hoje, mais um dia 26 no calendário, mais um dia que se avoluma em meus dias de saudade. A partida do pai mais que cumprir sua passagem entre nós, foi uma passagem de ensinamentos, de vida, de força, de gana, de esperança. E criar em cada momento, uma amizade que vai formando uma cadeia de outros tantos amigos. Assim, ele se tornou amigo do Marcelo Fébula. Por tantos motivos, entre eles, os cavalos de corrida, o tango, a milonga. Não foram muitos esses momentos, o início de sua partida já havia começado mesmo sem ainda saber, no entanto foi intenso. E é pelo Marcelo que fica hoje esse dia de saudade como um dia de fortalecer elos. Obrigado, Marcelo.

E também chega ao fim a passagem do Chronosfer. O tempo voa mais rápido que eu possa acompanhar e o sul que vive em mim me chama com urgência. A todos os que por aqui estão, para os que passam e seguem seus caminhos, deixo o meu mais fraterno abraço de muito obrigado pelos ensinamentos que acolhi e acolho com vida.

 

Troilo – Grela

Troilo 9

Aquela plataforma giratória Wincofon, o popular “winco”, trabalhou com nós desde antes que eu nascesse até meus 12 anos, quando foi prestar serviços na casa de uma tia. Lembro olhar os seus movimentos maravilhado: o prato girando, um braço segurando os vinilos, outro se movimentando com precisão, e os discos caindo. Os chamados LP (longa duração) eram leves, caiam com suavidade e giravam a uma velocidade de 33 rpm. Mas os outros, os pesados e frágeis de 78 rpm, despenhavam-se com estrondo e demandavam ao winco seu máximo esforço. Entre a pilha de discos havia dois ou três daqueles velhos “78” do selo discográfico TK que tinham etiquetas de cores cinza, branco e preto. Eram os de Troilo – Grela. Sou um homem afortunado. As obras que gravaram estes dois gigantes da música argentina me acompanham desde menino. Conta a lenda que no ano 1952 se apresentava no atual teatro Presidente Alvear da Avenida Corrientes de Buenos Aires a comedia musical “El Patio de la Morocha”. Em uma das partes da obra, Aníbal Troilo com seu bandoneón encarnava a um dos pioneiros do tango: o “Tigre” Eduardo Arolas. Junto ao violonista Roberto Grela interpretava o tango de Arolas “La Cachila”. Na estreia, o público explodiu em uma ovação tão grande que tiveram que repetir o tema, o único que tinham ensaiado. Imediatamente o selo TK lhes sugeriu que gravaram. O duo original se completou com Edmundo Porteño Zaldívar em guitarrón (um violão de som mais grave) e Enrique “Kicho” Díaz em contrabaixo. A formação gravou 12 joias entre 1953 e 1955.

La cachila. Tango. Música de Eduardo Arolas, letra de Héctor Polito. Gravado em 1953.

Palomita blanca. Vals. Música de Anselmo Aieta, letra de Francisco García Jiménez. Gravado em 1953.

A Pedro Maffia. Tango. Música de Aníbal Troilo. Gravado em 1953.

Sobre el pucho. Tango. Música de Sebastián Piana, letra de José González Castillo. Gravado em 1953.

Diablito. Tango. Música de Pedro Maffia, letra de Ismael Aguilar e Gerónimo Martinelli Massa. Gravado em 1954.

Un placer. Vals. Música de Vicente Romero, letra de Andrés Caruso. Gravado em 1954.

La cumparsita. Tango. Música de Gerardo Matos Rodríguez, letra de Pascual Contursi e Enrique P. Maroni. Gravado em 1955.

Nunca tuvo novio. Tango. Música de Agustín Bardi, letra de Enrique Cadícamo. Gravado em 1955.

Mi refugio. Tango. Música de Juan Carlos Cobián, letra de Pedro Numa Córdoba. Gravado em 1955.

A la guardia nueva. Tango. Música de Aníbal Troilo. Gravado em 1955.

El abrojito. Tango. Música de Luis Bernstein, letra de Jesús Fernández Blanco. Gravado em 1955.

Taconeando. Tango. Música de Pedro Maffia, letra de José Horacio Staffolani. Gravado em 1955.

Em 1962 Eugenio Pro substitui a Kicho Díaz, Ernesto Báez a Edmundo Zaldívar, se adiciona o violão de Domingo Laine e a agrupação grava outros dez temas.

Nunca tuvo novio. Tango. Música de Agustín Bardi, letra de Enrique Cadícamo. Gravado em 03 de Maio de 1962.

Madame Ivonne. Tango. Música de Eduardo Pereyra, letra de Enrique Cadícamo. Gravado em 21 de Agosto de 1962.

La trampera. Milonga. Música de Aníbal Troilo. Gravado em 21 de Agosto de 1962.

Mi noche triste. Tango. Música de Samuel Castriota, letra de Pascual Contursi. Gravado em 21 de Agosto de 1962.

La Tablada. Tango. Música de Francisco Canaro. Gravado em 21 de Agosto de 1962.

Silbando. Tango. Música de Cátulo Castillo e Sebastián Piana, letra de José González Castillo. Gravado em 27 de Agosto de 1962.

La maleva. Tango. Música de Antonio Buglione, letra de Mario Pardo. Gravado em 27 de Agosto de 1962.

Ivette. Tango. Música de Julio Roca e Augusto Berto, letra de Pascual Contursi. Gravado em 27 de Agosto de 1962.

Pa’ que bailen los muchachos. Tango. Música de Aníbal Troilo, letra de Enrique Cadícamo. Gravado em 13 de Setembro de 1962.

Maipo. Tango. Música de Eduardo Arolas, letra de Gabriel Clausi. Gravado em 13 de Setembro de 1962.

Não é exagerado adjetivar de joias as gravações do primeiro período. A maioria desses doze registros pode ser incluído em qualquer antologia de música argentina de todos os tempos.

Os amigos podem encontrar cada uma destas obras no Youtube, aqui só deixo o link de duas (impressionantes), algumas fotografias e um vídeo que também é uma verdadeira joia testemunhal.

Fotos 

1: etiqueta dos velhos discos de 78 rpm.

2: capa de uma das muitas reedições do material.

3: Aníbal Troilo e Roberto Grela.

4: Aníbal troilo no bandoneón, Roberto Grela no violão, Kicho Díaz no contrabaixo e Ernesto Báez no guitarrón(isso segundo os epígrafes da fotografia em muitos sites de Internet. Para mim não é Báez, é outro grande violonista, Héctor Ayala).

5: Aníbal Troilo e Edmundo Zaldívar.

6: Ernesto Báez no guitarrón, Eugenio Pro no contrabaixo, Roberto Grela no violão e Aníbal Troilo no bandoneón.

7: Zaldívar, Grela, Díaz e Troilo.

8: Roberto Grela e Aníbal Troilo ao lado do grande cantor Roberto “Polaco” Goyeneche.

9: Troilo, Pro, Grela e Báez acompanhando a outro grande cantor: “El Feo” ou “El Gaucho” Edmundo Rivero. (abaixo do título)

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Troilo 4

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Troilo 7          Troilo 8

Video

Do filme Buenas Noches Buenos Aires (de 1964, com direção de Hugo del Carril), uma cena inesquecível: recriando uma reunião de música e dança dos tempos fundacionais do tango, Beba Bidart e Tito Lusiardo dançam a milonga “La Trampera” com acompanhamento musical de Aníbal Troilo e Roberto Grela (acho que o outro violão que se vê é Ernesto Báez).

 

Foto 3: Troilo 3

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6 Respostas para “Aníbal Troilo & Roberto Grela: Tangos

  1. Quo vadis, Domine?

    Chronos, o tom dos meus dias tem sido colorido por tua Música. Não transcorrem perfeitos nem pastéis, pois que eu os contamino com minha dor e meu sombreado. Ela os tem salvo do cinza chumbo e roxo bispo de minha palheta. Suave e profunda, paciente e etérea, afeto e calor. Onde vais com ela? A beleza compartilhada é homenagem a quem nos ensinou e guiou. Eis o que você traz em tuas linhas e tela para teus leitores. Aprendo todos os dias contigo. Mas, aprendiz ainda, não posso já compartilhar sem o tanto que ainda há por apre(e)nder. E como prosseguir sem quem nos pode ensinar? E como levantar? E reagir? E ser?

    Egoísmo? Sim. Elevado. Aqui também uma ainda longa jornada a realizar…

    Quo vadis, Domine?

    • oi, obrigado pela palavra rica e densa, mas como um jogador de futebol veterano ainda em campo devo saber a hora de parar: é agora (ops, desculpe a rima). o bom é que tudo segue o seu curso e com ele vamos aprendendo sempre. o sul me chama e atendo a ele. fica o meu abraço e o agradecimento por tudo que aprendi.

      • FeR, o Sul tem mesmo um apelo irresistível. Chega a incomodar. A música, o frio do ar e o calor dos corações chamam, chamam… Fica o meu por aqui, choroso da tua partida. Visitarei este Chronos para o amanhecer dos meus dias – se você não se importar – já que essa melodia da tua toada me impregnou a alma e tem embalado minha caminhada. Se há um agradecimento a deixar é o meu. Te encontrar nos meus passeios foi um presente. A Lírica disfarçada na tua prosa, o Tempo nas entrelinhas, o Amor tomando todos os espaços… Há aqui um lar, a morada de um coração amoroso camuflado com a braveza do Minuano. Não me assusta nem espanta. É uma forja. É um presente. E foi sempre uma escolha. A.
        Tenho perdido para o Sul. Chamados como este tem levado afetos e impedido encontros. Garota, 16 anos, estive nas Missões em viagem com meus pais. Amei aquele silêncio, aquela paz. Há pouco, um amigo, silente como ar frio e tânico, melhor a cada dia, partiu – e meu coração também – e levou consigo o adorado Sul, minha porção austral de afeto. Agora você… Posso compreender. Voltar para casa é quente, tentador. Ele me deixou ferida, mas é certo, está feliz. Será a história se repetindo aqui? Creio que sim.
        À medida que escrevo para você, vou recordando tuas letras, teu solfejo. Você é veterano, tuas peças atestam maravilhosamente. Mas é um craque. Um às. E retirar-se é um desejo do teu coração, mas não uma imposição do Tempo. Não há tempo para a maestria, nem para a entrega.
        Te desejo uma recepção calorosa quando chegar à tua casa nativa, ao aportar onde te leva o chamado. Em minha casa, bem sabes, será recebido sempre com flores. Deixarei um mate reservado. Venha me visitar. Eu te visitarei.
        Não suporto despedidas. Então não me despeço.
        Um abraço com calor. Até. Anna.

      • oi, obrigado pela generosa palavra, e sentado no banco de reservas posso observar melhor o jogo, aqui no sul muito disputado, pela garra, pela vontade, pela alma. gosto desses campos nem sempre esverdeados, e agora cobertos de geada. é o sul. estarei por aqui postando amanhã ou depois. obrigado pela Nara, sempre sensível. meu abraço.

  2. Não sei se entendi corretamente… teu blog chegou ao fim? Se for isso, agradeço por muitos a cultura que semeaste incansável. Há de dar frutos. Obrigada!

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