Cousteau: Sirena, Nova Scotia, …

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O indie rock comporta tantas vertentes e possibilidades. O Cousteau trilhou o caminho das harmonias bem construídas, sofisticadas, vocais ternos, melancólicos por vezes e com um jeito quase folk e um pop bem definido em suas texturas e acordes. Donos de influências marcantes como David Bowie ou Burt Bacharach, Nick Cave, já demonstra a densidade do seu trabalho. Como muitas ou a maioria das bandas, as gravações de demos foram reunidas em um álbum em 1998 pelo selo Global Warming com Cousteau. A repercussão positiva fez com que novos voos fossem dados e Nova Scotia veio a seguir também repleto de críticas aletas e animadoras. Todavia, em 2005 param até que Liam McKahey e Davey Ray Moor retomam o projeto em 2015. As suas canções possuem dramaticidade, força e são ao mesmo tempo encantadoras.

 

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Keane: Strangeland

 

keane-strangeland

Os britânicos do Keane não são revolucionários. Fazem um rock alternativo palatável e por vezes ultrapassam os limites e criam canções que recepcionamos com entusiasmo. Talvez tenha sido até então – 2012 – o álbum que melhor sintetizou a relação entre a poesia, o lirismo com melodias mais complexas, valendo-se em especial do piano como instrumento protagonista. As críticas, divididas, acentuam suas nuances e variações, porém alertam que as doze canções do disco lançado não trazem nada de novo e para outros estão na chamada “zona de conforto”.  Se Strangeland acentua isso, por certo também apresenta passagens que podem ser classificadas como experimentais o que por só já é um feito. O Keane faz música sem medo, afinal sua bagagem de influências é invejável e diversificada: Beatles, Oasis, REM, Smiths, U2, Queen, Ramones, Paul Simon, e muito mais. Uma bagagem e tanto. E a textura musical? Bom, melhor é ouvir e juntar esses pontos todos.

 

 

Música argentina: o violão de Ciro Pérez

Abril abre suas portas e já em dias bem alentados acolhe texto generoso do violonista e jornalista argentino Marcelo Fébula, que todos os meses bate ponto neste espaço. Ao amigo do Prata de Buenos Aires, sempre presente, o abraço e o muito obrigado deste lado do Guaíba de Porto Alegre.
Ciro Perez y Vidal Rojas
Ciro Pérez
 
     Às vezes os músicos alcançam grandes objetivos profissionais no inicio de sua carreira. Alguns deles ficam ai, detenidos, com prestigio e dinheiro assegurados e sim vontade arriscar nada artística ou economicamente. Mas outros continuam o caminho, pensando sua realidade só como uma instância, e não como um ponto final.
     Um exemplo notável é o de Astor Piazzolla. Sendo quase um menino alcançou um objetivo “de máxima” que outros músicos poderiam demorar toda uma vida em conseguir: ser integrante de uma das orquestras de tango mais populares e com mais qualidade: a de Aníbal Troilo (e não um simples integrante, pois também era capaz de suplantar ao primeiro bandoneón do diretor e fazer arranjos orquestrais). Porém, o Astor um dia considerou que sua etapa dentro da orquestra estava finalizada, e buscou novos horizontes.
     Salvando as distancias, o caso do violonista uruguaio Ciro Pérez é o mesmo. Havendo alcançado o posto de primeiro violão no quarteto que acompanhava ao gigante Alfredo Zitarrosa, um dia deixou aquele espaço extraordinário e cruzou o Rio de la Plata para tocar com o Mestre Roberto Grela, figura fundamental do tango, ponto de referencia obrigatório no violão da música popular argentina.
Mas tampouco esse espaço foi seu “objetivo de máxima”. Depois de integrar um tempo os conjuntos de Grela e registrar um disco antológico (dez gravações em duo de violãos com ele), colocou a proa em direção a Europa, terra onde reside há muitos anos.
     Dentro dos muitos trabalhos e projetos desarrolhados no velho continente, aqui uma pequena mostra da mestria do grande Ciro Pérez. Neste caso, tocando tango junto ao bandoneonista William Sabatier e o violonista Norberto Pedreira
Por Marcelo Fébula
Foto: Capturada na Internet

 

Original Soundtrack: High Fidelity

 

hi-fi

O filme dirigido por Stephen Frears, estrelado por John Cusack, Jack Black e Tim Robbins traz uma trilha exuberante. E a história também sacode com uma espécie de “vida” que renasce: o vinil. É o personagem de Cusack, dono de loja de discos, ex-DJ, que vai conduzindo cada fio dessa trama, cuja teia é pura sonoridade dos anos 60/70, e vai passeando pelos gêneros à vontade. Afinal reunir em um mesmo álbum The Kinks, Love, Velvet Underground, Elvis Costello, Bob Dylan, Stevie Wonder, Stereolab, inclusive Jack Black é uma façanha para poucos. Cusack integrou o time de produtores da coletânea. Ela sobrevive ao tempo e se acomoda à perfeição ao enredo e personagens. Se o filme desliza aqui e ali, a trilha é mais que destaque. Daquelas que ficam presas em nossa memória e mesmo que seja em cd vale a pena, enquanto o vinil não chega.

 

Tom Waits: Blood money

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Disco de 13 canções escritas por Tom Waits, Kathleen e o dramaturgo Robert Wilson. A veia teatral, muito viva e rica em Waits, desperta sempre atenção. A partir do texto de Georg Buchner, de 1937, o álbum foi concebido ou inspirado, a escolha é sua, da peça Woyzeck com toda a sua história alucinante, que oscila entre o terrível e o alegre, e por vezes nostálgico. No que cabe as linhas melódicas, há elegância, sutileza, o quê dramático que caracteriza TW. Concorre para isso, a presença de instrumentistas do peso do bluesman Charlie Musselwhite, Larry Taylor, Andrew Borger, Colin Stetson, o ex-Police Stewart Copeland e PJ Harvey. Espalhados e bem acomodados ao longos das faixas, não necessariamente juntos nelas, alimentam todas as contradições da proposta musical, tornando-a proprietária de uma estética muito “simpática”, pois há espaço inclusive para o amor dentro desse universo. Blood money é um trabalho digno, sensível, denso. É o homem e suas fraquezas. É o homem iluminado. E nos remete para uma época mais presente que o passado possa imaginar e o futuro esperar.

 

REM: Automatic for the people

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Para a promissora década de oitenta, o REM teve um significado importante. Ao ingressar no cenário alternativo do rock, Michael Stipe, Peter Buck,  Mike Mills e Bill Berry foram construindo os alicerces que fixaram a banda no mundo da música. Gravações independentes até 1991, consagraram o seu jeito de compor e tocar. Depois, em grande gravadora, embora tenham se deixado levar mais para o rock cristalino, não perderam de vista a essência e chegaram Out of time e Automatic for the people com o sucesso se multiplicando. Os álbuns que vieram após, ainda que aqui e ali tenham lá suas diferenças e alguma perda da estética original, consolidaram o REM. Em especial Around the sun e New Adventures in Hi-Fi, por exemplo. Em 2011 encerra como grupo, deixando um legado denso e muito rico para o rock alternativo, principalmente.

 

Ivan Vilela: Paisagens

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Música brasileira. Autêntica. Raiz profunda da terra. A viola dedilhada com a paixão e o sabor da fruta madura da vida. Da promessa do futuro. Da bagagem do passado. Da realidade do presente. É muito complicado tentar escrever sobre Ivan Vilela. Sobre o violeiro. Sobre a pessoa, com quem tive a felicidade anos atrás de trocar correspondência por escrito. Isso mesmo, palavra escrita à mão, tinta de caneta. Simples, aberto, alma repleta de sonhos e viagens, me convidou a fazer uma pela interior do Brasil. Não havia como ir. Fiquei eu no sonho, ele na viagem, criando mais espaço em sua bagagem. Paisagens é uma obra desse tempo. E desde então, faz parte da minha bagagem. Ivan Vilela, mais que violeiro, um encantador de canções.

 

PS: A imagem de “Armorial” não possui qualidade, mas sugiro fechar os olhos e apenas se deixar levar por suas tessituras.