Ana Cañas: Tô na vida

ana cañas

Ana Cañas é um exemplo da transversalidade entre manifestações culturais. Não permanece parada em um único lugar, busca o novo desde o teatro, onde começou a sua carreira artística, até chegar à música. Tô na vida é outra conquista muito pessoal. Eis que muito mais autoral, a paulista abraça o pop e o folk brasileiros com naturalidade. Ousadia, composições que “colam”, capa arrojada e simples em beleza e conceito, e também na estética que revela Ana por completo. Ou quase. O disco possui uma unidade construída com o Nação Zumbi Lúcio Maia, e o teclado de Marcelo Jeneci. E repleto de influências roqueiras, passando por Rita Lee e parceria com Arnaldo Antunes, por exemplo. Alguns críticos cotam o disco como regular, outros arriscam ser dos melhores de 2015. Ainda assim, é um trabalho que merece ser ouvido. Pode-se gostar ou não.

 

Jovino Santos Neto: Roda Carioca

Jovino S Neto

Para um Biólogo por formação, e músico que não escolhe instrumento embora o piano, a escaleta e a flauta estejam em plano superior para ele, Jovino Santos Neto é um compositor e produtor carioca com uma trabalho sólido e definido na música. Seus espaços são preenchidos com o jazz, à brasileira, sonoridades mais contemporâneas e densas. Não por acaso tocou com Hermeto Pascoal e Airto Moreira, Flora Purim e Mike Marshall. Sempre bem acompanhado, tem o seu próprio grupo, ajusta-se na medida certa com composições que trilham o instrumental. Suas texturas contemplam muito do nordeste brasileiro e seus trabalhos se revelam universais com gosto bem brasileiro. A preciosidade de suas canções estão presentes em cada acorde e ouvi-lo é estar dentro da biologia que o transforma em um talento que não tem medo de ser arrojado. Um grande compositor, um instrumentista ainda maior.

Rolling Stones: 1968 – 1972

exile-on-main-st

Muitos críticos consideram o período de 1968/1972 o melhor, o mais fértil dos Rolling Stones. Nesses anos, nasceram Beggars Banquet, Let it Bleed, Stick Fingers e Exile On Main St. Com detalhe importante: sem Brian Jones e com Mick Taylor na guitarra. Talvez sejam mesmo os melhores Stones. Para trás, Aftermath, Between the Buttons, The Rolling Stones mostram um grupo mais ácido, mais veloz, mais “opositor aos Beatles”, mais Rolling Stones. Todavia, com os quatro álbuns acima Mick Jagger, Keith Richards, Bill Wyman, Mick Taylor e Charlie Watts, com a “ajuda de amigos” como o sax de Bobby keys, o piano de Nick Hopkins e trompete de Jim Price, eles alcançaram uma espécie de o melhor dos melhor deles mesmo. Uma mistura fantástica de blues, rock & roll, soul, country, e o que mais pudesse aparecer, eles construíram sólidas bases musicais e composições onde, tal como um texto, há uma superfície, que continuou em relação ao início, a mesma, mas com substâncias e conteúdos novos. As guitarras mais aceleradas, as baladas mais acústicas, o blues mais visceral. Há um visível estado de hipnose em quem para e se debruça sobre estes trabalhos. Agora, próximo de mais uma vida de Jagger & Cia ao Brasil, visitar seus discos é uma pedida que vale o tempo. E como vale.

Heraldo do Monte: Cordas vivas, Cordas mágicas

Consertao-300

O pernambucano de Recife é um violonista que não conhece fronteiras. Desde o nordeste, onde suas raízes cresceram e deram muitos frutos, até os limites que geografia impõe, não ficou limitado a eles nem a ela. Como todo o começo, árduo, como toda a história, a partida para outros lugares. E foi em algum desses lugares, São Paulo para ser exato, que entra no Quarteto Novo. Com ele, Hermeto Pascoal, Théo de Barros e Airto Moreira. Um quarteto e tanto. As músicas? Mescla de todos os gêneros mas com uma base de raiz nordestina e muito jazz. Jazz com sotaque nordestino. Heraldo constrói uma carreira sólida e criativa. Não há trabalho com sua assinatura que não esteja envolto com o melhor da música. Um dos discos mais fantásticos que participa é ConSertão. Seus companheiros? Nada mais nada menos que Paulo Moura, Elomar e Arthur Moreira Lima, a mescla original e popular. Suas cordas são como seus discos, mágicas, vivas, iluminam ainda mais o dia, são estrelas quando a noite anoitece de vez. A magia de Heraldo amanhece e não impõe limite. É infinita.

Guinga & Gabriele Mirabassi: Gaffiando vento

Guinga & Gabriele

O clarinete do italiano Gabriele Marabassi e o violão de Guinga estão em comum acordo em Graffiando Vento. Encontro de estilos e escolas de música diferentes, porém com punhados de texturas que unem os instrumentos em arranjos singulares e cuja vida se apropria do espaço onde é tocada. Comunhão do brasileiro da nossa música popular com o toque sempre mágico do jazz do italiano. Experiências que abrem espaços, desafiam horizontes, e mostram a universalidade do que há de melhor aqui e lá. O repertório assinado por Guinga – quem não o conhece dos lados de cá? – é um verdadeiro achado para Gabriele. E as canções vão sendo passadas com tanta densidade que o fôlego fica em meio ao caminho. Disco sensível e do mundo. Sem exagero.

Mani Padmed Trio: Depois

Mani Padme

Um trio que reverencia a música. Seja de onde for, seja do lado de cá do hemisfério, seja do lado de cima, seja da Linha do Equador. Pouco importa. O baixo de Zeca Assumpção, o piano do cubano Yanel Matos e a bateria de Ricardo Mosca é um convite para a diversidade musical. O sotaque, os cheiros, os ritmos, o feeling de Cuba dialogam com o jazz, com a música popular brasileira, e também com os nossos diversos jeitos de ser de cada estado, com seus ritmos, características e sonoridades. Dentro do trio, cabe convidado. Gravou Um dia de chuva em 2002. Neste Depois o sax e a flauta de Teco Cardoso estreita ainda mais o diálogo entre os instrumentos. E assim o Mani Padme cria espaços únicos. Tranquilos. Criativos. E, sobretudo, de integração.  Preciosidade. Aqui, alguns momentos do trio.

Robin Gibb: 50 St. Catherine´s Drive &The Titanic Requiem

Robin Gibb

Os irmãos Gibb têm o seu nome inscrito na história da música. Barry e os gêmeos Robin e Maurice desde os anos sessenta colecionaram clássicos do pop, da dance music, do experimentalismo, do rock e de qualquer outro estilo que sua criatividade tocasse. Suas harmonias vocais são uma marca registrada e os arranjos de cada canção sempre cuidadosos e elaborados contribuíram para o sucesso. Embora nem sempre o “sucesso” os acompanhasse. Rupturas, brigas de egos, fracassos, discos ruins, carreiras solo, projetos abaixo da crítica – o filme com as músicas dos Beatles é um exemplo – todavia, os Bee Gees ingressaram no imaginário e na vida de milhões de pessoas. Depois da morte de Maurice, o enfraquecimento do grupo foi cada vez maior até que em maio de 2012 Robin partiu. Antes, dois trabalhos que haviam sido realizados foram lançados, melhor, lançamentos póstumos: The Titanic Requiem50 St. Catherine´s Drive. O primeiro é um álbum mais dedicado à música clássica, com passagens que vão da euforia à tragédia ao se debruçar, junto com o filho RJ Gibb, na história do Titanic. Um disco repletos de passagens marcantes e bem definidas, sem ser um “clássico”, e revela um Robin compositor amadurecido. Com o acompanhamento da Royal Philarmonic Orchestra e convidados, incluindo sua própria participação em “Don´t cry alone”, são 15 faixas que se ouve com suavidade. Por outro lado, o segundo da lista, abraça canções compostas entre 2006 e 2008 e nelas o ex-Bee Gees revela sua versatilidade como criador. Para além de canções melosas, há muito de uma visão mais ampla e atual, até aquele momento, em suas harmonias. Se os vocais são a sua marca, muitas das composições assumiram ritmos e gêneros tão distintos que percebe-se  aqui e ali a inquietude de um criador em busca do seu melhor sem medo. Não são trabalhos revolucionários. Longe  disso. No entanto, há neles um quê da história de quem viveu as canções dos Bee Gees desde os anos 60 e foi atravessando o tempo contado em décadas e suas transformações até chegar ao ponto inicial. Registros que cativam e emocionam.

Vento Trio:Brazilian dances and inventions

Vento Trio

Para quem pensa que somente instrumentistas brasileiros podem “viver” com intensidade nossos gêneros e ritmos, o norte-americano Vento Trio quebra essa regra. Janet Grice, Sarah Koval e Kevin Willois, fagote, clarinete e flauta, fazem uma deliciosa viagem por nossa sonoridade com todo os “jeitos” brasileiros. Sem medo algum de fazer um repertório para lá de clássico de nossa música – Pixinguinha, Milton Nascimento, Jacob do Bandolim, Jovino Santos Neto, Luiz Gonzaga, Guerra Peixe, Luiz Siqueira, Luiz Otávio Braga e Lorenzo Fernandez – ou seja, música popular, a mpb (ouçam “ponta de areia”), jazz, baião, chorinho e eruditos, eles não perdem, ou melhor, não deixam para trás o gingado brasileiro. Arranjos criativos, performances magníficas e sobretudo uma aliança de músicas que pisa nossa terra com naturalidade e fica a sensação de criar raízes em nosso solo fértil. Um disco notável na íntegra logo abaixo. (infelizmente, os vídeos não foram disponibilizados. peço desculpas. está disponível outro vídeo, não do disco sugerido, mas de outra peça para que possam ouvi-lo melhor.)

Marcelo Fébula: O tango Malena

Desde Buenos Aires, todos os meses o periodista e músico e amigo Marcelo Fébula traz até este Chronos matérias sobre a cultura musical da Argentina. Uma contribuição qualificada e que apresenta novas leituras sobre a sonoridade, os artistas, os gêneros deste nosso vizinho do Prata. Agora, Marcelo chega com a história de um dos tangos que povoa nosso imaginário: Malena. Gracias siempre, Marcelo.

tango 1

 

Malena, composto em 1941, é um dos mais belos tangos da história. A obra, com letra do poeta Homero Manzi e música de Lucio Demare, foi realizada pela primeira vez na boite “Novelty” pelo cantor Juan Carlos Miranda acompanhado pela orquestra de Lucio Demare. Pouco depois essa versão foi usada no filme “El Viejo Hucha”, lançado em abril de 1942, com o ator Osvaldo Miranda fazendo fono-mimetismo. Mas no início do mesmo ano, mais precisamente no dia 08 de janeiro, Malena já havia sido gravado para o selo RCA Victor pela orquestra de Aníbal Troilo com a voz de seu cantor emblemático, Francisco Fiorentino, com grande sucesso.

A poesia tem duas partes separadas por um coro. Na primeira parte Homero Manzi fala da forma de cantar o tango que tem Malena, e depois passa a falar diretamente com ela, dizendo como ele sente-se ao ouvi-la cantar. O poeta, que nasceu na província de Santiago del Estero e passou sua infância e adolescência no bairro de Nueva Pompeya, em Buenos Aires, utiliza na obra a linguagem e metáforas característicos de seu estilo, um estilo com o qual influenciou a outros grandes poetas do tango como Cátulo Castillo ou Homero Expósito (de acordo com estudiosos do gênero, Manzi a sua vez foi influenciado pelo surrealismo francês e poetas como Pablo Neruda ou Federico García Lorca).

Espero que os amigos desculpem os prováveis erros nesta tradução:

Malena canta o tango como nenhuma

e em cada verso coloca seu coração.

A erva do subúrbio a sua voz perfuma,

Malena tem pena de bandoneón.

Talvez lá na infância a sua voz de cotovia

assumiu esse tom escuro de beco,

ou talvez aquele romance que só nomeia

quando ela fica triste com o álcool.

Malena canta o tango com voz de sombra,

Malena tem pena de bandoneón.

Tua canção

tem o frío do último encontro,

tua canção,

torna-se amarga na sal da memória.

Eu não sei

se a tua voz é a flor de uma pena,

só sei que ao rumor de teus tangos, Malena,

sinto-te mais boa,

mais boa que eu.

Teus olhos são escuros como o esquecimento,

teus lábios apertados como o rancor,

tuas mãos duas pombas que sentem frio,

tuas veias têm sangue de bandoneón.

Teus tangos são criaturas abandonadas

que atravessam a lama do beco,

quando todas as portas estão fechadas

e ladram os fantasmas da canção.

Malena canta o tango com voz quebrada,

Malena tem pena de bandoneón.

 

Em uma entrevista de 1974 do jornalista e escritor Osvaldo Soriano, o pianista Lucio Demare disse que fez a música de Malena em não mais que 15 minutos. Manzi tinha dado a letra dez dias antes, e ele achava que tinha que mostrar-lhe, pelo menos, o início. Foi assim que se sentou no café “El Gran Guindado” (em frente ao Jardim Zoológico de Buenos Aires, um bar que não existe mais) e escreveu fluentemente a música, sem polimento e sem mudar nada.

O princípio da linha melódica de Malena é muito semelhante ao “Choros No. 1”, obra para violão do grande compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos, escrita em 1920 (as quatro primeiras notas de ambas obras são as mesmas). Mas esta não é certamente a única ligação da obra com o Brasil, nem a mais importante.

¿Quem foi Malena? A maioria dos pesquisadores concordam que era uma pessoa real chamada Elena Torterolo, cujo nome artístico era Malena de Toledo. Aparentemente Manzi ouviu-lhe cantar em 1941 no Brasil, provavelmente em São Paulo, embora existem testemunhos fortes que colocam este encontro na noite de Porto Alegre, cidade onde Manzi tinha viajado a fim de levantar fundos para seu filme “La Guerra Gaucha “.

Esta senhora Malena de Toledo nasceu no Chile (outras versões indicam a província de Santa Fe, Argentina) em 1916, e morreu em Montevidéu em 1960. Passou a sua infância em Porto Alegre e viveu em São Paulo, Venezuela e Buenos Aires, onde teve a sua casa no coração da cidade. Era casada com Genaro Salinas, um proeminente cantor de boleros mexicano com quem teve dois filhos, e chegou a manter um encontro com Lucio Demare em 1959. Seus restos descansam no Panteão dos Artistas do cemitério de Chacarita, em Buenos Aires. O historiador Angel Benedetti relata em seu livro “As melhores letras de tango” uma lenda que coletou: “Malena de Toledo tinha esse tango em seu repertório sem suspeitar que ele foi escrito para ela. Quando contaram-lhe isso ficou tão impressionada que parou de cantar para sempre.”

Mas muitos estudiosos também têm argumentado que Malena de Toledo pode ter sido a inspiração direta, especialmente do nome da canção, mas não a pessoa real para quem Manzi escreveu. Nessa linha de argumentação, é dito que o poema foi dedicado a Nelly Omar, com quem o poeta teve um conhecido romance, versão que confirmou a mesma Nelly, excelente cantora apelidada “Gardel com saias”. Manzi dedicou as letras de vários de seus tangos para ela (Nenhuma, Só Ela, Sua Carta Não Chegou).

Outros investigadores também dizem que a destinatária da letra foi outra voz do tango, Azucena Maizani, algo que ela sempre negou, ou que a protagonista foi uma mulher que trabalhaba num bar do bairro de La Boca, costureira e cantora amador.

Existem numerosas versões de Malena, um dos tangos mais interpretados da história, incluindo arranjos só instrumentais. Para terminar esta pequena nota escolhi uma delas: a mencionada que gravaram em 1942 Francisco Fiorentino com a orquestra de Aníbal Troilo (embora seja uma versão onde parte do poema é omitido, algo muito comum nas gravações de tango dos anos ’40).

 

 

Gustavo Santaolalla: Camino

Gustavo Santaolalla

O nome Gustavo Santaolalla, hoje, é ligado ao cinema. Com as trilhas sonoras e com os dois Oscar que levantou em Hollywood. Com justiça. Como, no entanto, nem sempre a vida começa com um Oscar e um discurso, Santaolalla é enraizado em seu país, Argentina, com o folclore, o rock e também o tango. No início dos anos setenta, sua veia de músico e produtor o juntou a um dos grandes artistas da nossa América Latina: León Gieco. Criaram discos extraordinários, com a mescla do folclore com o rock, o cheiro rural em cada faixa, e desaguaram em um projeto de recompilação folclórica argentina chamada De Ushuaia a La Quiaca. Mais tarde, Gustavo se debruçou, além das trilhas, com outro trabalho maravilhoso: Café de Los Maestros. Se os cubanos e Ry Cooder haviam feito o não menos maravilhoso Buena Vista Social Club, trazendo à luz dos palcos a velha geração de músicos de Havana antes de Castro, o argentino buscou os antigos maestros do tango porteño e uruguaio. Em algum ponto dessa estrada, ambos se encontram. Porém, foi com as composições para filmes como Babel e Brokeback Mountain que seu voo alcançou altura. Sem deixar para trás sua origem, fez um álbum interessante: Camino. Treze canções, todas com a sua assinatura e  créditos totais também como instrumentista do disco, Santaolalla compôs uma obra cuja unidade está expressa de forma quase monocórdica. Da primeira a última faixa, a sensação de se estar ouvindo a mesma canção é quebrada pelas suas sutilezas harmônicas e as quebras inesperadas com um ou outro instrumento que dão alento e vida ao que parece o mesmo. Peças curtas, na mais longa, “Seguir”, os ponteiros do relógio quando ingressam no terceiro minuto param no 44º segundo, caracterizam a essencialidade de seu trabalho, sem excessos, onde tudo se encaixa com perfeição. Um disco para se ouvir com calma, sem pressa, deixando-se levar por suas suaves tessituras.