As corridas como eram até os anos 50

Rio Volga 1Hoje, mais um mês na contagem da saudade, que cresce e amadurece como um fruto sem jamais, no entanto, cair no chão. Na cesta da vida, permanece intacta e forte e mostra o quanto vivê-la também nos faz viver. É muito mais que uma lembrança. É um conviver que apenas marcou encontro para outro lugar, em outro tempo ainda a ser determinado. Hoje, esse café desce com a magia de um passado que cada vez mais é presente nas distâncias que devemos percorrer.

seabiscuit

O livro Seabiscuit – Uma lenda americana, da editora e articulista Laura Hillenbrand é uma peça valiosa para os turfistas e para quem goste de corrida de cavalos. Ao narrar e entrar em detalhes fascinantes da trajetória não apenas de Seabiscuit e também dos personagens que protagonizaram todo um espetáculo em um Estados Unidos dilacerado pela Depressão, Laura trouxe à vida o que muitos não sabem sobre o como ser jóquei – no livro, em como era ser – e suas imensas dificuldades. Mais que isso, em como o ser humano desafia a si mesmo e as todas as perspectivas em busca não somente da vitória se não pela sobrevivência. Na década de trinta do século passado a importância dos hipódromos, do jogo, das corridas era muito mais que uma válvula de escape. A decadência da sociedade necessitava de heróis e Seabiscuit foi um deles. Em uma das passagens, a segurança dos jóqueis: ” … Exigindo que os competidores humanos montassem animais erráticos em meio a agrupamentos densos em grande velocidade, as corridas da década de 1930 eram repletas de perigos extremos, assim como as de hoje. Os cavaleiros nem precisavam cair para se machucar seriamente. Mãos e canelas eram esmagadas e os ligamentos dos joelhos se rompiam quando os cavalos giravam de repente ou colidiam com cercas ou muros. …. Quando foram criados os primeiros e primitivos boxes de saída no início da década de 1930, estes não eram almofadados e alguns jóqueis morriam literalmente sobre a sela, atravessados pelo aço exposto das barras superiores quando seus cavalos empinavam sobre as patas traseiras. … Ferimentos graves são uma certeza para todos os jóqueis, a exemplo de fraturas e esmagamentos, frequentes em acidentes automobilísticos sofridos em autódromos. … Em cinco ferimentos, pelo um se localiza na cabeça ou no pescoço. Uma pesquisa de 1993 descobriu que 13% dos jóqueis sofrem concussões em um período de apenas quatro meses. O número de acidentes era muito maior nas décadas de 1920 e 1930; apenas no período compreendido entre 1935 e 1939, dezenove cavaleiros morreram em acidentes enquanto exerciam sua profissão. Naquela época, eram empregadas táticas muito perigosas, e a ausência de equipamentos de proteção aumentava a vulnerabilidade dos jóqueis, causando inúmeros acidentes fatais. Nos dias de hoje, as corridas são filmadas sob múltiplos ângulos para garantir que os jóqueis conduzam suas montarias de modo seguro. São obrigados  a usar jaquetas reforçadas, semelhantes a coletes à prova de bala, óculos de proteção e capacetes de alta tecnologia, além de competir em raias equipadas com grades de segurança e haver ambulâncias posicionadas em torno da pista. Estes luxos não estavam à disposição dos jóqueis de antigamente. Na melhor das hipóteses, apenas um ou dois comissários supervisionavam as táticas de corrida. A única proteção usada pelos jóqueis era um boné de papelão, recoberto de seda. O ex-jóquei Morris Griffin, que ficou paralítico, devido a uma queda sofrida em uma corrida disputada em 1938, comparou seu boné a um quipá. Como não tinham uma correia passando sob o queixo, os bonés voavam da cabeça do cavaleiro antes de este chegar ao chão. Para piorar as coisas, quase todos os jóqueis inutilizavam o boné ao cortar o topo e retirar o forro para diminuir o peso. …”

Rossano e o capacete

No antigo e sempre saudoso Hipódromo dos Moinhos de Vento, em Porto Alegre, apenas nos anos 1950 o capacete de fibra foi usado pelos jóqueis. Em matéria publicada na imprensa, Mário Rossano posa com um deles, ainda em fase de experiência. Antes, era exatamente como Hillenbrand narra em seu livro.

Final justo

Acima, em que Rossano vence na “fotografia” páreo disputadíssimo, percebe-se os bonés dos jóqueis sem nenhuma espécie de proteção. Os tempos do pradinho foram mais tranquilos, as reuniões eram número mais reduzidos, as cercas de madeira, em especial a interna, e somente na ida para o Hipódromo do Cristal em 1959, as mudanças começaram a valer. Os boxes foram introduzidos nos anos sessenta, os capacetes evoluíram e se tornaram mais resistentes, e a segurança muito maior. Ainda assim, um acidente de pista, no extinto Hipódromo de Mathias Velho, em Canoas, próxima a capital, em uma rodada “feia”, uma labirintite minou de maneira precoce aos 37 anos a carreira vitoriosa de Mário Rossano. A memória entre os turfistas permanece viva e hoje é uma lenda entre eles e os jovens profissionais.

 

Música: La Mufa

Livro: Seabiscuit – Uma lenda americana, de laura Hillnbrand, págs. 98/103

Fotos: jornal Folha da Tarde, 1958.

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10 Respostas para “As corridas como eram até os anos 50

  1. Embora nas leituras por aqui seja possível imaginar esse lado, não me lembro de vc ter detalhado isso até então. Apesar dos desfechos trágicos, muitas vezes, esse mundo é mágico e sedutor. Adorei mais uma vez a leitura. Forte abraço Fernando.

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