Marcelo Fébula: O tango Malena

Desde Buenos Aires, todos os meses o periodista e músico e amigo Marcelo Fébula traz até este Chronos matérias sobre a cultura musical da Argentina. Uma contribuição qualificada e que apresenta novas leituras sobre a sonoridade, os artistas, os gêneros deste nosso vizinho do Prata. Agora, Marcelo chega com a história de um dos tangos que povoa nosso imaginário: Malena. Gracias siempre, Marcelo.

tango 1

 

Malena, composto em 1941, é um dos mais belos tangos da história. A obra, com letra do poeta Homero Manzi e música de Lucio Demare, foi realizada pela primeira vez na boite “Novelty” pelo cantor Juan Carlos Miranda acompanhado pela orquestra de Lucio Demare. Pouco depois essa versão foi usada no filme “El Viejo Hucha”, lançado em abril de 1942, com o ator Osvaldo Miranda fazendo fono-mimetismo. Mas no início do mesmo ano, mais precisamente no dia 08 de janeiro, Malena já havia sido gravado para o selo RCA Victor pela orquestra de Aníbal Troilo com a voz de seu cantor emblemático, Francisco Fiorentino, com grande sucesso.

A poesia tem duas partes separadas por um coro. Na primeira parte Homero Manzi fala da forma de cantar o tango que tem Malena, e depois passa a falar diretamente com ela, dizendo como ele sente-se ao ouvi-la cantar. O poeta, que nasceu na província de Santiago del Estero e passou sua infância e adolescência no bairro de Nueva Pompeya, em Buenos Aires, utiliza na obra a linguagem e metáforas característicos de seu estilo, um estilo com o qual influenciou a outros grandes poetas do tango como Cátulo Castillo ou Homero Expósito (de acordo com estudiosos do gênero, Manzi a sua vez foi influenciado pelo surrealismo francês e poetas como Pablo Neruda ou Federico García Lorca).

Espero que os amigos desculpem os prováveis erros nesta tradução:

Malena canta o tango como nenhuma

e em cada verso coloca seu coração.

A erva do subúrbio a sua voz perfuma,

Malena tem pena de bandoneón.

Talvez lá na infância a sua voz de cotovia

assumiu esse tom escuro de beco,

ou talvez aquele romance que só nomeia

quando ela fica triste com o álcool.

Malena canta o tango com voz de sombra,

Malena tem pena de bandoneón.

Tua canção

tem o frío do último encontro,

tua canção,

torna-se amarga na sal da memória.

Eu não sei

se a tua voz é a flor de uma pena,

só sei que ao rumor de teus tangos, Malena,

sinto-te mais boa,

mais boa que eu.

Teus olhos são escuros como o esquecimento,

teus lábios apertados como o rancor,

tuas mãos duas pombas que sentem frio,

tuas veias têm sangue de bandoneón.

Teus tangos são criaturas abandonadas

que atravessam a lama do beco,

quando todas as portas estão fechadas

e ladram os fantasmas da canção.

Malena canta o tango com voz quebrada,

Malena tem pena de bandoneón.

 

Em uma entrevista de 1974 do jornalista e escritor Osvaldo Soriano, o pianista Lucio Demare disse que fez a música de Malena em não mais que 15 minutos. Manzi tinha dado a letra dez dias antes, e ele achava que tinha que mostrar-lhe, pelo menos, o início. Foi assim que se sentou no café “El Gran Guindado” (em frente ao Jardim Zoológico de Buenos Aires, um bar que não existe mais) e escreveu fluentemente a música, sem polimento e sem mudar nada.

O princípio da linha melódica de Malena é muito semelhante ao “Choros No. 1”, obra para violão do grande compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos, escrita em 1920 (as quatro primeiras notas de ambas obras são as mesmas). Mas esta não é certamente a única ligação da obra com o Brasil, nem a mais importante.

¿Quem foi Malena? A maioria dos pesquisadores concordam que era uma pessoa real chamada Elena Torterolo, cujo nome artístico era Malena de Toledo. Aparentemente Manzi ouviu-lhe cantar em 1941 no Brasil, provavelmente em São Paulo, embora existem testemunhos fortes que colocam este encontro na noite de Porto Alegre, cidade onde Manzi tinha viajado a fim de levantar fundos para seu filme “La Guerra Gaucha “.

Esta senhora Malena de Toledo nasceu no Chile (outras versões indicam a província de Santa Fe, Argentina) em 1916, e morreu em Montevidéu em 1960. Passou a sua infância em Porto Alegre e viveu em São Paulo, Venezuela e Buenos Aires, onde teve a sua casa no coração da cidade. Era casada com Genaro Salinas, um proeminente cantor de boleros mexicano com quem teve dois filhos, e chegou a manter um encontro com Lucio Demare em 1959. Seus restos descansam no Panteão dos Artistas do cemitério de Chacarita, em Buenos Aires. O historiador Angel Benedetti relata em seu livro “As melhores letras de tango” uma lenda que coletou: “Malena de Toledo tinha esse tango em seu repertório sem suspeitar que ele foi escrito para ela. Quando contaram-lhe isso ficou tão impressionada que parou de cantar para sempre.”

Mas muitos estudiosos também têm argumentado que Malena de Toledo pode ter sido a inspiração direta, especialmente do nome da canção, mas não a pessoa real para quem Manzi escreveu. Nessa linha de argumentação, é dito que o poema foi dedicado a Nelly Omar, com quem o poeta teve um conhecido romance, versão que confirmou a mesma Nelly, excelente cantora apelidada “Gardel com saias”. Manzi dedicou as letras de vários de seus tangos para ela (Nenhuma, Só Ela, Sua Carta Não Chegou).

Outros investigadores também dizem que a destinatária da letra foi outra voz do tango, Azucena Maizani, algo que ela sempre negou, ou que a protagonista foi uma mulher que trabalhaba num bar do bairro de La Boca, costureira e cantora amador.

Existem numerosas versões de Malena, um dos tangos mais interpretados da história, incluindo arranjos só instrumentais. Para terminar esta pequena nota escolhi uma delas: a mencionada que gravaram em 1942 Francisco Fiorentino com a orquestra de Aníbal Troilo (embora seja uma versão onde parte do poema é omitido, algo muito comum nas gravações de tango dos anos ’40).

 

 

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