Bob Dylan:The cutting edge – 1965-1966

bob dylan cutting

O 12º volume da série Bootleg traz Bob Dylan em toda a sua genialidade. mais que isso, mostra o como transforma suas canções em canções nem sempre definitivas e o quanto persegue o que acredita ser o melhor em relação a cada uma das suas composições. The cutting edge abraça os anos 1965 e 66 e três discos: Bringing it all back home, Highway 61 revisited e Blonde on Blonde. Período fértil, cada álbum uma obra-prima. Dylan em sua melhor forma, sem concessões. As músicas foram trabalhadas à exaustão. Seja na forma, nas palavras, no ritmo ora acelerado ora mais lento, quase balada, e vai fazendo com quem ouve também mudar a sua sensação, o seu sentimento. De repente, pega-se uma dela, qualquer uma, ouve o take 1 e o take final, depois de várias “transformações” e ouve-se outra canção. E o que não surpreende, afinal falamos de Mr. Robert Zimmerman, é a sua capacidade inesgotável de criar. A caixa  é uma preciosidade, takes de uma mesma música se repetem e nunca é a mesma canção. Para ser ouvido com calma, sem pressa, e para quem quer conhecer cada modificação em músicas clássicas ou nem tão conhecidas assim do repertório do bardo Dylan.

 

Anna Von Hausswolff: The Miraculus & Singing from the grave

Anna Hausswolff

A pianista sueca Anna Von Hauswolff  compõe e canta com equilíbrio e densidade. 2010 fica como uma marca do começo: Singing from the grave. Por óbvio, as comparações também começaram: um quê de Kate Bush, por exemplo. Todavia, o equilíbrio e o diferente em Anna, cujo rótulo aparece em pop/rock, está na forma, na estética: toca órgão de igreja. Integra-se ao ambiente. Marca seu território em nuances próprios e distantes dessas comparações comuns e ávidas feitas por alguns críticos mais apressados. A sueca possui talento. Abre espaços para qualquer gênero. Suas teclas são universais. Suas mãos deslizam suaves no folclore, no gótico, no pop, até mesmo no metal. Por que não? E faz a mescla de rock com músicos clássicos. The Miraculus é uma síntese dessa forma e estética que a torna por vezes sonhadora, delicada e em outras com o humor abaixo da linha dos olhos. Transforma sua voz em instrumento, entrelaça-a com o órgão. Tinge as faixas dos discos que gravou com tantas possibilidades, com intensa alternância de voz e sons cada audição é um momento diferente e único. Eis aí o equilíbrio, a intimidade, a delicadeza, o acolhimento que a música de Anna envolve quem a ouve. Por ser diferente, faz a diferença. Ouça com atenção.

Gravenhurst: The ghost in daylight

Gravenhurst

Gravenhurst era Nick Talbot. O inglês foi de tudo um pouco, um pouco de tudo: jornalista, multi-instrumentista, cantor, compositor. E com seus trabalhos solos foi criando uma teia maior de canções mais alternativas de rock, deixando o convencional para trás. E foi juntando outros músicos. E outras vozes. As composições, mais para o sombrio, para o folk possuem intrincadas soluções harmônicas, variando de um solo de guitarra mais alto a um simples dedilhar de cordas. The ghost in daylight é um disco atmosférico, sem cair no ranço midiático. Ao contrário, há muito de canções do folclore, do popular, acústicas e vocais tecidos com cuidado para cada acorde. Aqui e ali você vai encontrando influências marcantes na criação de Talbot.  E elas apenas fortalecem o Gravenhurst. Outros trabalhos do grupo (1999-2014) sempre tiveram o selo de Nick até a sua partida. Música que envolve, faz a respiração cadenciar o ritmo, atenua o caminhar áspero dos dias de hoje, e ao ingressarmos em sua essência sonora, a esperança renasce com densidade.

Humanidade: Fronteiras fechadas

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2015. Século XXI. Será? Boate Kiss, Santa Maria. Mariana, Minas Gerais. Paris, França. Líbano. Síria. Imigrantes náufragos. E a lista não para de crescer. 2015. Século XXI. Será? Dia após dia, a humanidade fecha suas portas. E nós perdemos a chave para abri-la. Ontem, Mariana, o desastre, dezenas de vidas perdidas e desaparecidas. O Rio Doce assassinado. Milhares sem água, sem alimentos, sem vida. Ninguém preso. Hoje, o terror em Paris. Mais de centena de vidas sem vida. Em nome de quê? E amanhã? Será que amanheceremos?

Allen Toussaint: *1938 +2015

Allen

Partir é um verbo doloroso. Quase sempre. E quando a partida é assim, feita pelo de repente que todos nós sabemos um dia será realidade, a dor se abre como uma ferida cuja cicatriz talvez o futuro não cure. Allen Toussaint partiu poucos dias atrás. Mais que um pianista extraordinário, um ser humano com letras maiúsculas. Dono de obra impossível de ser catalogada ou rotulada face ao talento com que os teclados amaciavam sua sensibilidade. Manteve aceso o rhythm´n´blues, o soul, o verdadeiro funk, não o que se vende por aí, estreitou sua musicalidade com os mais diversos nomes ´sem diferenciar gêneros. Universal. Uma alma feita de tecidos harmônicos densos, e cuja intensidade a pele arrepia a cada acorde. Pete Townshend, Paul McCartney, Rolling Stones, Albert King, Dr. John, Eric Clapton. Quem mais? Um disco genial com Elvis Costello: The River in Reverse. Sua percepção para além das intricadas harmonias o tornaram um compositor, cantor, arranjador, produtor único. Daqueles que está à frente sempre. Allen partiu. Levou junto parte expressiva de New Orleans. Mas, a cidade e sua gente, como todos nós, estaremos reverenciando o talento de Toussaint toda a vez que o seu piano cobrir cada espaço que existe dentro de nossa alma.

Adam Cohen: Like a Man

Adam Cohen

O peso do DNA pesou um tanto durante anos. Afinal, ser filho de Leonard Cohen é mais que um peso, mas de repente poderia ser um caminho e uma bagagem de histórias. Adam fez a escolha certa. A de seguir caminho. Like a Man são dez canções que, sim, tangenciam o pai, e ao mesmo tempo revela um compositor/cantor de personalidade. Não vale comparações. Injusto. Adam é Adam e isso é o suficiente. E sua matéria-prima é amar. Ela desafia as faixas do disco, desliza por sua voz, pelos instrumentos, pelas vozes que acompanham, pelo próprio canadense. E torna-se um trabalho autoral, escapando das metáforas do Cohen pai e introduzindo uma linguagem mais direta, sem muitas concessões em sua objetividade repleta de observações. Os arranjos são sutis, bem elaborados e se complementam, tornando a obra um todo bem encaixado. Um disco que Adam fez para ser Adam Cohen e não o filho de Leonard. Conseguiu. É um belo e sensível álbum.

O jovem mestre Carlos Roldán, guitarra de alto nível, por Marcelo Fébula.

O fraterno amigo porteño Marcelo Fébula, jornalista e músico, todo o mês chega em nosso pequeno cais e deixa preciosidades da música argentina. Hoje. aporta por aqui Carlos Roldán. Ouvir sua “guitarra” é uma viagem para o interior de nossa alma. Gracias, Marcelo.

carlos roldan

Guitarrista, arranjador e compositor, Carlos Roldán nasceu em Eilde, Província de Buenos Aires, Argentina, em 22 de abril de 1989. Começou a estudar violão clássico aos nove anos com os professores Miguel Restilo e Carlos Schupak do Instituto de Folclore y Artesanías Argentinas (IFAA) e continuou seus estudos com o guitarrista Jorge Santos no Instituto de Música de Avellaneda (IMMA). Alguns de seus prêmios: “Torneos Juveniles Bonaerenses 2004, primeiro prêmio; finalista do “Pré-Cosquín 2005 e 2006”; primeiro prêmio “Música argentina para guitarra 2006”, organizado pela Guitarras del Mundo; declarado “Cidadão Exemplar” pelo Honorável Conselho Deliberativo da cidade de Avellaneda.

Oferece concertos, atualmente, em todo o país e lidera um excelente site que recomendo visitar: http://guitarrademusicaargentina.blogspot.com.ar    (Marcelo Fébula)

Pela ordem:

Trinos y alas” (chacarera) de Abel Fleury ,”El Quebrao” (gato) de Carlos López Terra, “Cuando se disse Adiós” de Eduardo Falú y Jaime Dávalos, “La llamadora” (zamba) de Félix Dardo Palorma e “La milonga perdida” (milonga) de Atahualpa Yupanqui.

 

 

 

Rita Lee: Bossa´n Beatles ou Aqui, Ali, Em qualquer lugar

Rita Lee

A história de Rita Lee é a história de muitos de nós. Qualquer dicionário de música que a aponte. constará uma gama de gêneros e movimentos que abrangem décadas de coerência e sobretudo de inquietude criativa. E chegam então os anos sombrios dos sessenta e o Tropicalismo fustigando estética e conceitos. Os Mutantes resistem ao tempo não apenas por isso, mas porque realizaram obras que mexeram e mexem com o pensamento, com o imaginário das pessoas. Imagine isso tudo em plena ditadura militar. Depois, outros tantos e vários caminhos. Alguns, bem sucedidos, outros nem tanto. Porém, a assinatura Rita Lee tem peso e densidade suficientes para sempre recriar, reinventar. Até que um dia gravou um disco – 2001 – com músicas de ídolos de gerações e gerações: Beatles. Com toda a espécie de problemas possíveis, afinal Rita Lee em nada é convencional, muitas das versões para o português castigaram os executivos detentores do direitos das composições de Lennon&McCartney. Aparadas as arestas, os arranjos e produção de Roberto Carvalho criaram um álbum alicerçado na bossa nova. Um diferencial, muito embora sei lá quantas gravações pelo mundo adentro inovaram ou não a leitura dos Beatles. Até canto gregoriano, esse até não é sinônimo de menosprezo, ou em forma barroca, jazz, blues, e um sem número de outras possibilidades, o que apenas demonstra o quanto o quarteto de Liverpool revolucionou e ainda revoluciona. Então, Rita Lee. Bossa Nova em um repertório suave, envolvente, tranquilo e amoroso. Um disco que somente é quebrado deste compasso em ” I wanna hold your hand”, que ganhou forma de forró e a abertura, “A hard days night”, roçando o rock. Em “In my life”, seja em inglês ou em português, a voltagem emotiva aumenta, assim como “All my loving” desperta corações. Disco para ficar bem ao alcance das mão e do player.