Madeleine Peyroux, Lizz Wright, Joss Stone, Sheryl Crow, Eliane Elias

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Rui Veloso: Concerto Acústico

ruiveloso

Às vezes, o acaso ou a sorte ou o nome que possa dar ao que acontece, colhe frutos maduros em árvore que nossos olhos veem e ao mesmo tempo não olham. Conhecia desde tempos o Rui Veloso. Todavia, o parar e ouvi-lo com atenção ainda não estava como o fruto da árvore. Então, com Crosby, Stills & Nash ao fundo, pesquisa pelo youtube algumas músicas de Lizz Wright, em especial “To Love Somebody”, que tem a assinatura dos Bee Gees – essa canção já foi interpretada por Janis Joplin, Nina Simone, Rod Stewart, entre tantos – quando ao lado direito da tela estava Rui Veloso – O Concerto Acústico. Desliguei o CS&N, saí da canção de Miss Wright e abri o concerto do Rui. E então um feixe imenso de histórias e vida se uniram em harmonias e letras – verdadeiras poesias – que transformaram o dia em pura musicalidade. O cantor, compositor e instrumentista português é um desses talentos que a gente quando ouve uma música não quer deixar para depois as demais do concerto. Ele, tão próximo às influências do blues e do rock de BB King e Eric Clapton; ele, que desde criança já andava com a harmônica pela casa, e se insinuou pelo violão, pela guitarra e pelo piano e esteve no palco com Carlos Santana e Roger Waters; ele, que tem o poeta Carlos Tê como letrista inspirado e profundo; ele simplesmente fez um acústico fantástico e de uma sensibilidade aguda a atingir todos os poros de quem o ouve. As guitarras compondo um universo de harmonias com sua voz e deslizando pelas letras cantadas e o tempo se desfazendo a cada canção e logo a seguir se erguendo com os alicerces de suas próprias tessituras. Um disco para se guardar ao alcance das mãos e ir direto para o player. Abaixo, na íntegra.

Stanley Jordan: Cornucopia

stanleyjordan

Stanley Jordan é um virtuose. Basta ouvi-lo e o mundo se transforma. Quem o ouve também. O guitarrista é mais que um instrumentista clássico por formação. Para além dos bancos da academia, as ruas forjaram sua forma de tocar guitarra. Quem sabe, a melhor escola. Do rock e do soul para o jazz e o jazz fusion foram poucos passos. O talento, sempre o mesmo. Melhor, em crescimento constante. Todos os seus discos são vertentes maduras, ora águas tranquilas ora revoltas que a criatividade instiga. É um instrumentista que se vale e muito da técnica. E em sendo técnico abre mais espaços para desenvolver o jeito único de toca. Com o tapping – consiste em uma ou duas mãos para “martelar” na escala do instrumento, ligando-as, adquirindo efeito de grande velocidade – revolucionou a música instrumental. E a ela aliou várias influências, inclusive a brasileira, a caribenha e por aí segue. Uma guitarra cujas harmonias nos fazem criar harmonias dentro de nós mesmos.

Mísia: Garras dos Sentidos

Mísia

Susana Maria Alfonso de Aguiar, Mísia. O fado em movimento. A beleza da luz e das sombras que serpenteia sua voz entre as harmonias das guitarras. A melancolia marca encontro com temas recorrentes como a solidão, amores perdidos, a morte sempre à espreita. Mísia faz de Garras dos Sentidos uma conjunção perfeita dessas teias todas aliando à tradição portuguesa do fado a toques sutis e generosos de jazz e outras influências que colheu ao longo de sua vida – viveu anos na Espanha, por exemplo. As palavras, escolhidas em poetas e escritores novos e consagrados, ganha também uma riqueza única. E elas, as palavras, de José Saramago, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro ou Agustina Bessa-Luís conferem não apenas atualidade mas uma intérprete madura e sensível ao novo, à tradição. É nessa aliança entre os tempos que os silêncios nascem para descobrirem as sonoridades do violino, do acordeom, de arranjos que não mais se limitem ao corte solitários dos acordes e provoca a emoção das peles sem jamais cair do sentimentalismo fácil. Ao contrário, é íntimo, verdadeiro, profundo e aloja-se em nossa alma com intensidade. Os seus discos são obras inesquecíveis. E está a caminho Para Amália. Mais peles sensíveis à vista.

Charlie Haden: The Montreal Tapes

Charlie Haden

Se Nelson Rodrigues certa feita afirmou que toda unanimidade é burra a frase não se aplica a Charlie Haden. Mais que ser unânime, o contrabaixista fez escola em suas linhas melódicas de baixo, tornando-o não apenas um compositor mas um instrumentista dos mais requisitados em vida. Perdemos Haden em 2014. todavia, é um músico que permanece muito rico e vivo dentro de cada canção sua ou que participa que ouvimos. o contrabaixo único. E Charlie foi de uma versatilidade visceral, o que comprova seu talento. A grande maioria o identifica com o jazz, e com razão. Se olharmos um pouco mais fundo em sua biografia, vamos encontrar passagens no universo country, folk, outros gêneros tão distintos como os africanos, latinos e fez a sua estrada também em posições políticas fortes sempre a favor do humanismo e da humanidade. Gravou com Egberto Gismonti e Jan Garbarek o fabuloso Folk Songs, e à lista pode-se acrescentar Joni Mitchell, Ricky Lee Jones, Keith Jarrett, Ornette Coleman, o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba, Plastic Ono Band – Yoko Ono -, Paul Motian, Carla Bley e Pat Metheny entre tantos mais. No Festival Internacional de Jazz de Montreal de 1989, tocou com o trompete de Don Cherry e a bateria de Ed Blackwell. Um disco extraordinário. Sensitivo. Puro. Um disco Charlie Haden de ser. Abaixo, Haden e suas canções e interpretações em vários momentos.

Olivia “estrela da vida inteira” Hime: poesias de Manuel Bandeira

Olivia Hime

Alguns discos são como livros. Chegam e se instalam em nossa alma e cabeceira e nos acompanham por onde quer que nossos passos caminham. Estrela da Vida Inteira da Olivia Hime, sobre poemas de Manuel Bandeira é um desses. Assim como o seu Mar de Algodão, quando visita a obra de Dorival Caymmi. Em Estrela… a proposta se alicerça na estreita combinação entre a cantora, a poesia e compositores convidados. Alguns, com participação no disco, que é de 1986 e parece ter sido lançado poucas horas antes. Gilberto Gil, Francis Hime, Tom Jobim, Milton Nascimento, Wagner Tiso, Moraes Moreira, Ivan Lins, Dorival Caymmi, Toninho Horta, Joyce, Radamés Gnatalli, Dori Caymmi e a própria Olivia fazem com que a poesia de Manuel Bandeira ganhe ainda mais cor e vida. O resultado é algo que passa a fazer parte de nosso interior. Impossível ficar impassível. Há um entrelaçamento sensível entre as combinações, encontros e nuances que somente essas linguagens são capazes de fazer. E fazem. E nós, mais que ouvintes, passamos a ser parte também. Se não somos estrelas, nossa luz ilumina a sensibilidade que nos habita e percorre desde nossa alma até a pele que o sol aquece. Um disco para se guardar para todo o sempre.

Duofel: Plays The Beatles

Duofel

Gravar Beatles já passou da originalidade. O que torna as gravações diferenciadas entre si é a leitura que o artista é capaz de fazer sobre a obra do quarteto de Liverpool. Fernando Melo e Luiz Bueno, dois violões e muitas ideias, muita estrada e muita música nas mochilas, transformaram as canções de Lennon & McCartney e George Harrison em um manancial de águas cristalinas. Se sua trajetória como Duo é uma realidade na música instrumental brasileira, a carreira no exterior, longe das fronteiras do Brasil sempre foi consolidada. O início com Tete Espíndola, depois a presença marcante de Hermeto Pascoal, para ficar apenas em dois nomes, carimbaram a qualidade do trabalho dos instrumentistas. E o velho sonho de realizar Beatles enfim realizado. Arranjos que percorrem os pouco mais de 48 minutos em onze faixas que hipnotizam o ouvinte. E fazem com que a frase já desgastada pelo tempo de John, “O sonho acabou”, seja apenas uma frase tamanha é força do disco. Denso, rico e sobretudo sensível, o instrumentos do Duofel não desafia a história da maior banda de todos os tempos. Mostra, contudo, que eles canalizam energia para que talentos com Fernando e Luiz possam transformar suas composições em “novas” composições ao sabor do sentimento que nutrem pela música e seus caminhos infinitos.