Carlos Badia: Zeros

carlos badia

Se alguém passar e perguntar se Carlos Badia é o mesmo do grupo de jazz Delicatessen a resposta é sim. O compositor, produtor e instrumentista faz algum tempo que trabalha suas canções. Ao deixar o Delicatessen, iniciou um mergulho no tempo e foi lapidando suas canções que forma descobertas na década de 90 e chegaram até estes anos 2000. Zeros, álbum duplo, pode ser visto como uma síntese destes anos ou um disco que percorre seus vários caminhos além do jazz. Um dos discos contempla sua criação instrumental, o outro transporta o ouvinte para o universo vocal. E a som de ambos condensa suas influências ao longo desse tempo todo: jazz, naturalmente, bossa nova, samba, zamba e ritmos caribenhos. Há nele, em Zeros, uma síntese da universalidade de Badia. As mesclas de gêneros, os países que nos circundam, os que estão lá adiante de repente se encontram em complexas harmonias criadas pelo compositor. Seus arranjos, elaborados em esmero e talento, carimba o trabalho solo, o primeiro, com extremo virtuosismo. Se quem gosta do Delicatessen, por certo haverá de gostar de Carlos Badia, mas não tente juntar os dois ao mesmo tempo. O disco de Badia tem vida própria, e abraça o ouvinte com toda a sua sensibilidade.

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Orquestra Popular de Câmara

Orquestra PC

“Quando ouvi pela primeira vez a Orquestra Popular de Câmara, certifiquei-me de estar assistindo ao nascimento de um novo movimento musical, com base na associação de excelentes instrumentistas que, além disso, realizam arranjos originais e inovadores. Esse grupo especial de músicos produz seu trabalho de modo eclético, em composições de vários estilos e de diversas origens, dando oportunidade a que cada um de seus componentes possa exprimir as características individuais de seu virtuosismo. Não acredito existir hoje no Brasil um trabalho de tal qualidade e tão comovente beleza instrumental. Daí a minha convicção de que a Orquestra Popular de Câmara, ao apresentar este seu primeiro cd, está abrindo portas para nós, apaixonados pela MPB, de um importante e novo caminho para a criatividade musical brasileira”.

Texto de Roberto Freire no encarte do disco.

O grupo foi formado em 1997, lançou este em 98, e depois Danças, jogos e canções (2003), sempre pela Núcleo Contemporâneo. Seus componentes são nomes que dispensam qualquer apresentação formal ou que aqui se faça um histórico individual. Basta ler a relação: Mônica Salmaso – para mim, a maior cantora brasileira dos dias de hoje -, o pianista Benjamim Taubkin, o acordeom de Toninho Ferragutti, a flauta de Teco Cardoso, a percussão de Caíto Marcondes, a viola e o violão de Paulo Freire, o sax de mané Silveira e mais Dimos Goudaroulis, Sylvio Mazzucca Jr. Guello, Zezinho Pitoco, Lui Coimbra e mais outros tantos que de alguma forma não deixam de formar um clube. Um clube para o qual estamos convidados a participar.

Rodolfo Mederos & Nicolas “Colacho” Brizuela: Tangos

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A música que vem do jazz e do blues, cuja matriz é africana, verte pelos poros dos instrumentistas do mundo. E gera frutos infinitos. Aqui na América do Sul uma gama de influências a partir da conquista do território, e a custo desumano e injustificável de crimes contra a humanidade como saques da cultura, genocídios e escravatura – para ficar nesses três – inseriu no espectro cultural de nossos países a formação de novos ritmos, novos jeitos de tocar instrumentos além da introdução natural de novos instrumentos. Bom, tudo isso para dizer que músicos de tango também, tempos depois, para além das vivências dos bairros portuários e outros ambientes de Buenos Aires, não se fixaram tão somente nas estruturas convencionais de então. Ao longo do tempo, com a quebra dessa estrutura, em especial por Astor Piazzolla, os instrumentistas característicos do gênero não eram apenas autodidatas, se não que estudavam ou com músicos consagrados ou em escolas de música. E no currículo estava o jazz, que Piazzolla já mesclava ao tradicional. Não foi diferente com o bandoneón de Rodolfo Mederos e com o violão de Nicolas Brizuela. Se Mederos possui uma trajetória mais ligada as orquestras, independente de seu trabalho solo, como a do mestre Osvaldo Pugliese e parcerias importantes com Mercedes Sosa, Luis Alberto Spinetta e até mesmo com o catalão Joan Manuel Serrat. Por outro lado, “Colacho” Brizuela se consagrou como violonista de Mercedes Sosa, desde que gravou com La Negra Mercedes canta Atahualpa Yupanqui no já distante 1977. E, naturalmente, participações em diversos trabalhos em especial com o jeito peculiar de tocar violão e interpretar o folclore argentino. Dessa união, nasceu um disco memorável: Tangos. Um repertório clássico e de compositores que não aparecem em uma primeira lembrança para quem não conhece tango. Um disco instrumental. Bandoneón e violão. Para ser ouvido, escutado, e se deixar levar por suas texturas suaves e reveladoras dos mais secretos tesouros das harmonias que permaneciam escondidas em algum lugar do tempo passado.

Luciana Souza: The Book of Chet

Luciana Souza

Discos homenagens são sempre uma surpresa. Tanto pode ser agradável quanto pode ser o oposto. E nem se trata de superar o original. Não, absolutamente não. Até porque superar Milton Nascimento, por exemplo, é muito mais que um exercício, é muito mais que um esforço que beira ao sobrenatural. Milton é Milton assim como qualquer artista é o que é pelo que soube construir em sua vida. Isso significa que trabalhos voltados à homenagens são destituídos de originalidade ou são inválidos? Mais uma vez o “não, absolutamente não” entra em cena. A brasileira Luciana Souza, cantora de matriz jazzística com menos sabor picante e mais introspecção nas teias do trompetista e cantor Chet Baker, em The book of Chet, cuja história de vida é uma história e tanto. Rende muito mais que discos. Todavia, o talento de Baker é inegável assim como Luciana penetra nessas harmonias com intimidade. E é nela, nessa intimidade, que sua voz vai construindo um outro tipo de intimidade: a nossa. Ao não escolher tão somente os clássicos de Chet, a brasileira conquista um espaço mais amplo entre os apreciadores da música de Yale. Afinal, para quem esteve ao lado de Charlie Parker, Gerry Mulligan e o lendário Stan Getz, a história reserva lugar cativo. Seu jeito econômico e ao mesmo tempo repleto de improvisações criaram um amplo espectro de possiblidades melódicas, que soube explorar como ninguém. E se o nosso olhar for mais atento vamos encontrar pontos muito comuns a Bossa Nova. Seriam os nossos compositores recebido influência de Baker? Ou será que foi o contrário? Questão em aberto, isso por certo pouco importou para Luciana, que vive mais fora do Brasil que em terras brasileiras. E o jazz é sua companhia fiel. Gravou com nomes expressivos do gênero como Hermeto Pascoal, Romero Lubambo,Kenny Werner, John Patitucci e Herbie Hancock, além de flertes explícitos com o folk de Paul Simon e James Taylor. A paulista não se intimidou e ancorada pelo marido, o produtor Larry Klein, e com um trio formado pela guitarra de Larry Koonse, o baixo de David Piltch e a bateria de Jay Bellerose, mergulhou nas músicas escondidas do norte-americano. E o disco mostra uma intérprete segura, sensível e capaz de revelar toda a magnitude da obra de Chet Baker seja em canções mais reflexivas ou em canções descontraídas. Luciana Souza pode fazer do domingo um dia de música que tranquiliza as aflições do cotidiano. Aqui, logo abaixo, uma “pequena” coletânea com Luciana.

Richard Ashcroft: Human Conditions & The United Nations of Sound

Human Conditions

O ex-vocalista do The Verve em seu trabalho solo não enraizou a eloquência da banda. Apesar dos tantos problemas que viveram, os britânicos possuíam um caminho, trilhavam-no com arranjos interessantes e abraçavam um pop mais, exagerando na expressão, moderno ou uma espécie de rock alternativo, e ainda outras denominações. A verdade é que o Verve não seguiu adiante, e seu guitarrista e vocal principal Richard Ashcroft lançou alguns álbuns solos. Em geral, a crítica foi negativa, muitos o consideraram um péssimo compositor, canções comuns, e ainda assim houve outras mais generosas. Se Human Conditions se lança de forma literal no título do disco, The United Nations of Sound serpenteou sua sonoridade para os lados do rhythm & blues, inclusive com os músicos que o acompanharam. O mais curioso é que ao ler as críticas do lado de cima do hemisfério, elas seguem o mesmo rumo de Human Conditions e pelo lado sul repousam expressões como “discaço”, dramático, épico, belos arranjos de cordas. Contradições á parte, um pouco de Richard Ashcroft neste sábado e você decide se suas canções são ou não são de qualidade.

Eddie Vedder: Into The Wild

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Trilhas sonoras são indispensáveis. Nem todas se estruturam no roteiro ou na história original e são apenas canções que complementam o filme, ou identificam personagens. Into The Wind com a assinatura do Pearl Jam Eddie Vedder está na contramão da afirmativa acima: integra Na natureza selvagem, título recebido no Brasil para a obra do diretor Sean Penn. O ponto de partida é o relato instigante e intrigante, no sentido de tentar chegar a entender as razões que levaram Chris McCandless a traçar e definir o seu destino. O jornalista, escritor e também alpinista Jon Krakauer ingressa nesse universo do jovem bem sucedido norte-americano que larga tudo em busca de, quem sabe, um sentido mais concreto em sua vida. Krakauer já havia participado de expedição ao Everest em 1996, que resultou na morte de nove alpinistas quando da descida do monte, e fez o dramático relato em um livro fulminante – No ar rarefeito – e sua narrativa sempre hospeda questionamentos para dentro do ser humano. Para escalar montanhas, vencer altitudes quase imaculadas, a vida e o sonho duelam por alguns segundos ao atingir o topo dos 8848 metros da mais alta montanha do mundo. E tem que voltar quem sobe. E é em torno dessas questões para além da técnica do alpinismo e da preparação física e emocional, que o jornalista se debruça com afinco. O mesmo se sucede pelos caminhos do jovem Chris. Ao abandonar uma vida em tese mais fácil de ser vivida e jogá-la na estrada até chegar ao Alasca, todas as questões que o levam a tomar decisão extrema atingem à tona. E ao encontrar a luz do dia, estão presentes elementos comuns a todos nós: relacionamento familiar, afetivo, erros e acertos pessoais, a natureza como tal e o meio social como um todo entram em xeque e as interrogações ganham proporções gigantescas. Krakauer refaz os seus passos, cada um deles até onde é possível, e até onde é possível compreender e entender esses passos decididos a mudar o rumo de uma história. Os questionamentos de McCandless são os nossos questionamentos. São atuais. São tão nossos quanto os do autor do livros, da personagem real que viveu até o desfecho que traduz Na natureza selvagem, muito mais que uma reportagem investigativa. Uma escalada e descida por dentro de nós mesmos. Uma profunda e sensível reflexão sobre a vida e a vida que queremos viver. Seja em nível de sonhos seja em nível coletivo. Nesse sentido, a trilha composta por Vedder se revela integrante e hóspede da história. Suas harmonias pertencem a história tanto quanto nós que a acompanhamos ou pela palavra ou pela imagem. Uma trilha que se completa e ao mesmo tempo tem vida própria. Um trio – filme, livro, trilha – envolventes e de grande significado.  Abaixo, a capa do livro, algumas canções e o disco na íntegra.

Na natureza selvagem

Vitor Ramil: Foi no mês que vem

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Vitor Ramil é um compositor exigente. É um compositor que não esgota nenhuma possibilidade. Ousa. Não tem medo. Realiza. E isso desde o seu primeiro disco, o que traz a bela e definitiva “Estrela, Estrela”. Desde então, cada disco, uma obra. Obra trabalhada à exaustão. Trabalho de ourives. E é nessa exaustão que marca encontro com a ousadia. Com o novo. No clássico Ramilonga suas milongas além do violão eram acompanhadas por cítara. Quem mais poderia fazer isso? Ou gravar Satolep Sambatown com o percussionista Marcos Suzano. Vitor é essa síntese recheada de conteúdo e marcas profundas.

Sabemos do seu rigor e o bom gosto estético. Esta reunião de antigas novidades onde está bem definida suas sensibilidade, delicadeza, seu humor sutil, ou quem sabe os seus olhares biográficos,  e comentários históricos e literários, reflexões filosóficas, pensares incomuns sobre o amor. Nada é excluído em sua criação. Um quê de melancolia, talvez essa coisa que acompanha os que vivem ao sul, a introspecção, o frio, o inverno, a lareira, a pampa imaginária. Foi no mês que vem é um apanhado sólido de sua carreira. Um concerto onde os convidados se revezam e se entrelaçam em suas harmonias também de forma harmoniosa e desfilam seus nomes: Jorge Drexler, Marcos Suzano, Carlos Moscardini, André Gomes, Carlos Badia, Fito Paez, Wagner Cunha, Pedro Aznar, Franco Luciani, Ian Ramil, Bella Stone, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Santiago Vazquez, Kàtia B, Kleiton & Kledir e outros mais. Um disco magnífico, belíssimo e sobretudo inspirador do criador da Estética do Frio. Vitor em toda a sua plenitude. Dessas obras que a gente ouve sem jamais esgotar a vontade de ouvir de novo.