Jorge Drexler: La edad del cielo

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Uruguaio de nascimento, ganhou o mundo esse médico, cantor e compositor. Desde que seu Oscar por melhor música – “Al outro lado del río”, pelo filme Diários de motocicleta – sua vida foi pulando lugares: Buenos Aires, Madri, Porto Alegre, e mais uma infinidade de cidades. criativo, permaneceu algum tempo antes do sucesso cinematográfico entre as estantes de discos quase anônimo. Discos que já demonstravam sua universalidade e uma gama de influências para além do Prata e muitas vezes chegando à beira do Guaíba porto-alegrense. Não por acaso, um dos seus amigos e parceiros é Vitor Ramil e sua Estética do Frio. Andam juntos os dois. Os discos foram se sucedendo, todos com repercussão por onde passa e o seu caminho abre horizontes. La edad del cielo abraça um período em que a Virgin era a sua gravadora, e lá estavam (estão) VaiVen, Llueve, Frontera e Sea, e estão dezessete faixas em que não podemos escolher nenhuma: todas são magníficas. Voltar um pouco ao início de sua carreira é um exercício que permite observarmos o seu desenvolvimento com compositor, cantor, artista e cidadão do mundo. Um disco que se ouve com tranquilidade e para os que vivem ao sul do sul nesses dias de inverno com uma mate quente à mão ou um café.

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Mário Sève & David Ganc: Pixinguinha & Benedito

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O CD traz a parceria de Benedito Lacerda e Pixinguinha, o dueto instrumental mais importante da música brasileira, com inéditas, novos arranjos, e os instrumentos dos dois: flauta e sax. Alternância nos instrumentos, melodia e contraponto, arte do contraponto brasileiro, que teve seu ápice com Pixinguinha, está presente nas 14 músicas, inspiradas nas gravações da década de 40. Duas delas são inéditas, saídas do baú da família: o baião “Acorda Garota” e o frevo “Agua Morna”. O disco redefine as tradicionais classificações e olhares sobre os gêneros musicais sem preconceitos. O que era choro torna-se choro-forró ou choro-lundu. Tem levada de samba de roda. É música viva que flui, é mescla dos tempos ora passado ora presente, e quem sabe, o futuro também. É esse olhar sobre a obra extraordinária de Pixinguinha e Benedito Lacerda que o sax de Mário Sève e a flauta de David Ganc se debruçam. E esmiúçam sem nunca chegar à exaustão. Ao contrário. Os “standards” da dupla atravessam e desafiam o tempo sem nenhum problema. E a leitura que os instrumentistas criam é algo que fascina. É o prende e liberta que somente a música possui. O acompanhamento é de deixar o ouvinte com água na boca. Um regional que inclui Dininho, filho de Dino 7 Cordas (mestre do contraponto no choro, ao lado de Pixinguinha), Jorginho “Época de Ouro” do Pandeiro (elo de ligação com o mestre), Celsinho Silva, Mingo Araujo (percussões), Oscar Bolão (bateria). Da turma do samba: Wanderson Martins, que toca com Martinho; Esguleba (do grupo de Zeca Pagodinho); Claudio Jorge, parceiro de Cartola. O disco caminha muito também pelos caminhos de  João da Bahiana, Clementina de Jesus, ao samba batucada de Ciro Monteiro e a Paulinho da Viola. Tem ainda o piano de Leandro Braga, o quarteto de Guerra Peixe, o acordeon de Toninho Ferragutti e uma orquestra de frevo com os metais de Roberto Marques, Nilton Rodrigues, Carlos Veja. Trabalho de extrema sensibilidade e daqueles que a gente ouve e aperta o repeat sem medo algum. Uma viagem maravilhosa pela sonoridade dos mestres do chorinho e outros gêneros sem cair no modismo dos rótulos.

 

Kátya Teixeira: Katxerê, Feito de Corda e cantiga, Lira do Povo e 2 Mares

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A música popular, no seu sentido mais interiorizado possível, é de uma riqueza universal e inesgotável. Por vezes, o público é induzido a acreditar que a verdadeira música do interior das terras brasileiras é a forma elitizada e sofisticada que certos gêneros alcançam na grande mídia. Basta apenas lançar um rápido olhar nas matérias que circulam por esses meios. Claro fica que não está em questão aqui o gosto de cada um em relação a música e seus gêneros. E gostar de qualquer gênero é sinônimo de sensibilidade. No entanto, o que assusta é o “esquecimento” por parte dessa massa crítica da mídia da verdadeira música popular e de raiz. Tamanho esquecer que a trona um gênero “cult”. Kátya Teixeira vem alguns anos realizando um trabalho de uma densidade imensa a partir do folclore. Das raízes, da cultura indígena, da vida em nosso interior. Assim o convívio com Vidal França, João Bá, Cátia de França, Daniela Lasalvia, e outros nomes que circulam por esses caminhos – eis alguns: Vital Faris, Dércio e Dorothy Mrques, Elomar, Xangai, para citar alguns – fez com que a sua história desde pequena se tornasse coerente com sua vida. Filha de cantores, família de cantores e de pessoas ligadas ao folclore e a vida interiorana, também cursou escola de música. Forja sua música na realidade que a raiz produz. É com ela e sua sensibilidade que avançamos nesse domingo em que as horas anda descansam à espera do sol.

Foto: capturada no http://www.encontrodeculturas.com.br

Don Atahualpa Yupanqui, simplesmente

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“A partícula cósmica que navega meu sangue é um mundo infinito de forças siderais. Veio a mim sob um largo caminho de milênios, quando talvez fui areia para os pés do ar. Logo fui a madeira, raiz desesperada submersa num silêncio de um deserto sem água. Depois fui caracol, quem sabe onde, e os mares me deram a primeira palavra. Depois a forma humana derramou sobre o mundo a universal bandeira do músculo e da lágrima. E cresceu a blasfêmia sobre a velha Terra, o açafrão, o “tilo”, a copla e a “piegaria”. Então vim a América para nascer um homem e em mim juntei a selva, os pampas e a montanha. Se um avô da planície galopou até meu berço, outro me disse histórias em sua flauta de “cana”. Eu não estudo as coisas, nem pretendo entende-las. As reconheço, é certo, pois antes vivi nelas. Converso com as folhas em meio dos montes e me dão suas mensagens as raízes secretas. E assim vou pelo mundo sem idade nem destino, ao amparo de um cosmos que caminha comigo. Amo a luz, o rio, o caminho e as estrelas, e floresço em violões porque fui a madeira.”

Tempo do Homem – Atahualpa Yupanqui, tradução de Dércio Marques.

Foto: capturada no Youtube

Sting: Nothing Like the Sun

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Sting, ao sair do The Police, tem sido produtivo e desenvolvido sua criatividade em fases bem definidas. Nem sempre o resultado alcança todas as estrelas possíveis, mas deixa marcas. Nothing Like the Sun é um álbum curioso. Não nos gêneros em que flerta de forma explícita – jazz e rock – mas pela repercussão. Lembro de ter lido em alguma revista, o nome perdeu-se há muito em minha memória, de encontra-lo em um lista dos piores discos de todos os tempos. E olha que na relação estava trabalho dos Beatles. No entanto, como tenho lá minhas reservas quanto a listas, ainda mais de melhores ou piores, eu sempre gostei desse Sting despojado. E em particular esse tem o crivo da sua participação pelas América do Sul com a Anistia Internacional e momentos confessionais, em função da partida de sua mãe. Um trabalho emotivo, para dentro. E também que coloca as coisas em lugares, como em “They dance alone”, em função à época ainda os reflexos da ditadura chilena de Augusto Pinochet. E as composições ganham muitas conotações a partir de seu sentimento interior e os acompanhamentos atestam o quanto Sting acerta em Nothing. Algumas músicas, como “Fragile” foram também, não neste disco, cantadas em língua portuguesa ou em espanhol. Nomes como Mark Knopfler, Eric Clapton, Ruben Blades, Dil Evans, Manu Katché, Branford Marsalis, Mark Egan, Andy Summers e outros mais asseguram a qualidade e o peso das canções. Sério, comprometido, afetivo e consciente, Sting produziu uma obra sensível e próxima da realidade de então.

Daniela Lasalvia: profundas raízes brasileiras

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Daniela  Lasalvia ou Dani Lasalvia, é uma paulistana que nasceu em meio a tanta arte e fez da arte sua trajetória de vida. desde os tempos de criança, o piano foi fiel companheiro até a adolescência conhecer o canto lírico – 3 anos de estudos – a percussão, o vocal, a expressão corporal. Não satisfeita, com Paulinho Paraná aprendeu a tocar violão. Não foi o suficiente. Partiu para Moscou, onde no Conservatório Tchaikovski retornou ao canto lírico. Um caminho sem volta? Não, absolutamente não. No retorno ao Brasil, o canto popular vai ao seu encontro. O disco Madregaia é exemplar para colocar Daniela entre as cantoras que sentem as raízes de um país que tem muito da sua cultura ainda lá nas profundezas da terra. É com o violeiro, cantor, compositor e instrumentista Dércio Marques, das Minas Gerais, que faz parceria no disco. E apresentam uma estética centrada nas letras, nas melodias, na essência de canções que refletem – e são – a terra fértil em que vivemos.

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Neste ousado disco duplo,  as presenças de contribuições de Luis Perequê, Renato Braz, Edu Santana, Kátia Teixeira, Vozes Bugras – de quem foi integrante – Stênio Mendes, grupos Tarumã e Tarancón, Juh Vieira, Noel Andrade, Cao Alves, Toninho Ferragutti, João Bá e Juraildes da Cruz e ainda Chico Buarque, Vidal França e outros mais autores que possuem na cultura oral o princípio e o início de composições únicas e de criatividade popular. Disco extraordinário de uma cantora ainda mais extraordinária e sensível de um Brasil profundamente enraizado em sua cultura.

Foto: capturada no http://www.danilasalvia.tnb.art.br

Marina De La Riva: Idilio

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Marina de La Riva iniciou sua carreira em 2007 quando lançou seu primeiro CD, Marina De La Riva. Sua relação com a música começou na infância. Filha de pai cubano e mãe mineira, Marina cresceu em um ambiente regado a cultura e música, naturalmente. Ela lembra de suas avô tocarem piano, das canções em espanhol e português.

Ficou conhecida pela mistura que faz de música brasileira e latina, em especial com a cubana. Sua arte é um resgate de sua memória afetiva, das canções que escutava quando criança. Por isso têm grandes influências da música latino-americana das décadas de 20, 30, 40 e 50. Em Idilio isso se repete ao reafirmar suas mesclas, agora com o baixista cubano Fabian García Caturla, o violinista paulista Emiliano Castro. Também inclui composições de Luiz Gonzaga, Armando Tejada Gómez, entre outros. A palavra idílio tem o mesmo sentido no português e no espanhol. Seu significado tem origem nos poemas bucólicos. A palavra faz referencia a um sonho, uma ilusão ou a uma grande paixão. Um belo e apaixonado disco. Daqueles que ouvimos e não esquecemos jamais.