Don Atahualpa Yupanqui, simplesmente

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“A partícula cósmica que navega meu sangue é um mundo infinito de forças siderais. Veio a mim sob um largo caminho de milênios, quando talvez fui areia para os pés do ar. Logo fui a madeira, raiz desesperada submersa num silêncio de um deserto sem água. Depois fui caracol, quem sabe onde, e os mares me deram a primeira palavra. Depois a forma humana derramou sobre o mundo a universal bandeira do músculo e da lágrima. E cresceu a blasfêmia sobre a velha Terra, o açafrão, o “tilo”, a copla e a “piegaria”. Então vim a América para nascer um homem e em mim juntei a selva, os pampas e a montanha. Se um avô da planície galopou até meu berço, outro me disse histórias em sua flauta de “cana”. Eu não estudo as coisas, nem pretendo entende-las. As reconheço, é certo, pois antes vivi nelas. Converso com as folhas em meio dos montes e me dão suas mensagens as raízes secretas. E assim vou pelo mundo sem idade nem destino, ao amparo de um cosmos que caminha comigo. Amo a luz, o rio, o caminho e as estrelas, e floresço em violões porque fui a madeira.”

Tempo do Homem – Atahualpa Yupanqui, tradução de Dércio Marques.

Foto: capturada no Youtube

Sting: Nothing Like the Sun

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Sting, ao sair do The Police, tem sido produtivo e desenvolvido sua criatividade em fases bem definidas. Nem sempre o resultado alcança todas as estrelas possíveis, mas deixa marcas. Nothing Like the Sun é um álbum curioso. Não nos gêneros em que flerta de forma explícita – jazz e rock – mas pela repercussão. Lembro de ter lido em alguma revista, o nome perdeu-se há muito em minha memória, de encontra-lo em um lista dos piores discos de todos os tempos. E olha que na relação estava trabalho dos Beatles. No entanto, como tenho lá minhas reservas quanto a listas, ainda mais de melhores ou piores, eu sempre gostei desse Sting despojado. E em particular esse tem o crivo da sua participação pelas América do Sul com a Anistia Internacional e momentos confessionais, em função da partida de sua mãe. Um trabalho emotivo, para dentro. E também que coloca as coisas em lugares, como em “They dance alone”, em função à época ainda os reflexos da ditadura chilena de Augusto Pinochet. E as composições ganham muitas conotações a partir de seu sentimento interior e os acompanhamentos atestam o quanto Sting acerta em Nothing. Algumas músicas, como “Fragile” foram também, não neste disco, cantadas em língua portuguesa ou em espanhol. Nomes como Mark Knopfler, Eric Clapton, Ruben Blades, Dil Evans, Manu Katché, Branford Marsalis, Mark Egan, Andy Summers e outros mais asseguram a qualidade e o peso das canções. Sério, comprometido, afetivo e consciente, Sting produziu uma obra sensível e próxima da realidade de então.

Daniela Lasalvia: profundas raízes brasileiras

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Daniela  Lasalvia ou Dani Lasalvia, é uma paulistana que nasceu em meio a tanta arte e fez da arte sua trajetória de vida. desde os tempos de criança, o piano foi fiel companheiro até a adolescência conhecer o canto lírico – 3 anos de estudos – a percussão, o vocal, a expressão corporal. Não satisfeita, com Paulinho Paraná aprendeu a tocar violão. Não foi o suficiente. Partiu para Moscou, onde no Conservatório Tchaikovski retornou ao canto lírico. Um caminho sem volta? Não, absolutamente não. No retorno ao Brasil, o canto popular vai ao seu encontro. O disco Madregaia é exemplar para colocar Daniela entre as cantoras que sentem as raízes de um país que tem muito da sua cultura ainda lá nas profundezas da terra. É com o violeiro, cantor, compositor e instrumentista Dércio Marques, das Minas Gerais, que faz parceria no disco. E apresentam uma estética centrada nas letras, nas melodias, na essência de canções que refletem – e são – a terra fértil em que vivemos.

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Neste ousado disco duplo,  as presenças de contribuições de Luis Perequê, Renato Braz, Edu Santana, Kátia Teixeira, Vozes Bugras – de quem foi integrante – Stênio Mendes, grupos Tarumã e Tarancón, Juh Vieira, Noel Andrade, Cao Alves, Toninho Ferragutti, João Bá e Juraildes da Cruz e ainda Chico Buarque, Vidal França e outros mais autores que possuem na cultura oral o princípio e o início de composições únicas e de criatividade popular. Disco extraordinário de uma cantora ainda mais extraordinária e sensível de um Brasil profundamente enraizado em sua cultura.

Foto: capturada no http://www.danilasalvia.tnb.art.br

Marina De La Riva: Idilio

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Marina de La Riva iniciou sua carreira em 2007 quando lançou seu primeiro CD, Marina De La Riva. Sua relação com a música começou na infância. Filha de pai cubano e mãe mineira, Marina cresceu em um ambiente regado a cultura e música, naturalmente. Ela lembra de suas avô tocarem piano, das canções em espanhol e português.

Ficou conhecida pela mistura que faz de música brasileira e latina, em especial com a cubana. Sua arte é um resgate de sua memória afetiva, das canções que escutava quando criança. Por isso têm grandes influências da música latino-americana das décadas de 20, 30, 40 e 50. Em Idilio isso se repete ao reafirmar suas mesclas, agora com o baixista cubano Fabian García Caturla, o violinista paulista Emiliano Castro. Também inclui composições de Luiz Gonzaga, Armando Tejada Gómez, entre outros. A palavra idílio tem o mesmo sentido no português e no espanhol. Seu significado tem origem nos poemas bucólicos. A palavra faz referencia a um sonho, uma ilusão ou a uma grande paixão. Um belo e apaixonado disco. Daqueles que ouvimos e não esquecemos jamais.

Heraldo do Monte & Teca Calazans: viola nordestina, violão e canto

Heraldo e Teca

“A vontade de fazer um disco só de voz e violão é antiga. Tomou forma quando ouvi o disco do Heraldo Viola Nordestina, lançado pela Kuarup em 2001. Perguntei ao Mario de Aratanha o que ele achava dessa ideia. Ele gostou, Heraldo também, e assim começamos a trabalhar no projeto. Sou fã do Heraldo desde a época do Quarteto Novo. Além da música, temos outras coisas em comum: ele é um pernambucano exilado em São Paulo, e eu uma pernambucana – de coração – exilada na França. Temos os dois a mesma visão “distanciada” do Nordeste e a mesma necessidade de ir direto ao essencial. Eu já tinha selecionado um repertório de canções nordestinas e sertanejas, melodicamente ricas, que pela pureza e simplicidade encontrariam, no simples acompanhamento da viola, um rendimento total. O Heraldo, com talento que é próprio dos grandes músicos, fez arranjos que acho lindos e eficientes. Para completar, fui pesquisar, nos anos 30, canções de tema rural. A escolha foi fácil, pois a beleza melódica é um das características dos compositores da época. Assim, o repertório ficou perfeito para essa formação minimalista.”

Parte do texto do encarte do disco escrito por Teca Calazans, em 2003.

Xangai & Quinteto da Paraíba: Brasileirança

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“Um cantor de voz agreste, com recursos intermináveis. Um quinteto de cordas apaixonado pela música popular, formado por virtuosos. Xangai e Quinteto da Paraíba. Intuição e academicismo. Sertão e universidade. Em torno deles percussão e rabeca, o supremo ritual da música que se faz decodificação do belo e importante. O fogo na consciência da mídia eletrônica. A música que desmascara os preconceituosos e lhes oferece arte contra teorias banais. ….. Ouvir Xangai e Quinteto da Paraíba é dizer não ao massacre da nossa cultura. Não a um sistema que segrega negros, pobres, índios, sem-terra, crianças órfãos e anciãos abandonados. Não ao açoite da insensibilidade. Não aos morros e favelas, estes navios negreiros da contemporaneidade. A música tem esse poder. Nos deixa indignados com as injustiças e, indignação é o mínimo que um brasileiro de bem pode sentir diante do quadro político-social que se nos apresenta. Amém.”

Partes do texto do encarte do disco Brasileirança, de Xangai e Quinteto da Paraíba, escrito pelo crítico e produtor Ricardo Anísio, em 2001.

O folclore de Luis Fernando Amaya, por Marcelo Fébula

O Marcelo Fébula, jornalista, músico e turfista, vem contribuindo todos os meses com seu talento e conhecimento com material inédito em nossas terra sobre o tango e, hoje, chega aqui com uma nota sobre o folclore de Luis Fernando Amaya. Ao Marcelo, Chronosfer agradece a preciosa presença neste espaço, que o qualifica. Gracias, amigo.

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Luis Fernando Amaya e Tres para el Folklore

Luis Fernando Amaya (1939-1968) viveu apenas 29 anos de idade, mas em sua curta vida revolucionou a guitarra argentina. Sua influência chega até os dias atuais.

Nasceu em Las Varillas, passou sua infância e adolescência em Río Tercero (aldeias da província de Córdoba) e depois levou sua arte até Córdoba, Buenos Aries e Europa.

Foi um dos fundadores do lendário conjunto “Tres para el Folklore” juntamente com Carlos “Lalo” Homer e Prudencio “Chito” Zeballos (depois substituído por Alberto Santiago “Pepete” Bértiz), e foi o primeiro guitarrista convidado para interpretar a Misa Criolla, considerado um dos melhores trabalhos da música folclórica Argentina.

Também acompanhou figuras solistas como Chito Zeballos, Horacio Guarany, Mercedes Sosa, Tomás Campos, Marián Farías Gómez, Hernán Figueroa Reyes, etc.

Luis Amaya. Sem dúvida, um dos gênios da música Argentina.

Links e pequenos comentários de cada um deles:

https://www.youtube.com/watch?v=tWLH4vI9zXc

ZAMBA DEL CHAGUANCO (zamba). Letra: Antonio Nella Castro. Música: Hilda Herrera.

Mercedes Sosa y Luis Amaya. Gravado na Europa em 1967.

https://www.youtube.com/watch?v=kMj89U7sckc

CHAYITA DEL VIDALERO (chaya). Letra y música de Ramón Navarro.

Prudencio “Chito” Zeballos, Luis Amaya y Domingo Cura. Gravado na Europa em 1967.

https://www.youtube.com/watch?v=zhVybZ9hzus

PÁJARO CAMPANA (canção tradicional paraguaia compilada por Félix Pérez Cardozo).

Luis Amaya e Chito Zeballos. Gravado na Europa em 1967.

https://www.youtube.com/watch?v=mKeUewRC1G0

LA ATARDECIDA (zamba). Letra: Manuel Castilla. Música: Eduardo Falú.

Chito Zeballos y Luis Amaya.

https://www.youtube.com/watch?v=rcGXepBi-d4

TRES PARA EL FOKLORE

Álbum completo gravado em 1961

Beck Hansen: Morning Phase

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Beck Hansen é um criativo inquieto ou inquieto criativo? Pouco importa. O que vale mesmo é o talento desse compositor, cantor, instrumentista, arranjador, produtor e mais uma lista de outras atividades que faz. Seus discos sempre foram experimentais, trilhando os gêneros com espontânea naturalidade que defini-lo ou colocar um rótulo em seu trabalho é muito complicado. Seus tecidos de criação própria atravessam qualquer textura que se tente impor a eles, e quem ganha com isso somos nós, quando paramos um pouco de nossa insana correria do cotidiano e o ouvimos. De alguma forma ou de todas as formas, o álbum que precede Morning Phase, Sea Change é um, podemos dizer, apanhado sofrido de fim de um relacionamento. Soa triste. Morning é mais doce, melancólico, e rico em seu trabalho orgânico com as melodias. Sua riqueza musical está bem enraizada nos arranjos e na sonoridade mais acústica com que leva cada canção e uma teia imensa de harmonias e vocais que desvendam seu jeito sensível de ser. Ele que já andara às voltas com o Thurston Moore, do Sonic Youth, no brilhante demolished thougts,não deixa por menos. Continua brilhante e arrebatador. Um disco que se ouve em paz e tranquilidade. E repetimos com prazer.

Por Aylan Kurdi: * 2012 * 2015

A foto estampa todos os jornais e sites do mundo inteiro. Não é necessário reproduzi-la. Assim continua caminhando a humanidade. Até quando? Quantos mais?

O sacrifício de Aylan, o pequeno sírio, não seja vazio e apenas contemplativo aos nossos olhos. Olhos de uma civilização que naufraga a cada fração de segundo que o mundo gira.

Artemis Quartet: The PiazzoLLa Project

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A obra maiúscula de Astor Piazzolla é sempre visitada. Por todos os gêneros. E suas harmonias ganham as tonalidades de cada estação quando instrumentistas, arranjadores e maestros se debruçam sobre as teias tramadas com sensibilidade pelo compositor que desafiou o conservadorismo musical. Piazzolla não apenas introduziu os matizes do jazz ao tango se não que levou junto a cada composição influências também eruditas, em especial de J.S. Bach. E assim, como ele próprio visitava e transformava sua música ora em quarteto, ora em octeto, ou quinteto, sexteto, Filarmônica ou Orquestra acompanhando, nada era excludente para o gênio argentino. Assim, diversos grupos e cantores sejam do rock, do folclore, do erudito, da música popular, do eletrônico e suas mesclas ingressaram no universo de Piazzolla. O quarteto de cordas Artemis Quartet, alemão de nascimento, desenvolveu o The Piazzolla Project junto com o pianista Jacques Ammon. Não estacionaram seus arranjos e leituras tão somente no tango. Avançaram para obras mais profundas como as “Estaciones Porteñas” e deixaram-se levar pelas tessituras criativas do mestre. Um disco extraordinário, transformador a ponto de fazer com que o seu coração dispare, que as cores do arco-íris transbordem e o pote de ouro esteja ao seu alcance. As cordas do quarteto vibram, ultrapassam os limites do tecnicismo, e de repente estamos diante de um álbum simplesmente brilhante, sensual, denso, um mar de fogo harmônico. E para completar, o piano de Ammon é de uma sutileza capaz de arrebatar o mais exigente dos ouvintes. Um disco magnífico.