Willie Nelson: Stardust & American Classic

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Willie Nelson, para muitos, faz seu caminho pelo country. Por um competente e talentoso country. Não deixa de ser verdade. O texano de 82 anos, no entanto, desatou esse nó do gênero em 1978 ao gravar Stardust. O que poderia ser improvável, aconteceu. É um divisor de águas em sua carreira. Ao passar para o lado de lá de Nashville e se entranhar na linguagem do jazz, Nelson revelou ser um intérprete superior. E ainda mais ousado por colocar o nome de Hoagy Carmichael e Irving Berlin, por exemplo, com seus standards consagrados no universo do country norte-americano.  E como todo criador que ousa, partiu para experimentalismos no blues e no gospel. Além de incursões no cinema, e em outras expressões da cultura. Se Stardust já parecia distante, Willie volta à estrada dos clássicos. American Classic o coloca em um nível ainda mais denso e a presença de Norah Jones e Diana Krall consolida seu status no jazz. Com o jeito Willie Nelson de ser, naturalmente. O mais impressionante é a naturalidade com que movimenta e parece ser talhado ao jazz. Mais tarde, fez com Wynton Marsalis um disco à semelhança de American com resultado mais que positivo. Curioso é que Eric Clapton, de alguma forma, seguiu esse caminho com BB King, embora aí esteja o blues e o blues é Clapton, e com o próprio Marsalis e também com a mesma naturalidade. Talentos assim não possuem fronteiras. E nos mostram e ensinam o quanto nós também não devemos ficar fixados em rótulos e fantasias comerciais passageiras. Essa viagem com Nelson é magnífica.

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Stray Birds: Best Medicine

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Um trio harmônico. É o mínimo que se pode dizer de Maya de Vitry, Oliver Craven e Charlie Muench. Os dois primeiros, compositores e tocam desde a acustc guitar, passando pelo banjo, violino, e outros mais instrumentos. O terceiro, é o baixo acústico. E os três cantam. Neles, desde a sua união em Lancaster, na Pensilvânia, há uma conjunção de influências que nascem das mais simples e tradicional das músicas e passa por Beatles, The Band e chega ao virtuosismo de Jimi Hendrix. A soma disso tudo pode ser dissolvido em um country folk? Pode ser. Para eles, o rótulo é o que menos importa. Para nós, também. O que realmente importa é que os três juntos formam harmonias melódicas e vocais magníficas e envolventes. Suas composições tanto podem estar um século lá atrás como podem estar um à frente, quando, na verdade, estão bem presentes entre nós. E é este presente que se traduz em um estilo que atravessa fronteiras. Como deve ser a música.

Foto capturada no http://www.thesouthern.com

The Who: Live at Leeds

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A eletricidade do The Who sempre foi única. Pete Townshend, Roger Daltrey, John Entwistle e Keith Moon formaram um quarteto para muito além daqueles anos sessenta. Suas apresentações ao vivo eram verdadeiras celebrações e é inesquecível sua participação no documentário sobre Woodstock, com Daltrey simplesmente extraordinário no vocal e toda uma rítmica comandada pelo baixo de John, com a força de Moon e a inquietude de uma guitarra exuberante de Pete. O Who foi uma banda ao vivo, seus álbuns de estúdio ficaram passos atrás, não que fossem fracos ou ruins, não, absolutamente não, apenas não reproduziam suas performances que se tornaram lendárias. Live at Leeds tem peças diversas, a começar por Tommy, e outras passagens de sua carreira e seus clássicos. Puro rock´n´roll. Nele, pérolas como “Young Man´s Blues”, e a poderosa e eterna “My generation”.  Se pararmos um pouco e Leeds chegar com toda a sua força vamos concluir que o heavy no rock passa pelo The Who. Ou começa com ele. Um disco indispensável, vibrante e marca definitivamente uma época para quem a viveu e para quem não conhece a oportunidade de vive-la em pouca mais de duas alucinantes horas. Vale cada segundo.

Foto: capturada no http://www.nomundogrove.com.br

Tatiana Parra: Inteira, Aqui

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Pois é, eu que sou um apaixonado pela música latino-americana e em especial tenho grande parte do meu coração lá pelos lados do Chile e sua história, me deixei levar pelo nome Parra. Logo que vi o cd Aqui com o nome de Tatiana Parra e Andrés Beeuwsaert logo chegou em mim Violeta Parra, seus filhos Angel e Isabel Parra e não pensei nenhuma vez: é neta de Violeta. Ah, essa pressa desavisada e inconsequente! Teve, no entanto, sequência feliz. Tatiana não é filha de Angel nem de Isabel, suponho que sequer tenha algum grau de parentesco com Violeta. Apenas o nome Parra que traz consigo. Disco no player e a surpresa, a tal sequência feliz. É um belo trabalho em harmonias e vocais. Composições que deslizam suaves e encantadoras pelo espaço e penetram em nossa corrente de sensibilidade. O piano do platino Andrés é mais que um complemento. É parte. Beeuwsaert, na Argentina, participou de grupos ligados ao folclore, ao rock, esteve no disco de Roxana Amed – Entremundos – de 2006, com produção do mago uruguaio Pedro Aznar e como convidado na canção “Georgia Lee”, da lavra de Tom Waits, nada mais nada menos que León Gieco e sua harmônica. Como se vê, uma dupla e tanto essa. Tatiana é de São Paulo, desde cedo ligada à música, integrou os shows de vários nomes da música popular brasileira, já havia gravado Inteira e seguiu rumo aos Estados Unidos. O repertório dos dois discos é magnífico, um passeio pelo nosso cancioneiro, visita a latinidade, é um pouco de cada parte desse universo de meu deus. Voz e música para se guardar no lado esquerdo do peito, no coração, diria Milton Nascimento. E é mesmo.

Night Beds: Country Sleep

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O cenário indie é tão vasto quanto pode ser o pop, o rock ou qualquer outro gênero. Agrega-se a ele exatamente um deles e está carimbado um novo formato de sonoridade. O Night Beds está mais para o Indie Folk. E nele vai transitando. Country Sleep é melancólico. Começa pela capa. O tom se insinua pelo olhar. Pela luminosidade e pelo escuro que dali transcendem. Alcança as faixas. As vozes. As texturas melódicas. Os arranjos. E ,de repente, nos pegamos envolvidos em um universo onde o emocional se revela intenso. E por ser revelador ligamos alguns pontos de identidade pessoal com a vivência de Winston Yellen, compositor-mor do Night. A melancolia vai se apresentando e se dissolve com o lento passar de cada canção. O desespero, o desânimo, a história do jovem que carrega o mundo nas costas, sempre real de alguma maneira, ganha novo sentido ao descobrir que há futuro. Que o amanhã existe sempre. Quase um clichê bem resolvido que desperta para a vida. Um disco interessante, ainda que lembre por vezes Nick Cave, e introspectivo. Faz bem em algum momento esse olhar para dentro e depois emergir para a luminosidade do dia.

Sharon Isbin: Journey to the Amazon

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A violonista Sharon Isbin, o sax de Paul Winter e a percussão brasileir de Thiago de Mello realizaram um disco surpreende. Explorar a sonoridade latino-americana já é fato comum, porém, com um viés mais rítmico, mesclando com o jazz e clássico pode parecer também algo já feito à exaustão. No entanto, tal como a literatura onde tudo já foi dito, porém o que faz a diferença é a forma em que é dito mais uma vez, na música os arranjos traduzem esse espírito. O trio consegue extrair, de form provocante e deliciosa, essas diferenças e pontos comuns entre as culturas e as formas de interpretar as canções do repertório. Não há concessões, há criatividade e uma profunda identidade alicerçada pelas nuances tecidas pelos instrumentistas. Os puristas talvez fiquem arrepiados e são capazes de afirmar que não é a verdadeira música original. Está aí a grande diferença: uma leitura livre e soberana do sentimento que a música causa não apenas em quem gosta de ouvir mas sobretudo em quem compõe, arranja, interpreta e tem a sua maneira de sentir. Journey to the Amazon comete a façanha de trabalhar a fusão com tessituras próprias e fazer com que Pixinguinha, presente com “Cochichando”, possa estra à vontade nessa jornada. E outros compositores também. E nós, bom, nós mergulhamos nessas sonoridades sem medo algum. Puro prazer cumprir essa jornada.

Eric Clapton & Steve Winwood: Live From Madison Square Garden

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Ambos são amigos de longa data. Sempre estiveram um no caminho do outro e o percorreram juntos algumas vezes. Buscar o passado deles é como jogar água na chuva. Não é necessário, basta lembrar que estiveram no Blind Faith e tudo fica mais claro. Sem chuva, claro. E muito sol. Final da primeira dédada dos anos 2000 se reuniram no Madison Square Garden e realizaram show que se transformou em registro ao vivo. 21 canções que vasculham suas carreiras, suas influências, as bandas em que tocaram – Cream, Traffic, por exemplo -, trabalhos solos, blues, JJ Cale, Buddy Miles, Otis Rush, Jimi Hendrix. É pouco? Nem pensar. Os clássicos como “Cocaine”, “Glad”, “Little Wing”, “Voodoo Chile” e “Presence of the Lord” parecem ter saído do forno criativo de ambos hoje. O que pode, em um primeiro momento, soar pesado aos ouvidos na verdade chega com suavidade e intensa entrega de Clapton e Winwood. O clássico dos clássicos “Georgia on my mind” desliza no player com emoção. Justa homenagem a Ray Charles. A alquimia entre os velhos amigos se mantém intacta. A banda de apoio é magnética e sustenta com talento o virtuosismo da guitarra e do piano de Eric e Steve. está certo, não um disco que você vai ouvir a todos instante. Não é necessário. Basta tê-lo e de repente lá está ele no seu player. E você se deixando levar por dois dos maiores músicos de todos os tempos com a tranquila sonoridade que já é história. Pode ser também a sua história.