Mercedes Sosa, León Gieco, Eugénia Melo e Castro, Dulce Pontes, Joan Baez, Tom Jobim….

Hoje, apenas música. A que nos envolve. A que nos revela. A que nos transforma. A que nos lança através dos tempos. A que nos faz parar. A que nos faz pensar e discernir. A que nos comove. São tantas. Escolho as que nos aproximam latino-americanos e portugueses, como um caminho sem volta de integração e alma. Identidades que se reconhecem e andam pelas mãos da arte. Margens que se encontram.

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Los clásicos Afro-Peruanos: El alma del Peru Negro

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A história da conquista da América Latina é comum a todos os países. isso já é por demais conhecido tanto quanto junto aos conquistadores vieram também traços de culturas desde sua origem hispânica, notadamente. mais adiante, ou quase ao mesmo tempo, o processo de escravidão para alimentar as então elites da conquista foi diferente em alguns países. Se havia uma certa “unidade” no processo escravagista era por interesse, ou seja, quanto mais reunidos clãs de escravos, preservando suas famílias, ritos, crenças e cultura, melhor trabalhavam ou para ser exato, mais explorados eram. No Peru, aconteceu o oposto. Não chegaram famílias, grupos étnicos, nada semelhante aos demais do continente. Não havia unidade entre eles, não havia um líder que pudesse manter suas tradições, sua identidade comum. Assim, o processo mais natural então foi agregar os escravos à cultura local, em especial a do litoral peruano. Esses pequenos grupos novas células culturais a partir do local onde começaram a viver. Nasceu uma mescla original e única entre as tradições espanholas, andinas e africanas. Algo como língua, a estética e a forma de fazer poesia e como instrumento a guitarra (violão); dos Andes, o espírito, a melancolia, algumas formas musicais e por fim da África, o incrível ritmo, conservado geração a geração através dos tempos. Uma expressão cultural emergia em meio a tragédia escravagista. É claro que esse desenvolvimento vai se forjando ao longo do tempo, assumindo outras proporções, outras expressões, são incorporados novos ritmos, novos gêneros. Dando um salto na história, mais modernos, como o jazz, o reggae, o rock, a canção melódica. Dessa soma, a música afro-peruana é uma expressão única, natural e básica em todos os sentidos. Aqui, neste pequeno texto, reside apenas uma síntese menos alentada da música peruana, em especial a afro. Sem deixar de admirar a sua profunda e rica criação, com composições, instrumentistas e intérpretes que comovem e atravessam a história com digna integridade. Esse disco original foi compilado por David Byrne, um admirador da nossa América.

Luís Eduardo Aute & Silvio Rodriguez: Mano a Mano

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Um encontro entre o espanhol Luís  Eduardo Aute e o cubano Silvio Rodriguez realizado na Plaza de Toros – Las Ventas em Madrid em 24 de setembro de 1993 e ao escutar tem-se a sensação de ser um show que assistimos ontem. Não é necessário comentar sobre ambos. O que significam e o que são. Escutar o disco na íntegra, está logo ali acima, diz tudo. E a nós, uma celebração à vida que chega em forma de canções e um público que envolve a ambos. Inesquecível.

Miniconto XXX: Velez

Outro pequeno exercício de texto feito em sala de aula.

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As manhãs não amanheciam nos céus de Velez. Há muito os fogos brilhantes do sol caíram pelos trilhos e sumiram das vistas da cidade.
Chegaram os ventos. Levaram os varais para dentro dos olhares, para o fundo das retinas. Então, em mais uma manhã fria, doente, Velez enxugou os coágulos do sereno. Misturou carne, músculo e laço. E do impreciso das horas povoou imagens com uma paixão repentina.
O poste de luz, silencioso em sua luz apagada, desprendia-se como pó em sua curva de metal cansado e velho.
Velez morria e não deixava lembrança. Os trilhos não iam para lugar algum, e a chuva molhava os restos dos ossos.
Velez estava dentro da sombra e a sombra era o furacão.

Música: Astor Piazzolla – “Jorge Adiós”, da trilha sonora do filme Chove sobre Santiago.

James Taylor: Before This World

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Às vezes, leio ou escuto a expressão “depois de tantos anos quebrou o silêncio”. O que será exatamente quebrar o silêncio? O escritor não lançar nenhum livro novo? O cantor/compositor ou banda não lançar nenhum disco de canções inéditas? A resposta toma esse caminho e assim é quando leio que James Taylor lança Before This World após treze longos anos de “silêncio” após October Road de 2002. De canções inéditas, fique claro. Treze anos depois e dez canções, pouco mas de 41 minutos e quase nenhuma ou nenhuma novidade. Taylor sempre foi uma espécie de músico de transição entre os conturbados anos sessenta, onde aparece na cena musical, e os anos que viriam, onde a introspecção, a frustração, a exaustão de gerações convergiam de forma assustadora. Seu folk ou folk rock alimentado por uma acoustic guitar e uma voz serena deixava as plateias e quem escutasse seus discos tranquilos. Não que representasse um estado de alienação, ao contrário. Se as questões mal resolvidas lá dos anos 60 em nível político-cultural continuassem mal resolvidas é bom que se diga que continuam assim. Se antes havia a Guerra do Vietnã, hoje assistimos como se fosse um jogo qualquer o Afeganistão, o Iraque, assistimos ataques fundamentalistas, violências ao vivo reproduzidas pelas televisões e internet a qualquer hora do dia. Mudou para pior. No entanto, o trabalho de James Taylor parece ter parado no tempo. Se em 1970 cometeu a pérola chamada Sweet Baby James, e é verdade que após também teve outros bons discos, em especial os dois volumes de Greatests e outros como Never Die Young, Dad Love His Work, JT ou Mude Slide Slim além do October Road, ele não perseguiu as transformações que o tempo de alguma forma exige. E dele era de se esperar essa transformação pelo menos estética. Claro que neste Before há arranjos mais eloquentes, uma acoustic guitar suave porém definitiva, os vocais de sempre, e letras mais ousadas. Há passagens belíssimas como “Today Today Today”, “You and I Again”, “Snowtime” e a faixa título “Before This World”. Se não é um James Taylor em plena forma, é um James Taylor que se escuta com a serenidade que os dias de hoje exigem. Sem quebrar o silêncio.

Testament of Youth: a film by James Kent

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Aos dezessete anos os sonhos transbordam. Tal qual um tsunami, não têm medo dos obstáculos que os impeçam de avançar. Sonhos não destroem vidas, flutuam até um dia se tornarem realidade. Ou não. Como seria sonhar e viver em 1914? Ter exatos dezessete anos, nos meses que estavam quase ao alcance da 1ª Grande Guerra Mundial, para Vera Brittain (Alicia Vikander) era um universo de amizade e amor por Roland Leighton (Kit Harington). Testament of Youth, com a mão segura de James Kent, entra nesse mundo de Vera. A biografia da jovem que viveu os amargos anos em que durou o conflito bélico (1914/18) é reflexivo e atual. Pular dos sonhos para a realidade, penetrar em um universo onde a dor, a contagem do tempo pode ser de apenas segundos entre a vida e a morte, e a perda são os companheiros mais fiéis de um tempo sombrio é um envelhecimento da humanidade para o lado ainda mais sombrio que é capaz. O processo de amadurecimento da jovem Brittain, de seus irmãos e amigos são fotografias de hoje. Os anos e as formas de combate mudam. Os atos são os mesmos ou piores. Se em 1914 a tecnologia era absolutamente quase nada em relação aos dias de hoje, se os recursos médicos ainda eram limitados, se as armas mesmo mortais eram menos sofisticadas, a essência do ser humano continuou (e continua) sendo dominadora independente de época. A capacidade que possuímos para a paz parece se desfazer com a ambição pela conquista. E essa espécie de conquista não é catalogada como sonho. A narrativa é dolorosa e densa. Vai povoando a vida interior e exterior de Vera e dos personagens. Forja ainda mais seu caráter, sua personalidade, sua coragem. Seu humanismo. Traçar um paralelo com 2015 parece ser cruel. Não é. Basta um único olhar para dentro do que acontece em nossos dias para que nossas peles sintam a verdade queimar impiedosa sobre nossas consciências. Um filme pesado, concreto e sem muitas palavras. Para que possamos olhar a vida com discernimento e jamais deixarmos de sonhar.

Conto sem nome…

Em 2004, participei durante o ano todo, da Oficina de Criação Literária pela Faculdade de Letras, departamento de pós-graduação, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, ministrada pelo professor e escritor Luiz Antonio de Assis Brasil. Além dos estudos, muitos exercícios de textos, com textos que eram feitos à queima-roupa. O escrito abaixo, é um deles. Imaginar ser um livro com defeito em uma livraria.

Livros

Hoje vai ser um dia especial. Tenho certeza. Sei que não saí igual aos meus outros irmãos de nome. Não foi culpa do nosso pai que algumas das minhas partes ficaram com marcas e outras nenhuma. Sei que não sou perfeito. Por isso, estou aqui, misturado a tantos iguais da mesma espécime neste balaio de cordas trançadas.

Antes, cheguei a conhecer, ainda que por pouco tempo, uma estante de livraria. Lembro a primeira vez em que um homem me encontrou ali, junto aos meus irmãos.

Escolheu logo a mim, cheio de defeitos e imperfeições. Não posso esquecer os seus olhos quando viram minha 14ª página em branco e o susto que levou ao descobrir que faltava um bom pedaço do meu corpo no quinto capítulo. E sua voz grave falando para me tirarem dali.

Foi a primeira dor que senti. Fui jogado em um depósito escuro em meio a caixas e estantes metálicas cheias de iguais a mim. Não conhecia ninguém. Nem mesmo na livraria cheguei a conhecer pelo menos outros nomes. Talvez pudesse ter sido apresentado a alguns personagens, conversar com eles. Não tive tempo. Quantos dias fiquei lá? Três, quatro? Não sei dizer. Não estive no meu lançamento, não pude guardar dentro de mim uma dedicatória, ser tocado por outras mãos, visto por outros olhos, ser entendido no que estou dizendo toda vez que sou aberto. Nem mesmo tive a oportunidade de conhecer uma casa de família.

Agora, depois de meses somente olhando às vezes um facho de luz artificial, estou na rua. Dentro de um balaio. Não conheço ninguém. Não dá tempo para conhecer. Sempre chega alguém e pega um de nós. Poucos saem daqui. No primeiro dia estava na frente de todos, cheio de esperança. Continuei no mesmo lugar. Ontem, estava na parte lateral, em cima de vários outros, então espichei os olhos e vi a rua. Fiquei imaginando como é caminhar por elas, descobrir outras ruas, outras mãos que pudessem ser sensibilizadas pelo que tenho dentro de mim. Mas não. Continuo esquecido. Não, esquecido não, sou deixado de lado pelas imperfeições que tenho, mesmo que a culpa não seja minha. Será isso o que chamam de discriminação? Não pode ser. Antes de me pegarem ninguém sabe dos meus problemas. Poucos percebem que minha capa está dobrada e o quanto isso me dói. Mesmo com todas as imperfeições que carrego, tenho partes que podem ser aproveitadas. Só que exigem perfeição. Sei que não sou perfeito. Esta é a minha realidade e destino, todos os dias são iguais, e hoje foi mais em que a esperança me esqueceu.

Como não posso alimentar as pessoas com a minha sabedoria, e a de meu pai, vou alimentá-las com o meu corpo, quando, depois de passar pela guilhotina, for levado para uma usina de papel reciclado.

Música: “Livros” – Caetano Veloso