Conto sem nome…

Em 2004, participei durante o ano todo, da Oficina de Criação Literária pela Faculdade de Letras, departamento de pós-graduação, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, ministrada pelo professor e escritor Luiz Antonio de Assis Brasil. Além dos estudos, muitos exercícios de textos, com textos que eram feitos à queima-roupa. O escrito abaixo, é um deles. Imaginar ser um livro com defeito em uma livraria.

Livros

Hoje vai ser um dia especial. Tenho certeza. Sei que não saí igual aos meus outros irmãos de nome. Não foi culpa do nosso pai que algumas das minhas partes ficaram com marcas e outras nenhuma. Sei que não sou perfeito. Por isso, estou aqui, misturado a tantos iguais da mesma espécime neste balaio de cordas trançadas.

Antes, cheguei a conhecer, ainda que por pouco tempo, uma estante de livraria. Lembro a primeira vez em que um homem me encontrou ali, junto aos meus irmãos.

Escolheu logo a mim, cheio de defeitos e imperfeições. Não posso esquecer os seus olhos quando viram minha 14ª página em branco e o susto que levou ao descobrir que faltava um bom pedaço do meu corpo no quinto capítulo. E sua voz grave falando para me tirarem dali.

Foi a primeira dor que senti. Fui jogado em um depósito escuro em meio a caixas e estantes metálicas cheias de iguais a mim. Não conhecia ninguém. Nem mesmo na livraria cheguei a conhecer pelo menos outros nomes. Talvez pudesse ter sido apresentado a alguns personagens, conversar com eles. Não tive tempo. Quantos dias fiquei lá? Três, quatro? Não sei dizer. Não estive no meu lançamento, não pude guardar dentro de mim uma dedicatória, ser tocado por outras mãos, visto por outros olhos, ser entendido no que estou dizendo toda vez que sou aberto. Nem mesmo tive a oportunidade de conhecer uma casa de família.

Agora, depois de meses somente olhando às vezes um facho de luz artificial, estou na rua. Dentro de um balaio. Não conheço ninguém. Não dá tempo para conhecer. Sempre chega alguém e pega um de nós. Poucos saem daqui. No primeiro dia estava na frente de todos, cheio de esperança. Continuei no mesmo lugar. Ontem, estava na parte lateral, em cima de vários outros, então espichei os olhos e vi a rua. Fiquei imaginando como é caminhar por elas, descobrir outras ruas, outras mãos que pudessem ser sensibilizadas pelo que tenho dentro de mim. Mas não. Continuo esquecido. Não, esquecido não, sou deixado de lado pelas imperfeições que tenho, mesmo que a culpa não seja minha. Será isso o que chamam de discriminação? Não pode ser. Antes de me pegarem ninguém sabe dos meus problemas. Poucos percebem que minha capa está dobrada e o quanto isso me dói. Mesmo com todas as imperfeições que carrego, tenho partes que podem ser aproveitadas. Só que exigem perfeição. Sei que não sou perfeito. Esta é a minha realidade e destino, todos os dias são iguais, e hoje foi mais em que a esperança me esqueceu.

Como não posso alimentar as pessoas com a minha sabedoria, e a de meu pai, vou alimentá-las com o meu corpo, quando, depois de passar pela guilhotina, for levado para uma usina de papel reciclado.

Música: “Livros” – Caetano Veloso

 

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6 Respostas para “Conto sem nome…

  1. isso aconteceu porque não veio parar na minha estante 🙂 Um belíssimo texto, que nos faz sentir na pele o destino de tantos livros e as tantas histórias e sentires que estes amigos incondicionais, terão para nos contar! Gostei muito!
    fm

    • Obrigado, apenas é um texto escrito em sala de aula. No entanto, há muitos livros mesmo com defeitos cujo destino é a guilhotina, não deixa de ser uma morte para os leitores. Meu abraço.

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