Perdemos Fernando Brant *1946+2015 e Ornette Coleman *1930+2015

Fernando Brant

A cada dia que vivemos dos dias que nos cabem viver fica mais próxima a linha do horizonte. E do quando iremos saber o que há depois dela. Ontem, dia demasiado agitado, sem noticiário às mãos, uma espécie de silêncio consentido me deixou distante desse cotidiano de notícias e outras realidades, e sonhos também. E foi também o primeiro dia em que o frio do inverno mostrou sua face aqui na extremidade sul do Brasil. Manhã de sábado não muito diferente de ontem, frio, uma suave névoa impedindo a passagem de alguns raios de sol, ruas desertas, café bem quente. Jornal aberto e em destaque a partida de Fernando Brant e Ornette Coleman. O mineiro de Caldas, ontem. O texano, na quinta-feira. Aquele silêncio que me acompanhou o dia passado se impõe hoje. Mesmo as palavras parecem se recusar a seguir o comando das teclas e gritam para não serem comprimidas no teclado e nascerem na tela branca. Dias atrás, em meio aos meus discos e escolhendo alguns peguei um duplo do Milton Nascimento sobre a sua trajetória, disco que agora não consigo achar, onde o coloquei? E lembrei que na década de 90 (acho que foi em 1993), o ano exato foge à mais simples lembrança minha, a Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre promoveu um seminário chamado “Com a palavra a letra”. Encontros, debates, oficinas, shows com Ronaldo Bastos, José Miguel Wisnik, Wally Salomão, Ná Ozzeti, acho que Alice Ruiz também veio, enfim, uma infinidade de nomes, e de artistas e compositores do Rio Grande do Sul, com os de fora,
fizeram um seminário maiúsculo. Fernando Brant estava entre eles. Cobri o evento como repórter da revista Porto&Vírgula. Foi muito complicado separar o profissional dos meus ídolos. E o Clube da Esquina é, para mim, o maior de todos os nossos movimentos, claro que reconhecendo Bossa Nova, maravilhosa, Jovem Guarda, cumpriu extraordinário papel em um período complicado de nossa história, Tropicália, sem muitas palavras, Tropicália é Tropicália, o Movimento Artístico Universitário, de onde vieram grandes compositores, o Pessoal do Ceará, de São Paulo-Paraná nos anos 80, enfim, uma infinidade de movimentos que mexeram com todos nós para melhor. Conversei com Fernando uns quarenta minutos, dividindo esse tempo com outro colega, e tudo fluiu com espantosa naturalidade. Ele, contando suas letras, sua forma de escrever, de compor, de não falar sobre o trabalhos dos colegas, sempre disposto, ético, íntegro. Quarenta minutos que chegam velozes à minha memória em forma de saudade. Saudade pelo tudo e pelo todo que fez e ainda fará por todos através de suas letras e músicas cuja riqueza não há como medir. Nada será como antes, diria Ronaldo Bastos. Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre, diz o mineiro que nos deixou. Assim será, Fernando.

Foto: colhida do site http://www.cantosagradodaterra.blogspot.com

* Sobre Ornette Coleman, amanhã um texto.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s