Tindersticks: o melancólico e belo “Can our love”

Tindersticks-CanOurLove

Gostar do Tindersticks nunca foi algo sobre-humano para mim. Ao contrário. Do simples gostar da capa do disco e deixar que suas músicas frequentassem meu player foi apenas o tempo de encontrar o cd. Nada além disso. Na verdade, tudo começou com uma pequena nota reproduzindo a capa acima (Can our love), sem mais uma única palavra que não fosse melancólico. Enfim, álbum à disposição depois de sei lá quanto tempo atrás, e a surpresa: são muito bons. Está certo que em alguns momentos derivam para algo mais parecido ou que eventualmente possa ser levado a ser uma influência do Doors, ou de outra banda, sem perder de vista sua sonoridade. Os ingleses mantém desde o início uma característica: arranjos bem elaborados, passagens instrumentais de muito virtuosismo e os vocais que lembram melancolia, para alguns críticos são fúnebres, são bem-vindos no resultado final. O seu disco, cuja foto de capa lembra o ator Liam Neeson, é outro exemplar bem acabado dessa ideia que permeia os trabalhos do Tindersticks. É, sem dúvida, um trabalho emocional e com doses certas de humor mesclando a tal de melancolia a que me refiro. Tempos depois me deparei com outro dos seus discos: Ao vivo no Coliseu dos Recreios de Lisboa. Ao vivo tudo se transforma, e mesmo sabendo que passa por estúdio, arranjos ajustados e etc. continuei gostando do resultado final. Isso que sequer passei perto das trilhas que compõem para cinema. Tindersticks é sinônimo de excelente música e bons momentos, aqueles que a solidão é uma companheira e mesmo com toda a melancolia das canções, há um gosto de sol nelas.

Anúncios

Hermeto Pascoal, o mago Merlin da música brasileira

hermetopascoal

Está bem, o título pode estar exagerado, assumo o exagero consciente. Tive a felicidade de, quando editor da Revista Porto&Vírgula, à época da sua edição pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, entrevistar e almoçar com Hermeto Pascoal em duas oportunidades. Isso nos anos 90, em que aqui esteve para shows, em especial no então velho Auditório Araújo Vianna sem cobertura, com bancos de madeira fissuradas pela ação do tempo. O tempo todo em que esteve disponível à imprensa mostrou-se alegre, irreverente, inquieto, persuasivo, feliz. Impossível levar adiante uma conversa com ele sem cair no riso com suas bem humoradas frases e efeitos sonoros que criava a cada instante com qualquer objeto que aparecia em sua frente. Uma experiência marcante e sobretudo humana de alguém que acima de tudo o tempo todo em que esteve sendo entrevistado jamais ficou contrariado com qualquer pergunta. E respondia com o jeito Hermeto de ser. Muito próximo de beijar os oitenta anos, na verdade será em 22 de junho de 2016, esse filho das Alagoas, nasceu para o mundo. Sem qualquer exagero. O som, seja ele qual fosse sempre foi uma fonte de atração desde pequeno. Nada escapava. Até que um dia partiu para o Rio de Janeiro tocar sanfona, que já havia aprendido com seu irmão lá em Lagoa  da Canoa, hoje Arapiraca, no Regional de Pernambuco do Pandeiro (na Rádio Mauá) e, em seguida, piano no conjunto e na boate do violinista Fafá Lemos e, em seguida, no conjunto do Maestro Copinha, flautista e saxofonista, no Hotel Excelsior. Alguns anos depois, em 66, cria o Quarteto Novo com nada mais nada menos que Airto Moreira, Heraldo do Monte e Théo de Barros (basta uma pequena ida ao Mr. Google para descobrirem a relevância de cada um em nossa música.) Pouco depois, partiu para os Estados Unidos, gravou com Flora Purim e Airto, conheceu e gravou com Miles Davis, e a partir daí ganhou o mundo. A sua obra é universal com profundas raízes brasileiras. Absorveu as influências, em especial do jazz, mas se manteve com um brasileiro fincado em sua terra. De criatividade incansável, não há o que não possa transformar em música e  harmonias o que sente e o que cai em suas mãos. Não por acaso, pensando melhor, é mesmo o nosso mago Merlin da música.

I Am Sam: music from and inspired by the motion picture

i am sam

Inserir os Beatles em nossas vidas e cotidianos é muito simples. Eles estão sempre presentes, e sempre estarão. A sensação é de que passa ano entra ano eles são cada vez melhores. E qualquer trilha se não tiver um disco completo deles pelo menos uma ou duas canções estão na playlist. É inevitável. E muitos filmes e séries se valem do talento do quarteto inglês para criarem situações muitas vezes únicas em cenas ou de alegria ou de complexidade dramática. O filme I am Sam estrelado por Sean Penn e Michelle Pfeiffer (2001) tem em sua trilha sonora uma verdadeira coletânea dos Beatles. Dezenove músicas que muito mais que emoldurar o enredo se completam e ganham vida para além da tela. No roteiro, o diretor Jessie Nelson trabalha com o talento de Penn e Pfeiffer ao contar a história de Sam Dawson, um homem com atraso cognitivo que cria sua filha Lucy (Dakota Fanning) com a ajuda de seus amigos. O que até então era uma vida normal, chega ao fim quando Lucy completa sete anos e ultrapassa a capacidade intelectual do pai o que desperta a atenção da Assistência Social. O destino da menina, o orfanato, passa a ser decidido na Justiça, por força da advogada Rita Harrison que o defende até a decisão final. Aqui fica em aberto para quem desejar assistir ao filme. Além de uma trama sensível e sobretudo reflexiva, a trilha é magnífica. Um encontro de linguagens transformou o disco em um interessante painel sobre a obra dos Beatles através de arranjos e interpretações de diversos artistas de gêneros tão diferentes entre de si e dos próprios autores. A lista é significativa: Eddie Vedder (“You´ve got to hide your love away”), Nick Cave (“Let it be”, “Here comes the sun”), Bem Harper (“Strawberry fields forever”), Sheryl Crow (“Mother nature´s son”), Bem Folds (“Golden slumbers”), entre outros nomes de peso. Sem dúvida, um álbum entrelaçado ao roteiro, às interpretações dos atores e músicos engajados na proposta. Para se ter sempre por perto. Abaixo, o disco na íntegra.


John McLaughlin: Remember Shakti

remember

O guitarrista inglês de Yorkshire, pouco mais de 70 anos, tocou com Miles Davis. Credencial para poucos. E logo outras credenciais foram chegando que mais pareciam a formação de um clube cuja única exigência para frequentá-lo era apenas uma: qualidade. Alguns dos seus membros: Paco De Lucia, Al Di Meola, Chick Corea, Carlos Santana, Stanley Clarke, o lendário baterista Billy Cobham, o inesquecível baixista Jack Bruce. Apenas alguns dos membros desse seleto e criativo “clube”. Logo após dissolver a elétrica e revolucionária Mahavishnu Orchestra,  que teve entre seus membros o violinista Jean-Luc Ponty, criou a acústica Shakti, que incursionou pelos elementos da fusão, em especial do jazz com a música indiana e não deixou de fora o jazz-rock. Essa integração de gêneros foi tamanha que mesmo depois de passar para outros projetos, McLaughlin, que sempre revelou ser dono de uma técnica exuberante além de ser um guitarrista perceptivo, veloz e preciso, refez os mesmos caminhos em Remember Shakti, álbum de irresistível capacidade de união entre os seus integrantes. Juntar dois polos tão distantes entre si, como a cultura ocidental com a da Índia resultou em um disco emocionante. John, Zakir Hussain, TH Vikku Vinayakram e Hariprasad Chausaria saíram para fora dos padrões tradicionais das culturas e souberam com suas sensibilidades fazer das rítmicas e alternâncias harmônicas fazer um trabalho comovente, humano e místico através de composições originais. O álbum duplo traz canções de mais de uma hora de duração, não passa de cinco faixas e encanta. Dizer mais o quê? Escutem, por favor e conheçam um pouco mais o que a vida oferece de talento e interioridade.

Mirta Alvarez: Guitarra

mirta alvarez

Mais que quantidade, a qualidade dos guitarristas platinos, e aqui estou mais para os lados da Argentina sem deixar escapar o Uruguay, também rico em instrumentistas, impressiona. Na mesma medida em que mesmo possuindo formação clássica, com o erudito presente, é na música popular ou no folclore que, em meu juízo demasiado pessoal, são desenvoltos e criativos e oferecem novas possibilidades de audição. Essas leituras da música são caminhos para o conhecimento, para conhecer as diversas faces que os temas oferecem, sem que fronteira alguma de gênero ou estilo possa confiná-las em si mesmas. Mirta Alvarez se inscreve nesse clube. Faz parte de uma geração que passou pelos bancos acadêmicos porém não deixou de olhar e sentir o coração do seu país. Da gente dos pueblos mais simples e dos compositores que modificaram a paisagem musical não apenas do Prata, mas de quem quer que os escute. Não por acaso ao estudar em conservatórios e escolas de música, Mirta se especializou em guitarra tango. Não por acaso muito dos seus mestres ou diretores são nomes enraizados na vida platina: Abel Fleury, Rodolfo Mederos, Kelo Palacios, para citar apenas três deles. Guitarra é um belo e sereno passeio pelas cordas do tango, da música popular, por Piazzolla, por Fleury, por Horácio Salgán, por Cobián/Cadícamo, por Atahualpa Yupanqui. Não falta absolutamente nada para seus acordes vibrem com intensidade e possamos ingressar juntos nesse universo rico e denso de um povo igualmente rico e denso.

Yamandu Costa: Tocata à amizade

Yamandu_Costa_-_Tocata___Amizade__CAPA_

Reproduzir ambientes do passado, mesmo que recente, não é privilégio da indústria cinematográfica. Alguns músicos se valem desses ambientes, que ainda resistem ao tempo e aos modernismos, e com seus companheiros instrumentistas se reúnem e fazem verdadeiras celebrações musicais. É a amizade fluindo através das harmonias e acordes, dos cantos, das homenagens e de arranjos feitos à queima-roupa entre os amigos que se embalam em sorrisos e criatividade. Tocata à Amizade mais um dos tantos discos gravados por Yamandu Costa parte dessa premissa afetiva. E consegue transformar quem para para (ops, desculpem, mas a construção ficou assim mesmo, primeiro o verbo parar) escutar sente-se envolvido pelo clima, pelo ambiente. Ali, bem próximo a mesa do bar, a noite ganhando terreno sobre o dia, em volta deles mais amigos e admiradores. Ou apenas pessoas vivendo o seu normal. A formação dos músicos que estão em Tocata é camerística com Alessandro Kramer (acordeom), Rogério Caetano (violão 7 cordas de aço) e Luis Barcelos (bandolim 10 cordas). E mais não foi necessário. O começo foi um convite do Museu do Louvre para ele, Yamandu, compor uma peça que representasse um pouco da música popular brasileira. O movimento composto, “Suite Impressões Brasileiras” tem essa mensagem que abraça algumas regiões do território brasileiro (choro-tango, valsa, frevo-canção, baião com milonga). “Negra Bailarina” e “Boa Viagem” anunciam os amigos compositores que seguem a linha proposta. E chegam composições de Raphael Rabello (“Pedra do Leme”), João Pernambuco (“Graúna”) e a “Suite Retratos” com “Pixinguinha”, “Ernesto Nazareth”, “Anacleto de Medeiros” e “Chiquinha Gonzaga” que possuem a assinatura do maestro Radamés Gnatalli. Um trabalho coeso, bonito e delicioso de se escutar, e é mesmo uma celebração à amizade. (as reproduções são de momentos da carreira de Yamandu Costa).

Folclore de Cuchi Leguizamon por Pablo Márquez

Dieciseis-composiciones-Leguizamon-Pablo-Marquez_CLAIMA20150506_0472_28

O campo do folclore é imenso, vasto, e muitas partes dele ainda inexplorável. Permanece intacto, resistindo a passagem do tempo. Para muitos, confinado ao determinado espaço geográfico, para outros, devendo ganhar outros espaços maiores e amplitude geográfica. A primeira vez que ouvi o Cuchi  Leguizamon foi pelo León Gieco e o seu trabalho insinuante e significativo da música argentina chamado De Ushuaia a La Quiaca onde, acompanhado de alguns músicos do porte de Gustavo Santaolalla e a extraordinária folclorista Leda Valladares, percorreu o país de norte a sul, leste a oeste recompilando e mesmo deixando no original o folclore do país platino. São várias as regiões e as culturas que ali residem. O salteño Cuchi é um desses nomes sagrados. Um homem que trabalhou de forma incessante sua obra, reinventado-a sempre a partir do tradicional até atingir um ponto acima, criando diálogos com os seus movimentos que são pura poesia. É a partir das composições de Leguizamon que o guitarrista Pablo Máquez gravou uma verdadeira pérola musical: El Cuchi bien temperado. O argentino, também natural de Salta, vive na Europa, mais ligado ao clássico, nesse trabalho volta seu olhar para dentro da Argentina e encontra o fascínio que Cuchi desperta. O titular do instrumento que toca na Academia de Música da Basileia, Suíça, se vale das zambas, chacareras, vidalas, bailecitos, cuecas e carnavalitos do mestre e cria um disco admirável pelo caráter original ao mesmo tempo em que mantém as “interioridades” criativas de Leguizamon tal como as concebeu. Claro que muda aqui e ali os tons, os timbres, as texturas, mas não perde em nenhum momento de vista as composições para outras derivações que o improviso, por exemplo, poderia propor. Manteve o equilíbrio entre as criações de Cuchi e a sua linguagem com o seu projeto, e, sobretudo, não abre mão do seu jeito de mostrar como sente ao tocar a obra do compositor salteño. Um disco de riqueza musical, erudito passando longe do acadêmico, e oferece tantas possibilidades de interpretação e leituras que valoriza Cuchi Leguizamon como um folclorista com muita densidade clássica. Um álbum magnífico. (o último vídeo é o próprio Cuchi ao piano.)