Pablo Milanés e Victor Manuel: en blanco y negro

pablo

Duas histórias, duas trajetórias, várias estradas e caminhos. Um disco e outras tantas histórias e caminhos. Pablo Milanés, cubano, e Victor Manuel, espanhol. Pablo tem em seu sangue os trovadores, a arte popular, os cantos dos povos, que o forjaram como cantor e compositor, ainda que tenha anos de formação acadêmica do Conservatório Musical de Havana. esteve sempre nas ruas, nos bares e nos bairros da cidade a sua música, foi onde encontrou a diversidade e a riqueza sonora do país. Também recebeu influências vindas da música norte-americana, tão comum naqueles anos 50 em Cuba, sem jamais deixar de lado a música tradicional do seu lugar. Até se tornar um dos nomes, com Silvio Rodriguez, da Nueva Trova Cubana. Movimento que sacudiu a música do pequeno país das águas do Caribe. E ganha o mundo, o Brasil e por aí segue seu destino de trovador. De cantor das causas sociais e da vida. Victor Manuel não diferente. O espanhol das Astúrias é um revolucionário da canção. junto com Ana Belém representam a transição musical da Espanha. Começou também cedo, aprendeu harmônica, mas foi em Madrid que estudou e passou a fazer parte do cenário musical como cantor e depois como compositor. Identificado com os movimentos mais à esquerda, é um nome que transforma sua canção em fortes elementos de contestação ao autoritarismo. Vai para o exílio, e se espalha pelo mundo com sua obra. Pablo e Victor têm muito em comum. São conscientes, críticos, sensíveis, acreditam na vida, na transformação pela paz, conquistam plateias. Juntos, são mais que dois. En blanco y negro não é síntese de um e de outro. Não é o resumo de suas artes. É mais que tudo, encontro. Encontro de sensibilidades que andam e atuam no mesmo sentido. Se complementam. São transformadores. O tempo não para e eles mostram que não deve mesmo parar. Eles avançam e nos convidam a avançar. O repertório clássico dos dois apenas carimba a passagem para o avanço da paz, da vida, das transformações. Exagero? Não, nenhum exagero. Apenas uma realidade a ser vivida.

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António Zambujo em Porto Alegre, hoje

antonio

Pois consegui uma façanha: vou perder o show de hoje, no Teatro do Bourbon Country, do António Zambujo de lançamento do seu álbum Rua da Emenda. E sem desculpas. Sem olhar a agenda, assumi outro compromisso. E perder o novo expoente, segundo alguns críticos, do novo fado é imperdoável. Ao escutar o seu Ao vivo no Coliseu já havia ficado impressionado com a suavidade do seu canto e a brasilidade com que seu repertório se desenvolve. O filho do Alentejo é talentoso e possui um timbre de voz que torna impossível não se envolver com suas canções. E ele mesmo confessa as influências da música popular brasileira, de Noel Rosa, de Lupicínio Rodrigues, de ser um joãogilbertiano assumido e convicto. eis a essência do seu trabalho: o fado tradicional, a mpb, e por aí encontra elos entre os fados mais antigos com os chorinhos, e a aproximação é natural. Mas, Zambujo tem um olhar cosmopolita e interiorano o que configura seu trabalho como de integração. E uma integração que vai além. Grava sem medo algum o uruguaio Jorge Drexler e Serge Gainsbourg, cantou acompanhado de Yamandu Costa músicas com letras de Paulo César Pinheiro, já esteve com o gaúcho Márcio Faraco e já havia passado por Porto Alegre em 2003 em projeto da Universidade Federal.  Escuto ao fundo o seu Ao Vivo e bate aquele sentimento de culpa. É que resulta em não olhar a agenda. No entanto, o mais importante de tudo: António Zambujo está aqui e isso vale infinitamente mais que a minha agenda.

Kwaku Kwaakye Obeng: os tambores de Gana

Tambores

Culturas que têm na batida dos tambores e outros instrumentos de vamos chamar de percussão a sua expressão de vida permanecem instigando o nosso imaginário. Mais que isso,  nos introduzem um universo multifacetado de tradições, ritos, passagens, encantos, toques sacros e, quem sabe, também profanos, de guerra e paz. Um universo real, visível. Awakening disco solo, o primeiro, de Kwaku Kwaakye Obeng é um disco de histórias e do futuro de um continente e seu interior. O ganês é profundo em sua bateria, desvenda emoções, ritmos e texturas tornando infinito o espaço de cada um de nós em nossos sonhos, em nossas caminhadas pela vida. Não são pouco mais de 71 minutos fáceis de serem escutados. Não estamos acostumados a parar, a experimentar esse mergulho para dentro, e descobrir outro interior em nós mesmos. A rítmica de Kwaku balança com as nossas experiências até aqui, experiências verdadeiras é verdade, mas que necessitam de mais um pouco, afinal nunca é tarde para o conhecimento. Já conhecido de Fleetwood Mac, Bill Laswell e Bootsy Collins, neste seu primeiro trabalho demonstra mais uma vez o quanto a África é raiz de todos nós. O quanto a África é nossa alma e coração. Acompanhe as batidas de cada faixa e se deixe levar pelo sangue que delas corre para o nosso sangue. Simplesmente notável. E emocionante.

Kwaku tem mais dois discos gravados: Afrijazz e SanSum que são o mundo dentro do mundo.

Lilián Saba, o piano do Rio da Prata

lilián saba - malambo libre

Foi o meu querido amigo Guillo Espel que um dia, em Buenos Aires, me indicou o cd da capa aí de cima. Confesso que não conhecia, pelo menos assim à queima roupa Lilián Saba. Havia a assinatura da indicação e para mim já de acordo e ao voltar para casa o disco me acompanhava. E depois, para tirar do player somente com as outras novidades que vieram junto. Inclusive um outro trabalho de Lilián com a também pianista Nora Sarmoria chamado Sonideras. Ela é uma instrumentista e compositora do que muitas vezes por aqui chamados de primeiro time. (Não há jeito de encontrar o disco aqui em casa agora!) Sua trajetória é de muito estudo, primeiro com Benito Juarez, depois o Conservatório Nacional de Musica Carlos López Buchardo e a Escuela Nacional de Danzas e mais estudos de harmonias e composição com o extraordinário maestro Manolo Juárez. Mais tarde, caminho natural, se tornou solista e arranjadora, convidada por diversos artistas para seus trabalhos,  o exercício da docência na área do folclore argentino (Escuela de Musica Popular, em Avellaneda) e com o convite de Juan Falú ingressa no Conservatorio Municipal Manuel de Falla, Buenos Aires, para o exercício do magistério para o tango e folclore. Em paralelo, uma carreira que vai sendo preenchida com diversos prêmios. Lilián ainda que com toda a formação acadêmica e mais as incursões pelo folclore não poderia deixar passar as influências desses lados da cultura platina. Distante dos rótulos, criou trabalhos e caminhos sólidos e bem estruturados em qualquer gênero. Malambo Libre, o disco que veio comigo, possui essas variações e mais um pouco. Incursões pelo folclore andino também recebem um sensível visita daquelas que ficam marcadas para sempre. Toda a naturalidade de Saba no teclado flui através de um estilo denso e vigoroso e ao mesmo tempo suave e tranquilo. Nada parece ser demasiado ou de menos. os instrumento que a acompanham se encaixam, as notas se entrelaçam, os acordes duelam amigáveis, as harmonias se cruzam e de repente estamos envolvidos por uma pianista superior. Para muito além da linha do horizonte.

Tangazo: Piazzolla por Charles Dutoit

charles

Se tem algo que aprendi é procurar nos lugares mais inesperados o que desejo. Assim tem sido com os discos. Quase sempre misturados ou em rótulos que nada a ver com o gênero, em meio ao caos lá ele, o disco à espera de ser encontrado. Tangazo de Charles Dutoit com a Orquestra Simfônica de Montreal não em nada diferente dos tantos que apresentei por aqui. Este trabalho, que tem a participação de Daniel Binelli no bandoneón, Eduardo Issac no violão e Louise Lellerin no oboé, sobre um repertório clássico de Piazzolla tem andamentos que aprofundam suas relações entre o tango, o erudito e o jazz. Desta mescla, a riqueza contemporânea da obra do mestre argentino desafi o tempo e flutua perene sobre qualquer época, seja ela do passado, do presente e a que deverá chegar mais adiante. Porque estava ele adiante de seu tempo. Sempre haverá uma leitura que dinamize ainda mais suas notas musicais de tal forma que suas composições sempre estejam nascendo. Piazzolla tem o grande mérito dos gênios: ser sempre novo, atual. Será sempre assim. Os instrumentistas e a orquestra conduzida por Dutoit responde com sensibilidade aos apelos do tango, seja no drama, seja no improviso, seja na condução de peças que deslizam pelo universo clássico. O “Doble Concerto for bandoneon and guitar”, de pouco mais de 16 minutos hipnotiza. Envolve. Harmoniza o interior de quem o escuta. “Milonga del Angel” segue um andamento que magia tanto quanto os “Tres movimentos tanguísticos porteños”, cuja celebração orquestral é simplesmente magnífica. De uma forma serena e tranquila, reconstitui, o trabalhos de Charles e da Sinfônica de Montreal, um ambiente amoroso e de sonho e imaginário incendiado. Para uma manhã fria de outono, como esta de hoje em Porto Alegre, o café quente, Tangazo e se deixar levar por esse mar infinito de harmonias de Piazzolla, que sempre chega em nossos mares afetivos.

Roger McGuinn, o mago dos Byrds

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Roger MCGuinn, nascido James, depois Jim e finalmente Roger, sempre esteve à frente do seu tempo. O filho de Chicago trouxe à música a eletrificação, por exemplo, das canções acústicas de Bob Dylan e Pete Seeger. Com o The Byrds mexeu com estruturas que permaneciam latentes e avançou tanto nos vocais quanto nos arranjos ousados. Um grupo formado por Roger, Gene Clark, David Crosby, Chris Hillman e Michael Clarke jamais passaria em branco em um cenário onde já despontavam Beatles, Rolling Stones, Kinks, Yardbirds e já apareciam logo após Bee Gees, Cream, Pink Floyd e a lista aumentava a cada mês naqueles tempos. Isso é 1965, cinquenta anos atrás.  Arrisco a afirmar que os Byrds foram o embrião melhor acabado do que seria os acústicos Crosby, Stills, Nash & Young. Acompanhem as linhas de ambos, as harmonias, os vocais. Há um universo de semelhanças que a magia de McGuinn, que não participou do CSN&Y, parece estar presente e teve em Crosby o seu representante, ainda que David sempre teve personalidade própria. Como poucos souberam lidar com os gêneros: folk, country e o rock. Como poucos abriram espaços generosos para os que vinham e também para os que já estavam.  Roger McGuinn foi (é) um mago. Da sua guitarra e vocais a doçura de tempos ásperos. De tempos de transformações que receberam das texturas dos Byrds um sentido novo e de esperança. A lamentar que não foram adiante. Se dispersaram, seguiram outros caminhos, alguns partiram, e a vida seguiu. Outro dia assisti a um filme chamado The song onde Alan Powell é um compositor e cantor folk/country que a tantas do enredo canta Turn! Turn! Turn!, canção preferida da sua esposa. Nos créditos finais, ao fundo a mesma música é interpretada por Roger McGuinn e Emmylou Harris. A magia dos Byrds e de Roger. Hoje, passadas cinco décadas, não olho pelo espelho para ver o que está lá atrás, mas não posso negar que aqueles anos são a essência de um tempo que ainda tem que ser melhor compreendido ou talvez ainda deva ser vivido sem ser passado.

Guillo Espel no Teatro Colón

Espel

| Guillo Espel |
|Teatro Colón|

Domingo 19 de abril de 2015, 11 hs

Guillo Espel Cuarteto | + Quinteto de Cuerdas | + Invitados Especiales

Música Folklórica Argentina

Ciclo de Intérpretes Argentinos
Teatro Colón | Libertad y Viamonte, CABA
Entrada gratuita
(se retiran en boletería del Teatro desde el  jueves 16 de abril, 9.00 hs)

Producción Ejecutiva General y Prensa:
Catalina Tovorovsky 
para
 Farber Agency
informes y contacto: farberagency@farberagency.com.ar cel 011 1540586213

Para quem estiver indo a Buenos Aires, para quem acessar este espaço na Argentina, assistir Guillo Espel é mais que um presente. Talento, sensibilidade, e mais tantas preciosidades da música do Prata com tantas outras influências sendo acolhidas que estar em uma apresentação do violonista é algo indescritível. Vá para não se arrepender depois. (Está certo, você não pode ir, você não é de Buenos Aires, então, acesse os endereços acima e boa viagem!)