Trio Cumbo: Los tiempos cambian

Cumbo

O título é atual. É a vida que segue. E seguimos também. O disco de Jorge Cumbo, argentino de nascimento e alma, tocador exímio de quena, maestro, compositor, arranjador e um punhado de mais atividades, é a essência de que os tempos mudam. Recebem ventos, que podem ser novos ou mais envelhecidos, mas que forçam às mudanças. Na música, na política, na cultura, na educação, na saúde, na segurança, na vida. Talvez esteja não apenas no título de um disco argentino que comprei na França – foi lançado em 1995 – a resposta para muitas das inquietações que se manifestam não apenas hoje, com certeza se manifestarão amanhã se a possibilidade existir. O mais curioso desse trabalho, significativo para além das palavras, até por se tratar de temas instrumentais, é a trajetória do repertório em seus nomes igualmente significativos. “La antigua”, “Trifasico”, “Pintandome el alma”, “Luz de la noche”, “La vuelta de los tachos” e, óbvio, “Los tempos cambian”. Existe uma combinação nesse entrelaçamento de canções que vejo quase como um aviso. Tenho a consciência de que os tempos mudam. Porém, não voltam para trás. Os tempos não vestem jamais o verde autoritário do passado recente. Não os tempos que me restam viver. E ao escutar o Trio Cumbo sinto uma renovação para muito adiante de qualquer palavra escrita. Cumbo tocou no emblemático grupo Urubamba, que acompanhou Paul Simon. Período esse em que havia uma curiosidade com a música latino-americana, deixando um pouco de lado as rumbas, salsas, merengues, cumbias, e essa curiosidade chegou a estereotipar o latinismo musical em “El condor pasa”, gravação de Simon & Garfunkel. À época, chegou ao esgotamento e o “hino” era já exaustivo aos ouvidos mais apurados e conscientes e exigentes. A nossa América estava abaixo de mau tempo. Todavia, por alguma razão os exilados latinos em Europa produziam muito. Quando do certeiro e fatal golpe de Pinochet no Chile em 1973, que rasgou a constituição de bombardeou o La Moneda e Salvador Allende, grupos como Inti Illimani e Quilapayun estavam no continente europeu e por lá permaneceram até os anos oitenta e poucos. Fica para outro post esse assunto. A produção deles encantava o público. E trabalhos sólidos em sonoridade e poética estavam circulando livremente. Aqui, o silêncio, a censura, o confinamento. De tudo. Los tiempos cambian. É verdade. Avançamos. Cumbo avançou. Participou de diversas formações, com Lito Vitale, Gerardo DiGiusto, Ricardo Moyano, com o pianista Manolo Juárez, Leo Masliah, Lucho Gonzaléz. Eis aí um trio extraordinário: Cumbo-Vitale-González. Jorge é sinônimo dessa versatilidade toda que envolve a música, suas descobertas sonoras, suas texturas com os sopros sem jamais descansar. É um dos músicos mais importantes do folclore argentino. O que se escutar de sua obra é com certeza estar “cambiando los tiempos”. Tempos melhores. Mais uma vez, a Argentina e sua riqueza musical abraça o que há de melhor na vida: o viver.

 

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