Mayra Andrade: Lovely Difficult

Mayra

Encontrei pela primeira vez Mayra Andrade na Livraria Saraiva, setor de discos. Perdida em meio a tantos cds misturados estava o Lovely Difficult com uma pequena tarja indicando que a cantora dos disco é do cabo Verde, terra de Cesária Évora. Logo minha atenção ficou nele, e comprei o cd. Não o escutei nos primeiros dias em sua nova morada, já em harmonia com outros ou da Cesária, de alguns que já passaram por aqui. Isso foi no ano passado, ano pesado e triste para mim. Talvez por isso, fui deixando o tempo passar, escorrer entre os calendários de casa e um dia qualquer acho que de outubro ou pouco antes, quem sabe setembro, o player acolheu Mayra. A jovem cubana cuja história de vida vai ganhando experiência e bagagem ao viver em lugares como o Senegal, Angola, Alemanha, França, onde mora (Paris), e, claro, Cabo Verde. Uma gama imensa de vida e culturas se mesclando, formando uma identidade nova e ao mesmo tempo tão raiz tamanha a profundidade do seu canto. O início nos bares que recebem cantores de world music na eterna noite parisiense, o Satellite Café, impulsionou uma carreira que foi abraçando prêmios desde cedo. E com canções brasileiras, embora a medalha de ouro conquistada no Canadá nos jogos de Francofonia tenha sido típica cabo-verdiana. E começa a brilhar nos palcos. Os discos foram chegando ao natural: Navega (2006), Stória, Stória (2007) e Studio 105 (2010) solidificam seu jeito Mayra de cantar. Um quê na raiz, outros quês no moderno. Dessa fusão, a aproximação com brasileiros como Chico Buarque, Lenine, Hamilton de Holanda, Dominguinhos, Yamandu Costa (o segundo youtube lá embaixo), a própria Cesária, Mariza e João Pedro Ruela. esteve com o guitarrista cabo-verdiano, grande nome da música das ilhas, Hernani Almeida em shows em 2006. Lovely é a maturidade. É o passo à frente. É uma presença definitiva que a música pode ser renovada e preservar a identidade. Que a sensibilidade ainda comanda os acordes e as harmonias e a voz outro instrumento sacro nessas tessituras. Mayra Andrade. Para ficar sempre presente.



Foto capturada no site http://www.kalamu.com

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Oráculo de Luna, romance de destino e livre-arbítrio

Luna

O primeiro leitor dos meus livros é o meu amigo Alfredo. Sabedor que não começo a ler tão logo os tenha em mãos, ele se tornou assíduo em minha biblioteca. Modesta, é verdade, mas acredito com bons livros. Alguns dos seus critérios é que me incomodam, e disse isso a ele sem ferir de morte nossa amizade. É que livro, para ele, tem que ser volumoso em número de páginas. Claro, e que seja de qualidade. O oráculo de Luna de Frédéric Lenoir possui 431 páginas. Está na conta certa, Alfredo? Bom, estava e ele leu. Ao me devolver apenas disse: “Larga tudo e lê.” Exageros à parte, não larguei tudo, porém comecei a travessia das páginas. Ele tinha razão. É um belo romance. Ambientado no século XVI, um camponês italiano, Giovanni, se apaixona pela bisneta do homem mais poderoso de Veneza. Até aí, o velho clichê. E correr mundo atrás da sua Elena também é outro clichê. E assim, a história vai crescendo, até que o destino mexe com as suas armadilhas. E Giovanni se vê dividido: a missão de levar ao santo padre da igreja estudos sobre o futuro dela ou reencontrar a amada. Com esse cerne, o leitor segue a saga do camponês através de fatos históricos, ficção, reflexões sobre a morte, a mística cristã, a astrologia e a cabala. Não faltam intrigas, amores, fracassos, tristezas, tragédias, e o quê mais? Trata-se, a despeito de alguns senões, de um livro que prende a atenção de quem o lê. Não afirmo o “larga tudo” que o Alfredo me disse, mas alimento a ideia de que vale cruzar por suas pouco mais de 400 páginas. E entrar em um universo que atrai e envolve eis que a narrativa é realmente densa e muito bem construída. Os clichês acabam se integrando sem dano algum. Uma leitura que vale a pena. O livro é editado no Brasil pela Suma de Letras, ao preço sugerido de R$ 56,90 na capa, podendo ser bem menor via internet.

http://www.orelhadelivro.com.br/livros/45644/o-oraculo-de-luna/

Cesar Camargo Mariano & Romero Lubambo mais que um Duo

duo

Eis um disco incomum. Daqueles que permanecem perenes. A mistura, intencional, impressiona. Os instrumentistas se completam. Os instrumentos, piano e guitarra acústica, no melhor jazz estão livres e à disposição de ambos tecerem suas canções com tamanha naturalidade que o repertório começa a ser parte dos dois. E mesclar Djavan (Samba Dobrado), Tom Jobim (Fotografia), Clifford Brown (Joy Spring), Moacir Santos April Child), além de composições próprias (Choro #7, Mr. Jr., O que é , O que é, Short Cut) não é nenhum desafio para ambos. Parece um exercício de alunos em sala de aula. E é exatamente o que fazem: dão uma verdadeira aula de música. Cesar Camargo Mariano e Romero Lubambo tomam conta do tempo em o álbum desliza no player. E nós, somos absorvidos sem perda de tempo. Melhor, o tempo deixa de existir. O que há, simplesmente o melhor da música brasileira. E estamos conversados.




A música em Fernando Pessoa ou Fernando Pessoa na música

Pessoa

Fernando Pessoa é poeta único. Está certo, existem tantos poetas que também podem ser adjetivados como únicos. É verdade. Mas, quando conheci Pessoa na minha adolescência, não houve e tenho a convicção de que não haverá substituto. É único. Direto. Objetivo, subjetivo. Seus livros me acompanham desde então e por acordo tácito sempre em minha pasta, em meu estúdio, em meu local de trabalho há Fernando Pessoa. Em 1985, quando cinquentenário de sua morte, a produtora Elisa Byington mesclou a poesia em nossa música popular. Maria Bethânia sempre tem Fernando Pessoa em seus espetáculos. Sempre. Então, palavras de Elisa no encarte do disco que nasceu: “Depois de um caminho mais literário, a ideia do disco fixou-se mesmo na música popular. Era preciso trazer sua fala bem perto. Por que não fazê-lo parceiro desta nossa expressão cultural mais rica?”. A música em Pessoa chegou assim. E com a palavra também veio Tom Jobim, Sueli Costa, nana Caymmi, Francis Hime, Olívia Hime, Ritchie, Milton Nascimento, Eugénia Melo e Castro, Marco Nanini, Edu Lôbo, Olívia Byington, Eduardo Duvivier, Arrigo Barnabé, Toninho Horta, Dori Caymmi, Marília Pêra, Vania Bastos, Nando carneiro e Jô Soares. Um time perfeito para uma obra extraordinária. O vinil de 85 se foi como água para o mar. As margens enfim se encontraram. Sete depois, em 2002, a Biscoito Fino, com o Olívia Hime à bordo, trouxe de volta o que já era ausência mais que sentida. E mais, um bônus com Tom Jobim em “Autopsicografia”. As poesias escolhidas, ou parte delas como “Passagem das horas”, “O rio da minha aldeia”, “Segue o teu destino”, “Meantime”, “Na beira deste rio”, “Livro do Desassossêgo”, e outras contemplam a escolha dos músicos, o que mais “toca” em cada um (sim, tempo presente) e em cada intérprete. Um disco daqueles que a gente tem que ter no player, no Ipod, no MP3, no pen, onde for possível ter, tem que ter. Fernando Pessoa. Não é necessário dizer ou escrever mais nada.


Nigéria, tradição e cultura com o Grupo Ìbejì

Ibeji

Mais que sabido e conhecido, os ritmos e sonoridades e cantos africanos nos conduzes por caminhos infinitos. Na África, a vida musical é muito mais que horizonte, é essência. É oxigênio. É preservação. É fonte inesgotável. Não por acaso muitos dos ídolos e talentos do rock – para ficar apenas no rock – bebem dessa fonte. E bebem em águas profundas. Revitalizam suas cordas e seus acordes. Seus cantos. Suas danças. O fino tecido que cobre a natureza da vida está ali. Vivo.
O Grupo Ìbejì chega com o cd Ìtàn òrun àti ilé ayé. Não é um disco comum. Não é um disco que você irá encontrar a veia comercial abrindo fendas. Longe disso. Expressa a cultura, os ritmos, as danças e o drama da cultura Yorùbá. O percussionista e dançarino nigeriano Ìdòwú Akínrúlí é o grande comandante dessa travessia. Funde essas expressões tão profundamente africanas com um quê de cultura ocidental, sem perder um único milímetro da estética e da alma do seu continente. Para além da cultura do povo Yorùbá, abraça vários dos seus elementos históricos, da religiosidade, da arte e da língua. O resultado é um álbum uniforme em sua proposta e execução. É uma expressão que se universaliza como matriz dessa cultura em solo brasileiro. E em seus fundamentos a razão da sua ancestralidade, da sua identidade serem preservadas quando os tambores falam e contam suas histórias. Mais que um disco, um manifesto. Um infinito de almas que se encontram e formam outras tantas almas. Pura vida e emoção. Visite o site http://www.iluakin.com.br/ibeji para saber mais, para participar do projeto, para preservar também sua própria identidade. Que bom que vocês existem Grupo Ìbejì.

A foto foi capturada no site do Grupo Ìbejì.

Eugénia Melo e Castro: Portugal bem brasileiro

eugenia

É possível que Eugénia Melo e Castro tenha mais do Brasil que a grande maioria dos artistas portugueses. A afirmativa é arriscada e talvez equivocada, mas há em Eugénia uma espécie de brasilidade latente e real. Nascida no interior de Portugal, em Covilhã, e filha de escritores, teve na arte a razão do seu caminhar desde sempre. Os estudos, os primeiros trabalhos, sempre a ligação com a arte, com a imagem, com a música, com os movimentos de linguagem e expressão. E a partir do seu envolvimento com a vida artística que seu encontro com Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, Simone e Milton Nascimento que esse Brasil nasce dentro do seu espírito artístico, em especial o de cantora. Gravou um disco com canções de Chico Buarque, Desconstrução, com personalidade e autoral. Disco emblemático. E não deixou para trás uma das suas expressões mais encantadoras: a poesia. A união da poesia de Vinícius de Moraes com a voz encantadora de Eugénia rendeu o belíssimo e sensível Eugénia Melo e Castro Canta Vinícius de Moraes. Uma integração perfeita entre as linguagens, os músicos envolvidos e um repertório clássico com canções ainda que conhecidas em demasia, ganham força com o talento e a sensibilidade de Eugénia e de todos que participaram do álbum. Há um destaque todo especial: a participação de Tom Jobim. Está presente em “Canta, canta mais”, Egberto Gismonti em “Modinha” e “Canção do amor demais” e ainda para dar um sabor bem brasileiro instrumentistas como Wagner Tiso, Paulo Moura, Zeca Assumpção, Marco Pereira e Paulo Jobim entre tantos outros. Seu timbre envolve da canção com a suavidade que cada uma possui também envolta pela bela poesia de Vinícius.



Exclusivo: O predomínio que vem dos Andes

Liberal 1

Passados alguns dias após a grande disputa do dia 14 em Palermo, o GP Latinoamericano 2015 continua rendendo comentários e reflexões sobre o resultado, a vitória extraordinário do Peruano Liberal (foto acima) e como o Mário Rozano esteve em Buenos Aires, cobrindo o evento maior do turfe continental, ele nos passa, com exclusividade, suas impressões sobre a prova e seu desfecho. Ao titular do De Turfe um Pouco (http://mariorozanodeturfeumpouco.blogspot.com) agradecemos a valiosa contribuição e desejamos que os turfistas aproveitem o que há de melhor em corridas de cavalos em seu site e eventualmente por aqui.

De turfe um pouco

O PREDOMÍNIO QUE VEM DOS ANDES
O andino Liberal (Meal Penalty) Impôs condições sobre Dont Worry com Win “Maravilla” Talaverano espetacular…
As últimas seis edições do evento continental, promovido pela Organización Latinoamericana de Fomento del Pura Sangre de Carrera – OSAF, entidade mater do turfe na América do Sul – Chile e Peru se alternaram nas conquistas, tanto como locais, com BelleWatling (2010) no Club Hípico de Santiago; Sabor a Triunfo (2013) no Hipódromo Chile e o norte americano com as cores do Perú, Lideris (2014) em Monterrico; ou como visitantes indigestos iniciando a série com Bradock (2011) em San Isidro e Quick Casablanca (2013) no Argentino, culminando neste ano com a incontestável vitória do potro Liberal sobre os 2.100 metros do Argentino de Palermo.
O representante argentino em 2007, Good Report (URU) no aprazível cenário do El Bosque, registrou a quinta e derradeira vitória da Argentina na justa continental.
Cinco postulantes argentinos integraram o moderno Starting Gate irlandês, na condição de favoritos ao pódio máximo. Após muita discussão para completar a nomeação, os nomes de Ídolo Porteño, Interdetto, Blood Money, Papa Inc e Dont Worry foram confirmados.
Contudo, desde o inicio da semana era corrente que o titular dos GGPP Dardo Rocha e Carlos Pellegrini, Ídolo Porteño, plebiscitado por antecipação, não mostrava nos ensaios finais a disposição de outrora. Entretanto, o fato não provocou na crônica local qualquer apreensão, e, sobretudo nos aficionados que o elegeram com cotação de $2,70 por unidade na prova -, e a convicção do quinto impacto argentino crescia na medida dos aprontes, sobretudo com o ótimo e regular Dont Worry.
O consenso indicava os potros Alex Rossi e Liberal pela hípica andina como inimigos em potencial. Ainda que o potro Liberal apresentasse resquícios de um corte no boleto esquerdo produzido no boxe de Monterrico. Porém com assistência veterinária permanente, liberal trabalhou sem nada sentir.
O Chile, mesmo desfalcado do Derby Winner de Valparaíso, Il Campione e do vencedor do prestigioso St Leger, Southern Cat, sempre poderosos na competição, apresentavam sua principal carta: Katmai.
Hielo, o brasileiro e double-event do GP Ramirez, um crioulo do Haras Di Celius, com as cores orientais e preparo do múltiplo campeão Pico Perdomo, movimentou as matinais em Palermo. O uruguaio Generoso da ecurie Phillipson, causava curiosidade pela sua campanha inexpressiva e fechar a raia era uma certeza para as cores verde e amarela.
Desde os vamos, a carreira foi dominada pelo potro Alex Rossi ($17,70), seguindo pelo ligeiro Blood Money, que não reprisou anteriores; Ídolo Porteño, logo recolhido pelo Ricardo, Interdetto ($7,20) e Liberal ($9,15), com Win Talaverano especulando os dianteiros, Katmai e Hielo algo atrasado, e assim percorreram a reta oposta sem variantes. Com Alex Rossi preservando a dianteira contornaram a última curva, com Katmai ($45,80) avançado pela cerca e Ídolo Porteño desalojando Iterdetto por fora aspirava à ponta e no inicio da etapa final. No último furlog a cena recebeu novo colorido e Dont Worry ($6,95) pelo meio da raia engolia os rivais e as 17 mil almas presentes começavam a comemorar. Katmai (Scat Daddy) por dentro sustentava o segundo posto, enquanto Ídolo Porteño (Jump Start) não respondia e, mais aberto em insinuante e avassalador sprint surgiu Liberal para se impor no epilogo com meio pescoço sobre Dont Worry Worry (Sultry Song) com um assustado Rodrigo Blanco que não entendeu o que estava se passando. Todo o tramite registrado em 2’09”81/100 com parciais de 24’44, 45’98, 1’12’97 e 1’37”71. O quinteto da tabela com recompensas se completou com o pacemaker inca Alex Rossi (Freud).

Liberal 2

Liberal, um castanho de três anos, filho de Meal Penalty (USA) em Democracia (PER) por Play The Gold (USA), de criação do Haras Los Azahares e crédito da quadra The Fathers (PER). Notável campanha de Liberal, com oito exibições públicas, cinco vitórias (quatro clássicos, dois de graduação máxima; Derby Nacional e GP Latino Americano, um grupo três, Henrique Meiggs, além da 2ª colocação na Polla de Potrillos-G1).

Por Mário Rozano

Fotos: HAPSA – Hipódromo Argentino de Palermo.