The Byrds e a máquina do tempo

Byrds

Ontem, a noite se apresentava à madrugada quando assisti a um episódio da série The Wonder Years, no Brasil Anos Incríveis. Era a segunda temporada, segundo episódio, e o tema central era a morte de Martin Luther King e a questão dos direitos civis nos Estados Unidos, as questões da liberdade, a racial. Não lembro em qual episódio havia escutado lá ao fundo de alguma cena “Turn Turn Turn” com os Byrds. E também, a inesquecível abertura, com a definitiva “With a little help from my friends” com o Joe Cocker, e a passagem de tantas bandas da época como Herman Hermits, The Association, Joan Baez, Richie Havens, Beatles e tantos outros que agora escapam.
Confesso que uma fusão de sentimentos e lembranças chegaram juntas. 1968, ano em tudo estava ali acontecendo. O personagem, Kevin Arnold, com doze anos conhecendo a realidade quase que a conta-gotas em um país que além da crise vivia a Guerra do Vietnã. E então, me senti transportado por uma máquina do tempo e voltei a 1968, porém, aqui no Brasil. Voltei a hoje distante adolescência. Voltei aos tempos em que não podia me manifestar, escrever, dizer o que pensava, não podia ler ou escutar o que desejava e um infinidade de outros atos que vieram chegando com o AI5, a censura mais feroz, as prisões, os desaparecimentos. E perdi, então, a conta dos pontos de interrogação que fazia.
Foi em 1964 que nasceram os The Byrds com Jim Mc Guinn (depois passou a ser Roger McGuinn), Gene Clark e David Crosby. Com uma proposta totalmente folk, estavam muito próximos de Bob Dylan e do pop – se é que podemos rotular – dos Beatles. Mais adiante entram Chris Hillman e Michael Clarke e gravam Mr. tambourine man, álbum com composições de Dylan e deles, com uma característica que talvez seja um marco no folk: a guitarra elétrica. Depois veio Turn Turn Turn, que também aparece em uma cena de Forrest Gump, e os Byrds já haviam partido para o psicodélico, para o experimentalismo. Não por acaso toda a inquietude da banda, que vai modificando também seus integrantes, grava no emblema do ano de 68 o disco The Notorius Byrd Brothers com folk, rock, rock psicodélico, jazz e country. Gravam um disco extraordinário com canções de Bob Dylan (se puderem, escutem, escutem, escutem!), e vão se desfazendo aos poucos. Crosby foi para uma das maiores formações da música: Crosby, Stills & Nash.

By

Alguns dos seus integrantes, ao longo das várias formações que teve, perderam a vida e os Byrds perderam sua força e densidade musical. Muitos deles, em suas outras formações ou solos, cantavam seus sucessos. Gene Clark fez um disco maravilhoso e triste Old Vienna Kaffeehaus, Westboro 1988 em transparecia solidão e saudade.
Qual então a razão de a máquina do tempo aparecer no texto e no título? Não quero voltar a 1968 outra vez. Não ter que me curvar ao autoritarismo de quem escolhe o que tenho que escutar, ler, olhar e ver. Quero continuar escrevendo sem ter que passar por censura prévia, quero continuar saindo e me encontrando com os amigos sem ter que ouvir o “circulando” de algum policial desconfiado de conspiração. Quero viver meu último período de vida podendo fazer duras e ácidas críticas ao que não concordo em nível de política, ao nível de administração do país, do estado e do município sem correr o risco de ser preso por pensar diferente. Quero continuar em busca da liberdade como uma utopia sem medo algum. E, sobretudo, quero continuar com minha liberdade de expressão intacta. Não quero voltar a 1964, 0 início das sombras em meu país. Não quero mais viver esse tempo de novo. Quero, como todos os brasileiros sérios, um Brasil livre dos desmandos e da corrupção. Para isso, não podemos voltar atrás. Entrar nessa máquina do tempo é entrar nas incertezas que a escuridão traz junto. Transformar é assumir riscos e não retroceder. Mudar o que for necessário já, com consequência e discernimento.




Foto: http://www.rateyourmusic.com

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