A ponte invisível: livro mais que atual

A ponte

Poucas são as surpresas em romances cujo enredo é a II Guerra Mundial. No entanto, a temática ainda está inserida e ficará por toda a eternidade inserida no “para nunca mais esquecer e ser repetido”. O primeiro item sim, está sempre presente em nossos pensamentos. O segundo, se repete não a cada período se não que a cada ano ou a cada seis meses ou a cada um mês ou a cada dia. O terror imposto pelo nazismo e todas as suas causas e consequências cujas marcas são profundas estão vivas e se manifestam de formas diversas. A humanidade está ferida de morte, as cicatrizes deixadas na década de quarenta do século passado não cicatrizaram o suficiente para ficarem lá atrás, naqueles tempos. A ponte invísivel, romance de estreia de Julie Orringer narra a trajetória dos irmãos húngaros Andras e Tibor Lévi pouco antes de o grande conflito bélico iniciar até o seu final, em 1945. Todavia, mais que narrar o que poderia ser as suas aventuras, os caminhos que levam Andras para Paris estudar na École Spéciale d´Architecture e Tibor viajar para Modena, na Itália, cursar Medicina, se encontram e desencontram em meio a intolerância, ao absurdo e a irracionalidade de uma guerra que além de dominar territórios se propõe a exterminar um povo. A família judaica Lévi é o centro da narrativa de Orringer. E mostra o quanto na Hungria os judeus eram tratados. Convém lembrar que o país magiar era aliado da Alemanha e naquele período o tratamento dado aos reféns judeus era diferente dos que iam diretamente para os campos de concentração. Porém, não menos cruel, não menos desumano, não menos criminoso. Os trabalhos mais leves que recebiam, ao serem “convocados” eram do tipo limpeza de campos minados, por exemplo. A convocação durava em torno de dois anos, depois retornavam para suas casas, onde as famílias tentavam viver uma vida normal, até a próxima convocação. A pequena Konyár dos Lévi é onde tudo começa e se vai se estendendo para Budapeste, Paris, Modena, e em círculos, relacionamento afetivos seja de amor entre Andras e Klara, os matizes artísticos do irmão mais novo Mátyás, as amizades nos campos de trabalho, a perversidade de alguns personagens comuns no início do romance que em meio a narrativa vão revelando suas verdadeiras faces, até o desfecho de tudo, os anos afundam a humanidade em uma assustadora névoa de desesperança e falta de perspectiva. E ao mesmo tempo também se mostra em toda a sua luminosidade para que m sabe um mundo melhor, mais livre, mais tolerante, mais justo e humano. A história contada por Julie Orringer é muito pessoal, e mais que traçar, e aqui escrevo eu, um comentário sobre as 728 páginas do livro, indico a sua leitura. Pode ser lenta, pelo volume de páginas, pelo volume de informações. Entretanto, a exemplo do filme, O jogo da Imitação é transformado em linguagem fílmica ou em linguagem escrita se aproxima perigosamente dos dias atuais. Mudam as formas, as estéticas, as expressões, o requinte com que se brinca com as vidas e como se decide se continuam a ser vidas ou apenas lembranças. Livro que deve ser lido, refletido para além de ser um romance e ser, quem sabe, um dos alicerces do pensamento do quanto temos que amadurecer como seres humanos e transformar a humanidade. Mais que exemplo, a realidade posta diante de nossas vidas e em nossa capacidade de decidir. Pela paz.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s