Por alguns dias, férias

Cambará

De hoje até a próxima segunda-feira, estarei na Serra gaúcha. Um pouco de descanso, fugir do calor demasiado da capital, o sossego do verde e das trilhas. Apenas descansar. E desejar que todos os movimentos que se fazem desde ontem a partir da França seja apenas o movimento da paz, da compreensão, da tolerância, do discernimento entre todos nós sem nenhuma exceção. Possamos todos caminhar juntos. Até o 20 de janeiro. Abraço a todos.

Foto: Fernando Rozano. Cambará do Sul.

Glen Hansard: sombrio e criativo

GH

O filme Once, Apenas uma vez, impulsionou a carreira de Glen Hansard. Não que fosse desconhecido, anônimo ou algo parecido. Não, pelo contrário. O trabalho com o The Frames sempre foi consistente e capaz de pôr seu nome à frente. A película, no entanto, teve o poder de incensar sua atuação e a de Marketá Irglová, pianista tcheca. A química entre ambos funcionou não apenas nas interpretações de seus personagens se não que também como instrumentistas e compositores. “Failling Slowly” venceu o Oscar de melhor canção de 2008, comprovando o acerto da dupla. Daí para o The Swell Season foi um passo natural e a dinâmica de ambos permaneceu intacta. Em 2012 o irlandês de Dublin, lançou seu primeiro álbum solo: Rhythm and Repose . Trabalho árduo de ser feito, embora revele todo o seu talento seja como músico, seja como cantor/compositor. Vindo de série de rupturas, as canções vão mostrando-o solitário, triste, quase sem esperança em meio a tantas tempestades. Embora possa aqui e ali encontrar passagens mais otimistas, o disco é sombrio, cinzento, e as onze faixas, quase todas acústicas, se mostram tal como o seu rosto na capa do disco. É um trabalho, entretanto, lúcido e criativo, ainda que carregue todas as pesadas nuvens da vida naquele seu momento. Todas as músicas são destaque. Todas possuem as digitais de Glen Hansard e seu DNA está à disposição de quem quiser ouvi-lo. Como curiosidade, Marketá faz backing vocal. Trabalho lapidado com sensibilidade.

Glen Hansard . Rhythm and Repose (2012) – YouTube
http://www.youtube.com/watch?v=WPS1zdjHwpE

Foto: capturada na Internet.

Miniconto II “Trama”

corda

as mãos tecem os fios. ásperas, quase insensíveis ao toque, entrelaçam cada um da trama.
tem pressa. marca a passagem dos dias no calendário de parede. as horas são contadas pela sombra em pedaços no chão. desconhece a noite. uma vela brilha na peça. olha a janela, ouve o ruído do dia sem mover os músculos da face. o que acaba de criar alcança exatos dois metros.
está pronta, avisa.
quando o sol se põe, a porta abre.
entre as paredes, a corda silencia os segundos que escapam da memória.

Foto: Fernando Rozano

http://www.youtube.com/watch?v=STlLJxLUHOg
Música: Mark Knopfler

Miniconto “A Estação”

estaçãoA estação não atrai mais os pássaros. As luzes apagadas apenas recebem o sol da manhã. As telhas descansam seus vincos tingidos pelo sereno. Deixam vazar um ou outro pequeno vão por onde é lapidada a lembrança. Há muito a pele da madeira e os seus feixes estavam secos. Todo o dia ali era noite. Não a vemos como os velhos a vêem em suas memórias, hoje procurando refúgio. Elas nunca mais estarão abertas como antes, estão misturadas como retalhos tecidos à mão. Mas, sempre há um nervo que se abre e deixa fugir um pedaço da alma. Depois, retorna às pressas com medo do horizonte tenso e em brasa do lado de fora. O que era turvo aos olhos torna−se mais turvo sobre as linhas refletidas na água dos córregos, margeando o verde desse silêncio. A estação não atrai mais do que relâmpagos e temporais. Depois, passam, deixam rastros, ferrugens e cicatrizes azuladas como as veias que recortavam os braços do último maquinista. Ali, o trem parou, e o tempo seguiu seu destino. A mudez das sombras, coberta de cinzas, fundiu−se com os trilhos e os dormentes. Não há mais como voltar. O esquecimento é apenas um território cujo mistério nasceu quando caiu o último letreiro de viagem com as histórias de muitas vidas.

Foto: Fernando Rozano, estação ferroviária de Rio Branco, Uruguai.

www.youtube.com/watch?v=JxPj3GAYYZ0

Música: Eric Clapton – “Tears in heaven”

Intolerância, barbárie… Até quando?

Após o atentado contra a Humanidade ontem, em Paris, que se junta a tantos outros quase perpetuando a vitória da barbárie, ao ler vários comentários e análises sobre confesso estar estarrecido com a posição de muitos, em especial as opiniões que circulam pelas redes sociais. Para além da questão da liberdade de expressão (aliás, um patrimônio a ser preservado) violentada, há vidas que foram ceifadas, famílias que perderam o chão em que pisavam até então, os valores humanos se esvaindo por armas letais. Isso é para todos os lados. Temos muito em que pensar. E as palavras fogem. Ao acessar o site da espn, me deparei com o comentário do jornalista Mauro Cezar Pereira. Lúcido e sobretudo humano, vale ler seu texto. O link está abaixo. Os comentários que acompanham o artigo também mostram a  fragilidade de todos nós, exercício (da tolerância, por exemplo) que devemos praticar cada vez mais para uma vida mais digna.

http://espn.uol.com.br/post/473204_os-intolerantes

Hielo vence Ramirez 2015

Hielo

As luzes já cobriam a pista de Maronãs, quando Hielo cruzou à frente de Woopee Maker no GP José Pedro Ramirez 2015. A pista de areia úmida permitiu que o filho  de Holzmeister em Andrea Girl, por Mensageiro Alado, criado pelo Haras Di Cellius, cumprisse os 2400m em 2.27 e frações em uma reta final muito disputada. Nos metros finais, o potro gaúcho superou Esscabio, em grande atuação. Hielo, dirigido com maestria por Julio Méndez e treinado de forma exemplar por Alcides Perdomo, vence pela segunda vez consecutiva o Ramirez para o Stud Coral Gables. O jockey de Woopee Maker pediu bandeira de reclamação contra o vencedor e All Saints, que terminou em quarto, com Oggigiorno em quinto, mas a Comissão de Corridas confirmou a vitória do alazão brasileiro de quatro anos. No grande páreo, o resultado final trouxe uma curiosidade: dos cinco que completaram o marcador premiado, excluindo Esscabio todos outros nasceram no Brasil. Uma tarde/noite de luxo para o turfe do Uruguay.

Assista ao vídeo indo ao site

http://www.ovaciondigital.com.uy/turf/fletcher-candidato-gloria.html

com matéria assinada por Héctor Garcia.

 

Foto: Maroñas Entertainment

Em Maroñas, GP José Pedro Ramirez hoje

ramirez-2015

Hoje, quando as horas se alongaram na tarde de Montevideo, a casa da José María Guerra irá receber em sua pista de areia 14 corredores para a disputa do 117º Grande Prêmio José Pedro Ramirez, prova máxima do turfe oriental. Pouco mais de dois minutos após a largada, saberemos quem será o vencedor máximo de um dos mais tradicionais e antigos prêmios da América do Sul. Como curiosidade, a primeira vez em os cavalos foram à areia disputar o Ramirez, em 1889, a distância era 3500m. Ao longo dos anos foi sendo alterada, e desde 1982 é o clássico 2400m que devem ser percorridos pelos competidores.

Campo ramirez

O campo, acima, com as posições de partida nos boxes, além do vencedor de 2014, o brasileiro Hielo, terá a presença de dois dos melhores corredores do Rio Grande do Sul: Woopee Maker e Save The Tiger, primeiro e segundo lugares no GP Bento Gonçalves 2014, disputado no Hipódromo do Cristal em Porto Alegre. A ausência de Ídolo Porteño, que cruzou o disco à frente de todos no Pellegrini do ano passado, assim como a de jockeys como Pablo Falero será sentida entre os turfistas e fãs de corridas de cavalos. De toda a sorte, será um grande programa, pois a reunião está recheada de provas clássicas e páreos encorpados para grandes disputas.

Os sites http://www.lospingos.com.ar e http://www.mariorozanodeturfeumpouco.blogspot.com estarão acompanhando de perto todos os aspectos que envolvem o clássico uruguaio. E há sempre a possibilidade de acessar o http://www.maronas.com.uy e assistir online.

Fotos: Internet.

Roma, ( não por acaso) cidade eterna

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Roma é uma cidade inesquecível. A História pode ser respirada a cada palmo de suas ruas, de suas casas, de suas construções. Nada é exagero, até mesmo o caos do trânsito se torna parte do todo que é Roma. A vida ganha mais sentido com os romanos. Entendemos mais sobre nós mesmos. Descobrimos o passado que nos traz aos dias de hoje. Cidade Eterna como é chamada. Não por acaso. Roma é mais que História. E estar em Roma é também fazer parte da sua história.

Acima, nas duas primeiras fotos, o Amphiteatrum Flavium ou Coliseu visto do Monte Palatino, uma das sete colinas da cidade, onde em suas encostas foi construído o Fórum Romano, centro de tudo à época, e em seu interior, da colina, estavam os palácios de imperadores e nobres como Tibério, Augusto e Domiciano. A arena é um dos símbolos do Império Romano e impressiona os olhos e a alma de quem percorre seus caminhos, corredores, subterrâneos. Ao fechar os olhos, imagens de gladiadores, bigas, nascem ao natural.

A terceira, caminhando por seus bairros que mais parecem pequenas cidades do interior, pequenas províncias encravadas na grande capital, é possível encontrar imagens típicas e populares.

Por fim, em plena Piazza Navona, a exibição de artistas reúne número expressivo de pessoas, dando o que de moderno à Roma. Nela, as histórias se encontram. E podemos encontrar sua gente, gente que nos trata como gente. Sempre com o jeito romano carinhoso de ser.

Fotos: Fernando Rozano

Mônica Salmaso: Corpo de baile, simplesmente o melhor

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Listas de melhores, piores ou de mais ou menos não me atraem em anda. Às vezes, cedo à tentação e listo como fiz em post mais lá atrás em relação a dois shows acontecidos em Porto Alegre. Um que não assisti, outro que ensolarou a noite da capital gaúcha. Agora, o jornal Zero Hora em sua edição de sábado – 03.01.2015 – traz a relação dos melhores discos do ano que passou. Oito jurados repassaram o ano, cada um com seus critérios e escolhas. Dois deles, Juarez Fonseca e Paulo Moreira, conhecedores profundos de música e jornalistas do primeiro time de críticos musicais. Os outros seis também são respeitáveis e conceituados críticos. Então, a partir de suas indicações, estavam lá discos que habitam a minha cedeteca: Leonard Cohen, André Mehmari, Charlie Haden, Pat Metheny, Jorge Drexler. Não que eles tenham feito as mesmas escolhas, não absolutamente não. A soma delas é que constrói um importante painel, que junto com os demais críticos, forma um outro mosaico de importantes trabalhos musicais. E ficou com a láurea de melhor do ano um disco que, confesso, fui adiando comentar por aqui. Talvez por estar eu em uma fase demasiada folk. É possível. Mônica Salmaso e o seu deslumbrante Corpo de baile cruzou a linha em primeiro lugar. Com sobras. Há muito Mônica vem criando um espaço único e próprio em nossa música popular. (Para mim, a melhor do Brasil nos dias de hoje.) Espaço sem concessões para devaneios oportunistas. Ao contrário, centrada e sobretudo talentosa e de extrema sensibilidade, o caminho que percorre é de tamanha solidez que qualquer um dos seus dez discos lançados são daqueles que catalogamos como essenciais. Tudo nela é assim, essencial. Por vezes, quase minimalista, Alma Lírica é um trabalho pleno em sua voz é acompanhada pelas flautas e sax de Teco Cardoso e o piano de Nelson Ayres. Precisaria mais? Basta ouvir para a resposta ser não. Tudo se completa, se encaixa, se desenvolve em uma atmosfera intimista e profunda que nos surpreendemos dentro dessa atmosfera. monica_salmaso_25-01-2013_sp_divulgacao

O mais interessante é que Mônica nunca foi inserida no contexto das cantoras mais populares. A razão mais razoável para isso talvez seja o seu repertório refinado e arranjos que exploram o semiacústico ao máximo, dando vez sempre aos seus timbres de voz e um jeito mais para música de câmara do que música para se ouvir em rádio. Há então uma conjunção de fatores que a ligam a essa linha que beira o erudito que a torna um instrumento capaz de unir sonoridades sejam elas mais eruditas ou mesmo mais populares (Afro Sambas com composições de Baden Powell e Vinícius de Moraes) até atingir quem sabe o ápice com Corpo de baile com composições de Guinga e Paulo César Pinheiro. Nele, o disco, estão canções de vários de nossos períodos musicais, inéditas ou pouco conhecidas. Convém lembrar que Salmaso grava em participações especiais com vários outros artistas, entre eles Chico Buarque, e em projeto especiais. O repertório é tão vasto e criativo que contempla o fado em “Navegante”, indígena em “Curimã”, valsa em “Noturna” e escalou um grupo de arranjadores excepcionais do calibre de Dori Caymmi, Tiago Costa, Teco Cardoso e os instrumentos não ficam por menos: violão, viola caipira, piano, cordas, sopros, banda de sopros, baixo acústico e percussão. Mônica celebra a música e nos convida a participar. Não podemos ficar de fora.

https://www.youtube.com/watch?v=jBSsNjg9LYU&list=UU0MFq331Z7_CoSFimP84Mbw

https://www.youtube.com/watch?v=IlXHzRhPh3I&list=PLjMk_448Pd1PUvatNWzkrwJA_9ogsB6Ej&index=2

 https://www.youtube.com/watch?v=nKzqDzylQXs&index=1&list=PLjMk_448Pd1PUvatNWzkrwJA_9ogsB6Ej

Fotos : Capa do cd: Dani Gurgel. Mônica Salmaso: http://www.g1.globo.com

Vídeos: http://www.monicasalmaso.mus.br