Miniconto III: João Baptista

ferandorozano

Atrás das lentes dos óculos, João Baptista recebe pequenos fachos da luz do sol. Pelas frestas de vidro, seu mundo é como um fio de naylon, em cujas fibras se entranha o presente. Naqueles espaços medidos em milímetros, a vida não presta atenção nos movimentos das retinas, que o tempo acinzentou. Espera a chuva, ao pé da árvore, sem gestos. Apenas com as mãos entrelaçadas.
Levanta os olhos ao sentir os primeiros pingos baterem em seus cabelos. Encolhe seu corpo magro e pequeno em volta do cobertor, para proteger o que ainda resta da roupa. O latido incessante do cachorro ao seu lado é o único sinal de vida que pula a muralha do silêncio junto com o trovão perdendo a eterna corrida contra a luz do relâmpago.
O dia cede, aos poucos, sua luminosidade às nuvens. Os trapos de João Baptista, iluminados pela última luz, formam uma sombra até o meio-fio. A ausência do fogo é o segredo guardado pelos atalhos em que vive. Há muito sua voz está incinerada pela dispersão das palavras.
Estica os braços, vê o balançar dos pequenos lumes e então colhe a eletricidade do temporal. A vela úmida penetra na eternidade, deixando para trás a porta aberta.

Foto: Fernando Rozano

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Alice Caymmi: DNA de Dorival presente

Alice

Mais uma do Luciano Alabarce: Alice Caymmi. Ao ler um dos seus artigos em Zero Hora, ele ao comentar sobre um disco que comprara em Belo Horizonte, será que foi em BH mesmo? não lembro, mas ao se referir sobre a coletânea citou nominalmente Alice Caymmi. Como um aviso, olha quem está chegando. Se não foi assim, foi algo muito perto disso. O suficiente para fazer com que não perdesse tempo e ter em mãos o primeiro álbum da neta de Dorival. Dez canções ganham corpo e densidade na voz, na interpretação, nos arranjos de Alice. E para não deixar dúvida alguma, apresenta-se também como autora. E duas parcerias com Paulo Cesar Pinheiro e uma versão ou cover, como muitos gostam, de Björk. Trata-se, na verdade, digamos, de um apanhado de tudo que fora feito, escutado, cantado durante a adolescência. E também desde os tempos de criança, afinal embalada no colo do pai Danilo Caymmi a música é uma extensão de sua vida. O disco é uma espécie de acerto entre as suas fases que passaram por Nirvana e Björk por exemplo. Um gosto pop na MPB, o violão, ousadias em arranjos e por aí seguiu sempre acompanhada por músicos de apoio muito mais que competentes, sensíveis às texturas de Alice.
Estilo próprio desde esse primeiro passo, uma espécie de preparação para os próximos, é impossível ficar impassível enquanto o player estiver ligado. Não é necessário escolher uma ou outra canção para destacar, todas têm a marca registrada do clã Caymmi, sinônimo do que há de melhor em nossa música. O segundo cd, Rainha dos Raios é muito mais que o próximo passo. É mais ousado, mais refinado e também mais experimental, mais popular, mais um pouco de tudo. Porém, fica a indicação, esse trabalho ainda não mergulhei o bastante para avançar em comentário, todavia pela amostra do primeiro, não é aposta, é certeza.

http://www.youtube.com/watch?v=7f6MDdCOqow
http://www.youtube.com/channel/UCDUtN0y6TH0pq8VCVDIScdg

Foto: Agência O Globo/Fabio Seixo

Agri, Zárate & Falasca Trío: tango de câmara

Agri

Pode parecer exagero. Afirmar de que o trio argentino faz tango com influência ou mesmo com todas as harmonias de câmara pode ser equívoco. Ao escutar o disco lançado no já quase distante 2002, Pablo Agri, violino, Cristian Zárate, piano e Daniel Falasca no “contrabajo” não deixam dúvida alguma. Donos de uma proposta atípica para os três instrumentos, eles trabalham um repertório variado que passa por algumas gerações do tango com extrema naturalidade. Composições de Astor Piazzolla, Enrique Cadicamo, Aníbal Troilo, Osvaldo Berlingieri, Antônio Agri, pai de Pablo e também violinista, ganham arranjos inspirados e soam sensíveis em suas tessituras que passam longe dos dramas que muitas das letras das composições possuem. O disco é instrumental, talvez resida neste aspecto o diferencial. O tango tem sido visitado por todas as gerações e não por acaso um fenômeno em todo o mundo também por gerações e gerações. Não por acaso também frequenta trilhas de filmes norte-americanos e europeus. As linhas mestras do trabalho do trio foge do convencional, e convém lembrar que Prepárense é um álbum em que o bandoneón, mola mestra do tango, está ausente em todas as canções. Essencial para o andamento do tango, Agri, Zárate & Falasca criaram ou reescreveram cada composição como se cada uma fosse nova. O efeito é um disco incomum para o gênero. E mais uma vez convém lembrar, o tango tem sido alvo de várias mesclas e leituras como o eletrônico do Gotan Project, o quê de flamenco de Diego Cigala, o rock de Andrés Calamaro – e aqui vale uma observação: Tinta Roja é um trabalho de muito fôlego e densidade – o folk de León Gieco, não com frequência, é verdade, e outras mais aproximações, umas com qualidade outras passando muito distante dela.
Prepárense é para ser escutado com calma, quem sabe com um tinto seco ou um café bem quente em dia de inverno daqueles em que nos recolhemos em nós mesmos e nos deixamos levar. Não sei se ainda pode-se encontrar em alguma “disqueria” de Buenos Aires, mas garimpá-las será sempre um prazer e se encontrar, um presente ganho. Vale a procura.

http://www.youtube.com/watch?v=r2FOamywF4w
http://www.dailymotion.com/…/x2fm8_pablo-agri-falasca-za..

Reprodução capturada na Internet. Arte da capa: M. Florência Ruiz Moreno

Por alguns dias, férias

Cambará

De hoje até a próxima segunda-feira, estarei na Serra gaúcha. Um pouco de descanso, fugir do calor demasiado da capital, o sossego do verde e das trilhas. Apenas descansar. E desejar que todos os movimentos que se fazem desde ontem a partir da França seja apenas o movimento da paz, da compreensão, da tolerância, do discernimento entre todos nós sem nenhuma exceção. Possamos todos caminhar juntos. Até o 20 de janeiro. Abraço a todos.

Foto: Fernando Rozano. Cambará do Sul.

Glen Hansard: sombrio e criativo

GH

O filme Once, Apenas uma vez, impulsionou a carreira de Glen Hansard. Não que fosse desconhecido, anônimo ou algo parecido. Não, pelo contrário. O trabalho com o The Frames sempre foi consistente e capaz de pôr seu nome à frente. A película, no entanto, teve o poder de incensar sua atuação e a de Marketá Irglová, pianista tcheca. A química entre ambos funcionou não apenas nas interpretações de seus personagens se não que também como instrumentistas e compositores. “Failling Slowly” venceu o Oscar de melhor canção de 2008, comprovando o acerto da dupla. Daí para o The Swell Season foi um passo natural e a dinâmica de ambos permaneceu intacta. Em 2012 o irlandês de Dublin, lançou seu primeiro álbum solo: Rhythm and Repose . Trabalho árduo de ser feito, embora revele todo o seu talento seja como músico, seja como cantor/compositor. Vindo de série de rupturas, as canções vão mostrando-o solitário, triste, quase sem esperança em meio a tantas tempestades. Embora possa aqui e ali encontrar passagens mais otimistas, o disco é sombrio, cinzento, e as onze faixas, quase todas acústicas, se mostram tal como o seu rosto na capa do disco. É um trabalho, entretanto, lúcido e criativo, ainda que carregue todas as pesadas nuvens da vida naquele seu momento. Todas as músicas são destaque. Todas possuem as digitais de Glen Hansard e seu DNA está à disposição de quem quiser ouvi-lo. Como curiosidade, Marketá faz backing vocal. Trabalho lapidado com sensibilidade.

Glen Hansard . Rhythm and Repose (2012) – YouTube
http://www.youtube.com/watch?v=WPS1zdjHwpE

Foto: capturada na Internet.

Miniconto II “Trama”

corda

as mãos tecem os fios. ásperas, quase insensíveis ao toque, entrelaçam cada um da trama.
tem pressa. marca a passagem dos dias no calendário de parede. as horas são contadas pela sombra em pedaços no chão. desconhece a noite. uma vela brilha na peça. olha a janela, ouve o ruído do dia sem mover os músculos da face. o que acaba de criar alcança exatos dois metros.
está pronta, avisa.
quando o sol se põe, a porta abre.
entre as paredes, a corda silencia os segundos que escapam da memória.

Foto: Fernando Rozano

http://www.youtube.com/watch?v=STlLJxLUHOg
Música: Mark Knopfler

Miniconto “A Estação”

estaçãoA estação não atrai mais os pássaros. As luzes apagadas apenas recebem o sol da manhã. As telhas descansam seus vincos tingidos pelo sereno. Deixam vazar um ou outro pequeno vão por onde é lapidada a lembrança. Há muito a pele da madeira e os seus feixes estavam secos. Todo o dia ali era noite. Não a vemos como os velhos a vêem em suas memórias, hoje procurando refúgio. Elas nunca mais estarão abertas como antes, estão misturadas como retalhos tecidos à mão. Mas, sempre há um nervo que se abre e deixa fugir um pedaço da alma. Depois, retorna às pressas com medo do horizonte tenso e em brasa do lado de fora. O que era turvo aos olhos torna−se mais turvo sobre as linhas refletidas na água dos córregos, margeando o verde desse silêncio. A estação não atrai mais do que relâmpagos e temporais. Depois, passam, deixam rastros, ferrugens e cicatrizes azuladas como as veias que recortavam os braços do último maquinista. Ali, o trem parou, e o tempo seguiu seu destino. A mudez das sombras, coberta de cinzas, fundiu−se com os trilhos e os dormentes. Não há mais como voltar. O esquecimento é apenas um território cujo mistério nasceu quando caiu o último letreiro de viagem com as histórias de muitas vidas.

Foto: Fernando Rozano, estação ferroviária de Rio Branco, Uruguai.

www.youtube.com/watch?v=JxPj3GAYYZ0

Música: Eric Clapton – “Tears in heaven”