Um tango para Mario Rossano

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O dia amanheceu mais cinza que ontem, quando a chuva fez visita inesperada e não deixou recado. Hoje, é a tristeza que vem sem pedir licença, tristeza que instalou desde abril passado e ainda é cotidiana. Nessas idas e vindas dela, sempre insone, vamos construindo nossa história com as ausências doendo. Os olhos avermelham, se tornam pequenos e nublam o próximo passo. E esse cinza insiste em não deixar que pelo menos um raio de sol penetre nossas janelas.

Hoje o pai estaria completando 83 anos. Hoje. E os ventos que chegam com cada folha da lembrança vão formando um livro, em que as páginas não precisam ser revisadas, para ser impresso. O cheiro do sal grosso, da carne, do vinho tinto, do fogo nascendo entre as pedras de carvão e o tango, cada um se junta às histórias que chegam como um potro pronto para a doma. E todos nós em sua volta atentos, repletos de perguntas que jamais cansou de responder. Sempre foi o mesmo, nunca trocou as histórias. Confessava o quanto adorava o tango e Carlos Gardel. Algumas vezes levei tangos “modernos”, dizia, e ouvia uma única vez para me agradar. “Tango é Gardel”, repetia. “Gardel, e um tinto, a carne, a família, os cavalos, o Internacional, os amigos, para quê Mais?”, não cansava de afirmar. E eu não cansava de levar o tinto e os tangos (está certo, às vezes me vinha com um: “Pô, de novo esses modernos!”)

Gravei com ele um longo depoimento nos 80 anos de vida. Assou uma costela como nunca havia visto antes. Conversamos para além da entrevista. Eu, jornalista, ele, ex-jóquei, ex-treinador. Como foi complicado separar o filho do profissional e olhar o pai também como profissional. A matéria ficou demasiada longa e não foi aproveitada no seu livro, que meu irmão Mário editou. Não consegui fazer os cortes necessários. Cortar sua palavra seria cortar sua história. Não fiz. Publiquei com os erros  de transcrição e outros mais sem edição aqui no Chronosfer quando da partida do “Viejo”.

Estou assim, escrevendo sem rumo, as palavras, as lembranças, a ausência,  a saudade dele e da mãe conspiram para que eu possa apenas escrever com linhas tortas tudo o que sinto. E também sentem os meus irmãos. E tudo o que me vem são lágrimas que impedem meus olhos e mãos alcançarem a tela e o teclado do computador. Sei que a falta que faz é tanta que não cabe mais dentro de mim. Olho uma velha foto em que estamos todos juntos, pai, mãe, meus irmãos e eu. Nós, os cinco. Esse passado é o meu presente. Teus 83 anos, pai, é o ar que respiro nessa manhã cinza e triste e também feliz, porque tenho em mim a alegria de teres sido o meu pai. Ainda vamos nos encontrar, todos nós, os cinco, para a fotografia da capa do livro das nossas vidas.

Família Rossano

Nós, os cinco.

 

DSC01422 Torcendo pelo Inter.

DSC00984 As histórias. Abaixo, o tango e a música.

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www.youtube.com/watch?v=mMA8-fjAVeI

www.youtube.com/watch?v=4qVKYcn3OXc

Fotos: Chronosfer. A foto Nós, os cinco originalmente pertence ao acervo da Revista do Globo.

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