Confissões do homem invisível: livro para ser lido com avidez

Capa Invisível

Ele também é de 1968. Alexandre Plosk não escreveu no emblemático ano. Ele nasceu nele e é uma interessante referência. Traz bagagem cinematográfica e prêmio em festival, e atua como roteirista de televisão. Na literatura, o romance de estréia foi com Livro Zero. Conhece as linguagens e através delas expressa sua escrita. As Confissões do Homem Invisível é sua segunda incursão como romancista. Cria uma história de cinema. Um homem invisível. Afinal, além de voar, de desejar ler pensamentos, quem não gostaria de ser invisível? Uma ideia aparentemente clichê que Plosk desenvolve com criatividade. Narrado em primeira pessoa, o personagem assume a capacidade que descobre possuir: a de não ser visto por ninguém. E as questões que começa a levantar são as mais prosaicas de um ser humano tipo como seria conhecer o mundo de uma família entre quatro paredes? Ou, quem sabe, como seria ir para a cama com mulheres solitárias? Superado os impactos da descoberta da invisibilidade, assume outra personalidade, mudando sua maneira de ser. Poderes plenos e conscientes o fazem pensar que é Deus ou brincar de Deus. Interferir no cotidiano passa a ser o seu objetivo. Até o momento em que, em uma de suas escutas secretas, descobre que há algo contra ele. E toma uma decisão importante: investigar a si próprio. Bom, a partir daí, fica com você, leitor, desvendar os mistérios e as aventuras que o personagem vive em todos os tempos, passado, presente e futuro até as últimas consequências. Um livro para ser livro sem concessões. É pegar e ir até o fim. É daqueles que vale cada página lida.

As Confissões do Homem Invisível

Alexandre Plosk

Editora Bertrand Brasil

392 páginas

Reprodução da capa capturada no site http://www.livraria.folha.com.br

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Turfe, Grande Prêmio Bento Gonçalves: O meu Bento inesquecível não assisti. Narrei

BENTO 61

Guri de sete anos nada entende de turfe. Pelo menos não em 1961. Em meu jeito de guri, era muito mais que turfista: rivalizava com Vergara Marques na narração das corridas. Ah, rivalizava mesmo. E as minhas narrações eram muito mais emocionantes, os páreos mais disputados, e o Vergara ficava na poeira da raia do Cristal. Em último! Bom, isso é mesmo verdade. Colecionador de bolinhas de gude coloridas, um dia qualquer da minha infância dei nome a elas. De cavalos. Os nomes vinham do meu pai, o Mário Rossano, quando falava com a mãe, do meu avô Dr. Jardelino Driesch e dos amigos que iam lá em casa. E o batismo acontecia: El Gustavo, Ouropombo, Ourodá, Lord Chanel, Ouroduplo, Estensoro, Zago e outros tantos que não lembro mais. Não recordo se esses cavalos estavam em 61 no Cristal, alguns deles vindos do saudoso Moinhos de Vento. Posso ter misturado os anos, pois continuei “narrando” até os dez anos. E também não ligava para a época em que haviam estado nas pistas. Se gostava do nome, escolhia uma bolinha e já estava inscrito para algum páreo. Uma tardia confissão: eu gostava mesmo dos cavalos da tradicional blusa Ouro, manchas pretas. E fantasiava com uma que nunca meus olhos viram: Salmon, mangas pretas. E no tapete na sala principal de nossa casa da Quintino Bocaiúva estava a pista do meu hipódromo. Entre as pernas da mesa e das cadeiras, fazia uma ginástica e tanto para que os meus programas acontecessem. Por óbvio, ganhavam as bolinhas que mais gostava. E quase sempre de atropelada, após disputa acirrada pela ponta. E o jóquei, nem preciso dizer quem era o grande campeão.

Não me ligava muito em datas, o primeiro ano do então primário se aproximava do fim, se é que já não havia encerrado o ano letivo. Novembro, mês em que o calor ia se aproximando devagar, para começar em dezembro com força. Novembro de 1961, data da maior prova do turfe gaúcho, o Grande Prêmio Bento Gonçalves. O pai montava Lord Chanel. Saiu de casa dizendo que venceria. Ficamos todos em volta do rádio. Todos, não. Fui para baixo da mesa, narrar o meu Bento. De repente, um grito. Dois, ou três, não sei quantos, por mais que me esforce, minha memória não alcança. Sei apenas que minha mãe gritava “o Mário ganhou o Bento”. Pouco depois, levantei e fui junto ao rádio. O silêncio…e a voz da mãe: “Foi desclassificado”. Não sabia bem o que significava, mas pelos olhos vermelhos dela algo grave acontecera. Comecei a chorar também.

Mais tarde, o pai chegou. Mais silêncio, cabeça baixa. Derrota, longa suspensão. Ninguém pode imaginar o que foram aqueles dias e meses depois da desclassificação de Lord Chanel em favor de Argonaço. Ninguém pode sequer supor como vivemos aquele tempo semeado de injustiças. Ninguém pode amenizar o que ouvimos e que até hoje está bem presente. Ninguém. Somente a nossa família e alguns amigos mais próximos.

Hoje, passados mais de 50 anos, a convicção da injusta decisão da Comissão de Corridas da época ficou firmada ao longo desse tempo, quando o pai falava a respeito, e jamais, em qualquer circunstância, mudou o seu depoimento. Foi sempre o mesmo. Até o quando o encontrei caído após sofrer AVC, para mantê-lo lúcido, enquanto esperava pelo socorro, perguntei sobre a ida ao Rio de Janeiro em 52 e sobre o Bento de 61. A história foi repetida tal como contara 50 anos antes para quem quisesse ouvi-lo.

O pai partiu e nunca soube que antes de o Bento ser corrido de verdade, eu havia narrado o meu Bento e ele e Lord Chanel cruzaram o disco de chegada em primeiro. No hipódromo dos meus sete anos, nenhuma comissão de corridas desclassificou Lord Chanel. Não vi o que seria o meu Bento inesquecível. Naquela tarde, debaixo da mesa de casa, narrei a vitória de Mário Rossano.

EU E O PAI

Na reprodução lá de cima do post, colagem sobre material jornalístico do GP Bento Gonçalves de 1961.

Na foto abaixo do texto, o “narrador”, então com oito anos, após a vitória de Mar Báltico no Criterium de Potrancos de 1962 sobre Ourotrunfo, Quesito e El Tronio. Nesse dia, eu não narrei o páreo. Nesse dia, eu assisti a vitória de Mário Rossano e pude recebê-lo para a tradicional fotografia dos vencedores, com o seu treinador senhor José Celestino da Silva.

Fotos: Acervo Mario Rozano.

Dez canções para sexta-feira

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Hoje, John Mayer, Neil Young, Rod Stewart, Sheryl Crow, Angus & Julia Stone, Markéta Irglová & Glen Hansard, Crosby, Stills, Nash & Young, Rolling Stones e George Harrison & Bob Dylan serão nossas companhias com talento e sensibilidade. Sexta- feira, será o dia da música para o Chronosfer. E para vocês que aqui chegam. O meu abraço.

www.youtube.com/watch?v=cSdjo0W4Tvs

John Mayer – Queen of California

www.youtube.com/watch?v=chLFi2cFxzo

John Mayer – Queen of Califórnia Acoustic

www.youtube.com/watch?v=xMjDc8MJotU

Neil Young – Harvest Moon

www.youtube.com/watch?v=h4_yZ7BvKVA

Rod Stewart – The first cut is the deepest

www.youtube.com/watch?v=4QKZP6VE35I

Sheryl Crow – The first cut is the deepest

www.youtube.com/watch?v=9yQTGyYg0_E

Angus & Julia Stone – Devil´s tears

www.youtube.com/watch?v=fAAj11EdKXY

Markéta Irglová & Glen Hansard – If you want me

 www.youtube.com/watch?v=nDknDWp-elE

Crosby, Stills, Nash & Young – Teach your children

www.youtube.com/watch?v=lQlmywY_qEM

Rolling Stones – As tears go by

www.youtube.com/watch?v=HCXB1SUmEuw

George Harrison & Bob Dylan – If not for you

Foto: Chronosfer.

Raízes brasileiras com o Grupo Orange

orange

Do encontro entre vários instrumentos populares – rabeca, viola de 10/12 cordas, pífanos, berimbaus – com a gama instrumental erudita nasceu o Grupo Orange. Formado em 2003 pelo maestro Cussy de Almeida, ele se valeu da espontânea mescla de ritmos e sonoridades tradicionais do folclore para criar junto com o clássico uma música de concerto definida por estilos e sonoridades de essência brasileira. E, passando mais ao largo da mesmice tradicional de apenas mesclar, Cussy soube integrar o rural com o urbano, regravando peças da Orquestra Armorial além de maracatus, cirandas, modinhas, coco e ainda trouxe para o repertório canções populares do nosso Lua (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) “Assum Preto” e “Adivinhações”, essa assinada por Nelson Ferreira e Luiz Queiroga. Os arranjos revelam o quanto é, na verdade, estreita e tênue a fronteira e os limites até então quase intocáveis entre o erudito e o popular. O maestro mostra com sensibilidades todos esses movimentos que tornam, por exemplo, o baião uma música de câmera. A as semelhanças com compositores barrocos como Vivaldi são mencionados com naturalidade. A estética do Orange é de uma pureza impressionante em seus timbres brasileiríssimos. Trabalho essencial e profundo, que penetra em nossas raízes, abre possibilidades com o universal sem perder jamais a identidade. Raízes Brasileiras é um denso disco com 16 canções com composições do próprio Cussy de Almeida, Guerra Peixe, Capiba e Luiz Gonzaga. Se quiser conhecer melhor o Grupo Orange, passe no http://www.quadradadoscanturis.blogspot.com  Imperdíveis. Site e disco. Confira.

www.youtube.com/watch?v=QwvypmrgXmM

www.youtube.com/watch?v=hCo6przBvtM

Fonte: http://www.quadradadoscanturis.blogspot.com

Fain Mantega: o folclore e o contemporâneo na música argentina

Fain

Há muito a música contemporânea pede socorro ao folclore. Aos ritmos mais tradicionais. Isso em todo o mundo. Não raro se escuta mesclas de blues com rock, do erudito com o rock. Basta lembrar o chamado rock progressivo do Yes, do Emerson, Lake & Palmer, do Focus, exemplos da mistura com passagens memoráveis. Em nossa América não é diferente. Os ritmos desde a dominação espanhola se misturam. O folclore, o indígena, todas essas sonoridades acabaram se unindo e criando outras tantas sonoridades. Muitas delas criativas, outras nem tanto. Muito trabalho de recompilação do folclore foi realizado, na Argentina por Leda Valladares, no Chile, por Violeta Parra. Aqui em nosso pampa quanto da nossa cultura da terra passa por Paixão Cortes e Barbosa Lessa. Não significa, no entanto, a banalização da cultura musical. Muitas vezes penso que o estado virgem do folclore deva assim permanecer, em outros momentos saúdo o encontro das artes. E de contradição em contradição, vou descobrindo álbuns e nomes que procuram canalizar essa energia e conhecimento com criatividade. Assim, caiu-me em mãos pelo amigo Carlos Branco, da Branco Produções, um cd do Duo FainMantega. Na capa está escrito música contemporânea argentina, tango e folclore. Na contracapa, críticas positivas, inclusive uma assinada pelo nosso Egberto Gismonti e muito entusiasmado pelo desempenho de Paulina Fain, flautas, e Exequiel Mantega, piano. Com fortes influências colhidas no tango, no próprio folclore, no candombe uruguaio, na música popular brasileira, no erudito, o Duo consegue captar um quê de novo e mostra que muitas dessas mesclas podem produzir trabalhos que levam o público a buscar conhecer melhor a sua própria cultura. Com linguagem e identidade próprias, Fain e Mantega mostram fôlego para a composição e leitura de mestres com Piazzolla, Chick Corea, Keith Jarret, além, claro, dos compositores argentinos. Muito virtuosismo e talento corre pelas veias musicais da dupla. Quem ganha somos nós.

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www.youtube.com/watch?v=IbFi-PDBKjk

www.youtube.com/watch?v=KBkOIf3JFbs

www.youtube.com/watch?v=Kx6pFpEOL1E

www.youtube.com/watch?v=fGFFjVhpMbw

www.youtube.com/watch?v=pG8uNfvexPc

Foto e reprodução de capa capturadas na Internet.

 

A dos voces de Mario Benedetti e Daniel Viglietti

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Atravessar as longas avenidas de Montevidéu é caminhar sob o fio da história. O olhar se perde em suas construções antigas e respiram um quê de moderno. Nada se exclui na capital uruguaia. De dentro de suas fronteiras, a cultura transpira por todos os lados. Não se encolhe ao se encontrar com o Rio da Prata. Ou se aventurar pelos campos imaginários do pampa, dos verdes e dos gauchos platinos se entrelaçando com as terras do Rio Grande. Não há distância que nos separe. Mas, para cá das águas platenses, a cultura ganha o mundo. E também sofreu com o rigor do autoritarismo comum durante décadas nos países da América Latina. No pequeno Uruguai nasceu um dos maiores nomes da literatura: Mario Benedetti. Maio de 2009 se tornou triste e silenciou as Américas. Sua morte, aos 88 anos, deixou uma lacuna que jamais será preenchida. Todos os grandes jornais escreveram o que tinham que escrever e prestaram homenagens sensíveis ao grande e sensível homem. Chronosfer mostra aos seus leitores um trabalho extraordinário feito com um dos mestres da música do vizinho oriental. Com Daniel Viglietti, produziu um livro e cd extraordinários. A dos vocês é a marca da liberdade, da rebeldia, da esperança, do futuro. A dos vocês é muito mais que um livro e um cd. É um universo infindável de possibilidades. Às vezes, Daniel canta primeiro, Mario recita depois. Outras vezes, Bendedetti recita e Viglietti canta. O repertório desliza por toda a nossa alma, acelera o coração, sensibiliza os ouvidos mais áridos. Impossível ficar impassível diante de A dos vocês. Viglietti é daqueles homens que resistiram, como Alfredo Zitarrosa, e o pessoal de Tacuarembó – de grande presença na cultura e na política uruguaias – a qualquer forma de opressão. É dele o clássico “A desalambrar”, tema eterno sobre a questão da terra, tema comum aos países latino-americanos. Canção que passou no início dos anos 70 quase incólume pelos censores brasileiros nos inesquecíveis discos América do Sol, produzido por Abílio Manoel.

Daniel esteve em Porto Alegre na Usina do Gasômetro em 01 de maio de 2003 em memorável apresentação e show de consciência humana.

Encontrei A dos vocês em um quiosque de Buenos Aires. Livro e uma fita cassete pendurados e a preço mais que popular. Anos mais tarde, em Montevidéu, o cd compensou em parte as longas caminhadas que fiz em busca da possibilidade de encontrar Mario Benedetti. Não consegui. Estava na Espanha e doente, me disseram. Conversei longamente com Washington Benavides, escritor, ex-parceiro de Zitarrosa, com Eduardo Darnauchans, com Ruben Rada, ouvi Laura Canoura, murgas, candombes e não encontrei Mario Benedetti. Agora, repassando, descubro uma apresentação de Mario a um disco em homenagem ao espanhol Joan Manuel Serrat.

Mario partiu, as Américas estão silenciosas, mas sua obra grita ao mundo o grito da liberdade, da solidariedade, do humanismo.

Daniel estará mais uma vez em Porto Alegre, amanhã, às 21h, no Theatro São Pedro dentro do Festival El Mapa de Todos. O evento integra artistas latinos e brasileiros durante cinco dias de shows, debates e encontros. Ponto para a integração latino-americana.

www.youtube.com/watch?v=gCHCbtPDbno

www.youtube.com/watch?v=EX0PfMlTTMw

Reproduções capturadas na Internet.

 

The Swell Season: Strict Joy

Novo Swell

Disco de 2009, soa atual, como se o lançamento tivesse ocorrido ontem. Delicado, sensível, revela Glen Hansard e Markéta Irglová em seus momentos mais delicados e sensíveis. Já não mais um casal na vida real à época, cada faixa é quase confessional. Há espaço para se cada um seja o que é e há espaço para que suas vozes se complementem. Canções inspiradas e doces, arranjos bem estruturados, muito do The Frames, passagens típicas de Van Morrison, mas, sobretudo, o talento de ambos é maiúsculo.

Strict Joy é o segundo álbum da Swell Season. Para muitos poderá ser uma continuação do primeiro, com passagens próprias do filme que os uniu, mas prefiro pensar que é um trabalho muito mais amadurecido, mais elaborado ainda que repleto de emoções cuja essência está mesmo lá atrás, quando juntos. No entanto, a dimensão da criatividade de Glen e Markéta fica bem acentuada na participação ora de um ora de outro. A compositora nascida na República Tcheca – lindo país, de um povo extraordinário que pude conhecer – se mostra à vontade e cresce muito com composições consistentes e densas, o que aconteceu com extrema naturalidade em seu solo Muna já comentado nesse espaço. Glen segue seu caminho ao natural, avançando em seu estilo mais folk alternativo, muitas vezes fazendo apresentações com nomes como Eddie Vedder e Bruce Springsteen, por exemplo. Todas as canções são de muita qualidade e destacar uma ou outra não é justo. O disco é excelente tanto o simples e a parte ao vivo são maravilhosas. vale por inteiro, sem medo algum de escutar com a tecla programada no repeat.

www.youtube.com/watch?v=b5KV1Lf2NkY

www.youtube.com/watch?v=lL-iZEZrO2g

www.youtube.com/watch?v=PonavQsRK3M

www.youtube.com/watch?v=Db-2hPY0E5M

 

 

Capa: reprodução Internet.