Once II (Mais uma vez)

Glen Markéta

Não, não é continuação. Não é franquia. Nada disso. Apenas um título sem nenhuma criatividade. De minha parte, claro. A verdade é que Glen Hansard e Markéta Irglová viveram na vida real o sonho não concretizado na tela. Romance que durou de 2006 até 2009 e dele nasceram belos discos. Em abril daquele ano, lançaram The Swell Season. A maioria das composições foram assinadas com Markéta e como instrumentistas participaram a finlandesa Maria Tuhkanen no violino e viola e o francês Bertrand Galen no violoncelo. Ano este em que filmaram Once. È um disco tranqüilo, sereno, belo. E teve sequência em 2009, mais uma vez com ambos, e como faixas bônus gravações ao vivo, inclusive a clássica “Failling Slowly”, vivendo um clima de cumplicidade com o público. Desfeito o “casamento”, Hansard lança em 2012 Rhythm and Repose, onde a compositora tcheca participa apenas dos backing vocals. É um trabalho de muita qualidade, de grande impacto emocional. De alguma forma ou de todas as formas, mantém a sua linha de compor e interpretar e isso sem dúvida o colocam em uma relação com que o escuta muita entrelaçada e sensível. O músico do The Flames irlandês dá um passo imenso. Grava o EP Drive all night (2013), e no Youtube pode-se ver suas apresentações com Bruce Springsteen e Bono Vox.

Por outro lado, Markéta lançou em 2011 o cd Anar e neste ano de 2014 chega às lojas com Muna. Em ambos, a instrumentista e compositora se destaca mais como compositora e instrumentista. Sua voz, delicada, não se completa com as composições e fica faltando algo. Assim como a dupla australiana, Angus & Julia Stone, se completam, a sensação que fica é que Irglová não funciona bem sem a presença de Glen. Todavia, são trabalhos que merecem audição cuidadosa, pelo sensível tratamento dado a cada canção e, sobretudo, por mostrar o que sente.

Abaixo os sites do The Swell Season, do Glen e da Markéta para serem visitados e lá estão vídeos e gravações muito interessantes sobre os seus trabalhos. E Once continua em nosso imaginário e na realidade.

http://www.glenhansardmusic.com

http://marketairglovamusic.com

http://www.theswellseason.com

Mar

Fotos: reproduções dos sites mencionados acima.

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Once (Apenas uma vez): belo e dilacerante

Once

A primeira vez que ouvi falar do filme Once, no Brasil Apenas uma vez, a referência estava em sua trilha sonora. Escutei com todo cuidado “Failling Slowly” e descobri porque não por acaso foi Oscar de melhor canção de 2008. Ponto altíssimo todas as canções, em sua maioria composta pelos atores principais Glen Hansard e Markéta Irglová, também músicos na vida real. A história, segundo as pistas que fui seguindo através das críticas seja via imprensa seja pelas redes sociais, é singela e comovente. Afinal, uma imigrante tcheca, casada, procurando se adaptar a uma Dublin bela e gélida, e um jovem compositor e músico de rua em troca de algumas moedas, ao se encontrarem passam a ter outros tipos de encontro: a afinidade pela música e a quase desesperada necessidade de autoafirmação diante do cotidiano. Passam a ser ver todos os dias, ela se interessa pelas composições dele, e a trama está feita. O processo de criação e gravação, com também um grupo de rua, em estúdio da canção que permeia o filme todo se desenvolve em paralelo as tramas do interior das personagens. Cada um com seus dramas, medos e sonhos. A cena dos dois em uma loja de instrumentos musicais tocando e cantando “Failling Slowly” é comovente e sensível. É a síntese de cada um. É a essência de ambos. A trama se entrelaçando. Há espaço suficiente para criar no espectador a esperança de que um se apaixone pelo outro. Nas cenas em que Glen está compondo a música, outras tantas imagens de ambos embalam tal sentimento. Os dias passam, entram em estúdio, gravam e tudo segue a sua rotina. Ela, com a família, marido, filha, trabalho. Ele, violão ao ombro, caminha pelos corredores do aeroporto. Ela, ganha um piano, toca-o, lança o olhar pelo vidro da janela, encontrando as ruas quase desertas do subúrbio de Dublin. Ele, sorridente, caminha quem sabe ainda na direção dos seus sonhos. Por isso dilacerante, oferece o sonho e dá como retorno a realidade. Dirigido com maestria por John Carney, tem nos atores principais a razão de o filme colher tanta simpatia e sucesso. E, claro, uma extraordinária trilha sonora.

Once 2

www.youtube.com/watch?v=YXMiZwxwD4k

Reproduções capturadas na Internet.

Leonard Cohen: o velho poeta sempre novo

Leonard

O novíssimo disco de Leonard Cohen é o seu melhor dos últimos tempos. Talvez, esteja entre os seus mais desejados álbuns. Talvez é muito pouco para o poeta canadense. Cohen possui uma densidade e amplitude tanto em nível de palavra como na construção de melodias e harmonias que se afinam aos seus versos com precisão. E é justamente nas suas letras que reside sua força. Sua capacidade de renovar a si mesmo. Ainda que os temas possam ser assumidamente simples, como problemas tão recorrentes em nossa vida, a compreensão deles se entrelaça com o conjunto que se faz presente em cada arranja para cada canção. Seja na voz, sempre rouca, recitando as passagens quase em desespero quando o desespero é forte, em eloquência quando a esperança é mais forte que nunca. As bases sólidas, acompanhadas de backings perfeitos tornam cada faixa de Popular Problems um disco extremo em seu virtuosismo. Aos 80 anos Leonard Cohen se projeta à frente, sem medos. E ao ouvi-lo somos que exorcizamos os nossos medos. Belo e emotivo disco. Ouça abaixo um pouco do talento do poeta/compositor/cantor em várias fases de sua carreira.

www.youtube.com/watch?v=szYrXzEi0cg

www.youtube.com/watch?v=YrLk4vdY28Q

www.youtube.com/watch?v=QiYunX_mplg

www.youtube.com/watch?v=Ki9xcDs9jRk

reprodução da capa capturada na Internet

 

O leitor, livro e filme

capa do livro O Leitor

Não há discussão. São linguagens completamente diferentes uma da outra – livro e cinema, palavra e imagem. Muitas vezes, não se ajudam tampouco, outras vezes não se complementam. Geram frustrações. Mas, felizmente, como expressões da arte, permanecem mais vivas que antes. Cada uma com o seu jeito de ser. E cada um de nós com o nosso jeito de ser. O leitor de Bernhard Schlink tem como cenário a Alemanha pós-2ª Grande Guerra Mundial. O romance entre o adolescente Michael Berg e a já madura, para ele, e enigmática Hanna Schmitz é o foco central da primeira parte da narrativa. Da atração pura e simples, logo a cobradora de passagens de bondes se interessa por livros. As leituras de sala de aula são levadas para o leito do casal. Hanna vai aos extremos ao ouvir Odisséia de Homero ou se encantar com A dama do cachorrinho de Anton Tchekhov, sempre na voz de Michael. Logo, a diferença de vinte anos entre um e outro atravessa boa parte da relação até o momento em que ela desaparece da cidade. Adulto, o jovem estudante de Direito se interessa em participar de um seminário que acompanha o julgamento de criminosos de guerra. Na linha de frente dos acusados, Michael encontra Hanna. A partir da segunda parte do livro, a narrativa é construída em linguagem e estética essencial essencial. Alternando os tempos, sempre às voltas com o presente, o do julgamento e o passado, da adolescência, Schlink não perde tempo com diálogos e situações fúteis que poderia fugir do tema central. E instaura no leitor o desafio de preencher os buracos que todo excelente escritor cria. Em O leitor, ele estabelece um ritmo de fazer com quem o lê busque o complemento dos vazios entre as gerações de antes e depois da guerra na Alemanha, busca a reflexão fundamental sem entrar em julgamentos desnecessários, e que cada um decida ou não quem é culpado ou inocente em um jogo entre palavras e silêncios. Um livro admirável. No cinema, sob a direção de Stephen Daldry, as personagens ganham dignidade nas atuações extraordinárias de Kate Winslet(Hanna) e Ralpf Finnes(Michael, adulto). Guardadas as proporções, os prêmios recebidos pela atriz inglesa foram justos, e o filme, sem dúvida alguma, é excelente. Entretanto, nada substitui a leitura. A diferença entre as artes é maravilhosa por isso. Cada uma, a sua maneira, convida o público a refletir sobre a vida. E sobre si mesmos.

O Leitor

Bernhard Schlink

Record

239 páginas

Reprodução da capa capturada na Internet.

Angus & Julia Stone: o folk australiano

Angus

Surpresas são bem-vindas. E se forem maravilhosas, melhor ainda. Sempre passo pelo site http://www.allmusic.com . Fico atualizado, e sei que um grande número dos lançamentos e sugestões ali indicadas não chegará ao Brasil. Se aportarem por aqui, a repercussão será diluída, pouca e passará distante do público. Assim, a cada três dias pelo menos aciono o “allmusic”. Em uma dessas visitas, a surpresa. Vinda da Austrália. Angus & Julia Stone. Estava sendo lançado o álbum Angus & Julia Stone, um vigoroso trabalho que solidifica a criatividade dos irmãos desde 2006, data em que iniciam a carreira em dupla. Assisti ao vídeo da dupla. E assumi logo que gostei. Mesclam, naturalmente, o folk com o blues, o rock, até mesmo o country. Ambos possuem timbres de voz diferentes e ao contrário do que se possa imaginar, se complementam. Da mesma forma, suas composições começam com trabalhos individuais até o momento que suas harmonias e texturas se unem para então se tornarem definitivas.

Angus 1º

Em um cenário multifacetado da música, Angus e Julia é um sopro novo. Necessário, os australianos conquistam espaço com sensibilidade o que em geral falta a muitos grupos indie, de rock ou de qualquer outro gênero que vez por outra aparecem com guitarras sujas, vocais dilacerados no pior sentido, harmonias convencionais e sem surpresas. Talvez, Angus e Julia não sejam o máximo que possa também se imaginar, porém estão muito à frente com seu jeito doce e envolvente, vocais surpreendentes, toques mágicos que nos fazem cúmplices. Desde A book like this (2007), passando por Down the way (2010) e entre vários singles como Chocolates & Cigarettes, Mango Tree, The Beast ou Just a boy, marcam presença no universo da música. Sem concessões. O Trabalho possui a assinatura de ambos e é deles toda a essência que nos transforma. Surpresa? Sim, para quem não os conhece. Realidade para quem os escuta. Sugestão: a compilação de seus trabalhos lançada em 2010: Memories of na old friend. Disco para ser companheiro para todos os momentos.

ANJU

www.youtube.com/watch?v=nbRFxx1049I

www.youtube.com/watch?v=QlXiGj85rOA

www.youtube.com/watch?v=eefVgc_qhxg

Reproduções das capas: capturadas na Internet.

 

Por justiça e coerência, parabéns Abel Braga

Tenho sido um ácido crítico do treinador do Internacional, senhor Abel Braga. Considero-o ultrapassado, decadente e com discurso que destoa da realidade na relação entre o que o time joga e o que ele pensa que o time joga. Desclassificações absurdas, derrotas como a sofrida diante da Chapecoense depõem de forma desfavorável ao comando técnico do clube colorado.

Porém, a vitória de ontem, 12.10.2014, foi convincente. O Inter foi escalado com racionalidade, postado em campo com melhor organização, com maior densidade de jogo, com mais atitude, com mais força e velocidade. Mérito de Abel Braga e dos atletas, que se empenharam ao máximo. Assim como critico e peço a demissão do técnico com muita serenidade me sinto à vontade para cumprimenta-lo pela vitória sem margem alguma de dúvida contra o Fluminense: Parabéns, Abel.

A tabela das restantes dez rodadas é ingrata. Mantenha a organização, o bom senso, quebre a rotina do bruxismo, e escale os melhores. Tudo é possível neste campeonato irregular, inclusive ser campeão. Fique atento, Abel, e conduza como conduziu ontem o Internacional. Há futuro.
Abaixo, assista aos gols da partida de ontem.

www.youtube.com/watch?v=BI8sCMGYBy0

 

O faz-tudo de Bernard Malamud: livro essencial

recomenda3  Cinema e literatura andam de mãos dadas. Às vezes se abraçam. Em outras se separam. É inevitável. São linguagens diferentes. Leituras desiguais. Escritor, roteirista, diretor de filmes lêem de formas distintas. Melhor para quem usufrui dessas linguagens. Caso exemplar, O faz-tudo( The Fixer, 1966) de Bernard Malamud. De suas páginas, nasceu nas telas O Homem de Kiev. A assinatura de John Frankenheimer assegurou a realização de uma obra-prima. As atuações de Alan Bates e Dirk Bogarde deram mais intensidade à história de Malamud. Nos últimos golpes do século XIX, a crise por que vivia a Rússia era consequência do ambiente social e político pós-morte do Czar Alexandre II. Culpar a população judia foi a saída encontrada por Alexandre III. As mortes, os desaparecimentos, as prisões de inocentes compunham o cenário. No terceiro mês de 1911, a morte de uma criança cristã foi o mote para o confinamento de Iákov Bok. Passar por todas as torturas possíveis a um ser humano fez de Iákov um símbolo. Inocente, suportou até o julgamento toda a sorte de tentativas de aniquilamento físico e psicológico. Ao ser sugerido anistia, recusou-a. A um inocente, ser anistiado é como uma confissão de culpa. Suas limitações não bastaram para que fosse dobrado à força.

Humilhado ao extremo, reconstruiu seu interior e suportou a cela solitária, a condição humana amarga a que foi lançado e ao sombrio futuro que nascia diante de seus olhos quase fechados. Relato de uma época árida e injusta, o livro é de uma densidade e humanismo impressionantes. Vale cada página que é lida. Por tudo o que significa. Não por acaso recebeu os prêmios Pulitzer e National Book de 1967.

O faz-tudo

Bernard Malamud

Editora Record

398 páginas

Reprodução da capa: capturada na Internet