O leitor, livro e filme

capa do livro O Leitor

Não há discussão. São linguagens completamente diferentes uma da outra – livro e cinema, palavra e imagem. Muitas vezes, não se ajudam tampouco, outras vezes não se complementam. Geram frustrações. Mas, felizmente, como expressões da arte, permanecem mais vivas que antes. Cada uma com o seu jeito de ser. E cada um de nós com o nosso jeito de ser. O leitor de Bernhard Schlink tem como cenário a Alemanha pós-2ª Grande Guerra Mundial. O romance entre o adolescente Michael Berg e a já madura, para ele, e enigmática Hanna Schmitz é o foco central da primeira parte da narrativa. Da atração pura e simples, logo a cobradora de passagens de bondes se interessa por livros. As leituras de sala de aula são levadas para o leito do casal. Hanna vai aos extremos ao ouvir Odisséia de Homero ou se encantar com A dama do cachorrinho de Anton Tchekhov, sempre na voz de Michael. Logo, a diferença de vinte anos entre um e outro atravessa boa parte da relação até o momento em que ela desaparece da cidade. Adulto, o jovem estudante de Direito se interessa em participar de um seminário que acompanha o julgamento de criminosos de guerra. Na linha de frente dos acusados, Michael encontra Hanna. A partir da segunda parte do livro, a narrativa é construída em linguagem e estética essencial essencial. Alternando os tempos, sempre às voltas com o presente, o do julgamento e o passado, da adolescência, Schlink não perde tempo com diálogos e situações fúteis que poderia fugir do tema central. E instaura no leitor o desafio de preencher os buracos que todo excelente escritor cria. Em O leitor, ele estabelece um ritmo de fazer com quem o lê busque o complemento dos vazios entre as gerações de antes e depois da guerra na Alemanha, busca a reflexão fundamental sem entrar em julgamentos desnecessários, e que cada um decida ou não quem é culpado ou inocente em um jogo entre palavras e silêncios. Um livro admirável. No cinema, sob a direção de Stephen Daldry, as personagens ganham dignidade nas atuações extraordinárias de Kate Winslet(Hanna) e Ralpf Finnes(Michael, adulto). Guardadas as proporções, os prêmios recebidos pela atriz inglesa foram justos, e o filme, sem dúvida alguma, é excelente. Entretanto, nada substitui a leitura. A diferença entre as artes é maravilhosa por isso. Cada uma, a sua maneira, convida o público a refletir sobre a vida. E sobre si mesmos.

O Leitor

Bernhard Schlink

Record

239 páginas

Reprodução da capa capturada na Internet.

Angus & Julia Stone: o folk australiano

Angus

Surpresas são bem-vindas. E se forem maravilhosas, melhor ainda. Sempre passo pelo site http://www.allmusic.com . Fico atualizado, e sei que um grande número dos lançamentos e sugestões ali indicadas não chegará ao Brasil. Se aportarem por aqui, a repercussão será diluída, pouca e passará distante do público. Assim, a cada três dias pelo menos aciono o “allmusic”. Em uma dessas visitas, a surpresa. Vinda da Austrália. Angus & Julia Stone. Estava sendo lançado o álbum Angus & Julia Stone, um vigoroso trabalho que solidifica a criatividade dos irmãos desde 2006, data em que iniciam a carreira em dupla. Assisti ao vídeo da dupla. E assumi logo que gostei. Mesclam, naturalmente, o folk com o blues, o rock, até mesmo o country. Ambos possuem timbres de voz diferentes e ao contrário do que se possa imaginar, se complementam. Da mesma forma, suas composições começam com trabalhos individuais até o momento que suas harmonias e texturas se unem para então se tornarem definitivas.

Angus 1º

Em um cenário multifacetado da música, Angus e Julia é um sopro novo. Necessário, os australianos conquistam espaço com sensibilidade o que em geral falta a muitos grupos indie, de rock ou de qualquer outro gênero que vez por outra aparecem com guitarras sujas, vocais dilacerados no pior sentido, harmonias convencionais e sem surpresas. Talvez, Angus e Julia não sejam o máximo que possa também se imaginar, porém estão muito à frente com seu jeito doce e envolvente, vocais surpreendentes, toques mágicos que nos fazem cúmplices. Desde A book like this (2007), passando por Down the way (2010) e entre vários singles como Chocolates & Cigarettes, Mango Tree, The Beast ou Just a boy, marcam presença no universo da música. Sem concessões. O Trabalho possui a assinatura de ambos e é deles toda a essência que nos transforma. Surpresa? Sim, para quem não os conhece. Realidade para quem os escuta. Sugestão: a compilação de seus trabalhos lançada em 2010: Memories of na old friend. Disco para ser companheiro para todos os momentos.

ANJU

www.youtube.com/watch?v=nbRFxx1049I

www.youtube.com/watch?v=QlXiGj85rOA

www.youtube.com/watch?v=eefVgc_qhxg

Reproduções das capas: capturadas na Internet.

 

Por justiça e coerência, parabéns Abel Braga

Tenho sido um ácido crítico do treinador do Internacional, senhor Abel Braga. Considero-o ultrapassado, decadente e com discurso que destoa da realidade na relação entre o que o time joga e o que ele pensa que o time joga. Desclassificações absurdas, derrotas como a sofrida diante da Chapecoense depõem de forma desfavorável ao comando técnico do clube colorado.

Porém, a vitória de ontem, 12.10.2014, foi convincente. O Inter foi escalado com racionalidade, postado em campo com melhor organização, com maior densidade de jogo, com mais atitude, com mais força e velocidade. Mérito de Abel Braga e dos atletas, que se empenharam ao máximo. Assim como critico e peço a demissão do técnico com muita serenidade me sinto à vontade para cumprimenta-lo pela vitória sem margem alguma de dúvida contra o Fluminense: Parabéns, Abel.

A tabela das restantes dez rodadas é ingrata. Mantenha a organização, o bom senso, quebre a rotina do bruxismo, e escale os melhores. Tudo é possível neste campeonato irregular, inclusive ser campeão. Fique atento, Abel, e conduza como conduziu ontem o Internacional. Há futuro.
Abaixo, assista aos gols da partida de ontem.

www.youtube.com/watch?v=BI8sCMGYBy0

 

O faz-tudo de Bernard Malamud: livro essencial

recomenda3  Cinema e literatura andam de mãos dadas. Às vezes se abraçam. Em outras se separam. É inevitável. São linguagens diferentes. Leituras desiguais. Escritor, roteirista, diretor de filmes lêem de formas distintas. Melhor para quem usufrui dessas linguagens. Caso exemplar, O faz-tudo( The Fixer, 1966) de Bernard Malamud. De suas páginas, nasceu nas telas O Homem de Kiev. A assinatura de John Frankenheimer assegurou a realização de uma obra-prima. As atuações de Alan Bates e Dirk Bogarde deram mais intensidade à história de Malamud. Nos últimos golpes do século XIX, a crise por que vivia a Rússia era consequência do ambiente social e político pós-morte do Czar Alexandre II. Culpar a população judia foi a saída encontrada por Alexandre III. As mortes, os desaparecimentos, as prisões de inocentes compunham o cenário. No terceiro mês de 1911, a morte de uma criança cristã foi o mote para o confinamento de Iákov Bok. Passar por todas as torturas possíveis a um ser humano fez de Iákov um símbolo. Inocente, suportou até o julgamento toda a sorte de tentativas de aniquilamento físico e psicológico. Ao ser sugerido anistia, recusou-a. A um inocente, ser anistiado é como uma confissão de culpa. Suas limitações não bastaram para que fosse dobrado à força.

Humilhado ao extremo, reconstruiu seu interior e suportou a cela solitária, a condição humana amarga a que foi lançado e ao sombrio futuro que nascia diante de seus olhos quase fechados. Relato de uma época árida e injusta, o livro é de uma densidade e humanismo impressionantes. Vale cada página que é lida. Por tudo o que significa. Não por acaso recebeu os prêmios Pulitzer e National Book de 1967.

O faz-tudo

Bernard Malamud

Editora Record

398 páginas

Reprodução da capa: capturada na Internet

Brasil de dentro

brasil de dentro

Pouco se sabe ou se conhece do Brasil continental. Talvez, até se deseja saber ou conhecer pouco do Brasil. Da cultura, do seu povo, da sua história que não aquela que transita por todos os meios para lá de escancarados ao longo dos anos. As distâncias, antes imensas, agora são percorridas em frações de segundos, basta uma simples tecla do computador e podemos estar em qualquer lugar. Porém, em nível de cultura, ainda somos tímidos. Prefiro o tímido em relação á nossa cultura. mesmo sabendo que em nome da diversidade cultural, do qual sou a favor, se exclui parcela significativa da brasileira. Sabe-se ou se conhece mais da vida de Madonna que de Elomar, Xangai, Roze, Dani Lasalvia, Grupo Orange, Sirlan, e a lista cresce à medida em nos aprofundamos nas raízes do próprio Brasil. Nossas raízes. Em cultura nada se exclui. Pode-se conviver em harmonia com opostos. Pode-se aproximar o que em comum ainda que Madonna, o exemplo mencionado, tenha nada ou pouco a ver com a nossa gente, podemos sim ver qualidades em seu trabalho. Se podemos isso qual a razão de nossa cultura ficar segregada a tão poucos? Sites como o http://www.brasildedentro.blogspot.com prestam um imenso e inestimável serviço ao Brasil e aos brasileiros. A essência, a verdadeira raiz brasileira está presente em cada post, em cada artista que se descobre e então nós é que nos descobrimos ainda mais brasileiros.

Outro detalhe: há muito da música portuguesa também. Fadistas modernos, com uma linguagem envolvente que nos apresentam o além mar com talento e sensibilidade.

Se você, meu amigo visitante e leitor, quer conhecer mais sobre a cultura musical do Brasil, vá sem medo ao  Brasil de Dentro. Uma viagem indescritível ao conhecimento e, por favor, passe adiante. Aos responsáveis pelo site, o meu profundo agradecimento.

http://www.youtube.com/watch?v=Z_r5LY2-Fo0

http://www.youtube.com/watch?v=GzpWi-UNK4c

http://www.youtube.com/watch?v=-XQHrGiYCFc

http://www.youtube.com/watch?v=-yLo7y3Kyik

http://www.youtube.com/watch?v=H3yz3sSvvZY

O bardo Van Morrison

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O bardo não envelhece. O tempo não para ninguém, menos ainda para George Ivan Morrison na certidão de nascimento desde 31 de agosto de1945. Belfast viu nascer o Them, enquanto o Brasil começava a conhecer os rigores do regime militar em 64. A mescla de rock com o celtic soul desde o início é a sua marca. É de lá que vem “Gloria”, canção assumida pelos The Doors, por outro Morrison, o Jim. O irlandês jamais se deixou levar pelo silêncio. A inquietude criativa o fez seguir caminho sozinho. E ao entrar nos acalorados e até hoje febris dias de 1968, sua obra-prima estava concebida. Os estúdios receberam os músicos em rápidas sessões. Cada um gravou seu instrumento em separado. Como não se conhecessem não “tocaram” juntos durante as gravações. Entre setembro e outubro Astral Weeks ganhou sua forma definitiva. Mágica. Assombrosa e bela. Van, Jay Berliner, Richard Davis, Connie Kay, John Payne e Warren Smith, Jr. criaram o indefinível disco. Rock, Rhythm and Blues, Celta, Folk….até hoje se procura definir o que as oito canções de Astral são. No show ao vivo, com outros instrumentistas a magia prossegue intacta. Em duas magníficas partes, “In The Beginning” e “Afterwards” a sonoridade é harmônica. Envolvente. Separe, leitor, a voz do bardo, da textura musical. Sinta os instrumentos. Um de cada vez. Depois, todos juntos. Celebre mais tarde, colocando a voz de Morrison. O conjunto todo sacraliza o que há de melhor na música em todos os tempos. Passados pouco mais de 40 anos, o Hollywood Bowl acolheu em novembro de 2008 Van Morrison e o seu Astral Weeks. Ao vivo, a magia e sua força atual não perderam nada. Antes, se sente o quanto está à frente. Com ele, do estúdio de 68, apenas a guitarra de Jay Berliner. Ouça com toda a atenção. Esqueça o que está lá fora. Entre em nota do disco, não se disperse. E ainda ouça mais duas canções como bônus. Astral Weeks e Van Morrison se confundem, são o mesmo. Mas, nos liberta.

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http://www.youtube.com/watch?v=stcNL-vSwkI

Reprodução das capas dos discos. O primeiro, acima, lançado em 1968, e o segundo, em 2008. Capturadas na Internet.

Torcida do Internacional festeja na Goethe

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Festa pelo título do Brasileiro 2014? Não, nem pensar. Festa pela demissão do  Abel Braga.

Bom, é apenas a minha vontade como torcedor. Ser goleado pela Chapecoense por cinco, ter goleiro expulso e assistir ao técnico de braços cruzados é simplesmente inexplicável. Não, inexplicável não. O atual treinador do Inter chegou ao clube com um passado recente triste e em evidente decadência. não devemos esquecer que na campanha do campeonato de 2013 participou do rebaixamento do Fluminense, não consumado por questões jurídicas com a Portuguesa de Desportos.

O mínimo que se pode esperar da direção colorada é, nesse final de campeonato, demitir o senhor  Abel Braga e pôr um treinador que, pelo menos, possa reorganizar o time e, quem sabe, ainda manter a esperança de ficar no grupo que irá disputar a Libertadores da América.

Sem dúvida, a maior vergonha, o maior vexame cometido pelo Internacional tendo como protagonista Abel Braga. Lembro o ex-presidente Vitório Píffero: ” A fila anda”.

Tchau, Abel!

Foto: capturada na Internet.

Leon Gieco: verdadeiras canções

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Perdi a conta dos anos que conheço Leon. Talvez o tenha escutado pela primeira vez lá pelos anos oitenta, início acho. Depois, em uma das idas a Bueno Aires estive em seu estúdio, isso em 1994, e lançava o seu Desenchufado. Fui, na verdade, apresentado a sua música pelo cantor e compositor Raul Ellwanger. O disco, do gaúcho, gravado no seu exílio, trazia além do santafesino, Mercedes Sosa e Pablo Milanês. La cuca Del hombre é um belo e emblemático trabalho. Daí, mergulhar em De Ushuaia a La Quiaca, do Leon, foi um passo muito curto. E a cada ida a capital portenha, seus CDs começaram a fazer parte do meu acervo. E a cada um ou em cada um, a descoberta da relevância social do letrista Leon Gieco. Se no início de sua carreira, o olhar encontrava um homem ligado ao campo, hoje, está mais para o urbano. Sem, no entanto, perder sua consistência poética e harmônica. Claro que os tempos passam, as mudanças são necessárias, nem sempre para melhor, posições políticas são assumidas de forma mais objetiva e clara. Ficamos a lo largo da política, embora não há razão alguma para fugir do tema. Gieco é um político. Não o político de gabinete, de mandato parlamentar. É político em suas ações, em suas manifestações, em sua expressão como músico e como homem. Músicas como “Cinco siglos igual” e “La memória”, para citar apenas essas, refletem a sua preocupação com a realidade e não o distancia dela. Ou em versos que podem até passar despercebidos de várias de suas letras fortes. Gosto, em especial, dos versos de “Como um tren” onde diz: “Como um milagro la lluvia me dio el arcoíris y el agua el río/Yo por amor doy la vida porque mi vida por amor amor um día nació”. Nos cds Por partida doble e Por partida triple há explicações sobre as canções, que são essenciais para sua compreensão. São discos belíssimos.

Aqui estamos apenas com o seu trabalho em mãos. Março passado, em Montevidéu, encontrei o seu Verdaderas canciones de amor. Uma coletânea feita pelo próprio artista que revela: “La Idea de hacer este disco surgió hace um par de años. Mientras viajaba por La ruta que va desde Montevideo hacia Punta Ballena em uruguay. Disfrutando  de lãs imágenes y del descanso, de pronto vi um cartel que decía GOCE DEL PAISAJE. Em esse instante pensé que había algunas de mis canciones que podían ser útiles para hacer bajar La velocidad Del auto, conducir relajado, atento, y quizás “gozar Del paisaje”, El que fuera, como decía aquel cartel de La ruta”. Assim nasceu o álbum duplo que traz 34 canções escolhidas por ele.

Ao longo dos anos fiz várias coletâneas pessoais com as minhas preferidas. Hoje, ao confrontar as minhas escolhas com as dele, coincidimos em várias e assumimos “rutas distintas” em várias outras. Pouco ou nada importa. O que importa é que foi construído um interessante painel da obra do cantautor argentino. Podemos descobrir suas preciosidades como “Rio y Mar”, “Del mismo barro”, “Horal”, “Desde tu corazon”, “Em ele país de La libertad”, “Todos los dias um poço”, “Al entardecer” e outras tantas que acredito teria que reproduzir o disco inteiro neste espaço. Convidados mais que especiais e destaco Nito Mestre, simplesmente extraordinário em “Canto Dorado” e em “Em La cintura de los pajaros”. Há espaço para uma canção de Chico Buarque (“Mar y Luna”), Silvio Rodriguez (“Solo ele amor”), a voz de Jairo em “Mi amigo”, sem falar nos quantos e diversificados músicos acompanharam Leon ao longo destes anos todos em suas andanças pelo mundo e gravações. Para quem gosta muito de rock, por exemplo, o baterista Jim Keltner, que gravou com nada mais nada menos que Bob Dylan – esteve no magnífico Concerto para Bangladesh do George Harrison -, Eric Clapton, John Lennon, e uma infinidade de grandes instrumentistas, está presente em alguns dos seus discos.

Um disco que, pelo menos para mim, é de cabeceira, ou melhor, disco de deixar no player com a tecla do repeat pronta sempre.

Quem não conhece Leon Gieco, eis um trabalho que é um verdadeiro cartão de visita.

Leon toca

http://www.youtube.com/watch?v=JITPob1xK_4

http://www.youtube.com/watch?v=gEM3qRpjlc0

http://www.youtube.com/watch?v=HcVDQxIRxmI

Fotos: capa do disco dos arquivos pessoais de Leon Gieco e ao violão, do site http://www.alpasport.com.ar

Hemingway, sempre

As ilhas

O imortal autor de O velho e o mar – Pullitzer em 1953 – e Adeus às armas foi um incansável escritor. Não por acaso Prêmio Nobel de Literatura em 1954. Sua estética é paradigma. Forma contundente de expressar através de frases curtas e objetivas, Ernest Hemingway viveu uma vida em toda a sua plenitude. E, também, todos os seus riscos. Pertenceu a um grupo de exilados ou chamados de “geração perdida” que, por vontade própria, viveu na intensa Paris dos anos 1920. Primeiro, como jornalista e, depois, como motorista de ambulância durante a Primeira Guerra Mundial. Era o início de sua carreira literária fulminante. Em direção ao sucesso. Não satisfeito, mergulhou profundamente na Guerra Civil Espanhola narrada em Por quem os sinos dobram. Foi o suficiente para ele? Não. Acompanhou de perto, como correspondente, a Segunda Guerra Mundial. Não bastasse, viveu em Cuba, havendo inclusive algumas matérias afirmando que teria sido espião norte-americano na ilha caribenha. De vida afetiva atribulada – foram quatro casamentos – conviveu com os então principiantes Ezra Pound e Scott Fitzgerald, por exemplo. Sua criatividade e talento estão presentes em pelo menos dez romances, 11 livros de contos e pequenas histórias e seis publicações não ficcionais. As ilhas da corrente é uma edição póstuma. Publicada em 1970, Hemingway acabaria com sua vida em 61, é um romance que narra as aventuras e tragédias da vida do pintor Thomas Hudson. A obra é dividida em três partes, que pode ser lida como pequenas novelas, que se entrelaçam, ou se fragmentam entre si, embora revelam toda a sua maturidade na escrita. “Bimini”, a primeira parte, se passa em ilha paradisíaca do Caribe; em “Cuba”, segundo momento, Hudson é um homem atormentado que perde o filho e reencontra a primeira esposa. O desfecho recebeu como nome de batismo “No mar” e tem elementos de guerra muito definidos na ação do personagem, verdadeiro caçador de submarinos nazistas durante o conflito dos anos 40. Considerado por muitos da crítica literária como a sua melhor obra pós-1961, As ilhas da corrente mantém a elegância de seu estilo capaz de prender até o menos interessado leitor. Um livro extraordinário e imperdível. A tradução de Milton Persson é precisa e um dos pontos de atração da leitura.

As ilhas da corrente

Ernest Hemingway

Editora Bertrand Brasil

558 páginas

Preço sugerido: R$ 59,00

Assis, medieval e mística

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Quem assistiu Irmão sol Irmã lua conhece Assis. O filme de Franco Zeffirelli não poupa locações. E não conheço quem não sentiu o sal das lágrimas com a narrativa e as canções de Donovan. Hoje, talvez ainda amanhã pelo andar da humanidade, continua muito presente. Toda emoção transborda pelos personagens e percebemos o quanto temos de cada um é o quanto nos falta para que possamos ser mais humanos, mais justos. Um filme que reflete os nossos dias de hoje com precisão. E somos precisos em desfazer os traços essenciais ao todo e não apenas ao individualismo. Sem cair em falsos moralismos, sem subtrair do ser humano suas necessidades como ser humano sem obrigá-lo a qualquer espécie de renúncia, a vida Francisco cabe na palma da nossa consciência.
Estar em Assis e fazer os mesmos caminhos e passos de Francisco do medieval aos dias de hoje é peregrinar sem deixar ruir o místico e a realidade. É uma cidade que pulsa na alma.

Fotos e montagem: Chronosfer