A derrota da civilidade

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Sou ingênuo. Assumo. Não me habitam intolerâncias, homofobia, radicalismos e outras espécies. Talvez porque seja de uma geração nascida nos 50, ainda que tenha passado os longos e complicados anos 60 e 70 do século de 1900 no Brasil verde militar, e testemunhou ou viveu uma série de transformações entre elas a contracultura norte-americana, por exemplo. Por óbvio, os ecos aqui eram tímidos. Toda transformação, para melhor, é assim, repleta de incompreensões, de fundamentalismos, de negações, de revoltas, de razões para todos os lados, de justificativas bizarras, de explicações que nada explicam. Aprofundam apenas as diferenças. Não compreendem que são as diferenças que nos farão melhores. Que nos farão crescer, em todos os sentidos. As últimas e, infelizmente, sempre presentes demonstrações de racismo, injúrias raciais, incêndios criminosos em nada apontam para um gesto de civilidade. Nos distanciam de um gesto de igualdade entre todos nós.  A impunidade corre cada vez mais solta. A sociedade fraqueja. Mais um pouco e as decapitações que o EI comete, e são amplamente divulgadas, serão consideradas normais. Alguém dirá que devemos respeitar suas tradições (??????????). Caminhamos sim para o perigoso caminho onde tudo se justifica. O que aconteceu com os que cometeram os crimes em estádios de futebol? E não me refiro apenas aos fatos ocorridos em Porto Alegre, basta lembrar o jovem assassinado na Bolívia, a batalha campal em Joinville ano passado. O deputado que cometeu o mesmo crime de racismo ou injúria racial, hoje está em campanha eleitoral, escudado por certo pela imunidade parlamentar, continua sem responder processo ou se responder terá foro privilegiado. Deveria ser cassado. A jovem que apareceu atacando o goleiro dos Santos até o momento é a única que assumiu o que fez. Ainda que tenha cometido crime, foi digna, assumiu o que fez. Foi condenada. Sumariamente, sem passar pelos ritos da Justiça. Incendiaram a sua casa. Os outros que as câmeras televisivas captaram imagens negaram, aliás, foram além, disseram que outros faziam o coro injurioso. E agora? Não se trata apenas de quem incendiou a casa da torcedora ou o CTG em Livramento para não ocorrer o casamento homoafetivo, mas e aqueles que incendiaram a situação toda? O que vai acontecer com eles? E os que acusam o goleiro de fazer encenação ao ser violentamente agredido pelo crime de injúria racial o que vai acontecer com eles? E os que defendem a absolvição do clube que foi punido com a justificativa que outros também fizeram e fizeram até pior e não foram punidos defendem nada mais que não a impunidade. Ou seja, se os outros fizeram e ficou por isso mesmo porque nós seremos punidos. O que acontecerá com esses que inclusive frequentam a mídia, alguns são advogados, e defendendo a impunidade? E fica apenas “no campo da opinião”? E a responsabilidade pelo que dizem para um público calculado em milhares? Vamos deixar bem claro, o Grêmio como instituição não é racista, não fomenta agressões desse gênero, tem um presidente do porte de um homem chamado Fábio Koff o que por si só já mostra a sua essência justa, correta e íntegra. (Por sinal, abraço ao presidente pelos 111 anos completados hoje pelo seu clube e a todos os verdadeiros torcedores do Mosqueteiro.)

Estamos vivendo uma era de barbáries. É a derrota da civilidade. Confundem humanismo, tolerância, convivência pacífica e discussão de ideias com atitudes radicais cujo reflexo está a cada dia nas páginas policiais. Sou ingênuo, acreditei em um mundo melhor. Vivo em uma sociedade que em que os meios justificam o fins, mesmo que isso signifique a nossa derrota.

Mas, como todos os dias amanhece, quem sabe amanhã haverá sol.

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