Cidade de ladrões, a guerra e suas histórias

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O tema é inesgotável. Recorrente, atos de heroísmos, muitos verdadeiros, já pularam das páginas dos livros para as telas de cinema. Relatos emocionantes recuperam o quanto de sofrimento a Humanidade passou, e passa, com a inconsequência do ser humano e sua eterna sede pelo poder. Algumas histórias fogem do convencional. Tornam-se, ainda que em cenários de horror, peças de boa literatura e proporcionam reflexões à margem das mesmas histórias. Cidade de Ladrões, do roteirista e escritor norte-americano David Benioff, contém, em uma narrativa atraente, uma prosaica missão a ser cumprida por um desertor do exército russo e um judeu na cidade de Leningrado. Época difícil de ser vivida em função da ocupação das tropas nazistas, a luta pelo simples ato de fazer uma refeição assume proporções inimagináveis como o que era conhecido por “doce de biblioteca”, que era feito da seguinte forma: arrancava-se as capas do livros, a cola usada para a encadernação raspada e fervida e reconstituída em forma de barras. Apesar do gosto ruim, havia proteína na cola e isso mantinha vivas as pessoas. E os livros desapareciam aos poucos. Forçados a viver como se fosse um gueto, os moradores de Piter, como chamavam a cidade, se desdobravam em criatividade para, quem sabe, ver o amanhecer no dia seguinte. Até que um paraquedista alemão cai próximo onde está o prédio de apartamentos conhecido como Kirov. É quando um grupo de jovens decide saqueá-lo. Lev Beniov,ao ser descoberto cometendo crime contra o Estado é preso durante a fuga. Levado a uma cela escura à espera da morte, conhece outro preso: Nokolay Alexandrovich Vlasov, ou Kolya. Levados ao oficial, antes da execução, ambos recebem uma inacreditável missão que poderá salvar suas vidas. O relacionamento e as experiências vividas por ambos estão ao longo das quase trezentas páginas. Embora ofereça situações quase absurdas e momentos em que o texto escorrega para o clichê, o mérito do livro está em fazer o leitor compreender como era Leningrado nesse período e então escapar das armadilhas da narração. Um livro que é capaz, sem dúvida, de prender a atenção.

Cidade de Ladrões

David Benioff

Alfaguara

290 páginas

Preço sugerido: R$ 39,90

Capa capturada na Internet.

Bee Gees em Woodstock

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Não, não se assustem. Os Bee Gees não estiveram em Woodstock. Pelo menos, não consta o nome na lista oficial. E nem nas curiosidades sobre o festival. Porém, assim como Joe Cocker incensou as mais de 500 mil pessoas com “With a little help from my friends” cuja assinatura é de Lennon&McCartney, os irmãos Gibb – Barry, Robin e Maurice – também tiveram o seu momento. Janis Joplin interpretou “To love somebody” com sua voz envolta de blues e soul. Porém, assim como os Beatles são lembrados pela deslumbrante performance no documentário, Joplin não está presente com nenhuma canção. Somente a partir da comemoração dos 40 anos do maior festival de todos os tempos é que muitas novidades chegaram. Uma delas é o lançamento de alguns cds solo de quem participou do encontro: Janis Joplin, Johnny Winter acompanhado de Edgar Winter e Jefferson Airplane, entre outros sob o selo Sony BMG e Legacy Recordings. (A Universal fez o mesmo com Jimi Hendrix em 1999)

Janis havia lançado, à época, um disco chamado I got dem ol´Kosmic Blues again Mama! Oito canções viscerais, bem ao seu estilo. Alma pura. Na quinta faixa do então vinil, uma surpresa: “To love somebody”. Autores: Barry e Robin Gibb. Assim como na lista de canções que interpretou em Woodstock ela está presente também aparece em meio a tantos blues e soul.

Agora, passado tanto tempo, ao assistir um dvd do grupo inglês, que se tornou conhecido como australiano, Barry conta que haviam composto a canção para Otis Redding gravar. Antes, porém, o cantor foi vítima de acidente aéreo. Gravaram e foi sucesso imediato. Esteve em trilha sonora do filme Melody, dirigido por Waris Hussein, onde também figura em uma das faixas “Teach your children” com Crosby, Stills, Nash & Young. Esses sim, lá estiveram.

Na verdade, segundo o mais velho dos irmãos Gibb, a música é puro soul e R&B. Entrou no repertório como uma luva para uma cantora como Janis. Woodstock foi um momento mágico. Em todos os sentidos. Outras gravações tornaram a composição ainda mais popular: Nina Simone, Michael Bolton, The Animals, Roberta Flack, Eagle Eye Cherry e Rod Stewart figuram na longa lista de intérpretes.

Interessante ouvir as canções dos Bee Gees para além do pop romântico dos anos sessenta ou a dancing music dos setenta. Muito do talento e harmonia ficaram escondidas por esses rótulos. Confira as interpretações de Janis Joplin e dos Bee Gees para “To love somebody” no You Tube.

Reproduções capturadas na internet. 1 – Bee Gees em sua formação original dos anos 60 2 – Capa do disco de Janis Joplin em Woodstock.

Pelas paredes de Montevidéu

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Em uma das “calles” próximas ao Mercado del Puerto, as paredes eram convidativas ao olhar. Cartazes instigantes faziam as pessoas pararem. Os olhares convergiam. As imagens e as palavras também. Como ficar indiferente? Então, ao lado, sentados como se nada mais existisse além dos dois, pai e filha conversavam. Sobre o quê, não sei. Eu, silencioso, apenas pensei em tomar uma decisão. E tomei. Fotografei as paredes e os dois.

Nas paredes de Montevidéu, refleti sobre mim mesmo. E, depois, sem ter mais em que pensar, troquei o nome do mercado para Mercado del Pueblo. No meu imaginário, claro.

Fotos: Chronosfer

Egberto Gismonti, inesquecível

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Ontem, a noite se fez inteira, completa. O salão de atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul recebeu Egberto Gismonti para o show de encerramento do VI Festival de Violão realizado em Porto Alegre. Se o calor do dia não deu trégua, Gismonti domou o clima e o tempo. O filho de Carmo não cedeu um palmo às tentações do exibicionismo. Tranquilo, sereno, deslizou os dedos e mãos pelos violões e piano acústico. Solitário no palco, preencheu com seus acordes todos os espaços. Bem humorado, disse não lembrar os nomes da músicas, falou em Mario de Andrade, tocou no bis Villa-Lobos. Encantou com seu talento, carisma, virtuosismo e humildade. É um compositor e instrumentista superior. Faz do erudito e do popular linguagem única. O tradicional se funde ao experimentalismo, à improvisação – sempre com um quê de jazz -, e se torna suave à plateia, silenciosa, em reverência. Nada é exagero em Egberto Gismonti. Tudo se completa, se complementa, faz parte, nada se exclui. As quase duas horas voaram. Não parece ser justo. Tanto diante do salão lotado, o tempo não deveria ser medido. Os relógios deveriam ser abolidos. Uma noite inesquecível. Um verdadeiro presente que Porto Alegre ganhou. Felizes os que acolheram o presente. E o levaram em suas almas para sempre.

www.youtube.com/watch?v=wowz0KJITGc

www.youtube.com/watch?v=wowz0KJITGc

www.youtube.com/watch?v=wowz0KJITGc

Fotos: capturadas no http://www.culturart.com.uk

Futebol e arte nas ruas

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Sou torcedor do Internacional de Porto Alegre. Saudável, não existe em mim fanatismo ou radicalismos. Admiro outros clubes, respeito-os, reconheço suas vitórias, seus títulos. Gosto muito do Boca Juniors de Buenos Aires. No Uruguai, Peñarol me animava pela cor de sua camisa, bela e densa aos olhos.

Este ano, em Montevidéu, depois de passar pelo Centenário, o velho estádio do Nacional chegou como um presente tardio, mas ainda em tempo. Pequeno, familiar, com uma estátua em homenagem a um de seus maiores torcedores, Carlos Gardel, sentado na arquibancada, o estádio comove. Assim como o seu entorno, as ruas que o protegem todos os dias. Nas paredes das casas, nos muros, nas árvores, o amor de quem torce pelo time está expresso em várias formas. Muitas delas é arte, é poesia popular. É encantamento para quem lá chega sem saber. De alguma forma, passei a gostar muito do Nacional.

E sejam essas imagens de expressão do amor pelo clube também uma forma de paz entre torcidas, seja do Uruguai, Brasil, ou qualquer outro lugar do mundo. Um campo de futebol é também o exercício da convivência entre as pessoas, entre os diferentes que exercem na plenitude a igualdade e da arte. E, sobretudo, que expressem um adeus à violência para sempre.

Fotos: Chronosfer

Gracias, amigos Los Pingos

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Sexta-feira, 26 próximo, será o quinto mês da partida do meu pai. Ainda difícil de caminhar tanta a falta que faz. Por isso, relutei muito em ir ao Desafio entre Jorge Ricardo e Russell Baze, na foto acima antes do início das corridas e à disposição da imprensa. Voltar ao Hipódromo do Cristal pela primeira vez depois de o pai partir era ( e foi ) um peso que imaginava não suportar. Vitórias e derrotas, alegrias e tristezas ali foram compartidas entre nós, mais especialmente em seus últimos anos como treinador e que acompanhei passo a passo. Longas conversas, histórias, técnicas, táticas, treinamentos, como chega o cavalo nos últimos 400 metros, detalhes que fazem ou podem fazer toda a diferença em uma disputa ou na próxima. Depois, ele já aposentado, estivemos em San Isidro, Palermo, Maroñas, e cada um desses momentos foram especiais e sobretudo de ensinamentos. Assistimos ao GP Martinez de Hoz de 2005, vencido por Don Incauto, secundado por Latency, cujo nome no turfe platino é história. Lembro que o “viejo” Rossano disse após a vitória do filho de Roy e Inspiration: ” Quero esse para ganhar o Bento.” E alegre sorriu, sonhador e com ele também sonhei em vencer o Bento Gonçalves daquele ano. Ficamos apenas no sonho. Todas essas lembranças se ergueram com os fortes alicerces da saudade e havia decidido não ir. Meu irmão Mario, e os amigos Marcelo Fébula, com quem já havia conversado sobre música em uma de suas vindas a Porto Alegre, e Pablo Gallo, esse ainda não apresentado a mim, nos encontramos em um café no centro da cidade e em meio a charla decidi que iria. Na verdade, estava pronto, vestido a rigor, equipamento à mão e decidido com o não. Com eles, me senti mais à vontade. Ao grupo, mais atrde se incorporou Marco Antônio de Oliveira. Outra grande pessoa que faz com que o tempo flua com extrema naturalidade. E a decisão foi, claro, a de ir junto.

Por óbvio, no Cristal o oceano da ausência se fez imenso. Foi muito complicado ficar e conversar e fotografar. Não fiz um bom trabalho como jornalista, e pouco adiantou tudo o que o “Viejo” me ensinou. Ali estava o filho, não o profissional. Mas, fui fotografando, prestando a atenção em algumas coisas, olhando o público, identificando amigos, pessoas, e a tarde passou, se transformou em noite. E cada um seguiu seu caminho.

A maioria das fotos ficou abaixo da qualidade mínima de um profissional. E como escrever sobre um tema que para mim esteve sempre presente em minha vida e ao mesmo tempo não foi a área em que trabalhei.  Então, pedi socorro às áreas que conheço: música, literatura. E a ideia veio. A música de Belchior, tango, blues, e por aí decidi seguir. Fiz o texto, observando um e outro detalhe a mais ou a menos, a importância só pode ser conferida pelos turfistas, e aproveitei algumas das fotos que estavam pelo menos aceitáveis.

Para minha surpresa, o texto foi traduzido pelo Marcelo para o espanhol e aceito pelo Gustavo “Lopecito” Lopez do site Los Pingos de Todos, dos mais importantes de toda a América sobre o turfe. E, além da surpresa de ser publicado nos Pingos, uma outra me fez voltar no tempo e abraçar meu pai: uma foto em que estamos juntos em San Isidro. Mais uma vez, deixei de ser jornalista e o abracei com a saudade do filho que gostaria de ter Don Incauto em nosso maior Grande Prêmio.

Ao Marcelo, ao Gustavo “Lopecito”, mais que o meu muito obrigado, toda a minha emoção e toda a minha alegria por poder estar com meu pai outra vez, oportunizado pela sensibilidade de vocês. O meu mais profundo abraço.

Acessem http://www.lospingos.com.ar e estejam em dia com o turfe.

Foto: Chronosfer