Pela paz na Ucrânia

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Nos dia de hoje, é intolerável que a disputa pelo poder gere assassinatos, quebre a soberania dos países, destrua o que há de melhor no ser humano. Nada justifica uma única morte. 77 perdas de vida é crime contra a humanidade. Rasgar tratados de paz é crime contra a humanidade. Ameaças de invasão, invadir, constranger, encurralar um povo, sua cultura, sua identidade é crime contra a humanidade.

Pela paz na Ucrânia.

http://www.youtube.com/watch?v=x6oLgX-Tzh4&hd=1

Foto: Chronosfer

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La Mufa: tango à frente sem concessões

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Sem dúvida, o tango é um gênero universal. Mais, habita o imaginário não apenas do Rio da Prata, mas invade outros tantos universos seja de que lado for do planeta. Por vezes, e por muito tempo foi assim, discriminado por ser cantado em locais nada sacros, principalmente em suas origens lá de trás em fins do século 19, até ser quebrado o estigma por Carlos Gardel. No seu nascedouro, os prostíbulos, quebram-se a imagem de que o tango era triste, melancólico embora repleto de paixão. Ao contrário, por essa época a chegada de imigrantes de toda a Europa para ocupar postos de trabalho na Argentina, e sua frequência dos trabalhadores solitários em busca de prazer nas casas de prostituição mudou os costumes de então. Enquanto esperavam vez, os espaços eram ocupados por encenações musicais e danças sensuais. Dessas experiências musicais, ritmos como a polca europeia, a havanera cubana, o candombe uruguaio, a milonga espanhola, se mesclaram para nascer o tango. Primeiro como trio musical, instrumental apenas, mais tarde com letras igualmente sensuais, pouco a pouco a resistência a ele foi sendo atingido até que penetrou de vez os salões de festa, Gardel estourou no mundo inteiro a partir da chegada do ritmo à Europa.

Na segunda metade do século 20, Astor Piazzolla revoluciona de forma definitiva o tango. Como na juventude havia estudado nos Estados Unidos, ele, ao retornar ao Prata, trouxe na bagagem influências do jazz. E começa uma nova história.

Várias formações nascem, várias influências passam a exercer papel preponderante na execução do tango seja como ritmo seja como gênero.

Assim, do lado desse emblemático rio, o La Mufa é um diferencial estético e criativo no que ouso chamar de novo tango. Passando ao largo do tradicional, porém sem perder de vista o que foi construído pro Piazzolla e Aníbal Troilo, por exemplo, viaja para as décadas passadas com uma formação harmônica alicerçadas em uma sonoridade própria, mais seca, áspera talvez e com um equilíbrio extraordinário entre os instrumentos. Não por acaso, a formação é composta pelo clássico bandoneón, piano, violoncelo, contrabaixo e violino. Possuem um refinamento que não é preciosismo se não que refinamento musical essencial à composição. E também possuem outra característica única: o universo roqueiro está muito presente em suas interpretações. Esses pontos convergem não como modelo ou forma, mas como uma expressão natural de seus integrantes. Inova como o tango sempre inovou, sem perder a identidade. Donos de um repertório base em seus mestres e composições próprias, se revelam (re)criadores incansáveis. Há uma participação magnífica e muito especial em ” Soy muchacho de la guardia ” dos Los Cigarros. La Mufa é mais que um alento, mais que uma promessa. É uma doce realidade que transcende a qualquer possibilidade de rotulá-los assim são ou assim não são. La Mufa faz tango com gana, com um quê de erudito, de jazz, de rock, de tudo um pouco e sobretudo, de La Mufa.

http://www.youtube.com/watch?v=urN-y5XNnJw

La Mufa Tango – Perro Andaluz Ediciones – 13 Faixas – 46min33s

Foto capturada na internet no site: http://www.lamufa.com‎

Hamilton de Holanda & Stefano Bollani: bandolim e piano virtuoses

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Se os últimos tempos sopram cruéis com as perdas de tantos músicos de talento e genialidade, devemos saudar quando também outros gênios se encontram e geram belíssimos trabalhos. As trajetórias de Stefano Bollani, piano, e Hamilton de Holanda, bandolim, estão presentes como isso mais que possível é uma feliz realidade. Com influências distintas um do outro, porém, com muitos pontos em comum, os instrumentos marcam presença através da inquietude de cada música, que são suas improvisações. O italiano Bollani, aos 40 anos, é um conceituado pianista de jazz. Requisitado por nomes que figuram em qualquer lista dos grades da música, como o trompetista Enrico Rava, ou então Chick Corea, possui vasto currículo e acrescente-se mais um: é apaixonada pela música popular brasileira. Hamilton de Holanda é um jovem carioca, criado em Brasília, é sem dúvida o maior bandolinista brasileiro. Seu bandolim de dez cordas é solicitado e sua verve como instrumentista se revela no número de discos gravados, beirando os 30. Todos com o toque mágico do seu talento, capaz de criar e recriar, reinventar canções com espontânea criatividade. Também está por todos os cantos do mundo, tocando, fazendo duetos, trios, quintetos, acompanhamentos, ou então solo.

Pois, a gravadora ECM lança o cd O que será ao vivo, em apresentação da dupla no festival Middelheim Jazz na Antuérpia, Holanda. As dez faixas voam na audição. É automático repeti-la. E repeti-la. Pura improvisação seja do piano ou do bandolim ou de ambos, composições como “Beatriz” (Edu Lobo/Chico Buarque), “Luiza” (Antonio Carlos Jobim), “Rosa” (Pixinguinha), “Canto de Ossanha” (Baden Powell/Vinicius de Mores), “Apanhei-te cavaquinho” (Ernesto Nazareth) e até mesmo uma surpreende “Oblivion” de Astor Piazzolla, além de composições próprias, mostram como se aproximam temas tão brasileiros do jazz e o jazz de temas tão brasileiros como o chorinho, por exemplo, sem deixar de lado a bossa nova. É um encontro em que as palavras são desnecessárias, rigorosamente desnecessárias.

Ao escutar Bollani/Holanda entende-se a razão de ambos serem músicos, instrumentistas, compositores únicos. Você que leu as linhas acima, não deixe de procurar qualquer disco dos dois ou de um e de outro solo ou com outros acompanhantes. Tê-los em seu player será motivo de alegria e esperança em tempos melhores.

http://www.youtube.com/watch?v=ZmCWt5R0ics

O que será – Stefano Bollani & Hamilton de Holanda – ECM – 10 faixas. 54m3s.

Foto: capturada na internet no site http://www.mimo.art.br/atracao-30-stefano-bollani-hamilton-de-holanda-italia-brasil

Água Lusa e Jussara Silveira, fados para a vida inteira

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Já conhecia desde anos atrás o trabalho de Jussara Silveira. Baiana de sotaque diferente, talvez possa afirmar. Talvez, como dizem alguns críticos, a menos baiana das cantoras baianas. A verdade é que Jussara vem atravessando os anos solidificando sua carreira com discos diferenciados desde 1989, início de tudo. Cresceu em meio a tanta musicalidade desde a família passando pelos estudos, Jussara é, ao natural, uma apaixonada pela música. Acumula no currículo prêmios, participa de antologias até lançar o primeiro solo em 1997. O segundo, logo após, trazia canções de Dorival Caymmi. Em 2000, a portugalidade estava em duas faixas no álbum do guitarrista português António Chainho. Apresentou-se com ele e Maria Bethânia no Rio de Janeiro e em São Paulo. A relação com Portugal e Angola fica mais estreita em 2002 ao interpretar canções que cruzam o Atlântico e encontram sonoridades desses países. Mais tarde, duo de violão e voz com Luiz Brasil e tem projeto premiado no programa Petrobras Cultural com participações de Arthur Nestrovski, Leandro Braga e Jorge Braga. A diversidade musical brasileira aparece em Três Meninas junto com Rita Ribeiro e Teresa Cristina e nesse mesmo ano de 2008 faz o espetáculo ao lado do violonista Arthur Nestrovski e o pianista André Mehmari.

O sexto disco é lançado em outubro de 2011, Ame ou se Mande. E no ano seguinte com a mesma dupla, Marcelo Costa e Sacha Amback, nasce Flor Bailarina – canções de Angola.

Como diz Arnaldo Antunes, “uma voz carregada de sentidos, que vão se desnudando aos poucos”.

Agora, chega Água Lusa, fados do português Tiago Torres da Silva. Onze canções do letrista com vários parceiros que encontram na voz de Jussara a casa perfeita. Águas que transbordam dos rios, dos mares, das tradições, das saudades dos amores, da tristeza. Um disco suave, tranquilo, criativo e envolvente. Letras belíssimas, instrumentistas fantásticos como Pedro Jóia, violão, Filipe Raposo, piano, acordeão e Edu Miranda no bandolim. Água Lusa atravessa os tempos sem pressa, com o perdão da rima. Pena ter pouco tempo no player, será necessário apertar o repeat várias vezes.

Água Lusa, Jussara Silveira canta Tiago Torres da Silva, Dubas/Universal, 11 faixas. 39min39s.

www.youtube.com/watch?v=t7ADvG3Lp_Y

Canção do disco Ame ou se Mande, por alguma razão não entrou o youtube do Água Lusa.‎

Foto: capturada no site www.jussarasilveira.com.br

CD Cuando la tierra: necessário e sensível

ImagemO sol ainda se estende na distância que separa as horas uma das outras. Mais longas no verão, mais curtas no inverno. O pampa é inverno. É mais para dentro. Fogo queimando, brilho tinto à noite.

Cuando la tierra não tem fronteiras. É assim, para dentro, onde a liberdade acorda as raízes dos campos e das cidades. Os acordes chegam e vão longe. Percorrem distâncias sem mapas. Chegam e se instalam em cada lugar em que a terra seja terra e a semeadura seja mais que grãos a cada manhã.

O tempo percorre o destino em segundos menos antes de chegar uma hora. Suficiente e eterna. As 19 faixas revelam Daniel Mendoza. Expõem sua identidade, sua história sem medos. Seu canto é o canto que vem de muito longe e habita muito dentro. É um alerta. É alento. Traz nas veias Atahualpa Yupanqui, Alfredo Zitarrosa, Daniel Viglietti, Aníbal Sampayo, Jorge Cafrune, Horácio Guarany, Ramon Ayala. O repertório seduz, alimenta. É semeadura. É passado, é presente, é futuro. Os tempos em seus tempos. As cordas dos violões de Daniel e de Marcelo Fébula marcam o ritmo dos dias de hoje. Colhem, maduros, os grãos antes semeados. Esperam a nova safra. São complementares suas harmonias, são consequentes, vibram na suavidade da terra que cantam, que a voz de Daniel fecunda com identidade profunda. Fébula gravou em 2001 o álbum Danzarín  e agora trabalha mais um disco para mais adiante como Dúo Walter Aravenis & Marcelo Fébula. Entre um e  outro, Cuando la tierra.

É um disco necessário, sensível em uma época em que insistem em impor modismos que apenas confundem. Que esquecem a tradição, a cultura, o jeito de ser de uma gente que vive sem sombras e sem medo de um mercado que mais consome que pensa. Daniel e Marcelo fazem pensar com a poesia do trabalho.

Cuando la tierra é autêntico, motivo mais que suficiente para ouvi-lo. Para tê-lo em mãos. E quando a noite ocupar o espaço do sol, deixar que o tinto apazigue a alma.

Cuando la tierra, Daniel Mendoza, com Marcelo Fébula, Juan Manuel González (guitarra em Campesino e Milonga de andar lejos) e Marcelo Bruni (bandoneón em Vuelvo al sur). Argentina, Independente. 59min32s.

www.youtube.com/watch?v=1BtT76ACqLg.

www.youtube.com/watch?v=hwHJ7yliRA0