Para o Conselho de Ética da Câmara Federal

Expediente comum em regimes autoritários, cassar mandatos parlamentares ou fechar parlamentos e judiciários aos poucos perderam força no território latino-americano. No entanto, o comportamento de alguns eleitos legitimamente pelos eleitores não correspondem aos tempos em que vivemos. Não possuem compreensão suficiente de que a sociedade hoje convive com informação instantânea e o que acontece entre as quatro paredes de uma reunião pode escapar pela porta ou por uma janela. Assim, o vídeo, contendo os discursos dos deputados federais gaúchos Luis Carlos Heinze, do PP, e Alceu Moreira, do PMDB, tropeça no que que pensam através de palavras, aparentemente, encerradas entre as quatro paredes. Não sabiam que a porta e as janelas não estavam vedadas. Eles foram diretos. Objetivos. Não deixaram margem para explicações do tipo ” foi força de expressão ” ou ” são frases fora do contexto em que foram ditas “. A gravação caracteriza a gravidade do que foi afirmado. O deputado progressista – progressista? – é claro: ” Agora eu quero dizer para vocês: o mesmo governo, seu Gilberto Carvalho também é ministro da presidenta Dilma, e é ali que estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo o que não presta, ali está aninhado e eles têm a direção e o comando do governo “. Precisa mais algum comentário? Basta acessar o vídeo que circula pelas redes sociais para ouvi-lo. Por outro lado, o peemedebista não deixa por menos: ” Por que será que, de uma hora para outra, tem que marcar terra de índios e quilombolas? O chefe desta vigarice orquestrada está na ante-sala da presidência da República e o nome dele é Gilberto Carvalho, é ministro. Ele e seu Paulo Maldos (Secretário nacional de Articulação Social). Por trás desta baderna, desta vigarice, está o Cimi (Conselho Nacional Indigenista), que é uma organização cristã, que de cristã não tem nada: está a serviço da inteligência norte-americana e européia para não permitir a expansão das fronteiras agrícolas do Brasil “, entre outras afirmações. De ambos os legisladores federais, diga-se, a respeito de contratação de segurança privada para defesa das terras por parte de pequenos agricultores, ou de se fardarem de guerreiros (os agricultores), aos atentos ouvintes de suas manifestações durante evento realizado em novembro passado em Vicente Dutra no Rio Grande do Sul. A imunidade parlamentar não pode em nenhuma circunstância ultrapassar limites. Antes de ser parlamentar o deputado ou senador, não importa quem seja, ele é cidadão e como tal deve responder por seus atos. Não pode um deputado escudado pela imunidade expressar preconceito como foi feito muito menos pode também um parlamentar se referir a um ministro de estado como vigarista. Divergir é da democracia, ser oposição é da democracia. Ascender ao poder em eleições livres e diretas é da democracia. Agredir minorias, ministros ou mesmo outros colegas de legislativo é furar o bloqueio da imunidade. Não é democrático. É exercício autoritário de um bem que deve ser usado para a defesa de ideias. O mínimo que se espera é que o Conselho de Ética da Câmara os intime e, para o bem da democracia, se for o caso, que tenham os seus mandatos cassados por falta de decoro parlamentar. E que a discussão que comporta a demarcação de terras indígenas seja feita com maturidade e discernimento por todos os envolvidos, inclusive, ou principalmente, por parte do governo federal. Por questão de justiça, a direção do PP no estado repudiou as declarações de Heinze, segundo o jornal Zero Hora de 13 de fevereiro de 2014.

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Perdemos Giba Giba

Nossos encontros foram como as estações. Aconteciam em seu tempo. Sem pressa. Do jeito Giba Giba de ser. Por vezes, e tantas vezes aconteceu, esses momentos se tornaram mais raros. Eu, editor, poucas reportagens na pauta, livros à mesa, gráficas, autores, provas. A vida em cada página, dia após dia. Ele, sopapo pelo mundo. Filosofia em cada palavra, em cada batida, em cada verso, em cada ritmo. Outro Um nasceu assim, estação e fruto maduros. Tive a felicidade de estar com ele no seu lançamento e divulgação. Quase sempre, ou sempre, atrasado, uma conversa aqui, outra ali, um almoço mais demorado na Cidade Baixa, as histórias se confundindo uma com as outras. E o sorriso denunciando a alegria de ser Giba Giba. Logo depois, então repórter da Revista Porto&Vírgula, a pauta chegou ao natural: o disco do Giba. Sentados em uma das mesas do bar do Centro Municipal de Cultura, gravador ligado, faltou fita. A conversa correu solta, leve, profunda, densa, com a intensidade própria de Giba Giba. E veio o problema: meu espaço era de apenas duas páginas. E nada mais. Escrevi com o sentimento de estar faltando muito. E a surpresa tão logo a publicação circulava pela cidade. Ele me procurou e não apenas agradeceu, mas teceu tantos elogios que ainda não cabe dentro de mim o que senti. E todas as vezes em nossos encontros, a palavra dele começava com a matéria que eu havia escrito. Em silêncio, ficava feliz. Muito.

A tarde quente e absurda desses últimos dias de janeiro penetrou fevereiro com mais força. Passando pelas notícias da internet estava lá o anúncio da morte de Giba Giba. Estático, li, reli até que me convenci que era verdade. Gilberto Amaro do Nascimento decidira partir. Não sei mensurar sua perda. Ele é muito maior para que eu possa pensar em perda. Passei para o player Outro Um. E o abraço espontâneo partiu de ambos. Perdemos Giba Giba. Nossa realidade mais próxima. A de todos os dias, é a sua presença com seus tambores a nos lembrar da vida que temos que seguir. Como ele sempre fez. Com sabedoria.

Reproduzo, em sua homenagem, a matéria feita com ele em Porto&Vírgula nº11 de dezembro/janeiro de 1992/93.

Giba Giba 1

Giba Giba 2